|
||||||||
![]() |
|
|
VIAGENS AMÉRICA DO NORTE » MÉXICO » YUCATÁNYucatán, México
VIAGEM AO ANTIGO REINO MAIADa capital mexicana a Mérida, capital do Yucatán, são mais de três horas de voo, com uma escala em Villahermosa, no pantanoso Estado de Tabasco. Depois do clima mais temperado do planalto central, o ar abafado e húmido de Mérida pesa sobre a noite carregada de suaves odores tropicais.
A Península do Yucatán, delimitada a norte e a leste pelo Golfo do México e pelo Mar das Caraíbas, é a região mais oriental do estado mexicano e possui um regime climático muito particular. A altitude média pouco supera o nível da água do mar, a pluviosidade durante o Verão é das mais elevadas do país, e quase todo o território - plano e sem significativos relevos montanhosos - se reveste de um imenso manto verde de floresta subtropical. Há sinais de humidade no ar e os cheiros da floresta próxima entranham-se nas ruas da cidade. Com a chuva acabada de cair sobre a terra que guarda ainda restos do calor da tarde, podem ter tombado sobre Mérida as últimas gotas de água do ano. São as águas de Novembro fechando o Outono. O clima sub-tropical da Península assegura um Inverno seco, com temperaturas amenas, dias luminosos e céus invariavelmente azuis. É sábado, e como acontece todos os fins-de-semana em Mérida, os sons sincopados das marimbas apressam-se a invadir as ruas e as praças do centro da cidade. Numa das faces do Zócalo, a praça principal, o amarelo pálido do Palácio Municipal brilha sob a luz dos holofotes. Pouco a pouco, os jardins começam a encher-se com a algazarra das crianças e com intermináveis conversas de mexicanos palradores. SALSA MATINAL EM MÉRIDAA capital do Yucatán conserva quase intacto o seu ar de cidade colonial. Mérida é uma das mais antigas cidades mexicanas - foi fundada em 1542 por Francisco de Montejo - e um dado de superior relevância na sua história é o facto de ter estado durante muitos anos dependente directamente de Madrid. A sujeição administrativa à Cidade do México é um acontecimento tardio e pode ajudar a explicar, juntamente com outros factores, o espírito de independência dos yucatecos. Apenas durante a revolta índia de meados do séc. XIX, que chegou a ameaçar seriamente a cidade, os governantes de Mérida assentiram em reconhecer integralmente a autoridade da capital, em troca do envio de reforços militares.
A cinco ou seis quarteirões a norte do Zócalo, a praça principal, abre-se um amplo boulevard ao velho estilo parisiense, uma larga avenida rodeada de mansões coloniais desenhada no final do século XIX. Esse longo e sofisticado Paseo de Montejo representa uma nota insólita na arquitectura colonial de Mérida, marcada como tantas outras cidades mexicanas construídas sob o domínio espanhol por uma planta quadriculada onde se alinham ruas perpendiculares cuja toponímia utiliza um sistema de numeração. Mesmo que o visitante dispense a curiosidade por estes Campos Elísios yucatecos, onde aliás transcorre uma boa parte da vida nocturna da cidade, é quase impossível deixar de lá dar um salto por causa do Museu de Antropologia e História. O museu alberga um notável acervo arqueológico, muitas das peças expostas provêm de algumas das mais famosas estações arqueológicas maias, Uxmal, Mayapán e Chichén Itzá. Mostram-se notáveis exemplos de cerâmica cerimonial e alguns dos setecentos fragmentos de tecido carbonizado recolhidos no cenote sagrado de Chichén Itzá. A Catedral de Mérida, a mais antiga de todo o continente americano, foi erguida com as pedras de T'ho, a antiga cidade maia que os espanhóis destruíram e cujo centro cerimonial e religioso se encontrava exactamente onde hoje é o Zócalo. O templo fica no lado oposto ao edifício do Palácio Municipal, diante do qual todos os domingos têm lugar exibições de danças tradicionais, garridos manifestos do folclore mestiço da península. «Mérida en Domingo» é o nome de um programa cultural que todos os fins-de-semana implica