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Viagem ao Lesoto

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O Lesoto é o único país do mundo situado em toda a sua extensão acima dos 1.000 metros. No Inverno, a paisagem quase não tem par em África: os telhados das cubatas cobertos de neve, as cascatas congeladas. No Verão austral, estradões de terra levam-nos para dentro de um país arredado, para já, das rotas do turismo. Viagem ao Lesoto, enclave no interior da África do Sul.

Por Humberto Lopes

Onde fica o Lesoto [Google Earth]?



MASERU, CAPITAL DO LESOTO

Maseru, a capital, é, na sua pequenez e tranquilidade, um cartão de visita do país. Uma mão-cheia de avenidas, actividade comercial intensa no centro, sobretudo aos sábados, mercados de rua franqueando uma mescla de coloridas roupas africanas e artesanato - tecelagem, cestaria, alguma cerâmica. Um ou outro anúncio acusa a presença de uma loja chinesa, com essa heteróclita quinquilharia que prossegue paulatinamente a sua longa marcha de conquista do planeta. É a segunda vaga chinesa em África, após as estratégias de imperialista solidariedade com os novos países independentes nos idos de 60.

Viagens Lesoto: O cavalo é o principal meio de transporte no Lesoto
O cavalo é o principal meio de transporte no Lesoto

Dois dias depois, lá no meio das montanhas a caminho de Semonkong, decido parar para um refresco numa aldeola de cubatas dispersas, e este retrato leva mais umas peremptórias pinceladas. Entro num barracão de alvenaria e telhado de zinco que faz de supermercado local. Do lado direito, entre pilhas de cobertores basotos, avisto um velho frigorífico a abarrotar de refrigerantes e cerveja sul-africana. À esquerda, sentado atrás do balcão, imóvel, um chinês de rosto impenetrável, penugem de cinco pêlos colada ao queixo, dá ordens a dois empregados negros. O Lesoto regista uma venerável unidade étnica, apenas quebrada por um punhado de residentes asiáticos, ocupados, precisamente, em actividades de comércio, sector em que detêm uma posição (cada vez) importante.



LESOTO, UM MUNDO À PARTE

Não é preciso penetrar muito nos meandros da política nacional e internacional para perceber a extraordinária dependência do Lesoto. Em virtude da sua circunstância geográfica, a estabilidade do país acaba por ser um assunto, também, da África do Sul. Há alguns anos, aliás, uns (breves) motins em Maseru desencadearam a intervenção imediata das forças militares sul-africanas. As altas montanhas do Lesoto são a fonte da água que alimenta os rios do Eastern Free State, do Eastern Cape e do Kwazulu-Natal, os territórios do vizinho gigante que cercam integralmente o país dos Basothos. Uma riqueza incomensurável em tempos de (crescente) incerteza climática.

Aldeia na rota de Semonkong, no coração do Lesoto
Aldeia na rota de Semonkong, no coração do Lesoto

Em termos de produção de riqueza, parece não restar muita margem de manobra ao Lesoto. Nas lojas, a maior parte dos produtos à venda - alimentares e outros - vem da África do Sul ou tem o selo Made in China. Em consequência, e depois da recente crise dos têxteis, cresce a ajuda internacional, multiplicam-se os eternos projectos de desenvolvimento que dão trabalho a técnicos estrangeiros e geram quilos de papel em relatórios que parecem sair da lavra do velho e incorrigível Pangloss. E enquanto o Lesoto espera por esses dias que o transformarão, usando a linguagem do personagem de Voltaire, no melhor dos mundos, o turismo dá uns passos tímidos, e desatam-se, a propósito, universais discursos de louvaminha ao paliativo.

Tão tímidos são esses passos e tão escassos se mostram os viajantes por caminhos e aldeias perdidas nas montanhas que o acolhimento que lhes é reservado pouco tem da indiferença ou calculismo que acompanha o turismo de massas. Não há, à beira da estrada, lojas de artesanato inventado quase na hora para trocar por dólares ou rands, apelos à compra das usuais bugigangas incaracterísticas e inúteis que os turistas levam para casa como “souvenir“. Há, isso sim, sorrisos abertos, acenos espontâneos, curiosidade sem o cálculo da contrapartida, um sem fim de experiências, enfim, que escasseiam cada vez mais num planeta onde a calamidade do turismo de massas se vai instalando como doença endémica. Para já, o Lesoto é ainda um mundo à parte.



