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Mosteiros do Tibete, templos de Buda

TextoFotosAna Isabel Mineiro02/02/2008

Do mosteiro de Tashilunpo, em Xighatse - antiga capital do Tibete -, ao sedutor mosteiro de Gyantse - de que se diz ter sido um “ensaio” para o magnífico Palácio de Potala, em Lhasa -, passando pelo mosteiro de Sera Thekchenling, na Lhasa moderna, são muitos os mosteiros do Tibete capazes de fascinar um viajante. Esta é uma pequena viagem por alguns desses fascinantes mosteiros tibetanos.

No Tibete

Por tradição, o Tibete é país de mistérios e magias. Espíritos malignos, fantasmas, deuses e demónios misturam-se alegremente com crenças animistas, com a antiga religião Bon e com o budismo, que continua a ser a religião mais popular no país. As pressões exercidas pelo governo chinês não conseguiram afastar o povo de Buda, e dos seus bodhisatvas*, uma vez que estes fazem parte do quotidiano, e da sua própria identidade como nação.

Drepung, Tibete

Drepung, Tibete

O budismo nasceu na Índia, entre os séculos VI a V a.C., mas foi só no século VIII, com o grande mestre indiano Padmasambhava, que se estabeleceu definitivamente deste lado dos Himalaias.

O mesmo século vê nascer o império do Tibete, unificado pelo rei Songtsen Gampo, e um alfabeto tibetano baseado no sânscrito, a língua dos textos sagrados. Lhasa torna-se capital, e as esposas nepalesa e chinesa do rei aí mandam construir grandes mosteiros e templos budistas, o Jokhang e o Ramoche.

Depois deste período dourado do budismo, o assassínio do rei Relpachen, no século IX, levou à fragmentação do país. É preciso esperar pelo século XV para que a religião que acompanhou o nascimento do Tibete se instale outra vez, oferecendo à posteridade os magníficos templos e mosteiros como os de Ganden, Drepung e Sera, nos arredores da capital, considerados os “pilares do reino”. Mas depois do ímpeto destrutivo da Revolução Cultural dos anos 50 ter passado por aqui, poucos foram os que ficaram de pé. Mais recentemente, tem-se procedido à restauração de muitos deles, com a relativa liberdade religiosa que foi chegando.

Mosteiro de Gyantse, Tibete

Mosteiro de Gyantse, Tibete

É em Xighatse, antiga capital do Tibete, que fica um dos mais importantes mosteiros do país: Tashilunpo, tornado ainda mais célebre o ano passado, quando o actual Panchen Lama fugiu para se juntar ao Dalai Lama. O complexo, rodeado por muros como uma fortaleza, é de um barroco tipicamente tibetano e majestoso, com alguns edifícios pintados no vermelho monástico e muitos telhados dourados. Entre outras preciosidades, guarda a maior imagem de bronze do mundo, construída durante a Iª Guerra Mundial.

Mas verdadeiramente único é o mosteiro de Gyantse, a menos de setenta quilómetros. A cidade, para além de possuir ainda o ambiente de uma povoação medieval tibetana, é encimada por uma magnífica fortaleza dos séculos XIV e XV, que se diz ter sido um “ensaio” para o Palácio de Potala. Ao fundo de uma rua empedrada destaca-se a ponta do Kumbum, uma stupa gigantesca e particularmente bonita, dentro do recinto do mosteiro.

É comum estes edifícios em forma de cone, que representam o cosmos, acompanharem ou anunciarem templos e mosteiros, assinalando território sagrado e encerrando relíquias funerárias de lamas importantes, ou do próprio Buda. Esta Stupa das Cem Mil Imagens é um edifício octogonal com trinta e cinco metros de altura, que recria uma série de mandalas, os mapas simbólicos do espaço sagrado, combinando capelas interiores e terraços. Construída no século XV, não tem par no mundo inteiro pela sua graça e originalidade.

É indispensável contorná-la, visitá-la, avistá-la por entre o que resta das ruínas do mosteiro. Uns enormes olhos oblíquos, pintados com elegância no exterior, parecem seguir-nos por todo o lado.

Convém explicar que os mosteiros tibetanos não são como os cristãos - o conceito mais próximo será o de uma universidade monástica. Em vez de um grande edifício, ao aproximarmo-nos defrontamo-nos com uma verdadeira aldeia, com ruas que se vão abrindo para todos os lados, num labirinto de paredes caiadas e janelas debruadas a negro. O mosteiro de Drepung é disso um bom exemplo. Situava-se a cerca de oito quilómetros de Lhasa, mas a cidade tem crescido tanto que já chegou à estrada de terra que sobe o monte Gephel Utse, onde o complexo parece estar encaixado.