o encerramento do centro da cidade ao tráfego e enche praças e jardins com tocadores de marimbas, palhaços, mimos, acrobatas e bandas de música. No Parque Santa Lucia, por exemplo, dançam-se freneticamente, às onze da manhã, os ritmos da salsa, do mambo e do cha-cha-cha, tocados pela Orquestra America. O MÉXICO PARA LÁ DE CANCÚN, “TERRA DE GRINGOS”Mesmo apesar do cosmopolitismo do Paseo de Montejo, com as suas hamburguerias internacionais, os hotéis de luxo e as esplanadas abertas até altas horas da noite, uma boa parte da animação de Mérida continua a centrar-se na zona mais antiga da cidade, no Zócalo e nas pequenas praças que coincidem com espaços verdes bem cuidados e abençoados pela sombra de árvores centenárias. É por aí, no Parque Hidalgo, um jardim rodeado de esplanadas de pequenos hotéis, que encontro Juan, um jovem maia originário de uma família do sul do Yucatán, de uma aldeia perto de Chetumal, na fronteira com o Belize. É um dos muitos vendedores de rua que abordam os turistas no centro da cidade.
O rosto de Juan é moreno e magro, os olhos negros e fulgurantes. Convida-me a visitar uma exposição de hamacas, redes em fio de algodão ou nylon muito usadas nesta região e um dos principais produtos artesanais comprados pelos turistas. Juan explica minuciosamente algumas das subtilezas que fazem a qualidade de uma hamaca e elogia a utilidade desses leitos suspensos para o clima da região. Saberá ele que o navegador europeu que deu nome ao continente americano se referiu particularmente às hamacas na descrição que fez do desembarque? É essa referência, aliás, que leva a supor que Américo Vespúcio desembarcou no Yucatán e não na costa de Campeche. Leia-se o que escreveu o navegador florentino por volta de 1504: “Dormem em certas redes feitas de algodão, muito grandes e penduradas no ar. E, embora esta maneira de dormir possa parecer desconfortável, eu digo que é uma maneira suave de dormir, porque era muito frequente o nosso grupo dormir nelas, e dormíamos melhor nelas do que em colchas”. A comunicabilidade de Juan contrasta com a proverbial reserva dos índios maias. Fala-me de aldeias do sul onde o calendário maia ainda é seguido pelas populações. Os Maias estão há cerca de cinco mil anos no Yucatán, e apesar do extermínio subsequente à chegada dos conquistadores espanhóis são hoje cerca de sete milhões. Falam vinte oito línguas, algumas das quais em vias de extinção. As multidões de turistas que devassam as velhas cidades maias suscitam a Juan um esgar. Tem um último conselho: “Olvidate sobretodo de Cancún, es tierra de gringos, por aquí le llamamos Gringolândia”. Por enquanto, a linha de costa das Caraíbas mexicanas ainda conserva lugares paradisíacos, praias desertas e águas esmeraldinas sem o enquadramento de arranha-céus de betão. Um pouco como em Playa del Carmen, pequena cidade cuja economia depende também do turismo, potenciado pela riqueza dos magníficos recifes de coral existentes ao longo do litoral. Há algum tempo, o viajante ainda podia dar-se ao luxo de descansar durante alguns dias num hotelzinho sem preços inflacionados a dois passos das areias de uma praia de águas tépidas. E, quem sabe, sem vontade alguma de regressar a casa, tal como aconteceu com Gonzalo de Guerrero, um navegador espanhol que no início do séc. XVI arribou àquele recatado paraíso, sobrevivente de um naufrágio. Cedo se deixou enfeitiçar pelo lugar e pela gente, acabando por assimilar a cultura maia e ali ficar até ao fim dos seus dias. UXMAL, CHICHÉN ITZÁ E TULUM - NA ROTA MAIAHá vestígios arqueológicos da civilização maia em quatro países da América Central: México, Indonésia, Honduras e Belize. Conhece-se hoje um número impressionante de lugares que testemunham o passado brilhante da civilização maia num tempo muito anterior ao da chegada dos espanhóis, embora se julgue que as selvas do Yucatán, da Indonésia, do Belize e das Honduras continuem a esconder muitos vestígios dessa civilização.
