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VIAGENS EUROPA » ESPANHA » GALIZACaminho Português de Santiago
DE PEDRA É O CAMINHOA fortaleza de Valença marca o fim do território português e o início do caminho de Santiago por terras galegas. Aqui vinham ter os peregrinos que seguiam a costa, antes de atravessarem o rio Minho e entrarem em Tui, uma das sete capitais do antigo reino da Galiza. A cidade até costumava esquecer as querelas do momento para os acolher e deixar passar nas barcas gratuitamente. Claro que já há muito que existe uma ponte a unir os dois lados, e é por ela que chegamos às ruas empedradas e tortuosas que rodeiam a catedral medieval que encima a cidade. Esta é a primeira visita de todos os peregrinos e é aqui que se pode pedir o Certificado que, carimbado em todos os lugares de pernoita, permite ganhar a “Compostela”, prova final de que a peregrinação foi feita.
A partir de Tui, são necessários quatro a cinco dias para chegar a Santiago de Compostela, meta mística para uns e desportiva para outros. Podem ser dias de chuva ou de sol, de cansaço passageiro ou de esforço estóico, mas o que será de certeza é uma caminhada inesquecível, quase sempre por carreiros e estradas secundárias que unem aldeias típicas e cidades com agradáveis centros históricos. Para trás vão ficando pontes antiquíssimas - como a pontella de A Ponte Nova, ou a Ponte das Febres, perto de Tui - que passam sobre ribeirinhos bucólicos, prados floridos (na estação das flores) e bosques sombrios e húmidos. Mas não nos deixemos dominar pelo romantismo; a verdade é que o asfalto se sobrepôs ao caminho e, muitas vezes, acabamos por atravessar ou andar ao longo a estrada que liga Vigo à Corunha. Uma das experiências mais interessantes é dormir nos albergues gratuitos para peregrinos, postos à disposição dos que fazem o percurso a pé, de bicicleta ou a cavalo. Os meus favoritos são os históricos casarões antigos de Redondela e de Padrón. Adaptados com todos os requintes modernos como duches quentes, cozinha e sala de jantar, as suas paredes de granito não nos deixam esquecer que repetimos um caminho milhares de vezes feito desde a Idade Média. A acreditarmos na tradição, Santiago foi morto na Palestina e o seu corpo foi trazido para a Galiza por via marítima, chegando a Padrón. A sua sepultura acaba por cair no esquecimento até ao século IX, momento em que um núcleo de monges o redescobre, iniciando um ciclo de peregrinações que teve o seu apogeu nos séculos XII e XIII. A cidade perde importância religiosa durante os séculos seguintes, mas ganha importância cultural graças à sua famosíssima universidade. E no século XX, os caminhos que lhe dão acesso são declarados Itinerário Cultural Europeu e Património da Humanidade, ao longo de Espanha e de França. Neste momento são nada menos que doze séculos de história que repetimos com os nossos passos muitas vezes doridos, ao percorrer estes caminhos e pontes, ao entrar nas igrejas e núcleos urbanos ancestrais que é necessário atravessar para chegar a Santiago de Compostela.
Depois de uma primeira noite em Redondela, que conta com duas igrejas dedicadas ao santo, o segundo dia leva-nos até Pontevedra. Este é, talvez, o dia mais bonito do percurso: bosques, calçadas de pedras redondas e lisas, paisagens floridas por giestas e girassóis, pinhais e soutos alternando com vinhas e campos cultivados. Uma pontella de pedra desgastada por séculos de uso arredondava-se sobre um regato sombrio. Irresistível parar para ouvir a água e descansar os olhos no verde das margens. Ao fim do dia, encontro com a invulgar igreja barroca dedicada à Virgem Peregrina: uma concha em forma de igreja, ou uma igreja em forma de concha? Diz-se que tem a forma da vieira de Santiago porque orienta os peregrinos perdidos na boa direcção. A tradição de associar esta concha ao santo - são vieiras estilizadas, gravadas em pedra ou desenhadas em azulejos, que indicam os caminhos e eliminam as dúvidas nos cruzamentos - já vem desde os primórdios. A lenda conta a história de um noivo que caiu ao mar no dia do casamento, no momento em que os discípulos traziam o corpo de Santiago para a Galiza, e este fez o milagre de os trazer do fundo do mar para que o casamento prosseguisse; parece que ambos saíram das águas bem vivos...mas cobertos de vieiras! Tornou-se hábito dos peregrinos prenderem uma ou mais destas conchas ao capote, ao chapéu ou ao bordão - mais modernamente, às mochilas e às bicicletas - e já foram encontrados túmulos com vieiras, de tal modo esta se tornou símbolo e prova de que o seu portador concluiu a peregrinação. De Jerusalém os peregrinos traziam a palma, que simboliza o triunfo; de Santiago passaram a trazer a vieira, simbolizando protecção e busca de conhecimento. O terceiro e quarto dias podem ser feitos num só se as pernas o permitirem: ou se fica em Caldas de Rei, a dezanove quilómetros, ou se lhe juntam mais doze e se chega a Padrón. O caminho é relativamente tranquilo e aparecem alguns dos mais bonitos - e antigos - cruzeiros de pedra do caminho. As pessoas, que ao início perguntavam se íamos a Santiago, agora já o tomam como certo e comentam: “Ainda vos falta um bom bocado”; outros dizem “Parece que vai chover” - coisa previsível nesta latitude, e que de facto acontece. Mas não é uma chuva fria ou demasiado forte, apenas a típica morrinha do Norte, que se prolonga durante algum tempo mas acaba por nos dar tempo para secar antes do fim do dia. Não é em vão a abundância de água na zona; Caldas de Rei deve o nome às suas termas da época romana e fica na confluência de dois rios, ambos cruzados por pontes com estrutura da mesma época. E mais adiante, a vila de Pontecesures, banhada pelo rio Ulla, oferece uma gastronomia fluvial onde constam lampreia, truta e salmão do rio.