Como todos os outros, Drepung possui um Salão de Assembleia Geral, vários templos e capelas, biblioteca, escolas dirigidas pelos respectivos lamas, as residências dos alunos e o palácio do grande lama. Neste caso, o magnífico Palácio de Ganden Podrang chegou mesmo a ser residência oficial dos Dalai Lamas, do II até ao V, que acabou por se mudar para o recém-construído Palácio de Potala, no século XVII.

Sera, Tibete

Sera, Tibete

A teocracia instalada pelo Dalai Lama V é comparáve ao feudalismo europeu, com camponeses servos obrigados a fornecer trabalho grátis, a pagar impostos e ainda a ceder os filhos, sempre que requisitados, para integrar a sua trupe pessoal de músicos e bailarinos. O fausto requintado em que viviam ainda é visível no espólio dos mosteiros, apesar das sucessivas destruições e pilhagens.

Quanto aos aprendizes de lama, as suas casas eram construídas ou alugadas, conforme as possibilidades da família, o que deu origem a este belíssimo favo branco com casas de vários tamanhos, escadarias e terraços, que se destaca ao longe na encosta seca e cinzenta. Hoje, dos dez mil monges que chegou a abrigar, o mosteiro conta com cerca de quinhentos, e a entrada paga contribui para a progressiva recuperação dos edifícios. Ali perto fica o mosteiro de Nechung, onde vivia o famoso oráculo que orientava as decisões de estado, destituído pelo Dalai Lama XIII em 1904, quando falhou as previsões sobre a invasão inglesa.

Também engolido pela Lhasa moderna, o mosteiro de Sera Thekchenling é um dos mais visitados e proporciona uma bela vista, ainda que longínqua, sobre parte da cidade e as traseiras do Palácio de Potala, instalado sobre uma colina, como num trono. Deambular pelas suas ruas é uma lição de arquitectura budista, e o facto de podermos entrar - e permanecer - no interior de templos e salas de aula, tornam a visita ainda mais interessante. Uma enorme imagem dourada de Maitreya, o Buda do futuro, encontra-se no Salão da Assembleia, e é visível do primeiro e do segundo andar do edifício.

Por todo o lado, deidades, demónios, mandalas, imagens dos Dalai Lamas e do lama Tsongkhapa, que viveu aqui num ermitério anterior ao mosteiro, bem como dos seus principais estudantes, enchem os templos e capelas. Um dos locais mais famosos é o Pátio dos Debates, onde se juntam os estudantes para discutir questões filosóficas ligadas à religião, usando movimentos rituais de mãos para enfatizar ou encerrar as questões. A espectacularidade e o entusiasmo com que os jovens aprendizes de lamas se interrogam uns aos outros, batendo palmas e fazendo gestos, acabou por transformar os debates num espectáculo turístico, às vezes com maior assistência ocidental do que tibetana!

Mosteiro de Gyantse

Pormenor do Mosteiro de Gyantse

Telhados ou beirais dourados assinalam os edifícios mais importantes, assim como tridentes enfeitados com lã de iaque. No fundo da área do mosteiro, aparecem rochas cobertas com pinturas de demónios azuis e o Choding Khang, uma espécie de “fatia” de templo, que assinala o local do ermitério de Tsongkhapa, fundador dos três “pilares do reino”. Bandeiras de orações e folhos com as cores do budismo decoram terraços e portadas, sacudidos pela brisa. Na paz que aqui reina, este chega a ser o único movimento visível, à parte o ocasional estudante, que passa embrulhado na sua túnica vermelha.

A Sera não param de chegar peregrinos, em grupos e sozinhos, alguns com aspecto de vir de longe, cabelos desgrenhados, roupas sujas, e botas grossas que lhes dão um andar cambaleante. Sem interromper as orações, entram na sala, erguem os braços e encostam as mãos unidas à cabeça, ao rosto, ao peito, antes de se prostrarem. Só depois se levantam e fazem a circunvolução da sala pelo lado esquerdo, parando em cada capela e altar para uma oração, ou acender uma lamparina. Miram-nos pelo canto do olho e esboçam sorrisos. Lá fora não faltou quem nos pedisse, em voz baixa e a olhar em volta, uma desejada - e proibida - foto do actual Dalai Lama.

Das duas principais escolas budistas, a Theravada e a Mahayana, é a última que prevalece no Tibete, mas ao longo das épocas foram surgindo outras, acabando por ser a Gelugpa, que data do século XIV, a mais difundida. Apoiado nos Sutras e nos Tantras - estes últimos, são textos religiosos anteriores ao próprio budismo - o budismo tibetano fundamenta a evolução pessoal em rituais, na meditação e no uso de poderosos sons, os mantras, recitados por monges em ocasiões especiais, e como auxiliares da meditação. Exilado na Índia desde 1959, Tenzin Gyatso, o actual “Oceano de Sabedoria”, continua a ser adorado pelo povo, que o considera como seu representante político e guia espiritual, seja qual for a escola de budismo a que pertencem; em conversa, um jovem chegou a referir-se-lhe como “o nosso presidente”.

