VOLTA AO MUNDO » 24. CHIANG MAI E PHUKET, TAILÂNDIA
Tsunami altera planos da volta do mundo
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Visito a atraente cidade de Chiang Mai antes de abandonar por uns dias a civilização ao encontro da minoria étnica Poe. Mas os trágicos acontecimentos provocados pelo maremoto fazem-me mudar de rumo. Do Laos - onde já me encontrava - sigo imediatamente para Phuket, onde me deparo com cenários paradisíacos transformados em locais de dor. Nenhuma palavra conseguirá fazer justiça ao horror que testemunho. |
Por Filipe Morato Gomes |
Qual o itinerário da volta ao mundo? |
Depois de Banguecoque e de uma curta paragem na histórica povoação de Sukhotai, decidi rumar mais a norte com o intuito de conhecer a tranquila cidade de Chiang Mai e algumas das minorias étnicas que habitam a região. Uma longa jornada sentado num autocarro a precisar de reforma e que, sem grande espanto, acabou por avariar a meio caminho. Mas haveria de mudar radicalmente de planos, em virtude da calamidade que se abateu sobre as regiões mais a sul.
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| Criança Poe usando o tradicional vestido branco reservado às mulheres solteiras, norte da Tailândia |
Chiang Mai, propriamente dita, é uma cidade muito atraente. Cosmopolita, sem a agitação de uma grande metrópole como Banguecoque. Mas suficientemente pequena para ainda manter o charme daqueles exíguos lugares onde um viajante se sente aconchegado. E, ao domingo à noite, no mercado semanal que na zona histórica tinha lugar, era possível adquirir artefactos provenientes de grupos étnicos das redondezas, vendidos pelos próprios. E observar assim alguns dos seus costumes e tradições. O principal motivo, afinal, que me trouxe até ao norte da Tailândia.
Decidi, pois, abandonar por uns dias a civilização. Encontrei uma genuína agência de ecoturismo e embrenhei-me numa floresta algures entre Chiang Mai e Mai Sariang, já muito próximo da fronteira com Myanmar. Chegámos a uma aldeia da minoria étnica Poe, um subgrupo da tribo mais populosa da Tailândia - os Karen - e fomos recebidos com alguma desconfiança. Ou talvez uma cautelosa distância que será suposto manterem perante forasteiros. Mas, uma vez quebrado o gelo, tudo foi diferente. Nunca saberei se foi da confraternização à volta do calor de um braseiro, de uma garrafa de vinho de arroz que ali se esvaziou ou apenas o normal período de tempo que pessoas tão diferentes necessitam para se adaptarem à presença de outrem. E assim comecei a saber mais sobre os Poe.
Com a ajuda de um guia-intérprete, descobri que a aldeia vive sem líderes. Todos são chamados a intervir na tomada de decisões. Existe apenas um ou outro elemento masculino que, por saber ler e escrever, é incumbido pela comunidade de tratar de questões burocráticas na capital da província. As mulheres são responsáveis pela maioria das tarefas diárias, incluindo trabalhos pesados como acartar madeira e água. E cozinhar, lavar, limpar e olhar pela descendência. Os homens, esses, têm aparentemente como principal missão, a construção e manutenção da casa da família. Aparte isso, pouco mais têm que fazer. A não ser fumar, conversar e beber.
Estando na aldeia, apercebi-me que os Poe possuem valores, costumes e tradições muito próprios. Como, aliás, a maior parte das minorias étnicas da Tailândia. Mas tudo pode, rapidamente, ir mudando. Sei que não fui o primeiro estrangeiro que dormiu ao relento nos alpendres de uma das casas da aldeia. Nem terei sido, seguramente, o último. E a linha que separa os aspectos benéficos dos nocivos, nesta convivência, é demasiado ténue. O dinheiro que recebem pela hospedagem dos viajantes tem, como qualquer moeda, dois lados distintos. Se os mais velhos acreditam, por exemplo, que o seu espírito pode ser roubado por uma objectiva a si apontada, já as crianças, com a sua natural curiosidade, adoram posar e ver a sua imagem numa máquina fotográfica digital. E assim, num ápice, se vão alterando as crenças que resistiram incontáveis gerações. Seja como for, tudo isto parece demasiado supérfluo perante o que entretanto sucedeu.
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| Estado em que ficou a marginal de Patong, ilha de Phuket, depois da passagem do maremoto |
Era suposto seguir do norte da Tailândia para o vizinho Laos, e lá permanecer um bom par de semanas. Mas uma catástrofe abateu-se sobre o sul da Tailândia e outros países da região. Estava em Vang Vieng, Laos, quando soube da gravidade dos acontecimentos. Segui imediatamente para a ilha de Phuket, tentando de alguma forma ser útil ao trabalho da jornalista do PÚBLICO enviada ao local.