CHAPÉUS HÁ MUITOS

Pouco há a fazer em Maseru. Para sul, a estrada que conduz a Mafeteng e, depois, a Moahale's Hoek, corre entre colinas suaves que estão longe de representar a paisagem dominante no Lesoto. Mas o percurso vale por isso mesmo, pelo contraste que esta periferia oferece relativamente ao centro do país, adivinhado no fio do horizonte por um recorte maciço de alta montanha - o ponto mais alto é o pico de Thabana-Ntlenyana, com 3.482 metros.

Viagens Lesoto: Sorrisos nas montanhas
Sorrisos nas montanhas do Lesoto

São terras baixas, aqui, zona de transição para a fronteira sul-africana. Mas, volta e meia, fazem-se anunciar já, em súbitas irrupções no meio de sumárias planícies, outros carismáticos desenhos orográficos do Lesoto, montanhas solitárias de forma cónica, que se diz serem evocadas nos típicos chapéus da nação dos Basotos. Na verdade, chapéus há muitos - não tardaremos descobrir - de variegados e imprevisíveis feitios, alguns adornados com símias caudas, outros com berloques, certos mais comedidos, alternando nos estilos e com gorros de lã consoante a geografia e a altitude.

Em Moahale's Hoek a estrada continua a sua correria de asfalto para Moyeni, onde se descobriram umas quantas pegadas de dinossáurios e algumas séries de pinturas rupestres. Outra opção é virar para o interior e iniciar uma incursão ao âmago do país, por um atalho em terra, transitável, todavia, por um automóvel vulgar. O objectivo é Malealea, a três horas de distância. À medida que vamos subindo, o cenário renova-se. Atravessamos extensões de terra fértil, cultivada (feijão, milho, batata, lentilhas), sempre abraçadas por montanhas garbosas e fotogénicas. É uma paisagem singular: alguns dos campos terminam abruptamente junto de desfiladeiros e é frequente o aproveitamento milimétrico das encostas para agricultura em socalcos.

Nenhuma parcimónia nas paragens. Respondemos aos acenos e sorrisos de pastores e crianças - as duas condições amiúde reunidas - e tentamos comunicar por falas, gestos, olhares. Pouquíssimos falam inglês, a segunda língua do país, e mesmo assim, magras palavras. Expressam-se em sesoto, a língua dos Basotos. Pedem para ser fotografados, sem nada exigir em troca, e premeiam-nos com sorrisos escancarados e olhos brilhantes quando se vêem retratados no pequeno monitor das câmaras.

Continuamos por uma picada estreita e íngreme que se afunda agora num desfiladeiro, leito de núpcias de dois rios, o Makhaleng e o Massemousse. Pinheiros, ulmeiros e choupos acompanham a estrada na descida até ao vale, entalado entre serranias despidas, avermelhadas pela luz do crepúsculo. Nas margens dos rios há terrenos cultivados, bordados de verde em formas geométricas mais ou menos regulares, e o panorama lembra um pouco certos vales do Médio Atlas, em Marrocos.



VIAGEM DE MALEALEA A SEMONKONG

O Malealea Lodge é um aglomerado de cabanas “à moda tradicional”, o que quer dizer que são edificadas em barro e cobertas de colmo. Dispersas no meio de um bosque, há-as de perfeição e conforto variáveis, com os preços a oscilar em função de tais atributos. No local é possível combinar expedições cuja duração varia de “uma hora a seis dias”. De pónei ou a bordo de um 4x4, as possibilidades de exploração do Lesoto profundo passam por quedas de água - as de Bothoela, de Ketane ou as do rio Maletsunyane -, aldeias de montanha como a de Sekoting, ou pinturas rupestres em paragens esconsas.

Estradas de terra ligam as povoações do interior do Lesoto
Estradas de terra ligam as povoações do interior do Lesoto

No dia seguinte partimos para Semonkong, de novo por um atalho, com cinco horas de solavancos inscritas na agenda, desta vez a exigir mais um todo-o-terreno do que uma ronceira viatura de cidade. Subidas e descidas acentuadas, curvas de 360 graus, esguias, funâmbulas picadas à beira de precipícios. No horizonte, em sucessivas ondas de azul e cinza, montanhas e mais montanhas. E povoados dispersos de cubatas cobertas de palha, nunca mais de um punhado delas, por vezes com hortas e milheirais nas proximidades, um ou outro rebanho de cabras alvíssimas e lãzudas.

