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Diamantina, uma jóia setecentista

Diamantina

Aquela que é, provavelmente, a mais bela das cidades históricas de Minas Gerais, está situada lá bem no interior do Estado. Diamantina é um magnífico exemplo de preservação arquitectónica no Brasil e está classificada pela UNESCO como Património Mundial.

Diamantina, uma das belas cidades mineiras

Há coisas que não vi em Diamantina, cidade brasileira situada no coração de Minas Gerais, coisas como, por exemplo, ostensivas sinaléticas pós-modernas com inscrições do tipo World Heritage, acompanhadas da respectiva tradução para leitura e contentamento indígenas. E, no entanto, Diamantina é uma das mais bonitas cidades brasileiras, com o seu núcleo urbano enraizado no século XVIII, um pequeno burgo que vive com a plácida convicção de que, com turismo ou sem ele, a preservação arquitectónica é sempre esteio de uma identidade que não se pode reduzir ao seu valor comercial.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos em Diamantina, Minas Gerais

Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos em Diamantina, Minas Gerais

É verdade que Diamantina havia já sido classificada pelo Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1938, e que as práticas de conservação e o envolvimento da população na preservação da identidade urbana se foram incorporando desde remota data no quotidiano dos seus habitantes.

Não é estranhar, pois, que no momento da candidatura apresentada à UNESCO, nada, ou quase nada, fosse necessário fazer para a justificar. Diamantina era já então o que hoje é: um relicário de arquitectura urbana setecentista, com arruamentos enraizados no século XVII, uma tipologia arquitectónica ufana da sua filiação portuguesa e um núcleo admirável de património religioso.

Os diamantes não são eternos

No início do século XVIII, quando Ouro Preto era a capital de Minas Gerais, a descoberta de diamantes numa zona montanhosa localizada a mais de trezentos quilómetros para o interior levou à fundação de um pequeno povoado, o Arraial do Tijuco. Quase dez anos depois da autorização de livre exploração, dada pelo Governador de Ouro Preto, o rei D. João V apercebeu-se da importância das jazidas.

Fachadas do centro histórico de Diamantina, Minas Gerais, Brasil

Fachadas do centro histórico de Diamantina, Minas Gerais, Brasil

O monarca apressou-se a estabelecer um monopólio particular da exploração, o qual não impediu nem a corrupção nem o contrabando, que envolveram em toda a história da exploração diamantífera da região altos responsáveis e representantes da Coroa.

A partir de então, apenas os contratadores oficiais estavam autorizados a explorar as minas, em concessões que podiam recorrer a meio milhar de escravos. O mais conhecido desses contratadores foi o Comendador João Fernandes de Oliveira, que tomou como amante a escrava Chica da Silva, com quem viveu quase uma década num casarão hoje transformado em museu.

Curiosamente, só uma centena de anos depois do início da exploração oficial, quando a decadência se prefigurava já no horizonte, é que as burocracias do reino permitiram a mudança do nome para Diamantina. Estava-se em 1831, e a Real Extracção de Diamantes apenas alimentaria a metrópole por mais duas ou três décadas: na segunda metade do século XIX, a exploração deixou de ser rentável com a descoberta das jazidas sul-africanas. Hoje apenas se mantém uma extracção residual, e o comércio e o turismo tornaram-se as actividades mais relevantes da cidade.

Diamantina, da arquitectura colonial ao traço de Niemeyer

Foi a decadência que permitiu, afinal, tal como em Ouro Preto, Tiradentes e Paraty, a preservação do património arquitectónico e da configuração urbana setecentista de Diamantina, bem representados no impressivo núcleo de sobrados e no traçado irregular dos arruamentos. A Rua do Burgalhau, com o seu alinhamento de casinhas térreas e simples, eixo primitivo de Diamantina espantosamente conservado na sua memória de quase três séculos, é o primeiro testemunho dessa preservação.

Vista da Rua da Quitanda, Diamantina

Vista da Rua da Quitanda, Diamantina

A esplanada da Baiuca, na Rua da Quitanda, revela-se um bom ponto de observação da azáfama provinciana da cidade, lugar de passagem para quem se dirige para as confinantes ruas comerciais ou para os serviços burocráticos da Prefeitura Municipal, instalada num dos edifícios mais emblemáticos da cidade, um sóbrio e enorme casarão que acolheu outrora a Casa da Intendência.

A Rua da Quitanda é como uma montra da identidade arquitectónica de Diamantina, com sobrados coloniais que incorporam alguns elementos eclécticos. Singularíssima, apesar da dimensão modesta, é a Casa do Muxarabié, com o seu balcão fechado com madeira de reixa, de árabe lembrança, que servia para acautelar o recato das donzelas coloniais.

Mas foi a funcionalidade, mais do que uma elegância frívola, que marcou as orientações arquitectónicas do património edificado de Diamantina. Mesmo o edifício do Fórum, na Praça JK (Juscelino Kubitschek, o presidente eleito em 1955 e mentor de Brasília, era filho da terra), uma antiga residência de uma família abastada do século XVIII, ostenta uma fachada em que a sobriedade se impõe aos escassos elementos decorativos.

Já o edifício do Museu do Diamante, na Rua Direita, apresenta-se como um dos melhores testemunhos da influência da matriz rural lusitana na arquitectura de Diamantina e um modelo de referência da arquitectura mineira do século XVIII. A casa foi morada de um dos conspiradores do movimento independentista da Inconfidência Mineira, José de Oliveira da Silva Rolim, acabando confiscada pelo poder colonial, depois de o seu inquilino ter sido enviado para o exílio em Portugal. O acervo museológico da casa evoca o período áureo da exploração diamantífera na região.