Finalmente chegamos a Padrón, a última etapa antes de Santiago. Aqui se diz que atracou a barca com o corpo do santo e a igreja que lhe é dedicada guarda o “padrão”, antigo altar romano de Neptuno onde se diz que foi amarrada a barca. O Caminho Português une-se aqui ao caminho Marítimo do Mar de Arousa, um dos utilizados pelos peregrinos que chegavam à costa galega. A vila parece concentrar todo o granito dos caminhos, que cobre o chão de muitas ruas, levantando-se em muros e construções austeras e monumentais, como o convento do Carmen. E para os que gostariam de fazer um intervalo na visita exclusiva de lugares religiosos, Padrón foi lugar de nascimento do Prémio Nobel Camilo José Cela, e de morte de Rosalía de Castro, a mais conhecida poetisa galega; o primeiro tem aqui uma fundação com o seu nome, e a segunda uma bela e típica casa-museu, ambas abertas ao público. Passo a passo, pelas ruelas cinzentas e pedregosas tornadas escorregadias pela humidade e chuva frequente, afastamo-nos da vila em direcção à nossa meta final. O mau tempo faz-nos caminhar mais depressa, com paragens em pinhais com vistas enevoadas sobre uma paisagem muito verde, também sempre muito povoada. Passamos o último bosque com a última ponte e calçada romana, deixamos para trás o cruzeiro de Rua de Francos, um dos mais antigos da Galiza, memórias de pedra dos milhares de pés que passaram por aqui antes dos nossos. O caminho está a chegar ao fim. Entramos em Santiago passando pela igreja do Pilar e, se quisermos seguir a tradição, pela Porta Faxeira. As agulhas de granito da catedral despontam sobre o casario da parte histórica da cidade. Assim como os caminhos que aqui vêm dar, também Santiago de Compostela foi reconhecida pela UNESCO como Património Mundial. Não merece menos que isso. Todas as igrejas e monumentos que vimos nos últimos dias mais não parecem do que ensaios para este extraordinário e bem preservado conjunto arquitectónico que espera peregrinos e visitantes em geral. Juntamente com S. Pedro, em Roma, este é o único apóstolo enterrado na Europa, e há toda uma sinfonia de pedra que o celebra. A Porta Santa, na Praça de As Praterías, só costuma abrir-se durante os anos de Jacobeu, ou seja, quando o dia consagrado ao apóstolo, 25 de Julho, cai a um Domingo. Mas atravessar a enorme Praça do Obradoiro em direcção à catedral, subir a escadaria e olhar pela primeira vez o Pórtico da Glória, antes de entrar na catedral, é uma recompensa inesquecível. Cerca de duzentas figuras de pedra olham-nos do alto de uma das mais preciosas obras de arte românicas do mundo, e apetece perguntar, como Rosalía de Castro: “Estarán vivos?”.
SOBRE OS CAMINHOS DE SANTIAGOSão oito os chamados Caminhos de Santiago: o Francês, o Inglês, o do Norte, o Primitivo, o de Finisterra-Muxia, a Via da Prata, a Rota do Mar de Arousa e o português. O Caminho Português começa na vila minhota de Valença e segue um itinerário de cerca de cem quilómetros até Santiago. Há quem deixe o automóvel em Valença e depois regresse a Tui de autocarro. Note, no entanto, que o Caminho Português não é só para caminhantes; partes do seu percurso podem ser feitas de automóvel, com as respectivas paragens e visitas aos lugares mais interessantes.
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