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São Petersburgo, a cidade que nasceu do mar

TextoFotosAna Isabel Mineiro19/07/2006

São Petersburgo é uma cidade-milagre, nascida do desejo de um czar, testemunho de 300 anos de história de um império em permanente mutação. Mas longe de ser uma cidade-museu, a viver das heranças de um passado glorioso, é, talvez, o local da Rússia onde a modernidade europeia e o impacto com a economia de mercado são mais visíveis. Para o bem e para o mal. Um roteiro para viagens de turismo em São Petersburgo.

À descoberta de São Petersburgo

Pedro, o Grande assim o decidiu: aquele terreno pantanoso à beira-Báltico, em pleno delta do Neva, entrecortado por dezenas de rios e canais, seria a nova capital. E não seria uma capital qualquer: toda a força operária do império e os melhores arquitectos da época, como Rastrelli, concentraram-se aqui, dedicando-se exclusivamente ao seu planeamento e construção.

Igreja da Ressurreição de Cristo, São Petersburgo

Ao fundo, a belíssima Igreja da Ressurreição de Cristo, um dos mais extraordinários edifícios de São Petersburgo

Foi proibido o uso de materiais como pedra ou tijolo em outros locais, para que nada faltasse durante todo o processo. Iniciadas as obras com a fortaleza de Pedro e Paulo, na ilha de Zayachy, em 1703, só em 1913 a capital foi transferida de Moscovo, com a sua corte de nobres e pessoal administrativo, arrastados à força pelo desejo de sua majestade.

Déspota e teimoso, ao czar parecia dar prazer tudo o que contrariasse os seus súbditos.

Mais de cem mil pessoas morreram na construção de São Petersburgo, levada a cabo por batalhões de operários, muitas vezes em regime de trabalho escravo, instalados em bairros miseráveis onde proliferava todo o tipo de doenças. Dito isto, fica mal dizer que valeu a pena. Mas a verdade é que é impossível evitar um enorme sentimento de admiração perante os palácios, catedrais e jardins que se levantam da água à força de diques, canais e pontes. E ao chamar-lhe “Veneza do Leste”, ficamos sem saber qual das duas cidades estamos a elogiar.

Ao princípio, a sensação de grandiosidade vem apenas do tamanho das avenidas, largas e espaçosas como só os impérios sabem construir. Na Ploschad Vosstania, a estrela comunista ergue-se sobre uma coluna granítica, dominando os edifícios clássicos da praça, de tons pastel e linhas rigorosas.

Ali perto fica o S. Petersburg Hostel, conveniente pela localização e pelo preço, um pouco menos “imperial” que em outros hotéis: 40 dólares por um quarto espartano com casa de banho no andar de baixo, onde o único luxo é um velho - mas indispensável - aquecedor eléctrico. Os pequenos-almoços eram uma espécie de mesa-redonda de turistas, onde os americanos, em maioria, relatavam com minúcia aos colegas de nacionalidade o que tinham feito no dia anterior, indicando locais, preços e preferências.

No rés-do-chão do edifício, fica o segundo lugar com mais americanos da cidade: uma pequena agência que oferece serviços de compra de bilhetes de avião e comboio, evitando a “incómoda” tarefa de enfrentar funcionários que não vêem vantagem nenhuma em atender turistas que, ainda por cima, não falam uma palavra de russo.

E num país que está apenas entreaberto ao turismo, com leis pouco estimulantes no que diz respeito à entrada de estrangeiros, encontrar quem fale inglês e, ao mesmo tempo, saiba contornar e resolver as burocracias locais, para muitos é um alívio que estão dispostos a pagar caro. A abertura do cidadão comum ao contacto com estrangeiros é, no entanto, muito superior à do governo e do seu cortejo de funcionários públicos, sobretudo nesta “janela do Báltico”, a cidade mais virada para o ocidente em toda a Rússia.

Nevsky Prospekt, coração de uma São Petersburgo capitalista

A Avenida Nevsky (Nevsky Prospekt) é uma amostra do país, da economia à moda, com exemplos de todos os escalões etários e sociais. Ao longo dos seus quatro quilómetros convivem o fast food e as confeitarias europeias, modernas boutiques de roupa e calçado, esplanadas com cachorros-quentes, cigarros vendidos à unidade por velhinhas encasacadas, violinistas que não têm mais de dez anos de idade, mas já perfumam o metro com melodias clássicas.

