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Viagens: lago Inle, Myanmar
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VOLTA AO MUNDO » 29. LAGO INLE, MYANMAR (BIRMÂNIA)

Myanmar, um país oprimido

Dirijo-me para Myanmar (Birmânia) ciente de estar a entrar num país dirigido por uma abominável junta militar, mas com um povo afabilíssimo. Páro em Kalaw, onde me embrenho nas montanhas envolventes e pernoito numa família de etnia Dhanu. E sigo depois para o lago Inle, onde observo a excentricidade piscatória daqueles que ali remam com as pernas.

Por Filipe Morato Gomes

Qual o itinerário da volta ao mundo?



Estava prestes a entrar num país onde a liberdade é ainda uma miragem. Uma junta militar execrável dirige, desde 1962, os destinos de Myanmar com implacável mão de ferro para com os oponentes do regime. Detenções arbitrárias de dissidentes são parte do quotidiano. Para o cidadão comum, falar sobre política é um jogo arriscado. O medo paira nas ruas das cidades. Assim sendo, seria ético visitar Myanmar?

Percorrendo as ruas de uma aldeia erguida sob estacas, Lago Inle
Percorrendo as “ruas” de uma aldeia erguida sob estacas, Lago Inle

Aung San Suu Kyi, a carismática líder da Liga Nacional para a Democracia e Prémio Nobel da Paz, tem apelado para que a comunidade internacional boicote as viagens a Myanmar, até que os candidatos eleitos democraticamente em 1990 tenham autorização para formar governo. Além disso, é virtualmente impossível visitar algumas das mais emblemáticas atracções do país sem pagar entradas que vão directamente para os cofres do governo. Visitar Myanmar pode ser visto como um acto de conivência para com o regime. Porquê, então, fazê-lo? Antes de mais, porque o turismo é uma das actividades à qual o comum do cidadão pode ter acesso. Seja conduzindo um trishaw, um táxi ou um barco, seja sendo proprietário de uma mercearia, um restaurante ou uma pequena pousada. O turismo é, pois, uma forma de alimentar financeiramente as gentes locais.

Por outro lado, o governo já mostrou no passado ser sensível às reprimendas internacionais e não é descabido admitir que, na hipótese de os estrangeiros deixarem de entrar no país, as probabilidades de graves atropelos aos direitos humanos aumentem sobremaneira. Além disso, o contacto com forasteiros e a troca bilateral de informações são quase sempre benéficos para quem almeja maiores liberdades. Ciente dos prós e contras, tomei a decisão de embarcar num avião rumo a Yangon, capital de Myanmar.

Não encontrei em Yangon suficientes pontos de interesse para por lá me delongar. Aparte a impressionante Shwedagon Paya, o mais sagrado de todos os lugares budistas do país, que visitei deleitado. A luz de final de tarde aquecia os tons dourados omnipresentes no complexo. Monges noviços meditavam em pequenos grupos. Gente simples vagueava pelo edifício, enquanto outros efectuavam pequenas oferendas. Sendo-se ou não budista, Shwedagon é um lugar fabuloso que merece de qualquer viajante um bom par de horas de atenção.

No dia seguinte estava já a caminho de Kalaw, uma pequena povoação localizada a oeste do lago Inle, este último um dos mais visitados lugares de todo o país. Juntamente com uma companheira nórdica, partimos para as regiões montanhosas envolventes, sob a liderança de J.P. Barua, guia de ascendência indiana, excelente conversador e conhecedor de todos os dialectos falados pelos diversos grupos étnicos da província.

