Destinos África Marrocos Sara Ocidental

Sara ocidental, o deserto não é tudo

Lâayoune, Sahara Ocidental

De Smara a Dakhla, a última cidade antes da fronteira com a Mauritânia, o território do Sara Ocidental é muito mais do que simples colecção de paisagens monótonas e sufocantes. A variedade climática e cénica é tão apelativa à viagem quanto o acolhimento caloroso das suas gentes.

O Sara Ocidental

Tifuk é um jovem saraui que fala, como muitos dos seus conterrâneos, várias línguas. De forma um tanto tosca, mas fala: inglês, castelhano, alemão, italiano. Como muitos outros sarauis, parece não gostar de falar francês. É a língua do ocupante. Gosta de castelhano - aprendeu-o no ambiente familiar (no Sara, os mais velhos ainda falam a língua do antigo colonizador, a par do dialecto hassania e do árabe) e “apurou-o” em Espanha, numa curta experiência de emigração. Foi expulso por trabalhar sem documentos. Agora, faz pequenas tarefas para um hotel acabado de inaugurar. É a primeira vez que fala com alguém que chega de Portugal, mas já tem tido contacto com viajantes de outras proveniências.

Lâayoune, capital do Sara Ocidental

Ruela de Lâayoune, capital do Sara Ocidental

Apesar do impasse em que se encontra a questão do Sara Ocidental, é possível viajar de forma independente por uma grande parte do território, de Lâayoune e Smara, no limite norte, junto a Marrocos, até à fronteira com a Mauritânia. As excepções são as zonas de interior mais próximas da fronteira com a Argélia - por razões de segurança, de acordo com as autoridades marroquinas, que administram o território desde 1975.

Tifuk ajudou-me a resolver o “problema logístico” do jantar, depois de uma viagem de sete horas de autocarro, desde Guelmin, via Tan-Tan, o ponto de partida da Marcha Verde com que o rei Hassan II iniciou a ocupação do Sara Ocidental. O restaurante popular onde jantamos, ao ar livre, não tem stock de matéria-prima para as refeições. O cliente adquire ao lado, a menos de uma dezena de metros de distância, aos vendedores de peixe, de carne ou legumes, o necessário para grelhar no carvão, ali mesmo à vista dos comensais. A taxa de serviço cobrada pelo restaurante é de cinco dirhams, menos de cinquenta cêntimos de euro. A bebida sai da mochila do viajante ou é comprada, também, na mercearia do lado.

Esta fórmula de saciar a fome aos viandantes não é, todavia, generalizável ao resto do território. A oferta hoteleira e de restauração é razoável e bastante variada, com muitas expressões bastante mais convencionais e para desiguais gostos e bolsas. No domínio dos transportes, há três ou quatro empresas que asseguram ligações locais e de longo curso, desde as três horas entre Lâayoune e Smara (ou as nove até Dakhla, lá para o sul, a seiscentos quilómetros) até às jornadas de quinze ou mais horas até Marraquexe e Casablanca.

“Soyez le bienvenue”

Nas barreiras policiais marroquinas, instaladas um pouco por toda a parte, e após as perguntas habituais sobre a proveniência, destino e razões da visita, as interacções terminam invariavelmente com o proverbial "soyez le bienvenue" magrebino. Um ou outro polícia mais carrancudo é excepção.

Lâayoune

Cercada pelo deserto, Lâayoune ensaia técnicas de retenção das areias

As experiências de contacto social no Sara merecem, aliás, um subcapítulo. As políticas de migração empreendidas por Hassan II só em parte terão dado resultados desejados em termos de miscigenação, mas uma certa marca distintiva nas interacções sociais no território, sobretudo se pensarmos no que acontece genericamente no território marroquino e se passarmos por alto sobre a diversidade que também aí é possível identificar. No Sara Ocidental, sem dúvida numa medida proporcional à sua condição de colónia, há uma atmosfera bastante mais relaxada nas relações sociais experimentadas pelo viajante, sem aquela paradigmática pressão para a transacção comercial, por um lado, e, por outro, sem o fechamento que muitas vezes caracteriza alguns dos contactos lá mais para norte do reino. Mesmo se os colonos marroquinos reproduzem frequentemente as narrativas que legitimam a situação (colonial) em que se constituem cidadãos privilegiados, é visível que é gente liberta de alguns constrangimentos da pressão social, gente embarcada na construção de ambientes sociais mais descomplexados e abertos a mudanças.

