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VOLTA AO MUNDO » 39. KUTA, BALI

O momento que abalou a harmonia de um povo, em Bali

Chego a Kuta, coração turístico de Bali e apercebo-me que as feridas dos estilhaços de 2002 ainda não sararam. Os balineses, que têm na harmonia um valor supremo, ainda hoje não percebem as razões de tão vil atentado na sua ilha.

Por Filipe Morato Gomes

Qual o itinerário da volta ao mundo?



Sábado, 12 de Outubro de 2002. A rua Legian estava apinhada de gente como acontecia todas as noites de sábado. Bares e discotecas eram o ponto de encontro de turistas de diversas nacionalidades, no dia mais agitado da semana. Predominavam os australianos, mas havia também ingleses, japoneses e visitantes de muitos outros países. E Legian era o centro nevrálgico desse bulício nocturno. Em quase todos os bares, bandas entoavam cantigas ao gosto dos visitantes, procurando atrair os transeuntes para dentro de portas. Kuta vivia do turismo quando o relógio marcava quase meia-noite. E foi então que o impensável aconteceu.

Arrozais no interior montanhoso de Bali
Arrozais no interior montanhoso de Bali

Em toda a cidade ouviu-se um estrondo. No Paddy´s, um dos mais populares bares dançantes da cidade, algo grave tinha acontecido. O pânico havia-se instalado e as pessoas corriam para a rua, desesperadas, procurando refúgio de algo que não conseguiam ainda explicar. Numa ilha onde a harmonia é um valor soberano, ninguém queria acreditar que aquele som era o que parecia ser. Mas, momentos depois, o estrondo de uma segunda explosão, muito mais forte do que o anterior, ecoou nos tímpanos de turistas e balineses. O Sari Club, apinhado de gente, havia sido reduzido a poeira salpicada de sangue pelos estilhaços de uma bomba. Num ápice, duas centenas de corpos desligavam-se da vida terrena. E Bali nunca mais foi a mesma.

Ao segundo dia em Kuta, o calendário marcava de novo sábado. Dirigi-me para a rua Legian, instintivamente. Olhei para os letreiros luminosos, entrei e sai de uns quantos bares tirando o pulso ao ambiente, até que um néon me chamou a atenção: “Paddy´s”. Entrei. Situado ligeiramente a sul da antiga localização, a noite estava animada. Muitos australianos jovens emborcavam cocktails de alto teor alcoólico e dançavam animadamente ao som de músicas a convidar o embalo dos corpos. Bastantes prostitutas javanesas usavam a falta de isqueiro para iniciarem conversa com os homens presentes. Balineses bem-parecidos, de longos cabelos negros, tez escura e corpo musculado, tentavam a sua sorte com as loiras australianas. E algumas caras de feições familiares conversavam, dançavam ou bebericavam uma Bintang, aprazível cerveja indonésia. Eram professores portugueses a leccionar a língua materna em Timor-Leste. Aproveitavam a interrupção lectiva da Páscoa para mudarem de ares e terem acesso a bens difíceis de obter no mais novo país do planeta. “Em Timor falta muita coisa. Vimos às compras, descansar e divertirmo-nos”, confessavam três docentes portuguesas a trabalhar em Timor-Leste há já quatro anos.

Mas, apesar da aparente agitação, nada se comparava com a época anterior à fatídica noite. Numa ilha que vivia e vive do turismo, as consequências dos atentados foram devastadores. Só no primeiro ano após as explosões, o número de chegadas a Bali reduziu-se para metade. “Desde as bombas, não há turistas”, lamentava um vendedor de rua, comprovando a verdade crua dos números. Para além disso, o tipo de visitantes parecia ter-se alterado. Os mais velhos e endinheirados afastaram-se da ilha, para desconsolo local. “O negócio vai muito mal. E os turistas que agora vêm a Bali não têm dinheiro”, queixava-se Christian, nome anglicizado de um taxista de profissão, afinado pelo mesmo diapasão de desconsolo. “Até hoje não consegui perceber porque nos fizeram isso”, continuou. “Somos um povo de paz”, emocionou-se.

