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Rota do altiplano boliviano

TextoFotosHumberto Lopes29/11/2010

Mosaico de paisagens e de culturas, a Bolívia é um dos países mais belos da América do Sul e o altiplano talvez a sua faceta mais conhecida. Com a ressalva de que muitas viagens seriam necessárias para uma perceção mais íntima de tamanha variedade, eis aqui um roteiro de viagem por quatro cidades habitantes do planalto central andino: Cochabamba, Oruro, Potosí e Sucre.

Sob os céus do Altiplano

Da fronteira peruana nas margens do Lago Titicaca ao vulcão Licancabur, vizinho de São Pedro de Atacama, no Chile, do Parque Sajama, com os seus três vulcões nevados, à floresta amazónica do Beni, dos picos da Cordilheira Real às estradas enlameadas de Trinidad, ou do éden tropical de Los Yungas à gélida beleza lunar do Salar de Uyuni, o maior lago salgado do planeta, uma das impressões mais fortes de viagem advém da extraordinária diversidade cultural e paisagística da Bolívia.

Cochabamba

Cochabamba

Se pensarmos na dimensão do país, dir-se-ia inevitável tal diversidade. Mas os contrastes são ainda maiores do que se possa imaginar. O país ocupa uma área correspondente a Espanha e França juntas e está dividido geograficamente em duas zonas distintas, o Altiplano e as terras baixas, ocupadas por savana e florestas tropicais, uma região conhecida por Oriente Boliviano. Tanto em termos culturais como climáticos, é, obviamente, uma região radicalmente diferente do planalto andino.

O ponto de partida deste roteiro é uma cidade localizada numa região de transição entre esses dois territórios. O clima é temperado, isento dos rigores de um e outro. Por essa razão, Cochabamba, situada a 2.570 metros de altitude, é conhecida na Bolívia como a “cidade da eterna primavera”. A produtividade agrícola é outra característica emblemática de uma região que produz grande quantidade de cereais, fruta e legumes, e não só. Uma parte das plantações de coca bolivianas está localizada exatamente nesta área.

Fundada no século XVI pelo espanhol Sebastian de Padilla, e batizada então como Villa de Oropesa, a cidade oferece a possibilidade de um roteiro centrado em testemunhos da arquitetura colonial espanhola, tal como Sucre e Potosí, os destinos seguintes desta deriva pelo altiplano boliviano.

A Praça 14 de Setembro, centro nevrálgico de uma cidade que tem atualmente meio milhão de habitantes mas que conserva uma descontração provinciana, é pródiga em exemplos de arquitetura colonial, desde a catedral neoclássica aos edifícios de arcadas que rodeiam o largo. No domínio do património arquitetónico religioso, há que não perder, sobretudo, o Convento de Santa Teresa e a Igreja da Companhia.

Outra visita reputada como indispensável na cidade é a do Palácio de Portales. Trata-se de uma sumptuosa mansão construída em 1927 pelo magnata do estanho Simón Patiño, que nunca chegou a habitá-la. O palácio foi edificado em estilo renascentista francês e Versalhes constituiu a referência para o desenho dos jardins. O interior é da casa é um desfile feérico de mobiliário Luís XV, mármores de Carrara, quadros de Velasquez e uma reprodução do teto da Capela Sistina. O palácio funciona atualmente como centro cultural e possui galeria de arte e uma biblioteca aberta ao público.

A bela cidade de Potosí

A bela cidade de Potosí

Em matéria de espaços museológicos, o Museu Arqueológico é o mais importante da cidade, com uma ampla coleção de testemunhos das civilizações pre-hispânicas, incluindo um acervo de peças têxteis pré-incas.

Nas imediações de Cochabamba, a treze quilómetros de distância, está localizado um dos mais famosos santuários bolivianos, centro da segunda maior peregrinação religiosa do país. É numa pequena povoação de vinte mil habitantes, Quillacollo, que a Virgem de Urkupiña recebe todos os anos, no Verão, milhares e milhares de peregrinos. À volta do santuário tem lugar todos os domingos uma colorida feira onde se merca um pouco de tudo, desde roupa até fruta e legumes ou artigos religiosos.

De Cochabamba para Quillacollo há transporte permanente, pequenos autocarros - os micros -, coloridas e pitorescas carruagens decoradas ao gosto pessoal do condutor. Seria esta outra encantadora excursão possível em Cochabamba, derivar pela cidade no interior dessas simpáticas carripanas onde se viaja em ambiente bem familiar.

Três vulcões num só Parque

O passo seguinte é rumar a Oruro. A viagem dura cerca de cinco horas e é o primeiro contacto com a rugosa superfície dos Andes. A estrada serpenteia entre vales fundos onde se abrigam riachos enregelados, um céu azulíssimo cobre todo o horizonte e ao longe começam a surgir os topos nevados da Cordilheira Ocidental. Perto de Oruro será já mais visível o majestoso cume do Sajama, o vulcão que dá nome a um parque natural e que é o pico mais elevado da Bolívia, com cerca de 6.500 metros de altitude.

