Para os aficionados de celebrações carnavalescas, Oruro é uma experiência incontornável, se se quiser fugir aos lugares mais batidos. Não porque as festas da cidade boliviana sejam desconhecidas ou pouco populares. Na verdade, são das mais concorridas da América Latina e as mais animadas da Bolivia, país que não é propriamente sóbrio em festanças de rua. Mas o Carnaval de Oruro tem reconhecidos pergaminhos e, como muitos outros, mergulha as suas raízes em rituais seculares que foram sendo transformados ao longo do tempo e acomodados a novos contextos sociais e culturais.
As origens do Carnaval de Oruro remontam a festividades incas, que se misturaram com rituais e aspectos introduzidos pelo Cristianismo, resultando uma complexa manifestação de carácter simultaneamente lúdico e religioso - neste capítulo, é uma manifestação marcada por sincretismo, já que o povo da região adaptou as antigas crenças da Pachamama (a Mãe-Terra) ao culto cristão da Virgem Maria. As celebrações obtiveram da Unesco, em 2001, a classificação de património imaterial da humanidade. Sobre o Carnaval de Oruro, Mario Vargas Lllosa, Nobel da Literatura em 2010, escreveu um dia o melhor elogio possível: “es el mejor del mundo”. Um carnaval dos diabos.
Ainda que mantenha - ao nível de iniciativas individuais e de coletividades - algum caráter espontâneo, a festa é atualmente integrada em programas organizados pelas autoridades locais, adquirindo contornos de acontecimento turístico. A afluência de forasteiros é significativa e por tal razão é fundamental reservar alojamento e adquirir com antecedência um lugar nas bancadas para assistir aos desfiles.
Oruro é considerada a capital boliviana do folclore por fundamentadas razões, já que nas festas locais - carnaval incluído - se manifestam as riquíssimas e variadas expressões culturais das comunidades da região. É o que acontece no Carnaval, em que se pode assistir a uma vintena de danças diferentes durante os extensos desfiles, que duram vários dias, assim como a representações teatrais de caráter religioso. A variedade das danças reflete, tal como na festa de Chutillos, em Potosí, a forte multiculturalidade das gentes bolivianas, uma vez que algumas são oriundas de outras zonas do país. As “caporales” e o “tinku” são bastante populares, mas a grande estrela é a “diablada”, que evoca a luta entre o bem e o mal, com os dançarinos vestidos “canonicamente”, ocultos por grandes máscaras de timbre luciferino.
Para lá chegar há duas opções principiais. Uma é através de um voo para La Paz. Da capital boliviana toma-se um autocarro que demora umas quatro ou cinco horas até Oruro. Outra hipótese é entrar na Bolívia via Brasil, através da fronteira do Pantanal, em Corumbá. Há ligação ferroviária para Santa Cruz de la Sierra, e a partir daí há autocarros que fazem a subida do Altiplano até Oruro, via Cochabamba.

Humberto Lopes tem um fascínio por África e pela América Latina. É um viajante especialmente atento à cultura dos povos e à História da Humanidade.

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