Uxmal, porventura a cidade maia mais interessante do Yucatan, foi um dos principais centros religiosos da região, bastante povoado durante o fim do período clássico, entre 600 e 900 d. C. A partir desta data a cidade foi subitamente abandonada, facto que se atribui à emergência de um novo centro populacional e religioso em Chichén Itzá. Os quatro principais edifícios de Uxmal, o Cuadrángulo de las Monjas, o Templo das Tartarugas, o Palácio do Governador e a Pirâmide do Adivinho, induzem impressões diferentes, seja pela equilibrada proporção das linhas, seja pela ornamentação fiel ao dual princípio religioso/matemático. O Palácio do Governador representa para alguns arqueólogos a nata da arquitectura Puuc, um bom exemplo da decoração geométrica maia, com a técnica do mosaico de pedra. Ao longo da fachada de cem metros predominam as máscaras estilizadas do deus Chac, a divindade da chuva, além de inúmeras figurações da serpente. Não menos impressionante é a Pirâmide do Adivinho, que uma velha lenda conta ter sido construída em apenas uma noite por um anão. O topo da Grande Pirâmide, quase no extremo sul de Uxmal, é o melhor mirante para se obter uma perspectiva global da cidade. Vale a pena esperar pelo crepúsculo e ver a pedra transfigurar-se em ouro e mergulhar depois, lentamente, na sombra da noite. Da Rota Puuc sublinha-se Labná, com o seu belo arco de seis metros de altura decorado com mosaico em pedra, e Sayil (cujo palácio de elegante fachada colunada lembra a arquitectura minóica de Creta). Em Kabah encontramos uma das mais impressivas construções dos Maias, o fantástico Palácio das Máscaras, também conhecido por Codz Poop. Toda a fachada está coberta por trezentas máscaras em pedra do deus Chac. Em Chichén Itzá damos com outra opção decorativa baseada na repetição, numa das paredes do Tzompantli, o Templo das Caveiras, com a representação de centenas de crânios.
O templo-pirâmide de Kukulcán é, a par do Observatório, uma construção bem representativa dos interesses e dos conhecimentos de astronomia e de matemática dos Maias, bem reflectidos na arquitectura. Os diversos terraços representam os dezoito meses do calendário maia. Cada uma das escadarias de acesso ao templo tem noventa e um degraus, o que perfaz um total de 365. Cobá pode ter sido a maior das cidades maias, reunindo, provavelmente, cerca de 40 000 habitantes antes do seu abandono por volta de 900 d.C. As construções estão espalhadas por uma área imensa, muitas delas encafuadas na selva. Calcula-se que possam existir cerca de 6.500 estruturas, das quais apenas uma ínfima parte se encontra à vista e restaurada. Quase não há visitantes, pelo que a caminhada - oito quilómetros de trilhos assinalados - se pode fazer numa quase solidão. É uma das experiências mais gratificantes de uma viagem ao Yucatán. Convém ao andarilho, contudo, não abandonar os caminhos sinalizados e preparar-se para o calor húmido e sufocante da selva e para as investidas dos mosquitos. Tulum, na costa do Mar das Caraíbas, tem menos interesse, já que corresponde a uma fase de decadência da arquitectura maia. E uma das razões que justificaria a descida ao sudeste da península, a bela linha de costa preenchida por quilómetros de praias desertas, esfuma-se pouco a pouco com a ocupação de áreas enormes com resorts. Num promontório se localiza a antiga cidade maia de Tulum, onde a influência tolteca marca a arquitectura austera dos edifícios da que foi a única povoação fortificada dos Maias.
::: » Regressar ao topo da página |
© Alma de Viajante - jornalismo de viagens. Todos os direitos reservados. |