Templo de Danau Bratan, norte de Bali
Templo de Danau Bratan, norte de Bali

Para os turistas e viajantes que percorriam a rua Legian, era também difícil não sentir uma ponta de emoção. Um memorial de homenagem às vítimas foi entretanto edificado onde outrora se localizava o Sari Club. Consiste numa parede decorada de forma muito simples contendo umas inscrições que, ao longe, não dava para decifrar. Uns passos adiante, olhando mais de perto, uma lista de nomes revelava-se. Todos sabiam que aqueles eram os nomes das duas centenas de vidas inocentes ceifadas aquando daqueles estrondos. Muitos paravam petrificados olhando a lista, outros fotografavam o memorial. E a lembrança das consequências das bombas era o suficiente para humedecer os olhos de quem parava em frente ao memorial. Os nomes estavam ali, verdadeiros, encarnando vidas que estavam no sítio errado à hora errada, divertindo-se. Corpos oriundos de vinte e dois países jazeram naquele exacto pedaço de solo, dois anos e meio atrás. Indagava sobre as nacionalidades das vítimas quando uma se destacou aos meus olhos. Acendi um incenso e no memorial deixei uma flor. Paz à alma do Diogo!


{ 16.Abr.2005 - 08:04. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }

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Qual a vossa opinião?
Não tenho tema para sugerir mas, ultimamente, tenho sentido a falta das vossas mensagens e comentários neste espaço de livre opinião.

Olá viajante... não posso deixar de responder ao teu desabafo e à tua actual “solidão digital”, para te dizer que penso que continuamos todos a visitar frequentemente a tua página (além de que a primeira coisa que faço quando acordo ao sábado, é ler a tua crónica semanal no Público) e a acompanhar dia-a-dia a tua viagem... A falta de mensagens deve-se provavelmente a motivos “mais ou menos psicológicos”: no início há sempre grande entusiasmo em dizer algo, lá mais para o final da tua viagem aparecerá novamente um boom de mensagens... neste momento o empreendimento vai a meio, já não está presente a partida e ainda não se vê a chegada, e talvez seja por isso que a comunicação tenha abrandado. A comunicação, não o interesse, pois as crónicas continuam impecáveis e as fotografias estão cada vez melhores.

Grande abraço e continuação de boa viagem

Comentário à viagem enviado por Sérgio Costa (Obo) em 17.ABR.2005 - 12:28

Olá Filipe!
Espero que não duvides que por aqui continuamos todos a seguir a tua viagem!...
Continua a ser óptimo fazer uns momentos de pausa e ver o mundo pelos teus olhos... sentir o mundo sem rotina em que tens vivido...
Só por isso te desculpo a verdadeira inveja que me tens feito sentir: inveja pelas oportunidades que tens tido de fazer coisas como visitar o Paddy's a um sábado à noite ou mergulhar num dos lugares mais paradisíacos do planeta!...
Por nos deixares a todos aproveitar essas oportunidades, obrigado.

Um abraço e... Boa viagem!

Comentário à viagem enviado por Zé Carlos em 17.ABR.2005 - 15:54

Não sei se te lembras de mim, mas conheci-te em Dili e entretanto regressei a Portugal :-)...

Já te “publicitei” no meu site eheh

Abraço!!

Comentário à viagem enviado por Mago em 17.ABR.2005 - 18:32

Bem, acho que provavelmente alguma preguiça acaba por inibir as pessoas... mea culpa... :) É bem mais fácil só ler os textos que escreves e ficar a pensar, ou poderei também dizer “os quadros que pintas” porque acho que é muito fácil deduzir imagens da tua prosa, o que a torna ainda mais agradável. E enquanto não chega uma nova crónica semanal há sempre uma fotografia na área de trabalho do computador a fazer recordar a anterior. Bem, estamos por cá, longe, sim, mas estamos contigo e fazemos questão de não perder pitada!
Um abraço!

