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VIAGENS EUROPA » ESCÓCIA » TERRAS ALTASTerras Altas
RUMO ÀS TERRAS ALTASHá muito que a Escócia constava de uma lista imaginária de destinos a visitar tão breve quanto possível. Queria principalmente conhecer o Norte do país, a noroeste de Edimburgo, região embelezada por paisagens verdejantes, pequenas vilas embutidas em ambientes rurais, os picos das montanhas das Terras Altas cobertos de neve e os castelos defensivos com mil anos que pintalgam o horizonte, e um punhado de ilhas ventosas como a mítica ilha de Skye. Tudo isso sem esquecer que a Escócia é um país de homens guerreiros, resistentes e patrióticos, como Sir William Wallace - o lendário herói da independência retratado por Mel Gibson no filme Braveheart - e, naturalmente, que é terreno fértil para destilarias produtoras dos melhores whisky de malte do planeta.
Iria de Edimburgo até à cidade de Inverness, mas não pelo caminho mais curto ou mais rápido: iria pelo mais diversificado e agradável, avançando primeiramente até à ilha de Skye, via Fort William e Mallaig, inflectindo depois até às margens do Loch Ness, e daí rumo a Inverness. Um carro alugado a partir de Edimburgo foi a solução encontrada para me deslocar. Conduzir pela esquerda é um desafio. Entrar nas rotundas pela esquerda, olhar sempre para a direita num cruzamento ou mexer na caixa de velocidades com o braço esquerdo são procedimentos pouco comuns para a maioria dos viajantes no Reino Unido. Para mim, felizmente, não era a primeira vez que conduzia pela esquerda - já o tinha feito em locais tão distantes como a África do Sul -, pelo que alguns quilómetros de condução foram suficientes para acostumar o cérebro à situação de condutor num país anglo-saxónico. Stirling fica quase 60 quilómetros a noroeste de Edimburgo e tem a particularidade de ser a terra de Sir William Wallace. Há um enorme monumento erigido em sua honra que domina completamente a paisagem, de onde quer que se olhe. Chama-se, precisamente, Monumento Wallace e é uma gigantesca coluna de aço e pedra, de cujo topo, algumas centenas de degraus numa estreitíssima escada de caracol acima, se tem uma visão arrebatadora sobre Stirling e os verdejantes campos envolventes. A principal razão por que tantos viajantes ocorrem à povoação é, no entanto, outra: um castelo que rivaliza em beleza, atmosfera e importância histórica com o de Edimburgo. Visitei-o demoradamente, antes de seguir viagem pela estrada A84 rumo a Fort William, passando por localidades como Callander, Crianlarich, Tyndrum e Glencoe, e pelas margens de vários lagos, aqui chamados de Loch - Loch Lubnaig, Loch Leven, Loch Linnhe -, até que as casinhas ribeirinhas de Fort William apareceram no horizonte. Cheguei a Fort William eram praticamente sete da tarde. Parei o carro, desci rumo a uma rua pedonal do centro da povoação e perguntei ao primeiro transeunte onde sugeria que me alojasse, de preferência um Bed & Breakfast económico. Era um homem já grisalho, afável e conversador, e estava vestido com fato, mas sem gravata. Esticou o braço, apontando para uma área a dois quilómetros de distância, acompanhando o movimento com um “naquela direcção há muitos B&B». Depois pegou no telemóvel, ligou para um amigo dono de um B&B, confirmou que havia um apartamento vago, meteu-me no seu carro e insistiu que me levaria até lá, certificando-se de que ficava bem instalado. Soube mais tarde que ele era deputado municipal em Fort William.
