Diários de viagem Eurásia

Eurásia, viagem de bicicleta até Macau

O mundo, na sua imensidão é, ele próprio, uma estrada sem fim que ansiamos percorrer. Nesta viagem de bicicleta, queremos conhecer mais gente, mais estradas de terra batida, montar a tenda em sítios imensamente belos, chegar encharcados a lado algum, comer do que nos oferecem, sorrir mais vezes a quem não conhecemos, partir quando nos apetecer, rir às gargalhadas, parar as bicicletas no topo de uma montanha gelada, chegar a locais inóspitos, sonhar mais alto.

Com partida de Ovar (Portugal) a 26 de setembro de 2010, pedalamos rumo a Macau (China) durante pelo menos dezoito meses, numa viagem de bicicleta com passagem pela Europa, Médio Oriente e Ásia Central.

EURÁSIA - EUROPA

Eurásia: Na estrada para Oriente

01. Na estrada para Oriente

Os dias são longos, na estrada. Fazer as malas e pedalar. Pedalar até ao anoitecer. Às vezes é difícil passar o tempo, mas a distância só pode ser percorrida pedalando. É precisamente isso que estamos prestes a fazer, rumo a Macau.

Eurásia: Chegar primeiro

02. Chegar primeiro

Na aldeia de Freixiosa, em Mangualde, o petiz era todo ele competição. Como seria possível uma corrida com apenas dois ciclistas? Assim ganharíamos a corrida, com toda a certeza.

Eurásia: Quatro olhares sobre Salamanca

03. Quatro olhares sobre Salamanca

Salamanca é uma bela cidade da comunidade autónoma de Castela e Leão, dominada pela imponência e espiritual da Catedral. Estes são quatro, entre muitos possíveis, olhares sobre os prazeres da urbe.

Eurásia: De Espanha, nem bons ventos...

04. De Espanha, nem bons ventos...

O vento é um grande inimigo dos ciclistas, e isso notou-se - e de que maneira - nesta passagem, em território espanhol, desde logo no caminho que liga Saragoça a Madrid e, posteriormente, rumo a Tudela, onde pudemos finalmente descansar.

Eurásia: Um olhar sobre Las Bardenas Reales

05. Um olhar sobre Las Bardenas Reales

Fazer o percurso que nos leva até uma das entradas do Parque Natural Las Bardenas Reales é ter a sensação, pouco a pouco, que estamos a entrar num mundo completamente à parte, que estamos a entrar num deserto, ali mesmo, na Península Ibérica.

Eurásia: Subindo (e descendo) os Pirenéus

06. Subindo (e descendo) os Pirenéus

Atravessando os Pirenéus de bicicleta a partir de Pamplona, descobrimos que nem sempre subir montanhas é pior do que descê-las. Atravessámos a fronteira rumo a França, cruzámo-nos com peregrinos nos caminhos de Santiago, parámos em localidades belíssimas como Saint-Jean-Pied-de-Port, e o objetivo Toulouse está cada vez mais próximo. Bon camiño.

Eurásia: Pedalar de Toulouse a Lyon... rumo ao Cairo

07. Pedalar de Toulouse a Lyon... rumo ao Cairo

Com frio e neve quanto baste, o inverno não é seguramente a altura mais simpática para viajar de bicicleta na Europa. Talvez por isso, ao chegar a Saint-Etienne, depois de passarem por Toulouse, Albi (que surpresa!), Rodez e Le-Puy-en-Velay, os viajantes-ciclistas tomaram a decisão de mudar de rota: em breve voarão para o Cairo.

Eurásia: Debaixo de neve, na Suíça

08. Debaixo de neve, na Suíça

Terminámos a passagem pela França visitando a magnífica cidade de Aneccy, antes de rumarmos a terras helvéticas, onde os nevões se tornaram uma constante e as dificuldades de viajar de bicicleta em pleno inverno vieram ao de cima, nas passagens por Genebra e Lausanne, Fribourg e Berna. E a falta de calor humano dos suíços pouco ajuda duas almas latinas a tiritar de frio.

EURÁSIA - ÁFRICA

Eurásia: Welcome To Cairo, my friend

09. Welcome To Cairo, my friend

Deslizámos naqueles que foram, para nós, os últimos dias de neve intensa na Europa. Embalámos as bicicletas e, de passaportes na mão, olhámos uma última vez para o frio de Munique. Horas depois, aterrávamos no Cairo. O frio deu lugar ao calor, a organização ao caos, as caras sérias a caras sorridentes. Welcome to Cairo, my friend. A aventura «fora de casa» tinha começado.

Eurásia: Luxor? Sinai? Não, Alexandria...

