Percalços na verdejante Mongólia central
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Depois de uma semana a viajar pelo Deserto de Gobi, chegar às estepes da Mongólia Central proporcionou uma agradável mudança de cenário. Surgiu a água, o verde, mais vida. Mas nem tudo foi perfeito. Os azares acontecem, ao melhor estilo mongol. |
Por Filipe Morato Gomes |
Qual o itinerário da volta ao mundo? |
Os dias passados no deserto de Gobi foram uma admirável experiência. Mas sabe bem ouvir de novo a água correr rio abaixo. E perder o olhar no verde viçoso que pinta encostas e vales na zona central da Mongólia. Passear nas margens de um lago imenso e tranquilizador ou observar o horizonte agora marcado pelas curvas insinuantes de montanhas em salto alto. Não há dúvida. A paisagem mudou desde que voltámos a ter o norte como alvo. Pedras por árvores e arbustos, camelos por cavalos e iaques, planícies por planaltos e montanhas, lentamente o quadro que nos envolve foi-se tornando menos rude, mais frondoso. Talvez mais bonito. Diferente.
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| Traje tradicional de uso quotidiano nas estepes da Mongólia central |
Chegamos a Orkhon reconfortados com a ideia de um dia de descanso neste ambiente bucólico. Será o primeiro dia sem condução desde que partimos para esta expedição todo-o-terreno, pausa muito bem-vinda depois de milhar e meio de quilómetros de abanões e solavancos por caminhos inenarráveis. E Orkhon é um lugar magnífico para relaxar. Não há nada à nossa volta, nenhuma povoação, nada. Apenas pequenos conjuntos de gers plantados nas proximidades do rio que corre calmo e lento. Centenas de cavalos vagueando elegantemente em busca de pasto. E verde, muito verde em todas as direcções. Outros viajantes tinham-nos falado da excelência deste lugar, de quanta pena tinham tido por não poder ficar mais tempo, queixavam-se enfim de ter passado por aqui demasiado rápido. Compreendo os motivos. O vale é belíssimo, sem dúvida, e vindos do deserto esse encanto é como que uma miragem tornada realidade.
Mas nem tudo foi perfeito nesta passagem pela Mongólia central. Algo muito estranho sucedeu, aliás. Pela primeira vez nesta viagem, crianças lançaram pedras contra a nossa carrinha como se de um jogo se tratasse. Tiro ao alvo. Em movimento. Já tinha escutado histórias de ciclistas apedrejados por miúdos nas estradas do Tibete, mas nunca nenhuma referência a este tipo de comportamento relativamente à Mongólia. Atitude estranha esta, ainda mais num país de gente tão afável e hospitaleira. Um caso isolado, provavelmente.
E a carrinha, preparada e acostumada a estes terrenos difíceis, pela primeira vez cedeu. Foi à passagem pela antiga capital Kharkhorin que se recusou a colaborar. Parou. Avariou. “Machine no good” - palavras do nosso simpático condutor Nêma, proferidas em simultâneo com o típico gesto mongol de mostrar o punho cerrado elevando somente o dedo mindinho. Simboliza algo de mau, desacordo, reprovação, muito a propósito quando acabamos por ficar retidos durante mais de seis horas numa estrada de terra batida às portas de Kharkhorin.
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| Vale de Orkhon, Mongólia |
Afortunadamente, sucedeu perto de uma povoação. Deambulámos pelo mercado local, atrevemo-nos a entrar num minúsculo restaurante despido de gente e comer o que calhar - carneiro com algo mais, pela enésima vez -, matámos o tempo enquanto Nêma solucionava o problema mecânico. E decidimos visitar o famoso Mosteiro de Erdene Zuu situado nos arredores da cidade e uma das grandes atracções do país, segundo consta. Uma enorme desilusão. Fama desmerecida.
Nêma lá conseguiu solucionar o problema. Com criatividade e imaginação. E a ajuda de outros condutores que passam e param e oferecem auxílio. Sinto como verdadeiro que onde menos há mais as pessoas são solidárias, cooperantes e engenhosas, inventivas, a arte da sobrevivência tornada parte integrante do quotidiano. Olho para o corpo da sorridente Sophie, companheira de viagem onde habitam para a eternidade uns caracteres tatuados em árabe no fundo das costas: "A imaginação é a luz da alma". E do desenrascanço. A carrinha arranca novamente.
{ 20.Set.2004 - 15:05. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }
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Qual a vossa opinião?
• Exemplos engraçados de percalços, azares ou acidentes de percurso que tenham acontecido nas vossas viagens?
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Há um percalço que ficou na memória. Medina de Fez, Agosto de 1999. Tínhamos lido todos os livros e todas as recomendações de não tentar explorar a medina por nossa conta e risco, de tãp labirítica que era. Tinham razão.
E também tinham razão quando insistiam que o mais apropriado era arranjar um guia oficial, porque a polícia perseguia os “oportunistas“ não credenciados.
Tentámos fazer isso, e fomos “abandonados” ainda antes de partir pelo guia oficial recomendado pelo hotel. Só porque dissemos à partida que não queríamos ver lojas, porque já tínhamos perdido a cabeça em Chefchaouen. Depois fomos abandonados em plena medina pelo segundo...
