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VOLTA AO MUNDO » 57. MONTEVIDEU, URUGUAIAs tardes de sábado no Mercado do Porto, em Montevideu
Entrar num mercado traz, quase sempre, surpresas agradáveis. Vêem-se as frutas e legumes de cada lugar, as minorias étnicas vendendo os seus produtos artesanais, as comidas de aspecto desconhecido e sabor esquisito ou os artigos contrafeitos “originais” e “com garantia”. Uma diversidade de mercadorias, gentes e sabores que ajudam a assimilar uma cidade, uma região, um país.
Lembro-me, por exemplo, das mulheres Dao e H&´mong vendendo as suas mantas no mercado semanal de Sapa, no Vietname. Dos cheiros das bancas de comida no de Indein, nas margens do Lago Inle, em Myanmar. Dos homens jogando bilhar no mercado de Kharkhorin, na Mongólia profunda. Das cores dos tecidos no mercado de tais em Dili, Timor-Leste. Do tráfego caótico do mercado flutuante de Cai Rang, no delta do rio Mekong. Ou, mais recentemente, da pólvora seca e dos paus de dinamite vendidos a qualquer pessoa no mercado dos mineiros em Potosí, na Bolívia. Mal cheguei ao Uruguai, a bordo de um ferryboat que atravessou o Rio da Prata e atracou em Colónia do Sacramento - uma cidade fundada por D. Manuel Lobo no ano de 1680 -, avisaram-me que era “obrigatório” passar a tarde de sábado no Mercado do Porto, em Montevideu. Tinha assim dois dias para explorar a pequena mas bela Colónia. A influência portuguesa era notória na arquitectura do centro histórico, classificado Património da Humanidade pela UNESCO. Um centro com dezenas de edifícios coloniais bem preservados e repleto de museus. O Museu Municipal, o Museu Paleontológico, o Museu Indígena, o Museu Espanhol, o Museu do Azulejo e, claro, o Museu Português. Neste último, localizado em plena Praça Maior, coração do centro histórico, era possível apreciar fragmentos de azulejos lusos do século XVII retirados das escavações do Bastión del Carmen, antiga fortificação da época colonial. E roupas e moedas de outros tempos. E ainda peças de cerâmica popular contemporânea oriundas do Alentejo, do Minho e de Trás-os-Montes, a provocar uma suave nostalgia em quem já não pisa solo luso há tantos meses. Era então sábado de manhã e hora de apanhar um autocarro rumo a Montevideu, a tempo de seguir o conselho recebido e espreitar a agitação no Mercado do Porto. Era um edifício quadrangular, antigo e de arquitectura curiosa. Lá dentro não se vendiam roupas, óculos Ray Ban, frutas ou discos compactos pirata. Havia, isso sim, muita carne e cerveja. Era um mercado de restaurantes. O equivalente às nossas churrascarias, mas num ambiente completamente informal. Centenas de jovens emborcavam cervejas de três quartos de litro, comiam churrasco, namoravam ou procuravam encetar conversa com as belas morenas da capital. Era como se de uma festa nocturna se tratasse, em pleno dia. A pista de dança tinha sido substituída pelo centro do mercado, sem mesas e cadeiras. Os balcões dos bares eram os dos restaurantes. E, por volta das cinco da tarde, quando tudo estava prestes a fechar, os mesmos homens alegres, de fala desarticulada e caminhar desajeitado. Um ajuntamento espontâneo, muito social e despretensioso.
A vida nocturna era ainda mais intensa. Mas tudo tinha início bastante tarde. À meia-noite, por exemplo, as ruas permaneciam adormecidas e os bares quase sem gente. Um pouco mais tarde transfiguravam-se e ficavam repletas de gente jovem, bonita e bem vestida. Poderia ser uma qualquer capital europeia, não fora algo muito peculiar nalguns transeuntes. Já nas ruas de cidades argentinas me tinha apercebido daquele fenómeno mas, no Uruguai, a dimensão do mesmo era muito maior. As pessoas carregavam debaixo do braço termos contendo água quente, como se fosse um jornal enrolado. Numa das mãos, um estranho vaso feito copo, bem trabalhado, do qual saia, invariavelmente, uma espécie de boquilha metalizada. Ervas verdes enchiam o dito copo e, de tempos a tempos, o topo da boquilha era levado ao encontro da boca do indivíduo. Toda a gente o fazia. Vi esse ritual em pedestres, em pessoas sentadas nos bancos de jardim, nos cafés e restaurantes, nos empregados das lojas, em todo o lado. O que estava dentro da chávena era chá-mate, do qual os uruguaios são os maiores consumidores do mundo. “Cada uruguaio bebe, em média, 540 litros de chá-mate por ano” - podia ler-se num placard colocado na cozinha de uma pousada de Montevideu. Provei, curioso, para logo desistir. Para um palato desacostumado, o sabor amargo e forte era tudo menos aprazível. Ao fim de um par de tentativas, quedei-me por bebidas mais familiares. Uma cerveja, a acompanhar um suculento churrasco, no Mercado do Porto de Montevideu.
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