10. Luxor? Sinai? Não, Alexandria...

A ideia era seguir para Luxor, no sul do Egito, mas uma estrada errada e perigosa levou os viajantes a decidirem voltar ao Cairo e seguir diretamente para a península do Sinai. Até que chegaram a uma bifurcação e viram uma placa indicando Suez e outra Alexandria. "Queres ir já embora?" Não. E assim foi.

Eurásia: Do Canal do Suez à paz do Mar Vermelho

11. Do Canal do Suez à paz do Mar Vermelho

Foram dias a pedalar com o vento empurrando-nos pelas costas, montanhas de uma beleza incomparável e um silêncio raro de se ouvir. A beleza do Mosteiro de Santa Catarina e a subida ao Gebel Musa complementariam um final feliz em terras egípcias. Do calor em volta duma fogueira numa tenda beduína ao calor da costa do Mar Vermelho, com a Jordânia à nossa frente e a Kings Highway na cabeça.

EURÁSIA - MÉDIO ORIENTE

Eurásia: Jordânia - país feito de desertos e montanhas

12. Jordânia - país feito de desertos e montanhas

Deixámos o Egito antes de todos os confrontos e entrámos na Jordânia, mais desenvolvida. Aos primeiros quilómetros, apercebemo-nos que dias muito duros chegariam, mas é entre o deserto de Wadi Rum e as ruínas de Petra que encontramos os beduínos, tribos com uma cultura riquíssima, uma hospitalidade sem limites e uma vontade enorme de partilhar um chá à volta de uma conversa na fogueira.

Eurásia: Welcome to Syria... ou não

13. Welcome to Syria... ou não

O ponto mais baixo à face da terra é só mesmo isso, o ponto mais baixo. A capital é só mesmo isso, a capital. Os últimos dias na Jordânia, não fosse a fantástica hospitalidade dos locais, seriam desinteressantes. Do outro lado, um país a descobrir. As expectativas eram altas. Relatos de amigos diziam-nos maravilhas da Síria. Mas logo nos apercebemo que, para serem simpáticos, seria preciso pagar. Welcome to Syria!

Eurásia: Encalhados no silêncio

14. Encalhados no silêncio

Dos sítios Património Mundial da Humanidade de Bosra e Palmyra, aos desencontros na cidade mais antiga do mundo, até ao silêncio encalhado entre o deserto e a montanha no Mosteiro de Mar Musa, a nossa viagem pedala lentamente, ao sabor da nossa vontade. Porém, um dia, temos de partir em direcção ao norte.

Eurásia: Da fé de Mar Musa ao inferno de Lattakia

15. Da fé de Mar Musa ao inferno de Lattakia

Sair de Mar Musa e comovermo-nos com a fé, tentar estender os vistos a toda a velocidade e sermos surpreendidos com a ausência de problemas, conhecer um francês caloroso, uma família hospitaleira e uma costa do Mediterrâneo fechada às pessoas, com grades de ferro - assim foram os nossos últimos dias na Síria. A Turquia estava agora muito perto.

Eurásia: txt

16. Welcome to Turkey - but not yet!

Da fronteira entre a Síria e a Turquia levamos o desespero no não-diálogo com as autoridades, as tentativas de arranjar um sítio para dormir sem que ninguém nos entendesse, e a simpatia turca sempre acompanhada por um copo de chá.

Eurásia: Enquanto as bicicletas descansam

17. Enquanto as bicicletas descansam

De Antakya a Trabzon, de Trabzon a Ankara, entre os bancos dos autocarros e os polegares esticados em busca de uma boleia, a dança dos vistos começou e estas duas semanas tornaram-se num rodopio pelas embaixadas, pela burocracia dos países da antiga URSS e pelo stress duma enorme capital.

Eurásia: Uma surpresa chamada Curdistão

18. Uma surpresa chamada Curdistão

Depois de resolvido o problema com as peças das bicicletas roubadas, explorámos o Curdistão turco - para onde nos tinham aconselhado a não viajar -, descobrindo um povo hospitaleiro como poucos e urbes deslumbrantes, de Sanliurfa a Mardin, passando por Kilis. Até que chegámos à desinteressante Cizre, porta de entrada para o outro lado da fronteira, onde se lê: Iraque. Mas isso é outra história.

Eurásia: Pedalando na Hamilton Road

19. Pedalando na Hamilton Road

O verde, as montanhas e a simpatia do Curdistão Iraquiano, deu lugar à hospitalidade, à generosidade e à genuinidade do povo iraniano, de uma forma tão autêntica que até me fez, por várias vezes, trincar os lábios, para que não me desfizesse ali mesmo, em cima da bicicleta, em lágrimas. Nunca antes nesta viagem havíamos sido tantas vezes surpreendidos em tão pouco tempo, como o fomos nestes dois países.

