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VIAGENS ÁFRICA » NÍGER » NÍGERNíger
NÍGER, NOME DE RIOTodas as vezes que disse a alguém que ia para o Níger fui recebida com uma correcção: “Nigéria, não é?”. Não era. O Níger é um grande país, que faz fronteira com a Nigéria, o Chade, a Líbia, a Argélia, o Mali e o Burkina Faso. Apenas uma pessoa me perguntou: “Mas isso não é o nome de um rio?” E é. Mas apenas uma pequena parte do país tem direito a esta bênção, sob a forma de um largo caudal de água pouco profunda (a maior parte do ano), onde se banham hipopótamos e vêm beber elefantes e leões; o resto é um imenso deserto onde a vida é precária, e que varia entre o desolador Sahel e o ainda mais extremo deserto do Tenere, onde se encontram as dunas mais altas do mundo.
Para além das diferenças geográficas, há diferenças étnicas visíveis, com a maior parte da população djerma-songhai e haussa (as duas principais etnias) a distribuir-se pelo Oeste e Sul, e o Norte (pouco) povoado por abundantes tribos, nomeadamente tuaregues. Apesar do haussa ser mais uma identidade linguístico-cultural do que uma raça, a maior parte dos seus falantes personifica a ideia que temos do africano: de aspecto sólido e pele bem escura, uma criatividade invejável que vai do vestuário à música, o riso fácil. Nada parece capaz de conter a alegria de viver dos nigerinos, nem a mais absoluta pobreza; aliás, sobre o facto do Níger ser o segundo país mais pobre do mundo, um cidadão de Agadez disse-me de sorriso aberto: “Ora, ora, a Serra Leoa é o mais pobre porque estiveram em guerra. Se não, éramos nós os primeiros!” Quanto aos tuaregues, são muito mais sóbrios, das atitudes às cores do vestuário, e mantêm a pose do nobre gentil nem que estejam a cair de fome (coisa que nunca estão); o lado mau destes cavalheiros do deserto, é que alguns continuam com a “tradição” de manter escravos. Muito às escondidas, claro, de tal modo que as organizações internacionais reclamam a existência de mais de trinta mil enquanto o governo diz, muito simplesmente, que não há. PARQUE NACIONAL W - O W MAIS VERDE DO MUNDOComo seria de esperar, Niamey, a capital, fica nas margens do Níger, e é vulgar podermos apreciar o contraste de uma típica piroga deslizando sobre a folha lisa da água em frente aos prédios altos do governo. E a única ponte sobre o rio, tanto é atravessada por grandes jipes como por camelos e vacas.
Os hipopótamos não andam muito longe, e basta fazer um passeio de piroga em Rio Bravo, a apenas quinze quilómetros, para avistarmos alguns. Também o último grupo de girafas da África Ocidental se encontra a apenas quarenta e cinco quilómetros, numa zona protegida que tem favorecido o seu aumento. Mas para um encontro com a fauna africana, o melhor é ficar alguns dias no Parque Nacional W, assim chamado porque o rio descreve um W antes de continuar pelo Benim e pelo Burkina Faso. Esta é a África dos safaris (fotográficos), onde os encontros com elefantes, búfalos, variadíssimas espécies de antílopes, assim como com os grandes felinos (leões, chitas, leopardos) estão na ordem do dia. Para além do mais, mesmo que a sorte não nos bafeje estamos dentro da floresta africana, cheia de embondeiros e outras espécies exóticas, num emaranhado verde excelente para não percebermos que estamos mesmo ao lado de um grupo de babuínos do tamanho de pessoas, ou de uma mãe antílope com o seu bebé, que já nos miram há dez minutos. Por razões de segurança e também para que esta pesquisa lenta dê frutos, é obrigatório percorrer o Parque de jipe e com um guia autorizado. Raras vezes podemos deixar a viatura - os búfalos e os elefantes são particularmente perigosos - mas nem por isso deixamos de mergulhar nesta área protegida, muitas vezes fustigados por ramagens mais baixas, balançados com força e em equilíbrio precário sobre o tejadilho.