Arrozais em fase de pós colheita, na região montanhosa envolvente a Kalaw, Myanmar (Birmânia)
Arrozais em fase de pós colheita, na região montanhosa envolvente a Kalaw

A paisagem era dominada por arrozais em tempo de pós colheita. Passámos por vários povoados habitados por gentes Pao e Palaung, mas J.P. decidiu que haveríamos de dormir numa aldeia Dhanu. Excelente escolha. A família que nos recebeu era de uma simpatia extrema. Estavam genuinamente felizes por nos ter como hóspedes. Em volta de um muito bem-vindo braseiro, um jantar irrepreensível foi sendo cozinhado pela filha dos donos da casa. A mãe ia preparando crackers de arroz para vender na estação de caminho-de-ferro, no dia seguinte. Enquanto isso, o pai mostrava, orgulhoso, um casaco polar oferecido um mês antes por um grupo de sete portugueses - “os primeiros portugueses” a lá pernoitarem. J.P., apesar de bastante comunicativo, quase sempre se mostrou evasivo quando o assunto era mais comprometedor. Mesmo perdido nas montanhas, nunca se sabe quem pode estar à escuta.

Segui de Kalaw para o lago Inle num pequeno autocarro lotado com vários tipos de seres vivos, incluindo um par de estridentes leitões. Mal chegado a Nyaungshwe, povoação próxima do lago, um passeio a bordo de uma canoa desvendou os primeiros segredos. Percorrendo os estreitos canais envolventes, era possível observar o quotidiano nas aldeias cujas casas estavam assentes em estacas, sob a água dos canais. Mais tarde, já de barco a motor, visitei o fascinante mercado de Indein, onde centenas de pessoas de várias minorias étnicas negociavam de tudo um pouco. E, no caminho, os afamados pescadores do lago Inle labutavam utilizando as pernas para remar as suas embarcações. Uma visão tão estranha quanto bela.

Dias depois, era tempo de mudar de poiso. Enquanto aguardava o autocarro para Mandalay, um militar impecavelmente fardado mandava parar quase todos os camiões de mercadorias e pick-ups de passageiros. Sem qualquer palavra trocada, alguém saía imediatamente da viatura, corria em direcção ao polícia e, com a palma da mão virada para baixo, entregava dinheiro ao oficial. Quando desconfiado, o militar conferia o montante entregue. Nunca o verde de um uniforme me enojou tanto como naquele momento.


{ 07.Fev.2005 - 04:15. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }

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Qual a vossa opinião?
• Visitar ou não países como Myanmar?

Caro Gralha,

Sim... sem dúvida... devemos visitar países como Myanmar.. Tal como tu referiste, em primeiro lugar porque o turismo é o meio de sustento para parte da população... Não sei se será uma parte considerável... mas penso que não. Em segundo lugar, e muito mais importante ainda, a troca de impressões e informações bilaterais é um dos meios mais priveligiados de sensibilização, e um dos passos mais certeiros para que se torne possível um dia... a democracia! Myanmar é um caso peculiar... e felizmente raro no panorama internacional... Imagino o que deves ter sentido, como observador de atropelos e verdadeiros atentados à democracia e liberdade de expressão... deve ser... aterrador!

Grande abraço... e força!

Comentário à viagem enviado por Aníbal em 07.FEV.2005 - 12:57

Remar com as pernas?! desconhecia tal proeza...
Julgo que a ideia será não premiar o governo com resorts de luxo, onde os turistas passam uma semana sem saber em que terra estão... deve ser contra esse turismo que se apela ao boicote, pois não traz nada às populações, só ao regime...
O turismo consciente, feito “à solta”, traz mais benefícios à população local, penso, nem que seja um casaco polar. =)
Boa sorte, continuação de boas viagens, e continua a surpreender-nos! Beijinhos!

Comentário à viagem enviado por MagdA em 07.FEV.2005 - 13:29

Filipe,

Infelizmente, só hoje iniciei a leitura deste magnífico site! Sem dúvida, esta viagem é o sonho de todos nós, por isso muito obrigado por partilhares conosco as tuas aventuras.

Em relação à tua crónica! Bem... só visitando esse tipo de países é que uma pessoa tem noção de quanto é difícil viver assim. Dá-se valor aàuilo que se tem e ganha-se força para ajudar, nem que seja com uma mera “passa a palavra”. De uma forma tão simples, quem sabe não se consegue fazer algo grandioso um dia!!!