Eurásia: O Irão que não passa na TV

20. O Irão que não passa na TV

Da ideia de que todos são anti-ocidentais e que são a origem do terrorismo, damos por nós a pedalar por um país onde nos sentimos tão seguros como em nenhum outro lugar. Damos por nós a partilhar uma refeição enquanto discutimos política e religião. Damos por nós pasmados pelo desenvolvimento, pela cultura, pela arquitetura. Damos por nós, enfim, a conhecer um país que se revela o oposto de tudo o que imaginávamos.

EURÁSIA - ÁSIA

Eurásia: À descoberta da Ásia Central

21. À descoberta da Ásia Central

Do calor desesperante do Turquemenistão, com rectas de noventa quilómetros, cansaço e falta de água, ao calor abrasador do Usbequistão, com cidades de uma beleza indescritível, uma cultura riquíssima e preços de turista, o início da Ásia Central mostra-se diferente, muito diferente dos locais por onde passámos até então.

Eurásia: Da paz ao desespero

22. Da paz ao desespero

A capital do Tajiquistão mostrou-se um lugar sem interesse. Com a mente focada na Pamir Highway, e a partir do momento em que começámos a pedalar com o Afeganistão ao nosso lado, a adrenalina acompanha-nos em cada quilómetro. A paisagem é belíssima, as pequenas aldeias afegãs pitorescas, a estrada em péssimo estado sem qualquer segurança e com o rio, ao lado, uns 300 metros abaixo, arrepiante.

Eurásia: Pamir Highway: No topo das montanhas

23. Pamir Highway: No topo das montanhas

Por montanhas que já viram passar Marco Polo, as bicicletas continuam a rodar contra o frio, as subidas e até a neve. São picos nevados a toda a volta, é o deserto no topo do planalto, é a China mesmo ali ao lado que lhes lembra que estão cada vez mais perto. Conta-se que partiram cautelosos, e que estão cada vez mais perto do fim. Relato das pedaladas ao longo da mítica Pamir Highway.

Eurásia: Recarregar baterias no Quirguistão

24. Recarregar baterias no Quirguistão

Após as imensas dificuldades passadas na travessia da Pamir Highway, o Tajiquistão ofereceu-nos dias de prazer e contemplação, literalmente no meio de nada. Depois de um último e doloroso esforço, acabámos por entrar no verdejante Quirguistão, onde desfrutamos da natureza exuberante, da pacatez de uma pequena vila e, até, dos prazeres urbanos da cidade de Osh. Com a China cada vez mais perto.

Eurásia: China: Cultura copy/paste

25. China: Cultura copy/paste

Pasmámos num país onde a comunicação não é fácil. Tudo novo para nós: sabores, cores, luzes espalhafatosas, obras desproporcionais, tecnologia de ponta. Pasmámos num país que é grande, mas que quer ser muito maior, mas onde as pessoas ainda não estão preparadas para isso. Falta tempo para elas, falta espaço, falta sensibilidade. Tudo virá, um dia, no país do sol nascente.

Eurásia: Surpresa no Paquistão

26. Surpresa no Paquistão

O país centro das notícias de terrorismo mostrou-se um dos mais fáceis e bonitos por onde viajámos. O norte montanhoso foi, no entanto, a cereja em cima do bolo. As três maiores cadeias montanhosas do mundo juntam-se ali, na Karakorum Highway, e só isso basta para imaginar a beleza de tudo o que nos rodeia. A juntar a isto, o facto das pessoas serem de uma simpatia indescritível. O Paquistão é, sem qualquer dúvida, um destino com futuro. Um futuro que talvez não esteja nas mãos do país.

Eurásia: A Índia é...

27. A Índia é...

A Índia é um misto de tudo e mais alguma coisa. A Índia é um cliché feito de raridades. É um espaço sem fim. Uma quantidade imensa de tudo. Uma sequência de coisas inexplicáveis. Uma regra sem qualquer espécie de regras. A Índia é um espaço aberto à paixão. A Índia é a Índia!

Eurásia: Fomos para sul, rumo a Goa

28. Fomos para sul, rumo a Goa

O barulho das buzinas deu lugar ao silêncio de Goa. Entre palmeiras, água e memórias dum outro Portugal, para lá viajámos em busca de sol, praia, história e um grupo de amigos muito especial. Foi bom voltar a dar abraços a quem conhecemos, voltar a falar a mesma língua, recordar aventuras, falar do futuro. Dias passados com portugueses, no Portugal que Goa ainda é.

