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TREKKINGS E CAMINHADAS » PORTUGAL » GEIRA ROMANACaminhada pela Geira Romana
GERÊS ROMANO
Na Mata de Albergaria, área de reserva integral do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), os carvalhos retorcidos pelo peso do tempo não morrem de inveja de umas pedras feitas caminho que, à sua sombra, são pisadas por todo o tipo de gente há quase dois mil anos. Os 318 quilómetros da Via Nova, que ligavam as imperiais cidades de Bracara Augusta e Asturica Augusta, foram praticamente destruídos, mas a vetusta estrada romana ainda exibe por estas paragens um dos seus troços mais bem preservados. Sem a pressão do Homem, neste lugar que a civilização evitou, a Natureza mostra-se também ela vestígio histórico, ainda vivo, do que seriam outrora as paisagens dominantes no país, numa conjugação com o património arqueológico que o torna num sítio imperdível para quem, gostando de andar a pé, goste também de ir ao encontro da história. A VIA NOVA NA MATA DA ALBERGARIAAo contrário de Ana Isabel Mineiro, que nos aconselha uma visita ao Parque Nacional da Peneda-Gerês quando a Primavera convida a Natureza a assumir-se verde, os meus olhos pedem Gerês - e Mata da Albergaria, principalmente - quando o Inverno se aproxima. Visualmente, partilho com Torga uma certa aversão pela monotonia do verde que ele via no Minho, e nestas alturas, pelo incómodo da roupa engrossada para combater o frio, a paisagem compensa-me assumindo rubores que, mais do que um prenúncio da letargia que se aproxima, parecem sorrisos envergonhados de quem se apresenta assim, semi-despida, perante o desconhecido que se aproxima.
Depois, ele há dias de sorte, como esse, há uns anos, em que iniciei o cão que um mês antes recolhera nas ruas, Lucky, nisto das caminhadas, com um longo mas fácil passeio pela Geira Romana na Mata da Albergaria. Outubro estava a acabar, mas São Martinho antecipara o seu Verão de uma forma tão rara que, só à sombra, e nos regatos da berma, encontrávamos abrigo para aqueles inusitados 30 graus. GEIRA, PORQUÊ?Quem anda a pé, ou a cavalo está sujeito aos elementos. E terá sido também por isso que os engenheiros romanos, perante o desnível das montanhas que tinham de vencer neste troços serranos da segunda ligação entre Bracara e Astorga - a primeira, a Via XVII, passava por Aqua Flaviae, num trajecto algo semelhante à nossa EN103, em muitos troços - desenharam a Via Nova, ou XVIII, num traçado sinuoso, cheios de curvas e contracurvas. É por isso que o povo lhe chama a Geira. OK: anda-se mais, mas com menos esforço, e os pés de um caminhante com óbvia falta de ritmo, como eu, só têm a agradecer-lhes. O trilho fácil cede-nos o corpo para atendermos ao que é realmente importante: a Mata de Albergaria é um lugar mágico, capaz de nos fazer esquecer que o século XXI segue frenético, sabe-se lá para onde. Este é um lugar onde se pode fazer pause - e rewind - e, talvez por isso, aprendi entretanto a visitá-lo de tempos a tempos, para lhe sentir a mudança das cores, as brincadeiras do sol entre o imenso carvalhal que se atira encosta abaixo até ao rio Homem, e para apreciar, a norte, a altivez da Serra Amarela, imponente mesmo quando se curva para se deixar desenhar nas águas paradas da Albufeira de Vilarinho das Furnas. PROPOSTA DE CAMINHADADos mais de trinta quilómetros de Via Nova que atravessam Terras de Bouro, os 8300 metros de extensão (16,6 quilómetros, ida e volta) do troço entre a milha XXVIII, em Campo do Gerês, e a milha XXXIV, na fronteira da Portela do Homem, são, claramente, os meus favoritos. E agora que a Câmara de Terras de Bouro se prepara para concluir, em Dezembro, uma nova ponte sobre o Rio Homem, que substitui a velhinha travessia romana de que ainda restam vestígios nas margens, o desafio torna-se ainda mais fácil de suplantar.