Mas há, ainda, outro factor nesta história: a cultura saraui favorece uma maior comunicabilidade e uma maior abertura no convívio com os estranhos, efeito, porventura, da herança nómada ainda relativamente próxima. Este axioma é válido também para as interacções com as mulheres sarauis, o que testemunha uma diferença substancial no estatuto das mulheres na sociedade saraui. Cobertas dos pés à cabeça pelas melhfas, uma espécie de túnica feita de uma única peça de tecido - geralmente de cores muito vivas -, as sarauis não se escusam a efusivas saudações (e a calorosa conversação) aos viajantes, e muitas vezes por iniciativa própria. Não é raro ouvir-se um "Bonjour, bonjour" a soar sob os lenços das transeuntes.

Um museu saraui

Um dos tesouros que aguarda o viajante é, justamente, o do encontro com a gente local, das cidades ou de pequenas povoações "perdidas" deserto, as conversas improvisadas à volta de um pequeno tabuleiro com um bule e três copos de chá. O ritual e a bebida são diferentes do que conhecemos em Marrocos; são bem mais semelhantes ao que encontramos mais a sul, em terras da Mauritânia ou do Senegal. Duas condições imprescindíveis a esta superior “actividade”: verbo e tempo.

Trajes sarauís no centro de Dakhla

Trajes sarauís no centro de Dakhla

Não obstante a ancestralidade cultural e social, o Sara não é terra de museus. Farão falta? O juízo da potência ocupante foi o da abertura de um museu da cultura saraui em Lâayoune, a capital. A instituição está junto a um gigantesco recinto desportivo, curiosamente à vista de uma delegação do Partido Istiqlal, o do poder. É um museu pobre, de certa maneira, apesar de algumas peças significativas. O espaço é improvisado, no pior dos sentidos, sem cuidados de exposição, de luz, de informação. A primeira impressão do viajante persiste até ao final da visita - que se aconselha, em todo o caso -, e é a de uma peneira para tapar o sol. Entre o espólio estão objectos domésticos, sacos e malas de couro usadas pelos nómadas, selas para os camelos, vestuário e jóias, alfaias agrícolas e a reconstituição do interior de uma jaima, a tenda tecida em pele de camelo que os nómadas sarauis habitavam antes da sedentarização forçada pelo colonialismo espanhol.

Ainda em Lâayoune, vale a pena deambular pelos bairros populares, na parte mais antiga da cidade construída pelos espanhóis, e aí descer até ao rio Seguiat el Hamra, apreciar a variedade arquitectónica - do modesto casario de cúpulas brancas, com a função de reflectirem os raios solares, aos modernos edifícios da administração marroquina - e passear pelos mercados e pela grande Place de Mechouar, para acabar o dia, finalmente, numa das esplanadas da Av. Mekka Mokarrama a beberricar chá.

De Smara a Dakhla

Smara, a caminho da Argélia (a fronteira está actualmente fechada), é uma cidade mais antiga, uma velha etapa nas andanças dos nómadas a caminho da África subsariana. O complexo semi-arruinado do Palácio e da Grande Mesquita, construído pelo sultão Ma el Ainin no século XIX, está ao alcance de uma pequena caminhada, mesmo à beira do leito seco do Seguiat el Hamra. Em Smara, e mais uma vez, os bairros e os mercados populares são espaços a visitar, onde a gente local se apraz em espontâneas cavaqueiras na língua de Cervantes.

Dunas nos arredores de Dakhla

Dunas litorais nos arredores de Dakhla, Sara Ocidental

Mais para sul vem Boujdour, cujo cabo recebeu visita do nosso Gil Eannes em 1434. Uma estrutura marcada já pela erosão pretende “evocar” o que naquela época constituiu um feito assinalável para a navegação europeia.

A cidade desenvolveu-se bastante nos últimos vinte anos, tal como outras localidades do Sara Ocidental. A actividade da pesca é a principal fonte de riqueza, à semelhança de Dakhla, onde também labutam frotas portuguesas. Para lá chegar, há que empreender uma jornada de mais de sete horas para vencer a distância desde Lâayoune.