Cena de rua em Diamantina

Cena de rua em Diamantina

Convém assinalar que Diamantina é mais do que o património de inspiração portuguesa, civil ou religioso. Do tempo colonial sobreviveram bonitos sobrados e uma série de templos que se inserem em contínuo, e numa relação harmónica, na estrutura urbana, alinhados com o casario e sem a habitual disposição que os destaca do edificado civil.

A única excepção é a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, um belíssimo exemplo da arquitectura religiosa luso-brasileira, com forte influência da tradição maneirista portuguesa.

Mas não se findam aí as surpresas que esta jóia setecentista reserva ao viajante. Uma delas vale, precisamente, pelo que contém de lição de integração arquitectónica: em pleno centro histórico, convivendo harmoniosamente com a memória da arquitectura colonial, recorta-se o inconfundível traço modernista de um dos artífices de Brasília, o arquitecto Óscar Niemeyer, que nos anos 50 do século passado projectou o Diamantina Ténis Clube, o Hotel Tijuco e a Escola Estadual Júlia Kubitschek.

Onde Chica da Silva amou João

É uma história exemplar, a dos amores da escrava Chica da Silva e do Comendador João Fernandes de Oliveira, na parcela de um Império cuja maior obra - tal como observa um repetido e irónico aforismo muito glosado no Brasil - terá sido a miscigenação. Dito de outro modo, o relacionamento entre Chica da Silva e João Fernandes de Oliveira não foi coisa inédita nos anais da escravatura: na sociedade colonial do século XVIII era muito frequente o envolvimento entre senhores e escravas.

Rua na cidade histórica de Diamantina

Rua na cidade histórica de Diamantina

João Fernandes de Oliveira estudou direito em Coimbra e era filho de um rico contratador de diamantes que, depois do regresso a Portugal, chegou a financiar a reconstrução pombalina de Lisboa após o terramoto de 1755. Instalou-se no arraial de Tijuco em 1753 e supõe-se que terá comprado ou libertado a escrava Chica da Silva pouco tempo antes. A relação entre os dois (que durou até 1771, quando o Comendador teve que se deslocar à Europa, para não mais regressar a Minas Gerais) revestiu-se de contornos peculiares, que levaram as crónicas a estender-se até à narrativa romanceada e tele-novelizada.

As especulações em torno dos fundamentos da paixão de João Fernandes de Oliveira pela escrava têm lançado mais confusão do que luz sobre a história. Desprovida de educação e de eventuais dotes intelectuais, Chica da Silva não seria, por outro lado, possuidora de particular beleza física. Mas tal não impediu que a ex-escrava (e mais tarde senhora, também, de escravos) encontrasse no Comendador um fiel servidor de todos os seus desejos, acabando por ascender, apesar da sua origem, à galeria da melhor sociedade local.

Dedicada à coisa religiosa, mas indiferente à causa e ao sofrimento dos seus irmãos de sangue escravizados, Chica da Silva chegou a pertencer às Irmandades de São Francisco e do Carmo (exclusivas da comunidade branca), além da do Rosário (negros) e da das Mercês (mulatos), e tornou-se conhecida também pelas festas luxuosas que promovia.

A casa onde João e Chica viveram quase uma década é actualmente museu e sede local do IPHAN. É um edifício de características setecentistas, como tantos outros do centro histórico da cidade, mas com uma particularidade: numa das fachadas laterais, uma longa sala do andar superior é fechada com uma enorme cobertura em madeira de reixa, um testemunho mais dos elementos árabes que ali chegaram pela mão dos portugueses.



Pormenor arquitectónico do casario de Diamantina, uma das cidades históricas de Minas Gerais

Pormenor arquitectónico do casario de Diamantina, uma das cidades históricas de Minas Gerais

Fachada em Diamantina

Fachada em Diamantina

Tons de azul na arquitectura de Diamantina, Minas Gerais

Tons de azul na arquitectura de Diamantina, Minas Gerais

Rua do centro de Diamantina, Minas Gerais

Rua do centro de Diamantina, Minas Gerais

Guia de viagens a DIAMANTINA

Este é um guia prático para viagens a Diamantina, com informações sobre a melhor época para visitar, como chegar, pontos turísticos, os melhores hotéis e sugestões de atividades nas cidades históricas de Minas Gerais.

Como chegar

COMO CHEGAR A DIAMANTINA

Voar para o Rio de Janeiro ou Belo Horizonte, no Brasil. Diamantina fica a 600 km do Rio de Janeiro e a 280 km de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais. Há voos diários do Rio para Belo Horizonte, e ligações por autocarro para a antiga capital mineira dos diamantes. Uma alternativa a considerar é alugar um automóvel em Belo Horizonte ou no Rio.

Onde ficar

ONDE FICAR

Algumas pousadas recomendáveis em Diamantina: Pousada do Garimpo, sita na Av. da Saudade, 265. Pousada Relíquias do Tempo, na Rua Macau de Baixo, 104.

Hotéis em Diamantina

Gastronomia

GASTRONOMIA MINEIRA

A gastronomia tradicional de Diamantina é tipicamente mineira, com destaque para o tutu de feijão, o frango com quiabo, o angu, o arroz e a couve mineira, e o feijão tropeiro. Atenção especial merece também a cachaça mineira, que se pode degustar, na sua variedade, no simpático café da Livraria Espaço B, no Beco da Tecla.

O restaurante Caipirão, no centro histórico, é uma casa simples e muito recomendável, com a saborosa comida mineira cozinhada em forno de lenha. As sopas são memoráveis.

Seguro de viagem

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