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VOLTA AO MUNDO » 59. MATO GROSSO DO SUL (PANTANAL), BRASILBonito por natureza
Cheguei a Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, após uma longa noite a bordo de dois autocarros que me trouxeram desde Puerto Iguazu, no lado argentino das homónimas cataratas. Na viagem, Gabriel e Carlos, dois brasileiros de regresso a casa após um par de meses viajando pela América do Sul, tinham-me avisado. “Cara, esquece Campo Grande, está a decorrer o Festival de Inverno de Bonito. Devias ir para lá imediatamente.”
Tinha outros contactos na cidade e, antes de tomar decisões, liguei. “Vai ter com o Júnior, ele está à tua espera”, disse-me, por telefone, ainda no terminal rodoviário de Campo Grande, uma amiga de longa data moradora na região. Uma corrida de táxi mais tarde, estava à conversa com Júnior na sua agência de viagens. Procurava conselhos sobre o que fazer no Mato Grosso do Sul quando um cliente cruzou a porta de entrada. Chamava-se José Rafael. “Vou para a minha fazenda. Queres carona até Bonito?”, ofereceu-me. Aceitei sem hesitações. Campo Grande ficaria para outra oportunidade. Depois de uma noite passada em autocarros, percorri de carro a estrada que liga Campo Grande a Bonito. Ao longo dos cerca de 247 quilómetros que separam as duas cidades, rectas enormes, fazendas de criação de gado e algumas pequenas povoações dominam a paisagem. O Pantanal mato-grossense, uma das mais extraordinárias reservas naturais do planeta, fica por ali perto. A região de Bonito, que também pertence a Mato Grosso do Sul - estado que faz fronteira com o Paraguai - fica na parte sul do Pantanal.
A cidade que dá nome à região não tem nada de extraordinário, mas o que faz a sua fama é a água cristalina dos seus rios, a beleza translúcida das cachoeiras, o encanto e mistério das grutas e a diversidade e exuberância da fauna e da flora. Bonito é, de resto, um dos principais destinos de ecoturismo do Brasil. Mais de 70 mil turistas visitam anualmente as principais atracções da região por ano, mas fazem-no de forma ordenada, uma vez que estão interditas explorações por conta própria. Todas as visitas têm hora marcada e tempo controlado. Há sempre um outro grupo de turistas pronto e expectante, aguardando a sua vez. Praticar snorkelling no Aquário Natural e no Rio da Prata, onde cardumes de piraputangas e alguns dourados faziam companhia aos visitantes durante todo o percurso, é uma das actividades que mais entusiastas atrai. Interessantes são também os almoços nas fazendas que acolhem os visitantes, o Buraco das Araras, onde se avistam bandos daquelas graciosas criaturas, e a famosa Gruta do Lago Azul, talvez a mais emblemática atracção da região. Honra à verdade, não são lugares de causar espanto a viajantes experimentados, mas valem bem uma ou outra tarde de lazer. Quando cheguei a Bonito, a cidade estava transformada numa espécie de feira hippie. Dezenas de vendedores de colares, pulseiras e demais artefactos decorativos ocupavam os passeios em redor da praça principal. Vinham de vários pontos do país para fazer negócio com a multidão que lá acorreu para participar na sexta edição do Festival de Inverno.
Havia teatro de rua para crianças - que deliraram com o grupo carioca Teatro de Anónimo -, cinema ao ar livre, numa tela enorme montada na Praça da Liberdade, uma exposição de fotografia de razoável qualidade e um concurso de curtas-metragens, cujo tema era a Ecologia, onde pude assistir a um delicioso documentário sobre o “Seu Ico”, amante da natureza, sem estudos mas muita sabedoria. “Meter um tractor no mato é o mesmo que derrubar uma prateleira de farmácia”, dizia Ico, do alto dos seus oitenta anos - pelo menos era essa a idade que aparentava ter -, a propósito da desflorestação da região onde nasceu. Havia também espectáculos de artistas brasileiros consagrados. Wagner foi o que captou as maiores atenções. A tenda onde estava montado o palco principal encontrava-se repleta de gente que entoava todas as suas músicas. E ainda Fernanda Abreu, Elza Soares e um par de outros nomes. Mas o que mais me chamou a atenção foi um homem simples e quase desconhecido: Pereira da Viola. Vinha sem banda de suporte, acompanhado apenas por uma viola caipira. Ia tocar num espaço “alternativo”, denominação de um pequeno palco ao ar livre onde artistas menos conceituados se apresentavam. Havia algumas dezenas de pessoas a assistir. Pouca gente que, seguramente, não se arrependeu. Porque Pereira da Viola, mineiro de alma e coração, apresentou-se com a sinceridade dos homens simples, falou com a humanidade dos homens pobres e ainda tocou com o talento de um consagrado. A viola caipira parecia chorar e rir ao mesmo tempo.
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