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Regresso a Veneza em voo de pássaro

Em muitas cidades acontece algo semelhante: depois de muitas visitas, há sempre algo que escapou ao olhar. Veneza é uma cidade para se olhar, mas é também um espaço urbano para múltiplas explorações, sensoriais, e para a decifração de pormenores histórico-culturais afeiçoados ao corpo do burgo. Relato de uma viagem a Veneza.

07.08.2011 | Por Humberto Lopes

Veneza é celebrada pela sua singularidade - e com fundamentos bem (re)conhecidos. Mas não é inteiramente única, na verdade, o que é uma forma de dizer que a configuração urbana feita de avenidas de água não é inédita no espaço europeu. Há Landerneau e Redon, na Bretanha, com as suas redes de canais, há Estocolmo e as suas ínsuas urbanizadas, há Hamburgo e as mais de duas mil pontes sobre os canais, há Bruges e Gent, com medievos alicerces entranhados nas águas, há Amesterdão e o sistema de canais concêntricos, e há, ainda, a nossa Aveiro, com os seus moliceiros estagnados no tempo, modesta Veneza do norte de Portugal, como os panfletos turísticos a elegem.

O que faz, afinal, que esta Veneza, dos Doges, de Vivaldi, de Marco Polo, seja tão singular? A densidade da sua dimensão aquática, anfíbia, a quantidade de canais, de avenidas, ruelas e becos de água, tudo construído sobre uma área ocupada por mais de cem ilhas na laguna para onde foram empurrados, pelas hordas dos Lombardos, o povo veneto. Mas não só: conta imensamente para aquela singularidade, e mais do que tudo, a história de uma cidade que se fez ponte entre o Ocidente e o Oriente, uma cidade aberta, como a velha Grécia, às riquezas e saberes e culturas e notas civilizacionais que entravam pelas portas de Oriente.

Vista do Canal Grande, não muito longe da Ponte de Rialto

Vista do Canal Grande, não muito longe da Ponte de Rialto

O resultado destes contactos, destas trocas, que alicerçaram o esplendor veneziano, está plasmado na identidade urbana e arquitectónica da cidade, que é o que se impõe, primeiro, ao olhar do viajante. Joseph Brodsky, autor de «Marca de Água», um relato das suas experiências na cidade, descreve de forma admirável essa submissão que começa por ser de carácter sensorial: “Os olhos, nesta cidade, adquirem uma autonomia análoga à das lágrimas. A única diferença está em que não se desprendem do corpo, mas subjugam-no por completo. Ao fim de algum tempo - ao terceiro ou quarto dia passado - o corpo começa a considerar-se como mero portador dos olhos...”.

Se Veneza é cidade de se navegar, embarquemos, pois, no vaporetto, de preferência às gôndolas patéticas de Julietas e Romeus decrépitos, os turistas endinheirados da caricatura de Brodsky. Tomemos o vaporetto, o autocarro flutuante de Veneza, e serpenteemos ao longo do Canal Grande, desde a estação ferroviária de Santa Lucia, no extremo de Canareggio, até ao Canal de San Marco: quatro quilómetros que são uma montra imensa da arquitectura polimorfa da urbe, com passagem pela Ponte de Rialto, sempre apinhada de turistas, divididos entre as clássicas fotografias do canal (com os palácios Grimani e Ca d'Oro para cada um dos lados) e as bugigangas à venda, recordações que são, as mais das vezes, expressão superlativa do kitsch.

Um dos canais da ilha de Burano, perto de Veneza

Um dos canais da ilha de Burano

Duas centenas de palazzi, e umas quantas igrejas, de estilos tão diversos, do gótico veneziano à renascença e ao barroco, e com nomes que de tão celebrizados chegam a soar quase como versos de árias: o Ca d'Oro, o de Santa Maria degli Scazi, o Grimani di San Luca, o Grassi e, já no desenlace do vaporetto desaguar na largueza do Canal de San Marco, as cúpulas da barroca Santa Maria de la Salute, à direita, como se acabassem de sair de uma tela de Canaletto.

Veneza, Do guetto de Canarregio à torre de San Giorgio Maggiore

Mas Veneza é, também, cidade de se andarilhar, mesmo se muitas vezes damos com becos sem saída, ou com vazão para um imprevisto canal. Dar corda aos pés é, aliás, a melhor forma de escapar aos turbilhões turísticos (se tal é possível), à parte o zarpar de vaporetto para ínsulas mais remotas, como a (já pouco) piscatória Burano ou a vizinha, ainda um tanto rural, Torcello, já que Murano, com as suas vetustas artes vidreiras se inscreve há muito nas rotas das visitas turísticas de busca de souvenirs. Ou San Francisco del Deserto, ilhota quase anónima, com o seu mosteiro franciscano, a lembrar o regresso do religioso das suas andanças pelo Oriente.