Cabe dizer que o trânsito automóvel por estes carreiros é raro, quase nenhum. Mas cruzámo-nos amiúde com os omnipresentes pastores, cobertores tradicionais sobre as costas e presos à frente por um alfinete, nas mãos um bordão decorado com pormenores coloridos - o “m'lamu”. Acenam-nos da brida dos cavalos, sem parar, e se andam a pé aproximam-se invariavelmente movidos pela curiosidade.

Em Ramabanta, onde se situa uma das mais simpáticas pousadas do Lesoto, o Trading Post, cortamos para oeste, para abreviar caminho. O estradão começa a ganhar altitude, a vegetação vai rareando, uma espécie de giestas e brancas flores alpinas cobrem os campos varridos por um vento gelado. Num passo de 3096 metros, no coração da cadeia montanhosa de Thaba Putsoa, o veiculo bamboleia à passagem de fortes rajadas de vento. Vale a pena parar e olhar para trás, para o imenso vale glaciar que acabamos de atravessar.



BAPTISMO DE GELO NO LESOTO

Do outro lado do cume, o cenário muda de género, mais suaves as colinas, e uma nota bucólica percorre as margens do Maletsunyane, berço de pastagens frequentadas por manadas de vacas. O rio serpenteia com graciosidade ao lado da estrada, como num jogo infantil, até passar ao lado do povoado. Apesar de estar situado praticamente no coração geográfico do Lesoto, Semonkong assemelha-se a algo próximo de uma última fronteira, um aglomerado desajeitado de casas, cabanas com telhados colmados, barracões cobertos de zinco e cingidos por ruas enlameadas. Não seria grande a estranheza se de um dos lados da “main street” viesse em tropel o bando de Jesse James... Mas os tempos são outros: foi num sítio assim que me lembro de ter visto o supermercado do senhor Hua Long, importador chinês pioneiro do novo (des)equilíbrio de forças que promete marcar o século XXI...

O Semonkong Lodge esconde-se entre uma rude penedia e um riacho cantarolante, em sítio esquivo, protegido dos ventos da montanha. A paisagem à volta pede vagarosos caminhares; as fragas dão lugar nas imediações a trechos pintalgados de verde cruzados por veredas usadas por pastores e outros andarilhos. A grande atracção chama-se Maletsunyane Falls, a meia dúzia de quilómetros. Chega-se lá a cavalo: para isso o Semonkong Lodge tem uns avisados equídeos que já conhecem o caminho de cor e salteado. A vista das cascatas, com cerca de 200 metros de altura (um dos pontos mais altos do mundo utilizados na prática do rappel), merece bem o passeio por trilhos pedregosos e escorregadios. E activas as birras das meteorologias de montanha, o cenário de altitude ganha composição, textura, movimento, com um súbitas barragens de granizo gélido, cortante como agulhas. São restos do severo Inverno austral, que ainda há poucas semanas enchia de neve os telhados das cubatas do Lesoto.



Abrigo de montanha, nas terras altas do Lesoto
Abrigo de montanha, nas terras altas do Lesoto
Viagens Lesoto: Paisagem de montanha em Malealea
Paisagem de montanha no Lesoto, em Malealea


AS ÁGUAS DA ESPERANÇA

A partir de Semonkong há dois itinerários possíveis para alcançar Katse, junto à barragem que faz parte do ambicioso Lesotho Highlands Development Project (LHDP), um empreendimento que representa, também, uma estratégia da África do Sul para garantir o controlo dos recursos hídricos da região. O primeiro é mais curto, mas também mais difícil. Há que cortar para Mohale, nas imediações de uma barragem gigantesca, e seguir depois por estrada não asfaltada na direcção da montanha de Thaba Tseka. O percurso só é aconselhável a um todo-o-terreno, mas o cenário é dos mais espectaculares do Lesoto. O outro trajecto, via Roma e Teyateyaneng, tem a vantagem de ser feito por estrada asfaltada (beneficiada no âmbito do LHDP), proporcionando, ao mesmo tempo, a oportunidade de visita a alguns centros de produção artesanal de mantas e tapetes. São conhecidas, sobretudo, as cooperativas de Teyateyaneng e de Leribe. Os cartazes com as indicações de acesso são bem visíveis para quem atravessa estas povoações.