A casa onde parámos era da família Kennedy - ele filho de um velho pastor da terra já falecido, ela londrina de gema que mudara de vida e de cidade por amor. Tinham um B&B chamado Tigh-Na-Faith, com dois quartos espaçosos para alugar, e receberam-me de tal maneira bem que foi como se tivesse chegado a casa de velhos amigos que não via há muito tempo. Bebemos chá com deliciosos biscoitos de manteiga caseiros, depois uns soberbos whisky de malte, Talisker e Jura (produzidos há séculos nas ilhas escocesas de Skye e Jura, respectivamente), falámos de tudo um pouco e eu registei uma recomendação especial para o dia seguinte: conhecer o vale de Glen Nevis. Quando me despedi dos Kennedy, tinha sérias dúvidas que eles tivessem aquele pequeno negócio pelo rendimento que gerava - julgo que era apenas pelo prazer de conversar e conhecer viajantes de todo o mundo. Depois de um pequeno-almoço com produtos rurais saborosíssimo, voltei à estrada. Pensava fazer apenas um pequeno desvio para conhecer o vale de Glen Nevis, mas acabei por ficar no vale boa parte do dia, tal a maravilha da paisagem. A estrada, com asfalto bem cuidado, vai serpenteando o vale com florestas de ambos os lados, há o constante som de água a correr, a imagem dos 1.344 metros de altitude do monte Ben Nevis sempre presente, esporádicos ciclistas e corredores a fazerem exercício, até que a estrada se estreita de tal forma que passa a caber apenas um carro. Fui continuando, deleitado, bem devagar, parando uma, outra e outra vez para apreciar o envolvente, até que, de tanto prosseguir, cheguei a um pequeno parque de estacionamento no fim da estrada, que não tinha saída: aí tinha início um trilho pedestre. Calcei umas botas de montanha, vesti calças confortáveis e avancei. Uns metros adiante, numa placa de madeira estava gravado: “Este trilho vai ficando cada vez mais perigoso à medida que se aproxima da cascata. Têm ocorrido acidentes fatais. Siga com muito cuidado. É essencial bom calçado”. O piso era efectivamente escorregadio, com muitas pedras molhadas pelos constantes cursos de água fria que deslizam montanha abaixo. Havia subidas e descidas em pedra, ao longo de um caminho que, embora não fosse exigente, era sem dúvida perigoso. Ainda assim, vi senhoras e senhores com mais de setenta anos a percorrerem o trilho, de passo lento, botas de montanha e bastões de trekking na mão. Cruzei-me com três caminheiros espanhóis com mochilas às costas, de ar cansado mas satisfeito, que vinham do sul e estavam há quatro dias a caminhar, acampando durante a noite nas montanhas. Durante um período de certa forma extenso, o trilho seguia ao longo do pequeno rio Water of Nevis com belos rápidos que faziam um bruáaaa ininterrupto. Não se pensa em nada quando se está num lugar assim: o sentimento é de pura felicidade. Quando cheguei junto à cascata que era o objectivo do passeio, deparei-me com um vale mais amplo, o rio tinha acalmado e eu deixei-me ficar sentado na relva, apreciando a magnífica paisagem e descansando, olhando para os topos pintados de branco das montanhas Ben Nevis. Era esta a Escócia que eu procurava, pensei. A MAGNÍFICA ILHA DE SKYE
Já me haviam falado da “Estrada das ilhas”, um trajecto com 43 quilómetros de extensão entre Fort William e Mallaig, o fim da linha, localidade portuária de onde só se pode voltar para trás ou embarcar num ferryboat para as ilhas Hébridas. A estrada começa por bordejar o Loch Eil, sempre acompanhada pela espectacular linha de caminho-de-ferro onde muito raramente passa a Jacobite, uma locomotiva a vapor que liga Fort William a Mallaig. Vê-se depois envolvida por florestas, montanhas, leitos de rio e outros lagos, transformando-se numa estrada em que o virar de cada curva se aguarda com a expectativa de qualquer surpresa no cenário. Quando cheguei a Mallaig, fui directo para o cais de embarque do ferryboat da empresa Caledonian MacBrayne com destino à ilha de Skye, a mais procurada das ilhas Hébridas. Foi precisamente no porto de Mallaig, e também na ilha de Skye, que o realizador dinamarquês Lars von Trier filmou muitas das cenas exteriores do poderoso filme Breaking the Waves. Eu estava com sorte: partia um ferryboat daí a 50 minutos. Skye é uma ilha maravilhosa. A paisagem é agreste, muito montanhosa, acastanhada e pedregosa, e o vento sopra sem piedade. A vida é sem dúvida difícil mas Skye é um lugar magnífico. Escolhi a povoação de Portree como base para exploração da ilha, e em boa hora o fiz. Porque fica geograficamente bem localizada, permitindo passeios contornando a costa para Norte em direcção a Lug, para Oeste em direcção ao imponente castelo de Dunvegan, e para Sul rumo à aldeia piscatória de Elgol por uma estrada estilo montanha-russa, estreitíssima mas muito bonita. Mas Portree foi também a escolha acertada porque, neste fim do mundo, sem que nada o fizesse prever, encontrei produtos artesanais do mais alto gabarito em lojas infinito bom gosto - os sabonetes feitos de forma totalmente artesanal da The Isle of Skye Soap Company e, principalmente, a loja de roupa criativa Skye Batiks. E porque encontrei ainda um restaurante absolutamente divinal, de seu nome Café Arriba, um espaço pequeno e colorido com refeições confeccionadas na hora, o paraíso da comida saudável e vegetariana, verdadeiramente memorável.