Mosteiro de Gyantse, Tibete

Mosteiro de Gyantse, Tibete

Em Sera começa uma sessão de estudo, com dezenas de aprendizes de lama a conversarem e rirem descontraidamente, enquanto o mestre recita em voz gutural, desfolhando um velho livro. Só os mais atentos respondem, lendo de folhas manuscritas pousadas no colo. A atmosfera é descontraída mas de grande tranquilidade. Os sons graves e ritmados e a falta de luz, que entra em focos estreitos por janelas laterais, iluminando as colunas decoradas com tecidos de brocado, relaxa-nos e prende-nos ali.

De fora chega-nos o fumo cheiroso do zimbro queimado. As lamparinas de manteiga de iaque, que os devotos vão acendendo nas capelas em volta do salão, largam um odor de casa antiga. O chão, que percorremos descalços, está ligeiramente peganhento. Sentados no fundo do salão, envolvidos por sons e cheiros ancestrais, experimentamos uma nova dimensão emocional, criada por este extraordinário enquadramento religioso.

A luz diminui, a recitação aumenta de intensidade, com a voz grave e ritmada do mestre a criar uma tensão mística quase palpável. Recordamos os poderes mágicos atribuídos a alguns lamas, após anos de estudo, treino e meditação - a telepatia, o envio de imagens mentais, ou o controlo do calor do corpo, por exemplo -, e estes já não nos parecem tão estranhos...

Claramente, os templos de Buda destinam-se a propiciar grandes experiências humanas e espirituais.

Nota da autora: bodhisatvas - pessoas que atingiram a iluminação e recusaram o nirvana (o estado de Buda) e ficaram na Terra, ajudando o resto da humanidade na sua progressão espiritual.



Xighatse, antiga capital do Tibete

Xighatse, antiga capital do Tibete

Mosteiro de Sera

Mosteiro de Sera

Guia de viagens ao Tibete

Este é um guia prático para viagens no Tibete, com informações sobre a melhor época para visitar, como chegar, pontos turísticos, os melhores hotéis e sugestões de actividades no país.

Mosteiros do Tibete Quando viajar

Quando ir

No Inverno e no Verão, o único problema é a facilidade com que as estradas de terra desaparecem debaixo de lama (Verão), ou gelo (Inverno), quando as temperaturas atingem alguns graus negativos. Mas é possível visitar a área de Lhasa - Xighatse todo o ano.

Como chegar

Como chegar a Lhasa

Duas hipóteses: ou voar para Lhasa de uma das capitais de província (Pequim e Chengdu são as mais populares), ou chegar por terra de Golmud. Os preços aumentam de ano para ano, e os estrangeiros costumam pagar mais ou menos o dobro dos chineses. O voo de Chengdu e a viagem de camioneta têm preços parecidos. Uma vez no Tibete, deve informar-se sobre os lugares que pode visitar de transporte público, mas a distância máxima costuma ser as cidades de Xighatse e Gyantse. Para ir mais longe tem de contratar uma agência, que tratará das autorizações especiais, jipes e/ou camiões com condutor e guia obrigatório.

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Onde ficar

Onde ficar

Só há hotéis nas cidades maiores, mas no Sul e nos montes Pamir os viajantes podem ficar em casas de família. Em Dushanbe recomendaria o Hotel Vahksh, bem central, na avenida Rudaki junto à Ópera, não pelo que é (asseado e antiquado) mas pelo que foi: com a sua fachada de casa colonial russa e os corredores largos e infindáveis, interrompidos por salas alcatifadas e despidas de móveis, é o retrato perfeito dos hotéis da era soviética. Um quarto duplo, com casa-de-banho e chuveiro quente, fica por 120 somanis (cerca de 20 euros).

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Informações úteis

Sobre o Tibete

O Tibete foi invadido pela República Popular da China nos anos 50, tendo a ocupação ficado definitiva em 1959, com a fuga do Dalai Lama para a Índia. O antigo Tibete era bastante maior do que a actual Província Autónoma do Xizang em que foi transformado, já que as autoridades chinesas integraram territórios tibetanos nas províncias limítrofes de Qinghai, Gansu, Sichuan e Yunnan; mesmo assim, ocupa uma área aproximada de 1.107.000 quilómetros quadrados.

Os números da população não são bem conhecidos, mas aponta-se para 4,5 milhões de habitantes, sendo 51% tibetanos, 42% muçulmanos Hui e chineses vindos de outras províncias, atraídos pelas condições excepcionais que o governo lhes oferece, no sentido de favorecer a sua fixação. Os restantes 7% são tribos fronteiriças. É difícil estimar o número de nómadas e, quanto à língua, a enorme variedade de dialectos (são três grupos, com muitas variações e ramificações) faz com que, cada vez mais, os tibetanos utilizem o mandarim como língua de comunicação. A moeda é o yuan, que vale cerca de 10 cêntimos.