A baía e o regime de ventos de Dakhla são muito apreciados pelos praticantes de kite-surf e há quem se desloque até à região só para exposições ao sol nas praias cálidas dos arredores da cidade. Estas migrações são justificadas pela estabilidade climática, pelas temperaturas médias anuais, que rondam os 25 graus, e pelo sol que brilha generosamente todo o ano. Num dos extremos da baía há um espaço de acolhimento para as auto-caravanas dos reformados europeus que ali vão passar o Inverno.

Em Dakhla a atmosfera é compassada (o clima ajuda na composição, naturalmente) e há um expressivo ambiente de fronteira, plural nas falas e nas gentes. A Mauritânia ainda fica à distância de umas quantas horas de viagem, é verdade, mas os mercados mauritanos e o comércio de rua exercido por senegaleses e gente de origem ainda mais austral, à beira do pequeno Hotel Sahara, são um prodígio de animação, que se acentua ao fim da tarde, não obstante os semblantes melancólicos dos vendedores subsarianos. Um post-scriptum: as terras mais férteis do Sara Ocidental estão ali à mão de semear, pródigos oásis a pouco mais de uma vintena de quilómetros de Dakhla. O deserto é belo, mas é só uma parte do cenário.

Sara Ocidental, um país por nascer?

Sobre o Sara Ocidental há, obviamente, mais do quem uma narrativa, cada uma delas servindo interesses diferentes (e conflituais). Marrocos insiste numa ancestral "“marocanité” do território - a tese foi recentemente retomada e renovada por um dos conselheiros de Mohammed VI, Lahcen Mahraoui, durante uma apresentação da proposta marroquina de um regime de autonomia para o território. É uma narrativa que fala de antigos relacionamentos entre os sultões do Magreb e os nómadas, e de um período de ocupação do território há alguns séculos atrás. Há, relativamente a estes aspectos, outras e divergentes narrativas que preferem sublinhar as sucessivas tentativas de sultões de Marrocos para anexar os territórios do Sara Ocidental, tentativas que se defrontaram, como aconteceu com a do sultão Ahmad al Mansor no século XVI, com a resistência dos Sarauis.

Avenida Hassan II, centro de Smara

Avenida Hassan II, em pleno centro de Smara

O povo saraui é herdeiro das tribos beduínas Beni Hasan, que terão migrado através do Sara desde o Yemen, por volta do século XIII. A Conferência de Berlim, com as suas lógicas arbitrárias de régua e esquadro, definiria as actuais fronteiras do Sara Ocidental e transformaria a região, já no final do século XIX, num protectorado espanhol, abrindo caminho ao processo de colonização.

A exploração de fosfatos das minas de Bou Craa - as maiores do mundo - iniciou-se nos anos 60 do século XX e tem hoje Espanha e França como principais clientes - Portugal é também um dos destinos das exportações marroquinas. O território do Sara Ocidental tem quase 300 000 quilómetros quadrados e - mesmo constituindo uma região de desertos e zonas áridas - possui riquezas que não passam despercebidas: jazidas de cobre, ferro e urânio e, ainda, alguns dos maiores bancos de pesca do mundo.

Em 1966 é aprovada a primeira resolução da ONU que aponta para a realização de um referendo como forma de resolver o devir do território. O compromisso espanhol de realizar o referendo em 1975 acaba por naufragar nas águas agitadas por diversos interesses estratégicos, e os “inesperados” Acordos de Madrid consagram uma divisão do território por Marrocos e pela Mauritânia. Nesse mesmo ano o rei Hassan II apressa-se a lançar a chamada Marcha Verde, uma invasão “pacífica” (na verdade, os 350 mil marroquinos da marcha foram seguidos pelo exército de Rabat) que abre caminho à ocupação permanente do território por Marrocos. Ainda em 1975, em 27 de Fevereiro, a Frente Polisário declara a independência da República Árabe Saraui Democrática (RASD), reconhecida na ocasião por várias dezenas de países, incluindo a OUA (agora União Africana). A Frente Polisário abre de seguida, com o apoio da Argélia e a partir deste país, uma frente de guerra contra Marrocos que duraria até ao início da década de 90, data do cessar-fogo que se mantém em vigor até hoje, monitorizado por um contingente da ONU.

