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VOLTA AO MUNDO » 55. CUZCO E MACHU PICCHU, PERUInti Raymi, tributo Inca ao astro-rei
Uma semana de desfiles contínuos até ao dia da grandiosa encenação. Uma cidade inteira nas ruas, em festa permanente. Um povo orgulhoso da sua identidade. E, no final, uma teatralização com centenas de figurantes envergando vestes esplendorosas, copiadas do período Inca. Eis os condimentos para o Inti Raymi, a maior celebração popular da cidade peruana de Cuzco. Cheguei a Cuzco nos primeiros dias das festividades. Respirava-se alegria nas ruas da cidade, como em dia de Cortejo numa Queima das Fitas portuguesa. O ponto fulcral dos desfiles ficava situado na Hauqaypata, a belíssima praça central de Cuzco agora conhecida por Praça das Armas. Era o local onde as diversas delegações apresentavam as suas coreografias, perante uma plateia de ilustres personalidades, que todos cumprimentavam com reverência. Dançavam ao som de músicas populares. Cantavam e tocavam. Ou apresentavam curtas cenas teatrais. Com recurso a carros alegóricos ou simplesmente caminhando. Uns, visivelmente ensaiados. Outros, em animados improvisos. Tudo era muito colorido, com enorme bom gosto. Dava prazer sentar na berma do passeio e, simplesmente, apreciar.
Viam-se delegações de todos os tamanhos e estratos sociais. Enormes grupos provenientes dos diferentes cursos universitários, jovens de colégios e agremiações infantis. Representantes da Unicef e escolas de dança. Pequenas delegações ministeriais e trabalhadores de empresas de transportes, telecomunicações e demais ramos de actividade. Todos os sectores da comunidade desfilavam pelas ruas empedradas da cidade. Era impressionante ver a mobilização colectiva da população cusqueña. Entre a multidão, viam-se também muitos turistas estrangeiros, mas não creio que estivessem ali pelo Inti Raymi. Cuzco é um dos lugares mais visitados de toda América do Sul e esse facto tem uma justificação muito simples. É a partir de lá que se organizam as incursões à majestosa “cidade perdida” da civilização Inca, Machu Picchu. Para chegar ao solo sagrado de Machu Picchu, há quem efectue caminhadas incrivelmente duras pelas trilhas deixadas pelo Império Inca. “Pensei que ia morrer”, comentou um viajante, com algum exagero, a propósito da caminhada. São três dias de grande esforço, quase sempre a subir. Mas há também quem se deixe levar por um comboio até Aguas Calientes e daí ascenda a Machu Picchu de autocarro. Indaguei as hipóteses. Não havia lugar para a famosa trilha Inca e, em todo o caso, não queria perder o clímax do Inti Raymi, marcado para daí a três dias. “Se quiser voltar a tempo só temos bilhetes em primeira classe”, informaram-me na apinhada estação de caminho-de-ferro. Resignado, paguei o preço de um bilhete de luxo. Iria a Machu Picchu da forma menos emocionante, mas voltaria a tempo de assistir ao auge das celebrações.
As imagens das ruínas de uma cidade Inca rodeada por pináculos esguios, num misto de verde e cinza, vegetação e pedra, são por demais conhecidas de todos. Por tudo ser tão familiar, estava preparado para a desilusão. Enganei-me. A entrada era feita por um local onde, após uns quantos degraus, se avistava Machu Picchu de um ponto de vista superior. Dei por mim completamente rendido, imóvel, perante a magnificência do que os meus olhos observavam. Machu Picchu é um lugar arrebatador, mágico, impressionante. Com um senão, apenas: a média diária de visitantes é assustadora. Consta, aliás, que o monte onde Machu Picchu foi erigida corre o risco de um colapso. E não creio que a massiva presença de turistas ajude a evitar o que parece ser inevitável. Talvez em breve deixe de ser possível visitar tão inolvidável local. Regressei a Cuzco - a cidade que os Incas construíram com a forma de um puma - a tempo da celebração final do Inti Raymi. Fotografava o desfile na Praça das Armas ao lado de Tadeu, um fotógrafo profissional de origem brasileira, quando ele me informou: “Já cá estive noutra ocasião. Temos que ir para Saqsaywaman o quanto antes. Dentro em breve será quase impossível lá chegar.” Assim fizemos. Saqsaywaman são ruínas do período Inca representando a cabeça do tal puma. Era o local onde iria ter lugar o apogeu de toda a semana, daí a um par de horas. Um táxi a preços inflacionados levou-nos até lá.
Um recinto rectangular aguardava os intervenientes na cerimónia final. Havia bancadas em redor, cujos lugares eram vendidos a preços exorbitantes a europeus e americanos. Os peruanos, esses, há muito que se tinham deslocado para a colina exactamente em frente ao recinto. Não se via o solo da colina, apenas corpos, cabeças, um batalhão de gente anónima que procurava um lugar para assistir à cerimónia sem custos. Em redor, enquanto aguardavam, famílias inteiras construíam no solo fornos de terra - como se de toupeiras se tratassem - para assar batatas. Era o que comiam, enquanto outros jogavam futebol, vendiam artesanato, conversavam. Parecia um misto de feira e Festival de Verão. Algo muito social, popular, despretensioso. Não fora os preços da entrada e seria uma autêntica festa do povo, para o povo.
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