Um canal anónimo longe da multidão, Veneza Itália

Veneza discreta: um canal anónimo longe da multidão

É a pé que se pode esquadrinhar os bairros judeus (são dois), o mais antigo, o de Canareggio e o mais recente, situado não muito longe. Foi daí que se expandiu a (desafortunada) expressão “gueto”, que designava um espaço fechado, onde vivia a comunidade judaica. Aí se reuniram judeus de muitas origens, incluindo os Sefarditas escapados da perseguição em Portugal e Espanha.

Uma boa parte dessa zona de Veneza é caracterizada por ruelas pacatas e atmosferas serenas, sobretudo a certas horas do dia e em tempos outonais ou invernais, quando os nevoeiros venezianos engolem luzes e sombras e a jornada acaba por abarcar uma infinidade de experiências sensoriais. São estes espaços apaziguados que melhor nos fazem esquecer a ameaça que paira sobre a cidade, quase afogada nas “acqua alta” do inverno. Veneza afundou-se vinte e três centímetros durante o século XX e ao fenómeno não é alheia a industrialização que provocou o assoreamento da laguna com as suas descargas químicas.

Por essas bandas estão, claro, sinagogas, mas também igrejas. Como a belíssima, pelo menos para o gosto do escriba, Madonna dell'Orto, edificada em meados do século XIV. A actual fachada é do século XV e o gracioso pórtico é coroado por uma representação do padroeiro dos viajantes, São Cristóvão, a quem o templo foi inicialmente dedicado. No interior, na abside, há pintura notável de Tintoretto, que ali está sepultado.

Ilha de Burano, Veneza

Ilha de Burano, Veneza

Brodsky dizia que as igrejas deveriam permanecer abertas toda a noite, “não tanto em atenção à hora dos prováveis tormentos da alma”, mas por causa da Virgem e o Menino, de Bellini, que o templo veneziano de Canarregio acolheu, objecto de roubo por três vezes já, a última em 1993.

Em tais andanças se encontram, amiúde, pequenas praças arborizadas e, por vezes, jardins, como os da Giudecca. São encontros inesperados que convidam a pausas nas infinitas empreitadas de descoberta que podem ser ensaiadas nos labirintos venezianos, aí, onde persistem signos da passagem de gente que deixou nome, por exemplo, nas artes - como a placa que assinala a igreja onde o prematuro Vivaldi foi batizado à pressa.

Mas não pode, finalmente, o andarilho de Veneza escusar-se eternamente aos palcos concorridos por multidões. Mais hora menos hora acabará por desembocar na grande Piazza San Marco, com a suas rítmicas galerias de arcadas e cafés de pergaminhos setecentistas, na homónima e vizinha Basílica, de mestiçagens bizantinas e mármores coloridos, ou no anexo Palácio dos Doges, o palácio ducal erguido no século XII e destinado a simbolizar os tempos de maior esplendor e poder da Cidade-Estado.

Vista do Canal de San Marco e da ponta da Giudecca a partir da torre de San Giorgio Maggiore, em Veneza

Vista do Canal de San Marco e da ponta da Giudecca a partir da torre de San Giorgio Maggiore

E no cais vizinho, com os famosos leões à vista, facilmente o viajante adivinhará que a melhor perspectiva de Veneza está ao alcance de uma brevíssima viagem de vaporetto. Só há que fazer a travessia do Canal de San Marco e aportar a San Giorgio Maggiore, a ilha que se vê em frente. A basílica, obra-prima de Palladio, merece a melhor atenção do viajante, note-se. Mas siga-se ao que se foi e deixe-se a visitação para depois das vistas. Suba-se ao cimo da torre (há um elevador) e admire-se o soberbo panorama sobre o bordado de canais e telhados da cidade, com o lamento de não se possuir asas para sobrevoar tudo o que o olhar alcança. Nenhuma incerteza restará sobre a singularidade que distingue Veneza das suas congéneres anfíbias da Europa.

GUIA DE VIAGENS A VENEZA

Este é um guia prático para viagens à cidade de Veneza, localizada na região de Véneto, norte de Itália, com informações sobre a melhor época para visitar, como chegar, os melhores hotéis da cidade e sugestões de actividades dentro e fora de Veneza.

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Uma cidade como Veneza não escapa a hordas de turistas praticamente o ano todo. Ainda assim, se o objetivo for minimizar esse problema, vale a pena apostar no inverno ou nos meses mais frios do outono. A primavera é naturalmente agradável em Veneza, com o verão posicionada como a estação do ano a evitar.

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Várias companhias aéreas permitem voar entre Portugal e Veneza, mas a TAP é a única a oferecer voos diretos.

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No que toca a hotéis em Veneza, convém referir que o preço médio do alojamento é, regra geral, dos mais elevados de Itália. Aqui fica uma seleção das mais elogiadas unidades hoteleiras venezianas.

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O site oficial do Turismo de Itália oferece informação atualizada sobre as principais atrações turísticas das distintas regiões de Itália, incluindo, naturalmente, a magnífica cidade de Veneza.