Comentário à viagem enviado por Alberto Pedro Ribeiro (Tyson) em 18.ABR.2005 - 14:41

Filipe,

Como disse o Tyson, acho que muita gente continua a frequentar o teu fantástico site e a acompanhar a teu sonho, sonhando também um pouco com os locais, histórias e aventuras que nos contas! Pelo menos, é o meu caso. Provavelmente, depois de sonhar um bocado, dá-nos preguiça de escrever algo, ficamos a imaginarmo-nos contigo nesses locais paradisiacos! Pela minha parte, prometo esforçar-me por te ir dando notícias deste cantinho e de continuar a acompanhar o teu sonho!
Um Grande Abraço,

XiNelo

Comentário à viagem enviado por Nelo Teixeira em 19.ABR.2005 - 13:51

Nunca duvides que te acompanhamos deste lado...sempre! E cheios de inveja!!
Continuação de boa viagem, com muitas histórias e fotografias, que também nos fazem viajar...
Beijos e abraços

P.S. Já agora, por onde andarás na segunda quinzena de Maio? Aceitam-se sugestões para férias!

Comentário à viagem enviado por Doroteia e Dr. em 19.ABR.2005 - 22:05

Doroteia e Dr.

Nessa altura estarei na Austrália, provavelmente na zona de Sydney. Encontramo-nos por lá... :)
Grande abraço.

Comentário à viagem enviado por Filipe Morato Gomes em 21.ABR.2005 - 09:21

Grande aventura!
Que pena só ter tido conhecimento dela ontem, mas a partir de agora vou estar atenta!
Boa viagem Filipe!

Comentário à viagem enviado por Alexandra em 21.ABR.2005 - 15:41

Grande amigo Portuga,
Bom saber que você está bem, caminhando nesse mundo de Deus...
Vou ficar te esperando por aqui, quem sabe... chegas.
Ou será que algum dia, vamos sentar novamente no trapiche em Caburé, tomando uns vinhos e relembrando bons momentos dessa sua aventura???!!!
Beijos e abraços de sua amiga, aqui do Norte do Brasil,
Cristina

Comentário à viagem enviado por Cristina Teixeira de Belém em 22.ABR.2005 - 19:18

Está na hora de um abraço granda flash way! Tranquilo, amigo. Até logo!

Comentário à viagem enviado por Pietz em 18.MAI.2005 - 13:40

Olá Filipe,
Tal como tu também estive nesse mesmo local em Kuta, e um povo como aquele... “my God”... porquê??? e quando digo isso, é sim por ter estado em situações que noutra cidade ocidental seria imaginável uma mulher sozinha!!
Vou continuar a acompanhar a tua viagem, aqui do outro lado do mundo.

Comentário à viagem enviado por Maria em 29.MAI.2005 - 14:41

É muito boa esta crónica, mostra uma realidade do mundo “lá fora”, como é, como vivem...

Comentário à viagem enviado por Douglas em 19.OUT.2005 - 23:50

Olá Filipe, vi o teu site completamente por acaso, mas adorei! E adorei porque também eu sonho da mesma forma, adoro viajar sem constrangimentos de hotéis, marcações e sobretudo as multidões de turistas que hoje em dia estão em todo o lado. Foi assim que viajei por países como Roménia, Bulgária, Turquia, Tunísia, Egipto, ... estou a pensar ir à Tailândia no próximo mês de Maio. Mas sendo a tua experiência de viagem nessa zona bastante recente, gostaria de saber se achas que vale a pena prolongar a viagem aos vizinhos Camboja, Vietname e Laos? Achas que são países que nos podem oferecer algo mais?

Achas que teremos dificuldades nas passagens entre as diferentes fronteiras terrestres?

1 Abraço.

Comentário à viagem enviado por Alexandre Reis em 21.OUT.2005 - 20:20


Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.

Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.


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