Os edifícios e palácios sabiamente distribuídos pela zona têm um charme antigo, que contrasta incomodamente com vendedores sem idade tentando não parecer mendigos enquanto oferecem, em silêncio, alguns objectos de plástico. Vê-se que não estão habituados a pedir, mas a situação económica já levou uma parte demasiado visível da população a um estado imediatamente anterior ao da mendicidade. Durante os anos noventa, o PIB desceu mais de 50% enquanto a inflação subiu em flecha, fazendo ruir o sistema social soviético, e deixando em muito maus lençóis todos os que dependem economicamente do governo.

Na presente situação, é difícil explicar a um idoso, que estaria a viver de forma modesta mas segura de uma pensão regular, as indiscutíveis vantagens de se poder dizer mal dos políticos, ou falar com estrangeiros sem ter problemas com a polícia; o problema agora é arranjar o dinheiro necessário para poder, pelo menos, comer e pagar o aquecimento durante os meses de Inverno.

Mesquita em São Petersburgo construída ao estilo de Samarcanda

Mesquita construída ao estilo de Samarcanda

Junto a lojas de marcas internacionais, como a Reebok, Ecco, Benetton ou Barbie, há quem venda o espólio da própria casa. Fossem mendigos mediáticos, do género português, que misturam o teatro com a realidade, gemidos e apelos com uma pobreza relativa, e poderíamos duvidar. Mas frente a personagens tão dignas como um grupo de babushkas, de lenço e casacão cinzento, que canta com empenho - e sem olhar os transeuntes - comoventes coros russos para conseguir algumas moedas, é impossível não maldizer os czares e todos os imperialismos passados e futuros, que periodicamente trazem a miséria à cidade.

Num cenário de sonho feito de cores suaves, onde as igrejas ortodoxas parecem palácios do Walt Disney, com forma de bolo de aniversário e suspiros dourados no cimo, vivem cerca de trinta mil meninos da rua com idades inferiores a doze anos. Este é um desmoralizador conjurar de imagens da guerra civil dos anos vinte, quando milhões de crianças sem família, os besprizorniki (negligenciados), sobreviviam nas ruas do país.

O problema foi sanado pelo governo soviético com reformas que incluíram internatos e orfanatos e, até agora, os russos acreditavam que os sem abrigo eram coisa dos países capitalistas. Mas como nos disse um sexagenário, em passeio com o neto pelos Jardins de Verão: “A perestroika? Até agora só temos as piores coisas do capitalismo!”

Felizmente, para o turista desavisado a cidade é toda pompa e circunstância; enquanto a Rússia hesita entre a Europa e a Ásia, São Petersburgo parece não ter dúvidas sobre o caminho a seguir. Mesmo para a opinião interna, a cidade é um oásis intelectual, onde os cinco milhões de habitantes têm ao seu dispor cerca de setenta museus e duas mil e seiscentas bibliotecas públicas. Os seus dois séculos como capital foram de esplendor artístico: aqui nasceu o balé russo; Nijinsky, Rimsky-Korsakov e Tchaikovsky passaram aqui importantes períodos da sua vida.

Também Pushkin e Dostoievsky ficaram para sempre associados a São Petersburgo: o apartamento onde viveu Pushkin tornou-se uma atracção turística, e Dostoievsky escolheu a cidade como cenário do seu romance “Crime e Castigo”.

O Museu Hermitage e outras obras de arte

Num dos extremos da Nevsky (a Avenida do Neva), ergue-se um dos mais importantes museus do mundo, o Hermitage, distribuído por cinco edifícios, entre os quais o magnífico Palácio de Inverno, desenhado por Rastrelli. O seu recheio é impressionante, quer pela importância das colecções quer pela sua extensão, que requer mais de um dia para uma visita completa. Na mesma praça, de uma uniformidade elegante, fica a Coluna de Alexandre e o Arco de Triunfo, tudo a dois passos da cúpula dourada do Almirantado.

Atravessando o Neva, chega-se à ilhota de Zayachy - apenas uma, entre as mais de quarenta que fazem parte do delta - ocupada pela Fortaleza de Pedro e Paulo. Este é o edifício mais antigo da cidade e cerca a catedral com o mesmo nome, onde repousa a maior parte dos czares. Serviu de prisão política nos tempos imperiais e revolucionários: diz-se que o filho de Pedro o Grande, Alexei, foi um dos primeiros “inquilinos” e aqui morreu, vítima das torturas supervisionadas pelo pai. Outros prisioneiros famosos - e mais recentes - foram Dostoievsky, Gorky e Trotsky.

Estatuária nos Jardins de Verão de São Petersburgo

Estatuária nos Jardins de Verão de São Petersburgo

Próximo dali, surge uma surpresa das árvores do Parque Lenine: uma mesquita de cúpula azul-turquesa, no mais puro estilo centro-asiático. Para nos deslocarmos de obra de arte em obra de arte, recomenda-se os transportes públicos, nomeadamente o metro que, por si só, já é uma delas.