O elefante é o mais impressionante de todos os animais que podemos avistar aqui. E digo isto não pelo seu tamanho, mas sua pela discrição. É difícil acreditar que um animal tão maciço pode surgir de repente, sem fazer barulho, de dentro de um matagal onde nós, pequenos e leves em comparação, fazemos um estrondo de ramos e folhas que se ouve a milhas ao mínimo movimento. Um dos paquidermes aproximou-se bastante, para temor do guia, que nos aconselhou a não nos mexermos, e ficou do outro lado do riacho a cheirar o ar com a tromba, antes de beber e de se afastar tranquila e majestosamente. E os crocodilos, mesmo ao lado, lagartixas enterradas na lama, limitaram-se a abrir a boca e a ficar imóveis, os olhos manhosos sempre alerta em todas as direcções. É bom ver que mesmo um país com profundíssimos problemas económicos pode rentabilizar os seus espaços naturais, em vez de os desbaratar de uma vez, criando uma fonte de rendimentos permanente. O mesmo acontece na Reserva das Girafas, onde os aldeões são autorizados a permanecer desde que plantem árvores, recebendo alguma ajuda em sementes e outros apoios, que vem directamente do dinheiro dos turistas. Se não fosse assim, provavelmente comiam bife de girafa durante dois anos e depois iam mendigar para Niamey, onde mendigos é coisa que não falta. AREIA NO DESERTO DO TENERE, SAL NO OÁSIS DE BILMANo Norte do Niger fica o Tenere, que não é um deserto normal; é maior, mais bonito e mais variado que os outros, e ainda tem as dunas mais altas do mundo, ali para os lados de Temet.
Agadez é um começo fantástico, uma confusão avermelhada de casas baixas de onde desponta o minarete da sua famosa mesquita, e as ruelas poeirentas são percorridas por uma maravilhosa invenção que, aliás, também existe no resto do país: o cabo-cabo. Trata-se muito simplesmente de uma série de rapazolas de outro modo inúteis e desempregados que, montados em motoretas, nos levam onde quisermos pelo preço fixo de cem CFA. De noite e de dia, basta fazer um sinal com o queixo e aí está a mota ligada e nós aos saltos pelos buracos de Agadez. É pena que não seja assim tão fácil chegar às aldeias do deserto. Porque aqui, nem todo o deserto é deserto. Há até um camião de tracção às quatro rodas que parte uma ou duas vezes por semana (conforme os clientes) para uma ligação Agadez-Bilma. Através do deserto traiçoeiro e com escolta armada do exército, por causa dos “escorpiões” armados que por vezes se escondem nas dunas... Bilma é um dos oásis que vivem das salinas e cujas casas são construídas nos mesmos blocos de sal que os seus habitantes retiram da terra, numa profusão de tinas cavadas no chão que vão tomando várias cores durante a decantação, até ficarem com aquele branco ofuscante do sal. Os seus habitantes são toubous, e perpetuam a tradição de vender o precioso minério aos tuaregues, que chegam em caravanas de várias dezenas ou centenas de camelos, vendendo-o depois pelos oásis das montanhas do Air e em Agadez.
Entre Bilma e Agadez ficam paisagens absolutamente espantosas, que alternam vastidões planas onde o céu se confunde com a terra (especialmente em dias de tempestade de areia), dunas rosadas, brancas ou amarelas, de areia fina como pó, montanhas negras de rocha vulcânica e formações espectaculares, acampamentos tuaregues e jazigos de dinossauros, assim como vales inteiros cobertos de pinturas rupestres pré-sarianas, onde é possível descobrir desenhos de girafas e antílopes. Um mundo à parte, tão diferente do verde húmido e colorido que vimos a Sul, que mais parece estarmos noutro país - ou mesmo noutro planeta.
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