Encontrei um cenário tremendo. Nunca os meus olhos tinham visto tamanho horror. A destruição de extensas praias e respectivos hotéis e resorts, reduzidos a nada com a passagem furiosa das águas. O cheiro a morte, nauseabundo, proveniente de corpos que se amontoavam por todo o lado na região de Khao Lak, 100 quilómetros a norte de Phuket. E a dor dos sobreviventes, de olhos cravados no chão, procurando quase sempre em vão um sinal de vida de familiares ou amigos. Alguns terão encontrado. Mas a maior parte procurava já apenas cadáveres, com o olhar encharcado de sofrimento e o coração visivelmente apertado. E não consigo sequer imaginar o que iria na alma daqueles que, por entre cadáveres completamente deformados, alinhados nos jardins de alguns templos feitos morgues, tentavam identificar algum ente querido.
Com o passar das horas, apercebo-me de que a gravidade da situação em Phuket, apesar do grau de destruição, não é comparável com a de outros lugares como Aceh, na Indonésia, ou Galle, no Sri Lanka. E é para o antigo Ceilão que agora me dirijo, sem coordenadas precisas, apenas com a certeza de ir ao encontro do inimaginável.
{ 08.Jan.2005 - 12:10. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }
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Apelo
• Ajudem esta gente humilde da Tailândia, da Indonésia e do Sri Lanka, que viu tudo o que a vida lhes deu ser arrastado pela força bruta das águas. Muitos ficaram apenas com a própria vida. E é desses, dos vivos, que é preciso agora cuidar.
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Caro Gralha,
Posso, duma forma directa e concisa, dizer que estou sem palavras. A dimensão da tragédia que se abateu aí é, pura e simplesmente, inimaginável! Eu não consigo ter a mínima noção do que é que se está a passar aí apenas fechando os olhos e imaginando... Todavia,aqui em Portugal... são bombardeadas pelos noticiários imagens... imagens duma perspectiva da onda aqui... da força do mar ali... imagens inéditas e exclusivas duma onda a “engolir” uma pessoa... de cadáveres a boiar... de destruição!... ou da espectacular perspectiva de jornalistas... em directo... junto das valas comuns na Indonésia, onde o número de cadáveres não pára de aumentar!
Todo e qualquer ser humano fica chocado e sensibilizado com aquilo que as imagens nos mostram... Bate no fundo!
Acho que, apesar da influência dos media... que mostram tudo o que aí se está a passar... tudo mesmo... é impossível, alguém ter a minima noção do que se está a viver aí... Da dor, da perda, da dor de vermos tudo aquilo para o que toda a vida trabalhamos ser destruido pela força duma vaga. Da dor de ficarmos órfãos... da dor de não termos água potável para beber, um aconchego para o estômago!... Apenas quem está aí, a viver toda essa tragédia... sente na pele a verdadeira dimensão e força da tsunami...
Neste momento, os conflitos israelo-palestinianos ou no Iraque, passam para segundo ou terceiro plano, e o Mundo mobilizou-se para ajudar os países mais afectados pela tragédia. É uma causa nobre... que nos toca a todos!
Já foram prometidos às Nações Unidas mais de 5 mil milhões de dólares para a ajuda na reconstrução das áreas afectadas...
Mas sabes... na minha opinião, daqui por algumas semanas... o incidente de 26 de Dezembro de 2004 vai deixar de fazer noticia. E aí... aí... veremos se o Mundo continuará mobilizado na ajuda humanitária... se as verbas que estão prometidas algum dia servirão para reconstruir o que está destruido, alojar quem está desalojado, alimentar quem precisa de ser alimentado... ou, se por ventura,o dinheiro chegar aos cofres dos governos da Tailândia, da Indonésia, do Sri Lanka, da Índia, etc, não servirá (como é habitual) para comprar um jacto de luxo para que os governantes possam viajar confortavelmente, ou para construir um palacete presidencial... ou para comprar um Ferrari todo xpto para o filho do Exmo. Sr. Presidente...
Penso que o resto do mundo, precisamente por não ter mínima noção da dor e tragédia vivida aí, irá certamente esquecer-se e quebrar este espírito de entre-ajuda... rapidamente!
Espero que tudo o que disse não tenha razão de ser... espero estar redondamente enganado!...
Da minha parte, vai um abraço forte para ti... de força e coragem...
Aníbal Figueira (Pessoal)
Comentário à viagem enviado por Aníbal Figueira em 08.JAN.2005 - 13:04
Filipe: estamos aqui fazendo o possível. Vou deixar duas informações, para os brasileiros que por aqui aparecerem: é o do SOS Sri Lanka: 0800 202000 (ligação gratuita).
