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VIAGENS AMÉRICA DO NORTE » MÉXICO » OAXACAOaxaca
OAXACA, UMA CERTA LUZ INTERIORDos acordeons que os índios zapotecas tocam nas ruas desprende-se uma luz nostálgica e triste, um pouco agónica talvez. A América pré-hispânica, sobrevivente quase exausta da razia pós-colombiana, ainda tem este milagre de Oaxaca, terra mais ou menos remota e recolhida para lá das cordilheiras da Sierra Madre, relicário de tesouros inumeráveis que as mãos dos zapotecas de Monte Albán talharam em ouro e em jade, reservatório de antiquíssimos gestos que continuam a repetir-se dia após dia sobre os teares da pequena aldeia de Teotitlán del Vale, onde os fios de lã coreografam, a par de motivos da imagética indígena, cores e formas de Klee, Miró, Picasso, Vasareli...
Eis Oaxaca, cidade espantosamente cosmopolita, onde podemos transitar do grande tiangui (mercado indígena) de sábado, babel que nos faz mergulhar na sinfonia caótica dos quinze dialectos locais, para um posto público da internet com portas abertas para o mundo numa rua a dois passos do Zócalo. Todas as grandes praças das cidades mexicanas são conhecidas popularmente por Zócalo - o centro geográfico, o coração palpitante da máquina urbana, o ponto nevrálgico onde se cruzam todos os caminhos, todos os desejos, todas as pressas e todos os vagares. Em Oaxaca, sob a densa sombra dos loureiros e das acácias salpicadas de flores vermelhas, à roda do coreto plantado num oásis de sol, há sempre crianças a correr como borboletas atrás de balões coloridos, uma infatigável e descontraída corrente humana fluindo por entre os jardins, melodias ondulantes e ritmadas de marimbas a mesclarem-se com as batidas secas dos tambores tocados por pacifícos guerreiros emplumados, numa mestiçagem de sons que soa como um retrato do México, enquanto no ar paira o odor estimulante e exótico dos tamales, do mole negro ou do pastel de Sola de Vega, uma saborosa mistura de milho moído com passas, amendoim, carne esfiada e tomate. No pequeno mercado informal acomodado ao lado da Catedral, as cores e os bordados minuciosos das blusas e dos huipiles índios, tal como as formas extravagantes das figuras artesanais de madeira que lembram o imaginário de Bosch, rematam um quadro que é uma inebriante experiência para os sentidos. Talvez Pablo Neruda pensasse em Oaxaca quando descreveu o México como “uma terra de mantos tingidos de carmim e turquesa fosforescente”, um território “violento na cor e no desenho”. A dimensão colonial de Oaxaca, apreensível ao primeiro olhar pelo traçado geométrico e cadenciado das ruas, e pelas casas baixas e polícromas com as suas janelas vestidas de ferro forjado (a sublinhar uma filiação andaluza, já declarada no primitivo nome de Antequera), será talvez mais discreta, de uma presença serena porque incontornável no momento certo. E esse instante pode ser, por exemplo, o da envolvente visão do belíssimo barroco da Igreja de São Domingos (que tanto perturbou Aldous Huxley pela sua “extravagância”...), uma das muitas construídas na região pelos frades dominicanos - “com o sangue e o sacrifício de muitos índios”, comentário ressentido e amargo de um oaxaqueño. Talvez, afinal, o canto que enche as ruas de Oaxaca não seja a expressão de qualquer nostalgia por um império perdido. Será, porventura, um pouco triste, mas de uma tristeza criadora, de olhos abertos, ancorada na mesma persistência e tenacidade que fez atravessar zapotecas e mistecas, contra todas as vicissitudes da História, os últimos dois mil anos. A tão celebrada luz de Oaxaca, que continua a instalar-se sem cerimónia no coração de tantos viajantes, não é apenas coisa material. E como poderia sê-lo, sendo a luz mais interior de todo o México? OURO, JADE, PALAVRAS
Nos Vales Centrais do planalto de Oaxaca floresceu uma das mais importantes civilizações pré-hispânicas do continente americano. A cidade de Monte Albán, construída sobre um cerro que domina três vales encravados entre os contrafortes da Sierra Madre de Oaxaca e da Sierra de las Mixtecas, dois mil metros acima do nível do mar, é um dos mais impressionantes vestígios dessa esplendorosa civilização cujo apogeu se verificou entre 250 e 700 d. C., espaço de tempo que corresponde ao chamado período clássico na cronologia das antigas civilizações mesoamericanas. Os Zapotecas, depositários da antiga herança olmeca, foram os artífices dessa civilização, cuja sofisticação é muitas vezes representada pela arte delicada dos diademas, colares e outras jóias - em ouro, jade, obsidiana e cristal de rocha - que constituem o tesouro encontrado pelos arqueólogos na célebre Tumba 7 de Monte Albán. Mas a História atribui aos Zapotecas outros notáveis créditos: crê-se que no âmbito dos intercâmbios realizados com os construtores de Teotihuacan, no Vale do México, os avançados conhecimentos de astronomia dos Zapotecas terão