Boa sorte....

Comentário à viagem enviado por Catarina em 07.FEV.2005 - 13:48

A liberdade é efectivamente algo de super valioso que deve ser sentido, independentemente da forma como a falta dela nos é mostrada ou transmitida. A questão que se me tem colocado ao longo da vida é se a liberdade é válida mesmo não sendo total e se, em tais circunstâncias, ou seja, sendo parcial, poderá continuar a ser denominada de liberdade. Penso que sim, na medida em que, para além da liberdade de circulação, pensamento e escrita, todas as outras poderão (?) e deverão ser conquistadas a partir daquelas. Justo seria que a liberdade englobasse também, pelo menos, o livre acesso à educação e à saúde, não referindo obviamente o primado da civilização e direito inalienável de cada ser humano, casa e alimentação que nunca deveriam não existir. Não há dúvida alguma de que o mundo se encontra ainda muito longe da igualdade entre os seus habitantes! Por tudo isto, todos os relatos que tragam à luz provas de ausência de liberdade só poderão ser bem-vindos e aplaudidos.Poderá ser que, um dia qualquer, num qualquer local do mundo, os homens acordem e restabeleçam tudo o que eles próprios destruiram. Utopia? Talvez!

Comentário à viagem enviado por Morato em 08.FEV.2005 - 14:51

Não tenho nenhum interesse em visitar países como este.
Tanto lugar no mundo para se ver, porquê visitar um país como este?
Sem comentários.

Comentário à viagem enviado por Walton Pereira Miranda em 18.MAR.2005 - 04:07

Mingalaba,
Cheguei há duas semanas de Myanmar (ou Birmânia, como muitos birmaneses dizem ainda), onde passei 3 semanas inesquecíveis.
A educação, a simpatia e o carinho com que fomos recebidos, por todo o lado onde andámos, deixaram-nos comovidos.
As pessoas têm uma vida bastante dura, completamente desprovida de todos os confortos da vida moderna que todos nós damos hoje por adquiridos, mas nem por isso demonstram azedume ou amargura.
Por outro lado, há um ritmo e modo de vida, no dia-a-dia, que tem um equilíbrio muito próprio e que no nosso mundo se perdeu para sempre. De certa maneira, fez-me lembrar Portugal, nos anos 60 e 70 (o Portugal da minha infância), com tudo o que havia de bom e de menos bom.
Em relação à questão que coloca sobre visitar ou não este país magnífico, concordo com o que diz, ou seja, que é, sobretudo, uma actividade através da qual podemos dar o nosso contributo ao cidadão comum. Há que ter o cuidado (e é fácil fazê-lo) de não utilizar estabelecimentos que tenham relação com o governo.
Podemos ajudar de muitas maneiras, usando os transportes locais, comprando aos produtores, nos mercados e fora deles, ficando em pequenos hotéis ou mosteiros.
Como diz, e bem, «O turismo é, (...) uma forma de alimentar financeiramente as gentes locais».
Como em tudo, cada um de nós é livre de fazer a sua escolha. Mas é importante lembrar (como diz também na sua crónica) que não é descabida a probabilidade de aumentarem os graves atropelos aos direitos humanos, caso os estrangeiros deixem de entrar no país.
As pessoas com quem contactei, sobretudo de várias aldeias a norte, na região Shan, mostraram-se encantadas com a nossa visita. Grande parte das pessoas com quem contactámos (sobretudo monges) conhece o nosso país e tem uma curiosidade imensa de saber... de tudo! É como diz, «o contacto com forasteiros e a troca bilateral de informações são quase sempre benéficos para quem almeja maiores liberdades».
Coitados de nós se na década de 60 e 70 também nos tivessem deixados isolados.
Gosto imenso das suas crónicas. Obrigada por partilhar connosco as suas viagens.

Comentário à viagem enviado por Teresa Carvalho em 27.ABR.2005 - 17:08


Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.

Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.


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