Arquitectura popular do Lesoto
Arquitectura popular do Lesoto

Depois de Hlotse, perto da fronteira de Ficksburg, a estrada bifurca-se. Para nordeste, inflectindo mais adiante para sul, atravessamos várias passagens com mais de 3000 metros de altitude, uma zona onde os desportos de neve são garantidos durante o Inverno austral. Acompanhando a estrada a leste, corre o Drakensberg, um maciço montanhoso que faz de fronteira com a África do Sul e que do outro lado está integrado num dos mais importantes parque naturais do Kwazulu-Natal.

A outra opção, na direcção de Katse, segue por um magnífico vale, muito fértil e bastante povoado, até à Reserva de Bokong (habitat de águias e outras espécies ornitológicas), subindo-se depois até cerca de 3100 metros, onde o miradouro de Mafika Lisiu se debruça sobre uma paisagem vertiginosa. A descida para Katse é tão sinuosa como a subida até Mafika Lisiu. Algumas aldeias têm um ar mais tropical, mas continuamos acima dos dois mil metros. A vegetação espelha maior pluviosidade que no sul do país e a vista do primeiro braço da barragem de Katse, rodeado de altos-relevos verdejantes (e com uma assinalável semelhança com os meandros durienses), é bem uma evidência da importância da região em termos de recursos hídricos.

O plano de desenvolvimento baseado nestas águas de esperança, também conhecido por Highlands Water Scheme, visa um amplo leque de objectivos e abrange diversos sectores. Para além da produção de energia eléctrica destinada ao abastecimento da região afro-austral, foram também consideradas a alimentação da rede hidrográfica, infra-estruturas para o desenvolvimento de desportos aquáticos e do turismo, e a criação de condições mais propícias à sobrevivência da vida selvagem, num país onde períodos de seca costumam alternar dramaticamente com chuvas torrenciais.



Viagens: O rio Maletsaneyane, a caminho de Katse, no centro do Lesoto
O rio Maletsaneyane, a caminho de Katse, no centro do Lesoto
As Maletsaneyane Falls, as mais altas cascatas do Lesoto
As Maletsaneyane Falls, as mais altas cascatas do Lesoto


GUIA DE VIAGENS


VIAGENS AO LESOTO

O Lesoto é um enclave dentro da África do Sul, entre as províncias do Kwazulu-Natal, do Eastern Cape e do Free State, a cerca de 600 km a sul de Joanesburgo. Voar até esta cidade e alugar aí um automóvel é uma possibilidade, embora a insegurança na histórica capital do ouro sul-africana seja um factor desmobilizador. Outra hipótese é optar por um programa especial da agência SET Tours, com sede em Maputo. A partir da capital moçambicana, este operador tem um itinerário de dez dias que combina quatro países: Moçambique, Suazilândia, África do Sul e Lesoto, com incursões a algumas das zonas assinaladas na reportagem.


QUANDO VIAJAR PARA O LESOTO

Em Julho e Agosto, a neve é uma constante nas terras altas do Lesoto, pelo que essa época pode ser ideal para quem aprecia a prática do esqui ou, simplesmente, paisagens nevadas. Em Outubro e Novembro, as temperaturas são bem mais moderadas (com noites, ainda assim, frias) e as deslocações mais fáceis. É uma época boa para trekkings e passeios a cavalo.


HOTÉIS NO LESOTO

Embora a oferta seja limitada, há algumas pousadas de referência. Além das referidas no texto da reportagem (Malealea Lodge, Semonkong Lodge e Trading Post, em Ramabanta), assinala-se o New Oxbow Lodge, que detém uma localização estratégica para aficionados de actividades na neve.


INFORMAÇÕES

Para os cidadãos da União Europeia não é necessário visto para entrar no Lesoto. As formalidades de fronteira são simples e rápidas. A moeda local, o maluti, tem paridade com o rand, que é geralmente aceite no Lesoto. A rede de transportes é muito deficiente e as ligações de autocarro muito lentas, pelo que é aconselhável aos viajantes independentes o aluguer de automóvel, a não ser que se disponha de mais de um mês para conhecer o país.

Contactos: SET Tours, Av. 24 de Julho 2096, 1º, Maputo, tel. 25821311244; fax 25821311248; e-mail: set-tours@teledata.mz. Em Portugal, a Soltrópico e o MundoVip comercializam o programa de viagens da SET.



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