Partindo da bifurcação entre a estrada que segue para a Barragem de Vilarinho das Furnas e o estradão de terra batida que liga à estrada para a Portela do Homem, encontramo-nos a meio da milha XVIII. O trilho da Geira [ver mapa turístico da Geira Romana, em PDF] segue à esquerda desta estrada mais recente, a uma cota mais próxima do nível máximo da albufeira, e por aí se pode ir descendo, até onde a água nos deixar. No chão, são visíveis os vestígios da calçada, e os sulcos deixados pelo peso dos rodados ao longo de séculos. A seguir a uma curva acentuada, surge-nos um conjunto de enormes pedras trabalhadas colocadas na margem da via sob a sombra das árvores. Esta é uma primeira amostra de uma das características mais soberbas da Via Nova: só no troço entre a milha XII e a milha XXXIX, em Lobios, foram encontrados mais de duzentos marcos miliários, enormes pedregulhos de granito que nos indicam a distância ao destino, com um extra: quase todos foram epigrafados com dedicatórias a imperadores de Roma. RIQUEZA ARQUEOLÓGICA NA GEIRA ROMANANos últimos meses, mais dois miliários foram desenterrados pelas equipas de arqueólogos que trabalham no projecto de Valorização da Geira . Não há exemplo de tal profusão de homenagens deste género nas outras vias do Império que sobreviveram a estes dois mil anos, o que torna ainda mais apelativo este caminho que, a partir da milha XXXIX, se faz, normalmente, e por força da cota da albufeira, no estradão mais acima. Só em épocas de estio prolongado é possível que o espelho de água baixe o suficiente para nos mostrar o que resta de uma mutatio, ou estação de muda, que com as mansiones (estalagens) e as stationes (postos de controlo), conformavam esta via e garantiam o cursus publicus, o serviço de correio, o apoio a pessoal administrativo e ao simples viajante que demoraria vários dias a percorrer a distância que separava as augustas cidades fundadas pouco antes da Era a que chamamos cristã. VIA NOVA, O IMPÉRIO DOS CARVALHOS
A Via Nova era assim uma demonstração de poderio talhada na rocha. Era. Hoje, quem domina são os carvalhos gigantes, verdes e centenários, que aqui e ali se deixam fotografar ao lado de discretas faias, essas que aguardam pelo Outono para se exibirem em todas as declinações de vermelho. São eles os principais protagonistas desta paisagem, na qual se abrigam um séquito de árvores, arbustos e animais já expulsos de outras zonas de Portugal. O seu reino assoma-se-nos vigoroso, quase asfixiante a partir da milha XXXII, já em plena Mata de Albergaria. Mas o troço mais belo, já afastado da estrada, é mesmo o dos mil passos seguintes. Entre a ponte da Ribeira de Monção e o que resta da velha ponte de São Miguel sobre o Rio Homem, só as casas do parque abandonadas em frente a mais um grupo de miliários nos dizem algo de um tempo recente. Um cemitério de construções de épocas distintas, apenas perturbado pela insinuação ruidosa de uma cascata que surge uns metros mais à frente, num curto desvio de rota, salpicando de névoa o granito que escavou, também ela, há milhares de anos. A água convida a banhos, mesmo fria. Agora que passamos, finalmente, a não depender dos humores do rio Homem, umas dezenas de metros à frente, a nova ponte de São Miguel deixa-nos num caminho, sempre a subir, que nos leva até à Portela do Homem, onde vai nascer, no antigo posto fronteiriço, a Galeria dos Miliários. Quem ainda tiver pernas, pode avançar uns quilómetros Espanha adentro, para reencontrar de novo a Via Nova numa curva da estrada que segue para Lobios. Há até um troço reconstituído, para nos dar uma ideia de como seria a estrada original que, nestas paragens, tinha os já então uns famosos banhos quentes como ponto de paragem para o viandante que seguisse rumo a nordeste nestas verdadeiras auto-estradas que cosiam um Império que, como todos, teve o seu tempo.
GERÊS: PONTE DE S MIGUEL, NA GEIRA, PRESTES A ABRIRÉ uma notícia muito esperada por quem gosta de caminhar pela mata de Albergaria e pelo Trilho da Geira Romana, no Parque Nacional da Peneda-Gerês. A Câmara de Terras de Bouro está a construir a ponte de S. Miguel, junto da fronteira a Portela do Homem, e anuncia no seu sítio da internet que a obra deve estar concluída em Dezembro de 2008.
Segundo a autarquia, uma nova ponte está a ser implantada junto aos vestígios da travessia “destruída, no século XVII, logo a seguir à reconquista da independência de Portugal”, após o domínio filipino. “Aquela infra-estrutura já fazia parte do traçado da Geira (Via XVIII do Itinerário de Antonino), possibilitando ultrapassar o último grande obstáculo da serra do Gerês em direcção a Astorga (Asturica Augusta), continuando, durante séculos a ser corredor militar, caminho de Santiago, linha de transacções económicas e de passagem para o interior da Espanha”, assinala a edilidade. Tendo em conta o valor patrimonial e ambiental que envolve este troço da Geira, a construção da ponte de S. Miguel requereu, segundo a autarquia, especiais cuidados, o que a levou a privilegiar materiais pré-fabricados, à base de madeira, de modo a dar à obra um aspecto de leveza enquadrável com os elementos naturais que a rodeiam. A expectativa da autarquia, líder de um projecto transfronteiriço de valorização da Via Nova, é que, concluída esta obra e a Galeria dos Marcos Miliários, no antigo edifício da fronteira da Portela do Homem, a visita à Geira e àquele recanto da serra do Gerês ganhe especial interesse em termos culturais e turísticos.
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