Acabado de chegar do bazar Khan Al-Khalili, não tenho dúvidas que o chamado Cairo Islâmico é, para mim, a parte mais atraente da cidade. Em três dias, é a terceira vez que por lá passo. Exagero? Talvez. Mas eu sou mais de ruas, mercados e esplanadas do que igrejas, mesquitas e museus. Gosto de gente. De me sentar e observar. De estar. Ainda para mais quando se me dirigem em árabe em plena rua Al-Muizz il-Din Allah, a mais turística de Khan Al-Khalili. Não é essa que vos quero mostrar, naturalmente, mas sim a vida de bairro, o quotidiano indiferente ao turista. Há mercearias básicas, cafés, burros de carga que puxam carroças, pessoas que concertam quase tudo, perfumarias, bancas de rua, mais cafés. E talhos. Basta perder-se por lá. De preferência ao som dos muezins.
aaa março 2010 Archives
Primeiro dia na cidade do Cairo. Nada melhor que os cafés para fugir ao caos do trânsito, sentar-se, sentir a atmosfera e conhecer gente. E beber chá, de preferência com menta. Ou café. E fumar shisha. Ou jogar gamão. Os egípcios aparentam ser um povo hospitaleiro e sociável, e os cafés o epicentro natural dessa faceta. Entre homens, principalmente, claro está. Já deu para perceber que, nestas paragens, Portugal faz lembrar Manuel José, o treinador que orientou com sucesso a equipa de futebol do Al-Ahly. Falaram-me dele num tasco anónimo e singelo numa perpendicular à movimentada Talaat Harb, no Cairo downtown, onde entrei apenas porque sim. O café, bebida, não era propriamente gostoso, mas eu gosto de tascos e a shisha, pelo menos, era fumada com prazer.
Durante muitos anos, os meus pés foram aconchegados em todas as viagens por umas fiéis e inseparáveis companheira. Não eram especialmente atraentes, não ostentavam marca nem modelo de topo, mas serviram com eficácia o seu propósito quando as havaianas não eram a solução: proteger pés e tornozelos em caminhadas mais ou menos longas, por terrenos mais ou menos acidentados, de forma suficientemente confortável e impermeável. Pois bem, as botas que um dia fizeram a capa de um livro viram os seus dias chegar ao fim. A boa notícia é que já têm substitutas.
Vem isto a propósito do facto de que, desde que os meus pés entraram numas Boreal Atlas nunca mais de lá quiseram sair. São inacreditavelmente confortáveis no quotidiano urbano e, consta, servem na perfeição para trekkings em quase todo o tipo de terreno - excepção feita à alta montanha - em três estações do ano. O magnífico piso Vibrant Bifida ajuda na aderência, a fibra impermeabilizadora Boreal Dry-Line parece ser eficaz, os interiores almofadados zelam pelo conforto, a pele distinta dá-lhe um aspecto confiável e têm o incrível bónus de até serem... bonitas. Serão as minhas novas companheiras de viagem nestes três meses pelo Médio Oriente. Elas e uma nova Nikon D700 - mas isso é outra história que conto contar em fotografias.
Nota: A Boreal é uma marca espanhola com presença online em www.e-boreal.com.
Chegou às minhas mãos o visto para o Irão, uma das últimas etapas do planeamento da viagem overland entre o Cairo e Teerão. Sem aquela página no passaporte, com direito a fotografia e tudo (num documento que tem, ele próprio, idêntica prova de que eu sou eu mesmo), seria obrigado a solicitar a uma agência iraniana, via Internet, que me conseguisse uma autorização de emissão do visto e a enviasse para uma cidade com representação diplomática à minha escolha, como Damasco ou Trabzon, para recolha presencial nos próximos meses. Mas era algo que me faria perder tempo e, no limite, corria o risco de não conseguir entrar no Irão no tempo disponível.
Convém saber que é agora também possível adquirir um visto à chegada dos principais aeroportos internacionais do Irão. Nunca considerei essa hipóteses por dois motivos: primeiro, porque o mesmo não é verdade para quem viaja por terra (pretendo entrar no Irão por uma fronteira terrestre com a Turquia); em segundo, porque o VOA - Visa On Arrival tem a duração de apenas 15 dias.
O visto de turismo emitido pela Embaixada do Irão em Lisboa custa 60 € e, no meu caso, tem a duração de 30 dias e um prazo de validade de 3 meses (antes disso já terei entrado no Irão). É o único visto que levo para esta viagem; de todos os outros tratarei no terreno.
Uma última nota, para as mulheres viajantes: ao contrário do que era prática habitual há não muito tempo, as fotografias para o visto não necessitam de ser tiradas com véu a tapar o cabelo. "Então no passaporte está tapado?", responderam-me com boa disposição quando fiz essa pergunta por telefone. Avanços de um país em transformação.
Durante três meses, viajarei por terra numa das históricas, mais antigas e enigmáticas regiões do globo terrestre e, muito provavelmente, aquela cuja percepção ocidental mais está desfasada da realidade.
Pretendo conhecer (e dar a conhecer aos leitores da revista FUGAS e de Alma de Viajante) o Cairo das ruas e dos mercados, porventura flutuar no Mar Morto ou mergulhar por entre a vida selvagem no Mar Vermelho, percorrer a pé os trilhos montanhosos em Sinai, conviver com os beduínos de Wadi Rum e Wadi Musa e dormir nas suas "grutas", embrenhar-me na reserva ecológica de Dana - exemplo de turismo sustentável -, visitar maravilhas arqueológicas como Petra, Balbeek, Palmyra, Bosra ou Persépolis, deixar-me enfeitiçar pelo cosmopolitismo de Beirute ou a pacatez de Byblos, deleitar-me com a afamada gastronomia libanesa, entrar no coração de Damasco ou de Maalula, viver com uma família curda por alguns dias, navegar nas águas do lago Van, dar sentido a nomes como Gazientep, Mardin ou Sanliurfa, conhecer as montanhas de Tabriz e as casas trogloditas de Kandovan, perder-me na fantástica Shiraz, no calor de Yadz e na pérola arquitectónica que é a cidade de Esfahan, e regressar de alma cheia e máquina fotográfica exausta. Sempre com margem de manobra para mudar de plano, ao sabor do vento e da infinita hospitalidade árabe. De espírito aberto e sentidos despertos.
Perguntam-me porque não vou a Israel nesta viagem, e a resposta é simples: se lá entrasse, a minha viagem overland terminaria na Jordânia, porque a Síria e muitos outros países da região não aceitam passaportes com evidências de estadias em Israel.
Com notas para tirar, crónicas para escrever, fotografias para editar e tanto mundo para conhecer e desfrutar, não sei que tempo vai sobrar para escrevinhar neste espaço. Conto, ainda assim, ir partilhando coisas que não caibam no formato que semanalmente enviarei para a FUGAS, bem como algumas fotos e álbuns sonorizados, impressões pessoais ou o que mais vier a propósito a cada momento. E há ainda o Facebook, onde tenciono manter os "fãs" ao corrente.
Em suma, norte do Egipto, Jordânia, Síria, Líbano, leste da Turquia e Irão, eis o palco desta viagem de três meses pelo Médio Oriente. Com início no Cairo a 29 de Março de 2010 e término em Teerão três meses depois, "o caminho faz-se caminhando". Sintam-se convidados para me acompanharem nesta viagem!