A cidade é sobejamente conhecida pelo seu Carnaval, o segundo mais famoso da América do Sul. Durante uma semana as ruas enchem-se de grupos de dançarinos mascarados que chegam de toda a província, e também de outras paragens do país, para participarem numa gigantesca «Entrada», um desfile que dura horas e horas de frenéticas danças. A mais importante é a «Diabalada», cujas máscaras fantasmagóricas se transformaram num dos ex-líbris da cidade. No sábado de Carnaval, cerca de meia centena de grupos começam a desfilar às sete da manhã, formando um longo cortejo com cerca de cinco quilómetros.

A cidade de Oruro

A cidade de Oruro

Noutras épocas do ano Oruro está, naturalmente, mais calma. Localizada em pleno Altiplano, a quase 4.000 metros de altitude, numa região despojada, a principal riqueza são as minas de estanho (o cobre, o sal, o bismuto, o antimónio e o sal são explorados também em algumas áreas da província).

O turismo começa também a ser uma importante fonte de rendimento, e não apenas durante a época do carnaval, quando os hotéis se enchem de forasteiros. A região possui um potencial notável de recursos como o Salar de Coipasa ou o Parque Nacional Sajama, que conta com várias pistas de trekking e três vulcões acessíveis à escalada. Tanto em Oruro, no posto de turismo, como na aldeia de Sajama, é possível contactar guias experimentados para as incursões ao Sajama.

Perto do santuário da Vírgen del Socavón, o Cerro Corazón de Jesus oferece uma boa perspetiva da cidade. Pode-se caminhar ao longo da rua Mier, que sobe ligeiramente até ao templo. Nestas andanças por Oruro há que ter atenção que estamos à beira dos quatro mil metros de altitude. É indispensável permanecer em repouso nas primeiras horas, de preferência durante um dia antes de se iniciarem as visitas na cidade. É sério o risco de edemas pulmonares ou cerebrais. Tomar regularmente mate de coca ajuda a combater o “soroche”, nome local para o mal-estar provocado pela elevada altitude. [ver O abominável “mal das montanhas”]

Por causa da rarefação do oxigénio, convém caminhar devagar, evitando esforços, medida que o viajante não tardará a descobrir como essencial quando a respiração se tornar subitamente difícil. O vento gélido é outro inimigo a ter em conta. Roupas tão quentes quanto possível devem fazer parte da bagagem do viajante prevenido.

O santuário da Vírgen del Sacavón não tem grande interesse, mas o mesmo não se pode dizer das igrejas de San Miguel e de San Francisco, bons exemplos de arquitetura colonial. No capítulo museológico, há dois espaços fundamentais, o Museu Etnográfico Mineiro e o Museu Antropológico Eduardo Rivas. Este último tem uma das mais interessantes coleções do género em toda a Bolívia: múmias pre-hispânicas e artefactos de povos que mantêm ainda hoje poucos contactos com a cultura urbana, como os Uru, Wankarani e os Chipaya. E, obviamente, uma grande coleção de máscaras de carnaval.

A memória negra da prata, em Potosí

As duas cidades que se seguem neste roteiro estão unidas (apenas três horas de viagem) por uma das poucas estradas asfaltadas da Bolívia, mas separadas pelas atmosferas dominantes em cada uma delas.

Minas de Cerro Rico, em Potosí

Minas de Cerro Rico, em Potosí

Potosí é uma povoação que ainda guarda memória de ter sido uma cidade imperial (por nomeação real de Carlos V), onde se chegou a cunhar moeda para vários países europeus. A Casa de la Moneda, que conserva muita maquinaria de várias épocas utilizada no processo, é um dos espaços principais onde essa memória se pode reativar, ainda que no centro da cidade, pleno de edifícios coloniais, subsista também uma certa atmosfera desses tempos.

O outro é o Cerro Rico, a montanha onde os Espanhóis confiscaram às entranhas da terra enormes quantidades de prata convertida em altares cristãos, moedas e, rezam algumas crónicas, desbaratada na chamada “Armada Invencível”. O preço desta exploração foram milhões de vidas humanas perdidas nas galerias escuras e irrespiráveis do monte.

A exploração do Cerro Rico prossegue ainda hoje, agora já sem a prata que fez a sua negra fama e glória. Depois da privatização decorrente do modelo de desenvolvimento neoliberal imposto pelo Banco Mundial aos governantes de La Paz, a atividade é levada a cabo por cooperativas de mineiros que não possuem meios para modernizar a extração dos minérios.

Na quase totalidade das cento e vinte minas em exploração (há algumas do século XVIII que foram, entretanto, reabertas), as condições não são diferentes das que eram usuais há duzentos anos. Não há luz elétrica ou arejamento adequado. O escoramento das galerias é precário, sendo frequentes acidentes mortais, entre os quase sete mil mineiros que ali trabalham (incluindo algumas centenas de crianças).