O tamanho da cidade não se compadece com grandes passeios a pé - assim como as ruas, em plena fase de mudança para os seus nomes pré-revolucionários, em tal escala que nem os próprios habitantes conhecem ainda muito bem todas as novidades. Os cerca de cento e sessenta quilómetros de rios e canais que, desde a sua fundação, inspiraram os visitantes a comparações com Veneza, Paris ou Amesterdão, são cruzados por quinhentas e oitenta e oito pontes que nos levam por ruas e alamedas, adornadas por cúpulas, colunatas altíssimas, filas de estátuas espalhadas por beirais e jardins, num festival de riqueza e ostentação.

Erro crasso já corrigido foi a mudança de nome para Leninegrado, em 1924, ano da morte de Lenine; nem com toda a boa vontade dos bolcheviques esta cidade poderia adaptar-se a um nome ligado à revolução: foi feita por e para czares, respira império em cada esquina. A catedral de S. Nicolau, pintada num idílico tom azul-céu, a monolítica catedral de S. Isaías e a graciosa Igreja da Ressurreição de Cristo, construída no fim do século XIX no local do assassínio do czar Alexandre II, são apenas alguns dos mais belos exemplares da arquitectura religiosa da cidade. Sinais dos tempos, na bela catedral de Smolny é preciso pagar 8.000 rublos para ultrapassar um horrível tabique de madeira e ver o altar...

São Petersburgo, cidade de contrastes

Para além de toda a parafernália histórica, que delicia qualquer um, o que mais nos conquista na cidade é o contraste entre o cenário de absoluta luxúria para os olhos, e as personagens que o habitam. As mulheres são consideradas as mais elegantes do país, e fazem nitidamente por isso, mesmo numa economia em depressão.

Ao passearmos pelo centro, as mudanças sociais tornam-se palpáveis, com os outdoors da Marlboro a ocuparem o lugar das imagens de Lenine, a Pizza Hut a substituir as antigas cantinas populares. Jovens padres ortodoxos, de veste negra e longas barbas proféticas, distribuem bênçãos na rua ou pedem esmola para os conventos mas, mais do que nunca, têm de disputar as almas dos fiéis a uma série de novas religiões que, aproveitando a liberdade religiosa, chegam em peso à cidade e ao país.

A comunidade Hare Krishna é, talvez, a mais visível e incongruente, distribuindo bolinhos, cânticos e danças junto ao canal Fontanka, com as paredes vermelhas e barrocas do palácio Beloselsky-Belozersky em pano de fundo. As rígidas fardas dos soldados, de bonés imponentes, escondem uma classe com salários em atraso e dificuldades em sustentar a família, que leva a que complementem o fim do mês com negócios paralelos - um quiosque, por exemplo. Nascem como cogumelos e vendem miudezas (bebidas, fruta, bolachas, margarina), funcionando como pequenas lojas de conveniência. Há médicos e outros profissionais de carreira que optaram por este modo de vida, ao entrarem no beco sem saída de uma economia em queda (quase) livre.

Outro dos “novos habitantes” de São Petersburgo é o segurança armado de metralhadora e colete à prova de balas, que protege as Casas de Câmbio - mais um negócio que esta época de dificuldades tem, aparentemente, tornado lucrativo. À entrada do metro, de estações sumptuosas como uma réplica subterrânea da cidade, grupos de sul-americanos debitam os ritmos sacudidos e as flautas harmoniosas de uma melodia andina, imagens sonoras de um centro urbano cada vez mais cosmopolita, prenúncio de novos tempos a que ainda nem todos se habituaram.

Verão em São Petersburgo

Cascata de Petrodvorets

Cascata de Petrodvorets

Depois das neves prolongadas que os Invernos sempre trazem - São Petersburgo compartilha a latitude do Alasca e da Gronelândia -, lá para Maio, chegam os belos e frios dias de sol, que tornam impossível fitar as cúpulas incandescentes das igrejas.

É neste mês que se festeja a fundação da cidade, ao mesmo tempo que se homenageia Pedro o Grande, no dia do seu aniversário. E em dias de festa, a cidade exige tudo aquilo a que tem direito: fogo de artifício, regatas, bandas militares, bailes ao gosto da corte imperial, mas também espectáculos com palhaços, exibições de escolas de dança (a macarena e o “bate forte tambor” estavam na berra), música Tecno promovida pela Coca-Cola e, sobretudo, uma participação maciça da população, que dança e aplaude com um empenho e falta de modéstia pouco comuns, numa cidade de longos e escuros Invernos.