sido fundamentais para a edificação da cidade, nomeadamente das imponentes pirâmides do Sol e da Lua. Ao esplendor zapoteca seguiu-se uma sombra de séculos que pouco mudou com a conquista e o domínio aztecas. Chegaram depois os espanhóis no séc XVI e fundaram a cidade de Antequera no lugar a que os Aztecas chamavam Huaxyacac, palavra que evoluiu mais tarde para Oaxaca. Duzentos anos depois, Oaxaca assegurava a sua posição como terceira cidade da Nova Espanha, mercê, sobretudo, da intensa actividade no sector têxtil. A História do México reservou para Oaxaca outras linhas de primeiro plano, passíveis embora de valorização diversa. No séc. XVI, logo depois da fundação da cidade, Cortez, caído em desgraça após a trágica conquista de Tenochtitlan, a capital azteca arrasada para dar lugar à actual Cidade do México, recebe de Carlos V o título de Marquês de Oaxaca. Mas seriam necessários ainda mais três séculos para Oaxaca oferecer ao México uma das maiores e mais prestigiadas figuras da sua História: Benito Juárez, um advogado em cujas veias corria sangue zapoteca e que se propôs defender as causas das populações indígenas. Juárez foi presidente do México em 1861, primeiro, e em 1866, após a patética aventura francesa do Imperador Maximiliano, tendo assinado uma série de reformas radicais, nomeadamente uma Reforma Agrária, e levado aos centros de decisão da República Mexicana questões que estão ainda longe de se terem esgotado. Para o antigo governador de Oaxaca, crente convicto nas virtudes da democracia e do diálogo, foi apenas uma forma de se afirmar fiel, na prática política, às palavras justas da sua máxima de ouro: “El respeto al derecho ajeno es la paz”.
A VISITAR EM OAXACA“O México autêntico está nos mercados”, afirmava Pablo Neruda, confessando a sua crença em que os mercados mexicanos seriam “os mais belos do mundo”. Do mercado de Oaxaca, o grande tiangui que leva à cidade milhares de índios para vender toda a sorte de produtos da terra e artesanais, há quem diga ser o mais autêntico do México. Realiza-se todos os dias (aos sábados, no entanto, é mais interessante) e é um sedutor mosaico de cores, cheiros e sons, com inesperados trios de músicos ambulantes trinando violas e vozes por entre as bancas cobertas de minuciosas pirâmides de chile ou de fruta tropical. Depois das papaias rosadas e amarelas, das mangas de face rubra, dos abacates de pele verde e rugosa, dos tamarindos cor de terra, das guanábanas de polpa branca e sumarenta, das quarenta e duas espécies de chiles, o mulato, o jalopeño, chile de árbol, o xocoxochitl, etc, desfilam as ervas medicinais e aromáticas, por si só um mundo de mistério, ou as flores de cores ousadas e perfumes sem cerimónia, com nomes estranhos e impronunciáveis, num sem fim de bancas e corredores labirínticos. Todas as aldeias dos arredores (Ocatlán, Zimatlán, Miahuatlán, Zaachila, Mitla, etc) têm os seus mercados e um dos mais famosos e concorridos é o de Tlacolula (ao domingo), famoso sobretudo pela presença de muitos artesãos têxteis com os seus coloridos tapetes e sarapes.
A igreja barroca de Santo Domingo (com ornamentação inspirada em motivos índios), o Museu Regional de Oaxaca (onde se pode ver o fabuloso tesouro de Monte Albán), o Museu Rufino Tamayo (excepcional colecção de arte pré-hispânica), o Museu de Arte Contemporânea de Oaxaca ou o Hotel Camino Real (instalado num antigo convento de belos pátios interiores) são algumas das visitas mais interessantes a fazer no centro da cidade. Nos arredores de Oaxaca, em Mitla, os Zapotecas construíram uma série de palácios e lugares cerimoniais que revelam o domínio de uma arte incomparável em todo o México pré-hispânico - o Patio dos Mosaicos exibe nas suas paredes 14 desenhos geométricos diferentes, simbolizando elementos religiosos como Quetzalcoatl, a serpente emplumada, o Céu ou a Terra. A caminho de Mitla, na aldeia de Tule, a poucos quilómetros de Oaxaca, há uma curiosidade, ou mais do que isso, que atrai por breves instantes os viajantes de passagem: um velho ahuehuete, espécie de cipreste gigantesco (50 metros de diâmetro) cuja idade se estima em pelo menos 2.000 anos. Finalmente, os amadores de ruínas encontrarão suprema recompensa num dos lugares mais fantásticos de todo o México pré-hispânico: Monte Albán. O sítio é absolutamente excepcional, assente num teatro de luz intensa situado a 400 metros de altitude, e abriga um conjunto arquitectónico exemplar das técnicas e concepções elaboradas dos zapotecas. Da sua posição privilegiada e estratégica, a antiga capital zapoteca continua a vigiar, como há dois milénios, os vales vizinhos, até muitas léguas de distância, quando o horizonte começa a dissolver-se no desenho agreste da Sierra Madre. Octavio Paz: “Cierra los ojos y abrelos: / No hay nadie ni siquiera tú mismo / Lo que no es piedra es luz”.
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