A Cruz Vermelha Brasileira abriu uma conta no Banco do Brasil, destinada apenas às vítimas asiáticas: (não confundir com a conta do Banco de Boston que destina-se à Cruz Vermelha em geral)
Banco do Brasil
agência : 2865-7
conta-corrente: 400087-0
CNPJ: 33651803\1000-65
Doações não têm faltado, o problema aqui é como fazer com que elas chegem a determinadas regiões da Ásia. Ou seja: transporte.
E para você um BIG abraço.
Comentário à viagem enviado por Mécia em 09.JAN.2005 - 14:07
Um abraço grande para ti...
Comentário à viagem enviado por Daniel (Cristo) em 11.JAN.2005 - 12:36
Filipe, há muito tempo que não vinha cá, mas tu e o teu projecto, são tema de conversa periódica nos nossos grupos de amigos.
Hoje estive a “pôr a escrita em dia”, que é como quem diz a leitura...
O site, o projecto e tu continuam em excelente forma... Chega a criar inveja!
Um grande abraço, e continua a proporcionar-nos a possibilidade de ir gozando uma férias, mesmo estando a trabalhar...
PP
Comentário à viagem enviado por Paulo Pereira em 15.JAN.2005 - 17:47
Que tenhas sempre muita força e coragem para ajudar in loco todas essas pessoas que tanto precisam... por cá ajudamos de outras formas e torcemos para que tudo se recomponha rapidamente!
Um abraço bem forte!
Comentário à viagem enviado por Doroteia e Dr. em 16.JAN.2005 - 21:56
Eu acho que a tsunami foi uma grande tristeza... pois deviam prevenir... recuando as pessoas para trás. A Índia também não fez caso, pois já tinham avisado da onda gigante...
Comentário à viagem enviado por Nicole em 18.JAN.2005 - 18:36
Filipe, este teu site ajuda-me a alimentar o meu sonho de um dia estar a fazer uma viagem como esta.
Um abraço de coragem
Comentário à viagem enviado por Rosa Félix em 20.JAN.2005 - 13:50
Delicio-me a cada sábado com as suas crónicas no “Fugas”, mas devo confessar que o meu “voyeurismo” é mais forte e é quase diária a minha espreitadela neste magnifico espaço tão cuidadosamente preenchido por estas fantásticas fotografias! PARABÉNS! p.s Confesso que copio muitas delas! :)
Comentário à viagem enviado por Filipa em 21.JAN.2005 - 11:22
Gralha...
Um ano passou desde que a tragédia assolou o sudeste asiático! Por esta altura já estás de volta à nossa cidade... Já tive o prazer de te rever e de constatar que estás como eu: magro comó caraças!! hehehe... Porém, continuo a aceder quase religiosamente ao teu espaço! Continuo a “viajar” contigo, mesmo tu estando cá! Li, ou melhor, reli por acaso, esta crónica. Vi que deixei um comentário!
Esta será a altura mais que oportuna para comentar esse meu comentário...
Um ano passou como eu disse! É indubitável que esta tragédia deixou marcas... principalmente naqueles que viveram de perto a tragédia, a dor, a perda, a destruição!!! Infelizmente, penso que a minha previsão bateu certo...
O Mundo não tardou a esquecer esta tragédia! Será que o dinheiro prometido chegou ao fim almejado?? e a ajuda humanitária?? será que foi suficiente?? será que hoje, que ainda muito há para fazer, essa ajuda existe no peso e medida necessário? será? penso que não... penso infelizmente que não!!!
Tive a oportunidade de conhecer em Bruxelas (Maio último) alguém a quem, em amena cavaqueira perguntei: “mas diz-me lá, o que faz o teu pai??” e a resposta que obtive foi antecedida dum breve silêncio: “o meu pai... bem, o meu pai, vocês devem ter ouvido falar na imprensa... bem... o meu pai, foi um dos três portugueses que faleceram no tsunami...” Nunca tinha estado tão próximo de alguém que viveu tão de perto, tão intrinsecamente, todo o peso e dimensão desta tragédia... e uma coisa te digo Gralha, o arrepio que senti quando ouvi estas palavras... e a expressão do olhar dela... foi terrivelmente perturbante, que ainda hoje a relembro com pesar!
Nada que se compare, no entanto, àquilo que tu viveste e sentiste in loco...
Enfim... Grande abração para ti.. Encontramo-nos no BA!! hehehe
Comentário à viagem enviado por Aníbal Figueira em 04.JAN.2006 - 05:33
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Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.
Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.
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