Foi precisamente no Café Arriba que provei uma cerveja escocesa deliciosa, preta e encorpada, chamada Black Cuillin, nome das mais altas montanhas da ilha de Skye. A cerveja era, naturalmente, produzida na ilha de Skye e acompanhou uma soberba refeição no Café Arriba. O restaurante é um daqueles lugares que não tem qualquer menu impresso: as sopas e pratos que o chef decide cozinhar no dia estão escritos à mão, a giz, num quadro de ardósia pendurado na sala de refeições. Depende da sua inspiração e vontade, e dos produtos disponíveis. Foi a melhor refeição que degustei em toda a Escócia. A última etapa da viagem consistia em sair da ilha Skye pela ponte de Kyle of Lochalsh e dessa forma evitar o regresso a Mallaig de ferryboat, chegando a Inverness no mesmo dia com passagem pelo mais fotografado castelo de toda a Escócia: o Eilean Donan. É uma estrutura defensiva convenientemente localizada numa pequena ilha do Loch Luich, unida a terra por uma pequena ponte de pedra. Eilean Donan é um dos mais fotogénicos castelos do país, mas havia muitos turistas por perto, pelo que não demorei muito a seguir viagem. Viajava de carro com a lentidão de quem conduz apreciando a paisagem, quando uma jovem de porte atlético, calções de lycra tipo ciclista, mochila às costas e um bastão de trekking que caminhava na berma na estrada, estendeu o braço a pedir boleia. Chamava-se Sarah, vivia em Invermess e, para mim, era mais uma prova do quanto os escoceses amam caminhar e se esforçam por praticar um estilo de vida saudável, em contacto com a Natureza. Sarah estava a caminhar por trilhos de montanha das Terras Altas desde as 6 horas da manhã (olhei para o relógio e eram quase 6 horas da tarde), e tinha acabado de regressar à estrada principal para se dirigir ao seu carro, estacionado uns quilómetros adiante. Quando soube o que eu fazia na Escócia, disse-me: “pára no Castelo Urqhuart, é lindíssimo”. Assim fiz.
O castelo Urqhuart fica nas margens do famoso e muito assediado Loch Ness, já muito perto de Inverness, um pouco antes do turístico Centro de Exposições do Monstro do Loch Ness. Já muito de especulou sobre o gigantesco monstro que vive - diz a lenda! - nas profundezas do Loch Ness, mas nem o lago nem o monstro me despertaram qualquer interesse. A descrição que Sarah fez do castelo Urqhuart, ao invés, convenceu-me a parar. Quando lá cheguei, já o castelo estava fechado para visitas, mas a vista da estrada, ao cimo da colina, mostrou um castelo iluminado com as cores quentes dos últimos raios de sol, altivo e belíssimo. Não o teria conhecido, não fora o acaso de conhecer Sarah, a caminheira. Era quase noite quando cheguei a Inverness, uma povoação costeira com ar industrial onde me aguardava nova surpresa gastronómica: o sofisticado e totalmente envidraçado restaurante Kitchen. Um copo de vinho tinto selou uma refeição dos deuses com vista privilegiada para o rio Ness, que atravessa Inverness. Estava prestes a despedir-me da Escócia, e já sentia um pouco daquela nostalgia do regresso. Fui dormir num Bed & Breakfast instalado numa casa vitoriana da rua Old Edinburgh, nome da cidade onde tinha iniciado a viagem. Estava com um sorriso de alegria estampado no rosto, pensando na viagem que acabara de terminar. Lembrei das pessoas que encontrei, como o deputado parlamentar de Fort William, a família Kennedy e Sarah; da arquitectura do centro histórico de Edimburgo; de Stirling, terra de Sir William Wallace e seu gigante monumento; das paisagens magníficas das Terras Altas, ideais para o contacto com a Natureza; da caminhada ao longo do estrondoso vale Glen Nevis; de conduzir pela “Estrada das ilhas”; do ferryboat de Mallaig a caminho das ilhas Hébridas; do vento agreste na magnífica Skye; dos castelos de Eilean Donan, Urqhuart e tantos outros; do perfume do Talisker, precioso whisky de malte; do sabor do haggis, o prato nacional; das refeições criativas no Café Arriba e no Kitchen; e, claro, de apanhar com quatro estações no mesmo dia. A viagem ao norte da Escócia tinha sido fascinante.
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