Hapa Jat Express

29. Hapa Jat Express

Foram longas horas percorridas, durante longos dias, nesta longa e longínqua Índia. Um despertar dos sentidos. Um teste à nossa sanidade mental. Uma revolta a transformar-se em luta. Um não aceitar da vida que lhes é natural. Foram longos dias, observando, tirando conclusões, vagueando na mistura infernal de buzinas. Estamos agora de regresso às nossas bicicletas. Segundo round! Tlim!

Da capital à cidade do amor

30. Da capital à cidade do amor

Quando reparámos, tínhamos já contado três semanas em Deli. Talvez fosse tempo de partir. Deixámos para trás um adeus bem português e pedalámos, doridos e com a paciência a fugir-nos a cada quilómetro, para Agra, a cidade onde um homem, um dia, eternizou para sempre o seu amor da forma mais extravagante - porém, mais bela.

Duas semanas de História

31. Duas semanas de História

Partindo de Agra, pedalámos por estradas secundárias descobrindo uma Índia que pensámos inexistente: uma Índia calma. Chegámos e partimos de cidades onde a história está bem marcada, onde as nossas expectativas foram ultrapassadas, onde descobrimos locais bem pequeninos aos quais nos rendemos. Nestas duas semanas, o melhor do continente indiano rolou debaixo dos nossos pneus. Uma delícia!

A Índia é para virgens

32. A Índia é para virgens

Depois de quatro meses deambulando pelo continente indiano, deambulámos, também nós, numa crónica que receámos escrever mas que não podíamos deixar para trás, como um desabafo, uma necessidade de deixar presente, um capricho nosso. Como no caso do papel higiénico, há sempre que expor as nossas opiniões.

Benvindo à Terra dos Sorrisos

33. Benvindo à Terra dos Sorrisos

Sentámo-nos no avião com a Tailândia nos pés! Só o simples facto de deixarmos o continente indiano, dava outra energia à nossa viagem. À frente, tínhamos um país conhecido pela sua simpatia, pelas suas praias e um dos destinos mais procurados pelos cicloturistas. Tínhamos também pela frente uma Banguecoque que não pára e um calor e humidade infernais. Os primeiros quarenta quilómetros foram de loucos, mas quem pedala por gosto...

E assim foi, na Tailândia

34. E assim foi, na Tailândia

Dos encontros em praias paradisíacas com amigos que há muito não víamos, às pedaladas por entre o caos organizado de Banguecoque, partimos à descoberta de Portugal em Ayutthaya, onde chegámos há 500 anos atrás. Percorremos estradas secundárias em busca de templos khmer e deliciámo-nos, mais uma vez, com os sorrisos e a simpatia do povo tailandês.

Triste história ou história triste?

35. Triste história ou história triste?

Na estrada que nos levou aos templos de Angkor foi-nos revelado um Camboja desconhecido. Um país com a cor do massacre humano consegue provar-nos que sorrir está ao acesso de todos, até daqueles de quem a vida sempre lhes fugiu. Um terreno negro, devastado por incêndios recentes e corrupção antiga. O país com vontade de ser um país!

Como complicar o simples ou a estrada até Phnom Penh

36. Como complicar o simples ou a estrada até Phnom Penh

Estamos na estrada há mais de 17 meses, mas há coisas que nunca aprendemos. Uma coisa sabemos no entanto, certo ou errado, o que interessa é ir com confiança. A estrada até à capital do Camboja seria mais simples de fazer, se não a complicássemos tanto. Mas os mapas fazem-nos sempre sonhar.

No Mekong, sujos, cansados e felizes

37. No Mekong, sujos, cansados e felizes

O Mekong revelou-se-nos, ainda, autêntico. Pequenas aldeias ancoradas nas suas margens despem-se de preconceitos e mostram-nos o que é viver-se livre. A beleza das pessoas, a sua simplicidade, simpatia e naturalidade fizeram deste trajeto um dos mais bonitos desta odisseia. Simplesmente, Mekong!

No Laos, nacional 13 acima

38. No Laos, N13 acima

A estrada prima pela falta de interesse, mas é a única alternativa às montanhas a este. Com um mês de visto, temos que escolher o que ver, por onde pedalar, que caminhos cortar. Entre cascatas, rios subterrâneos e campos de café, pedalámos até à Planície dos Jarros e depois numa carrinha atabalhoada até Luang Prabang. O Laos estranha-se, depois entranha-se!

VietnaMITRAS

39. VietnaMITRAS*

Num país onde passámos apenas três semanas, tivemos dias em que nos imaginámos a viajar ali para sempre e dias em que os locais, alterados já pelos dólares, nos deixaram de tal maneira fora de nós que nos apetecia partir para a violência. O fim da viagem e o regresso a casa fazem-nos perceber que já chega, que é tempo de voltar... pela nossa sanidade mental.