As saias encurtam, a maquilhagem fica mais forte, os marujos aparecem agarrados às namoradas e mães nervosas passam com cruzetas de roupa, para as crianças mudarem entre dois shows de dança. Admiradores dos Sepultura chapinam na água dos repuxos, junto ao Hermitage, encharcando o mais possível quem passa por perto, sob o olhar atónito de veteranos à civil, com colecções enormes de medalhas penduradas na lapela. Todos querem ver ou participar e o coração da cidade, em redor da coluna de Alexandre, transforma-se numa gigantesca sala de espectáculos.

A Grande Cascata de Petrodvorets, na Avenida da Água, maravilha da hidráulica e da estatuária, começa também a jorrar nesta altura. Considerado o Versalhes russo, este palácio construído pelo czar Pedro o Grande possui uma série de pavilhões, espalhados por um extenso parque arborizado nas margens do Báltico, a cerca de trinta quilómetros de São Petersburgo. É um dos locais mais encantadores dos arredores, apesar do original ter sido arrasado pelos alemães durante a IIª Grande Guerra, e a beleza das suas fontes e repuxos só pode ser apreciada de Maio a Setembro, período em que a cidade parece mudar-se para o local aos fins-de-semana. Em Junho, é a vez das Noites Brancas, os últimos dez dias em que o sol se põe durante escassas horas. São Petersburgo fica literalmente repleta de turistas russos e estrangeiros, e de novo a população festeja a sua cidade, desta vez durante a “noite”, com festivais de música e balé um pouco por todo o lado.

O Czar Pedro tinha razão

Edifício no centro histórico de São Petersburgo

Edifício no centro histórico de São Petersburgo

A nível do turismo, há agora uma multiplicidade de ofertas, de restaurantes a hotéis, visitas guiadas, cruzeiros nos rios e canais e, até, percursos aéreos de helicóptero, para uma visão global das cúpulas douradas que se levantam das ilhas, os pontos mais altos e luminosos de uma cidade que nasceu da água. No Neva, é possível alugar um barco ou jantar num restaurante flutuante.

Nas margens, junto à Fortaleza de Pedro e Paulo, uma colecção de modernos adoradores do sol tenta obter o que se paga caro num dos solários da cidade, alguns deles com requintes de masoquismo: um homem lê o jornal de joelhos, enquanto outros parecem esperar o pelotão de fuzilamento, encostados ao muro de braços cruzados sobre peito, para colorir de sol as partes mais difíceis.

Mesmo ao lado, um grupo de músicos enternece os visitantes com temas populares russos, onde não faltam a balalaica e o acordeão. Em meia dúzia de anos, São Petersburgo atraiu como um íman um caleidoscópio de estilhaços culturais do ocidente e integrou-os em si sem problemas de maior.

Nos degraus da catedral de Kazan, um grupo de jovens com cortes de cabelo radicais e roupas escuras arranca com os acordes bem ritmados de um rockabilly. Uma velhinha de saca de plástico pendurada no braço, a lembrar os tempos das filas intermináveis à porta das lojas, pára a olhar e segue caminho a falar sozinha, virando as costas a estas modernices, trazidas por uma época que não compreende. Para ela acabaram-se as velhas certezas, a reforma, o cumprimento da lei e da ordem pública. Mas sente-se que a modernidade faz parte de São Petersburgo, tanto como a sua história - o czar Pedro tinha razão: esta não é uma cidade qualquer.

Guia de viagens a São Petersburgo

Este é um guia prático para viagens em São Petersburgo, com informações sobre a melhor época para visitar, como chegar, pontos turísticos em São Petersburgo, os melhores hotéis e sugestões de actividades na pérola do turismo russo.

São Petersburgo Clima

Quando ir

O Inverno é rigoroso e, durante o Verão, os dias são longos e as noites “brancas”. Neste aspecto, Junho é um mês particularmente interessante, embora um dos mais concorridos em termos de turistas.

Como chegar

Como chegar a São Petersburgo

É possível voar para S. Petersburgo com companhias da Star Alliance, de que a TAP faz parte, nomeadamente via Helsínquia, na Finlândia. Alternativamente, a TAP tem voos directos de Lisboa para Moscovo, capital da Rússia

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Onde ficar

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Existem opções de alojamento para todas os gostos, sabendo-se no entanto de antemão que os hotéis em São Petersburgo têm preços genericamente elevados. Consulte sugestões entre os melhores hotéis abaixo.

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A WayToRussia é uma agência de viagens a operar na Rússia com informações úteis para quem planeia viajar para São Petersburgo, nomeadamente no que toca aos vistos de entrada e outras formalidades.