Os viajantes mais dados a experiências de risco podem aventurar-se na visita a uma dessas minas. A da Mina da Candelaria dura cerca de três horas, com passagens por túneis estreitos onde é necessário rastejar, e permite o contacto com equipas de mineiros que resistem mais de oito horas a trabalhar apenas com ajuda energética das folhas de coca que mascam permanentemente. A Koalla Tours, na Calle Ayacucho, organiza este tipo de expedições. Só há que preencher uma declaração de auto-responsabilidade quanto às eventuais consequências indesejáveis da aventura (“injury or death”, diz o papel).

Sucre, a cidade branca

Quem conhece e ama a Andaluzia, sentir-se-á em casa nesta cidade universitária que foi a primeira capital da Bolívia. Sucre é, a par de Tarija, junto à fronteira com a Argentina, a mais hispânica das cidades bolivianas. Declarada pela Unesco, em 1992, como Património Histórico e Cultural da Humanidade, Sucre possui um acervo impressionante de arquitetura religiosa dos tempos coloniais. Como centro universitário, tem uma das mais antigas universidades de todo o continente americano, a Universidade de San Francisco Xavier, que em matéria de antiguidade leva a palma a Harvard: tem mais um quarto de século que a famosa universidade norte-americana.

Sucre é uma das mais aprazíveis cidades da Bolívia

Sucre é uma das mais aprazíveis cidades da Bolívia

Com um clima temperado, à semelhança de Cochabamba, e com menos de cento e cinquenta mil habitantes, Sucre é uma das cidades mais aprazíveis da Bolívia. O viajante não tem que se preocupar aqui com a escassez de oxigénio, como em Oruro ou em Potosí.

Sucre fica a cerca de 2.700 metros sobre o mar e goza de uma respiração algo tropical, com muita animação na rua e jardins sombreados por espécies arborícolas características dos trópicos, como as palmeiras da Praça 25 de Mayo.

É esse um dos principais contrastes de que nos apercebemos à medida que vamos descendo do altiplano em direção a Sucre. A paisagem vai mostrando algumas árvores e, finalmente, em plena Praça 25 de Mayo, com as suas copas frondosas, não podemos deixar de nos lembrar da quase aridez de Potosí.

Salvo o mosteiro franciscano de La Recoleta, quase todo o património visitável em Sucre está dois passos do coração da cidade, o que constitui um pretexto adicional para umas gratas caminhadas pelo centro histórico. Face à Praça 25 de Mayo está a Casa de la Libertad, onde foi assinada a Declaração de Independência da Bolívia, em 6 de Agosto de 1825. Noutro lado da praça ergue-se a Catedral, templo do séc. XVII que acolhe uma imagem famosa da Virgem de Guadalupe, um belíssimo ícone incrustado de pedras preciosas.

As igrejas setecentistas de San Miguel e de San Francisco, com os seus impressivos altares em ouro e prata, valem mais do que uma visita. Da primeira partiram os missionários jesuítas para as missões evangelizadoras na Argentina, Uruguai e Paraguai.

Altiplano andino

Altiplano andino

San Lázaro, uma pequena igreja edificada no século XVI, terá sido o primeiro templo da cidade, e além do precioso ornamento em mármore e prata do batistério, somos surpreendidos com uma coleção de seis quadros atribuídos a Zurbarán. Finalmente, nas proximidades da Catedral, podemos visitar a Igreja e o Convento de San Filipe de Neri.

O claustro neoclássico é uma joia arquitetónica, imagem que perdura na memória por conta própria. Como inesquecível é, também, a vista da cidade a partir dos terraços do convento.

Sucre é uma cidade que nos faz deslembrar, por breves momentos, que estamos no país mais pobre da América Latina, um país que é também, com toda a evidência, um dos mais belos. E o mais seguro para os viajantes, dizem as estatísticas, apesar do débil rendimento per capita. Uma das impressões mais fortes, ficou escrito atrás, tem a ver com a espantosa diversidade cultural e geográfica do país.

Outra transcorre da inexcedível hospitalidade dos bolivianos. Não haverá em todo mundo - o viajante aposta tudo o que tem - gente com tão grande e afetuoso coração.

Guia de viagens ao Altiplano boliviano

Este é um guia prático para viagens à região andina da Bolívia, com informações sobre a melhor época para visitar, como chegar, pontos turísticos, os melhores hotéis e sugestões de atividades nas cidades de Cochabamba, Sucre, Potosí e Oruro.

Altiplano, Bolívia Como chegar

Como chegar ao Altiplano

A Iberia tem voos para La Paz com escala em Madrid, e a LAN Chile voa para Santiago e daí têm ligações diárias para a capital boliviana - cidade a partir de onde há transportes terrestres para Cochabamba, Oruro, Sucre ou Potosí.

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A oferta hoteleira é vasta e diversificada, com especial ênfase em pousadas baratas e alguns hotéis de luxo, mas não tanto no segmento intermédio. Veja mais através dos links abaixo.

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Informações úteis

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Para os cidadãos da União Europeia não é necessário visto para entrar na Bolívia. O tempo máximo de permanência para os turistas é de 90 dias. A Secretaria Nacional de Turismo (SENATUR) está situada no Edifício Ballivián, 18º piso, na Calle Mercado, La Paz.

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