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VOLTA AO MUNDO » 58. IBERÁ E CATARATAS DE IGUAÇÚ, ARGENTINASalpicos de Prazer, nas Cataratas de Iguaçú
Estava em Montevideu, tentando decidir que rumo tomar, quando ouvi pela primeira vez o nome Esteros del Iberá. “Uma zona de pântanos, repleta de vida selvagem, a caminho de Iguaçú”, disseram-me numa conversa de café, acompanhando um enérgico incitamento a uma visita ao local. “Porque não?”, pensei. E assim, alguns autocarros mais tarde, assentava arraiais em Colonia Carlos Pellegrini, uma pequena aldeia adjacente a uma das principais áreas do Parque Nacional Esteros del Iberá que é possível visitar. A grande atracção do parque é, sem dúvida, a sua fauna abundante. Capivaras pachorrentas deixam-se avistar nadando e alimentando-se pelos pântanos. Cobras, muitas aves e ocasionais cervos também. E os favoritos dos visitantes, os jacarés que se aquecem, imóveis, nas águas tranquilas das lagoas. Os turistas podem observar de muito perto essas criaturas de aspecto pré-histórico, embarcando em lanchas destinadas a esse efeito. São passeios que duram, em média, duas horas, e todos os que já o haviam feito corroboravam o fascínio. “Foi espantoso! Vimos muitos jacarés, pássaros enormes e muitos outros animais nas margens da lagoa Ibera”, dizia-me Florencia, simpática porteña (habitante de Buenos Aires) de mini-férias pela região. Estava ansioso.
Mal chegado a Carlos Pellegrini, dirigia-me para o parque de campismo da povoação - de onde saem as embarcações para as lagoas - quando começou a chover torrencialmente. As lanchas cessaram a actividade. O sol escondia-se por detrás de nuvens quase negras e, sendo assim, a maioria dos animais não tinha motivos para se exporem, aquecendo-se. Esperei que a chuva passasse. “Se você quer fotografar, o melhor será tentar amanhã”, informou um dos barqueiros. “Além disso, temos já poucas horas com luz, por isso teríamos que fazer um passeio mais rápido”, concluiu. Aceitei o conselho - voltaria “amanhã”. O primeiro dia em Carlos Pellegrini estava, pois, perdido. Mas o dia seguinte acordou mais feio que o anterior. Chovia copiosamente. A espaços, os céus ofereciam uma trégua momentânea para, daí a instantes, recomeçar a chuvada. O sol, esse, continuava escondido por detrás de nuvens de cor negra. Nesse dia, nenhuma lancha deixou terra firme. E não há nada mais para fazer nas proximidades. Mais um dia perdido.
Pensava em desistir quando a dona da pousada me avisou: “Logo à noite há festa da padroeira da aldeia, vai haver música e churrasco na igreja”. E sugeriu: “fique mais um dia, até pode ser que amanhã pare de chover”. Uma festa popular numa aldeola rural, com homens a chegar em cavalos pelas ruas de terra batida, uma sanfona e um violão, danças tradicionais, vinho e carne no churrasco é algo muito tentador. E assim, não sei se pela esperança na melhoria do tempo ou se pela festa na igreja da aldeia, fiquei mais um dia. E não me arrependi. A festa era muito curiosa. Tudo ocorria em redor e dentro da pequena igreja do lugarejo. As pessoas estavam sentadas no interior da igreja, conversando, beliscando uns petiscos e abrigando-se da chuva. Cá fora, homens grelhavam carne apresentando roupas de vaqueiro, botas de vaqueiro e rudeza de vaqueiro. No átrio da igreja, havia mesas corridas de madeira e muitas cadeiras de plástico onde as mulheres - principalmente as mulheres - se sentavam, expectantes como num bailarico de outrora. O som de uma sanfona, um violão e uma voz desafinada serviam de embalo a curiosas danças a dois. A música era muito mal interpretada mas os tímpanos locais não se incomodavam com isso. Estava toda a aldeia reunida, dançando, comendo, revendo amigos. Era uma coisa pequena - talvez umas cinquenta pessoas apenas - mas era uma das mais genuínas celebrações populares onde já havia estado. Dessas, muitas olhavam-me com simpatia, outras com surpresa. Mas sentia-me como que um intruso numa festa onde não era suposto estar. E assim regressei à pousada, decidido a partir durante a tarde do dia seguinte. Restava-me a esperança de uma manhã de sol. Ou a frustração da desistência.
Manhã cedo, acordei com a voz da dona da pousada. “Senhor, olhe como está o dia!” Ensolarado, lindo, perfeito para sair de lancha e avistar imensos jacarés ao sol, as capivaras doces e pachorrentas, cobras enormes e muita passarada. Valeu a pena esperar - pensei, mais tarde, enquanto uma carrinha me levava de regresso à civilização. Ia ao encontro das cataratas de Iguaçú. Honra à verdade, não sou apaixonado por cataratas. Inúmeras desilusões passadas deixam-me de pé atrás sempre que o assunto é visitar cachoeiras, insistentemente apresentadas como imperdíveis atracções turísticas de uma qualquer região. Iguaçú seria diferente, valeria a pena - convenci-me. Em boa hora o fiz. A Garganta do Diabo e demais quedas de água, o ar carregado de salpicos, a força bruta do rio, o som ininterrupto e poderoso vindo de todos os lados, tudo era mágico em Iguaçú. Numa semana dominada pela Natureza, defronte de tão majestosa criação, uma sensação de pequenez invadia o meu pensamento. Estava completamente rendido. E cada vez mais molhado. Depois de tanto ansiar pelo fim da chuva, em Carlos Pellegrini, ali estava quedo e mudo, olhando a magia branca das águas revoltas e deixando que os grossos salpicos, vindos de todas as direcções, me encharcassem completamente.
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