Não obstante o actual clima de paz, o impasse persiste em torno da realização do referendo, exigido pelos independentistas, por um lado, e recusado por Marrocos, por outro. O pomo da discórdia é o censo da população, que continua, também, por realizar.



Jovens sarauís no mercado de Dakhla

Jovens sarauís no mercado de Dakhla

Lâayoune, Marrocos

Uma das sedes do poder marroquino, em Lâayoune

TURISMO NO SARA OCIDENTAL

Este é um guia prático para viagens de turismo pelo Sara (Sahara) Ocidental, com informações sobre a melhor época para visitar, como chegar, pontos turísticos, os melhores hotéis e sugestões de actividades na região.

Clima

QUANDO IR

A melhor época para viajar para o Sara Ocidental é a que decorre entre os meses de Outubro e Abril. A partir de Maio começa um período caracterizado por ventos fortes e frequentes tempestades de areia, que dura até Setembro, mês que é particularmente quente em todo o território. Os meses ideais para viajar são os de Fevereiro e Março, que correspondem a um período em que, geralmente, as noites já são menos frias e as temperaturas diárias não ultrapassam, ainda, os 30 graus.

Automóvel

COMO CHEGAR A LÂAYOUNE

Uma viagem de automóvel a partir de Portugal e até Lâayoune, a capital do Sara Ocidental, representa mais de 2.000 km; quase 3.000, se se incluir Boujdour e Dakhla no itinerário. Uma viagem por terra pode totalizar, portanto, mais de 6.000 km. Uma alternativa mais cómoda e mais rápida é voar para Casablanca, a partir de Lisboa ou via Madrid, e apanhar aí uma ligação interna para Lâayoune. A Royal Air Maroc tem voos diários para a capital do Sara Ocidental e para Dakhla. Dentro do território, a CTM, a Supratours e a SATAS oferecem ligações em modernos autocarros entre as principais localidades. Para curtos e médios percursos, há a opção dos grand-taxis colectivos.

Onde ficar

ONDE DORMIR

Em qualquer das principais cidades do Sara Ocidental há oferta hoteleira de qualidade variável e, no caso de Lâayoune, em número significativo. Na capital, os melhores hotéis, o Al Massira, o Nagir, o Sahara Line, o Lakouara e o Parador estão frequentemente ocupados com pessoal do contingente da ONU. Vale a pena, ainda assim, tentar reserva no Lakouara (Av. Hassan II) ou no Nagir (Place Bir Anzarane). Há contudo, alternativas mais modestas mas bastante aceitáveis, como os hotéis Hotel Mekka e Jodesa, ambos na Av. Mekka Mokarrama.

Em Smara, a oferta é mais apertada e o conforto limitado. A melhor opção é, de longe, o renovado Hotel Amine, junto à Av. Hassan II.

Em Boujdour, há duas opções: o Al Qods e o Taiba, ambos no Boulevard Hassan II.

Em Dahkla há amplas possibilidades de escolha, do luxuoso Sahara Regency (Boulevard de Walae) ao homónimo e mais popular Hotel Sahara (Av. Ahmed Laroussi). Uma opção intermédia, com bom compromisso entre preço e qualidade, é o Hotel Al Arham, numa ruela entre o Sahara e o Café Al Jazira.

Hotéis em Dahkla

O que comprar

COMPRAS

Há em Lâayoune um mercado de artesanato, junto à Place Mechouar. Taleb Ali é um artesão saraui (com atelier na Av. Mekka Mokarrama, 43) que herdou a tradição familiar de fabrico de jóias. Smara é um mercado mais favorável para adquirir peças de joalharia saraui. Na zona dos souks de Smara, na Av. Moahmmed V, entre a esquina do Boulevard de Stade e a mesquita nova, vale a pena procurar a lojinha de Barak, outro artesão saraui.

Seguro de viagem

SEGURO DE VIAGEM

O seguro de viagem da World Nomads oferece uma das mais completa e confiáveis apólices de seguro do mercado. São os seguros recomendados por entidades prestigiadas como a Lonely Planet, Footprint, Hostelworld e National Geographic.

Pesquisar seguro de viagem