A imagem que retenho sempre desta “turbulência” é a deste nosso segundo guia deixar uma frase a meio, desatar a correr, aos encontrões contra quem se lhe pusesse à frente... E o nosso quase terror, a olhar para todo o lado para tentar descobrir a saída...
Apesar de tudo isto, é impossível não dizer que visitar a Medina de Fez (sim, conseguimos à terceira, após queixas no turismo e alguns “petit et grand taxis” depois) é uma experiência a não perder... Ou haverá no planeta muitas oportunidades de verificar, in loco e com vida, todas as descrições que nos faziam das aulas de história sobre a idade média...
Comentário à viagem enviado por LP em 20.SET.2004 - 21:09
A visita guiada à medina de Fez foi uma das viagens mais fabulosas que já fiz na vida (já falei dela aqui: para já, foi a minha única viagem no tempo). Tivemos muita sorte com o guia (a forma como consegui ser implacável na questão lojas e sobretudo na questão tapetes foi assustadora), o Hassan, que não só nos mostrou tudo o que queríamos ver (as cabeças de cabra pousadas nos balcões do souk, aquela coisa intensa e medieval que são as tinturarias, mas também o cemitério judeu e respectiva sinagoga, dado o meu fétiche) como ainda nos explicou tudo, com muita mímica pelo meio, sobre os ritos marroquinos de iniciação sexual.
Percalço a sério tivemos em Meknès quando o T. deixou a mochila com tudo - documentos, dinheiro, etc - num petit taxi. Horas mais tarde, o motorista aparecia na polícia com a mochila intacta, o T. deu-lhe uma grande gratificação e ele deu ao T. um grande beijo. Foi uma bela lição de honestidade, mas talvez também uma demonstração algo sinistra da eficácia da palavra “jornalista” nas democracias musculadas que vivem do turismo e da respectiva publicidade.
Pior ainda foi quando me esqueci de uma máquina fotográfica que ainda por cima não era minha num restaurante em Praga. Dei pela falta dela poucos minutos depois de ter saído, mas quando lá voltei o empregado fingiu que não sabia do que se tratava enquanto eu rastejava no chão à procura da máquina. Estava pronta para sair, com a lágrima ao canto do olho, quando o empregado pergunta, completamente cínico: “Era esta? Para a próxima não vai ter tanta sorte”. Serviu como mais uma prova da sistemática antipatia dos checos (sim, infelizmente tenho este preconceito).
Nem sequer menciono o meu currículo familiar em matéria de avarias automóveis em férias, assaltos no metro de Paris ou porta-moedas abandonados em restaurantes de beira de estrada em Espanha. Nisso o meu pai sempre foi muito talentoso e eu nunca mais daqui saía.
Comentário à viagem enviado por Inês em 20.SET.2004 - 21:42
Só tenho uma presente, pela estupidez da situação. Habituado como estava em fazer várias viagens Porto-Póvoa de comboio em locomotivas podres e sem conforto algum, era meu hábito fumar um cigarro à porta das mesmas aquando da sua paragem.
Viagem Coimbra-Porto. Eu e um amigo meu. Intercidades. Confortável. Vazio (2 italianas a dormir ao nosso lado). Paragem em Aveiro. Reflexo condicionado Pavloviano. Porta... cigarro. Porta moderna... automática... sentir porta a fechar nas minhas costas... comboio a iniciar marcha... saltar ou manter até à próxima estação? Amigo da parte de dentro do comboio com olhar “what the f***?” Munido com um único cigarro, toca a telefonar da estação para o telemóvel do amigo. Combinar com ele para nos encontrarmos na próxima estação. Apanhar outro comboio para o Porto. Regional. Cheio (de tropas) abafado. Conclusão: fumar cigarros à porta de comboios em trânsito? Fal mal à saúde...
Comentário à viagem enviado por Pedro Santos em 24.SET.2004 - 08:53
Não admira que tivesse dificuldades em encontrar-te...mas afinal tudo ficou à distância de um click.
A partir de hoje vou “seguir-te” diariamente para ver se a minha admiração por ti faz “overflow”.. ;-)) (já não é preciso muito)
Felicidades para a tua aventura, e podes contar com um novo patrocinador (vou juntar alguma malta)
1 abraço, Toni
Comentário à viagem enviado por Toni em 25.SET.2004 - 19:05
Então viajante... Cá estamos nós. Os teus percalços também nos fizeram lembrar os nossos na nossa mini aventura em Marrocos. Será que o guia falso e os seus ameaçadores companheiros nos vão assaltar o carro, partir os vidros furar os pneus??? Nada que não conseguissemos controlar perfeitamente recorrendo à velha técnica: DINHEIRO. Apesar do mau serviço e do abandono no meio da Medina logo pela manhã pagamos os dois dias combinados... Mais vale prevenir.
Beijos grandes e continuação de boa viagem. Logo que haja novidades damos notícias.
Comentário à viagem enviado por Susana e Pedro Castro em 25.SET.2004 - 19:25
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Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.
Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.
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