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VOLTA AO MUNDO » 60. OURO PRETO E MARIANA, MINAS GERAIS, BRASILEm Ouro Preto, na casa do “Papá”
Faz muito tempo que “Papá” estudou em Ouro Preto. Durante esse período, viveu na república Sinagoga. Aproveitou ao máximo o espírito ímpar de uma acolhedora cidade estudantil como Ouro Preto. Entre festas, noitadas e algum estudo - imagino. Fez amizades verdadeiras - daquelas para toda a vida -, conheceu o calor das mineiras, apaixonou-se pela sua actual esposa. Olho para o seu sorriso disfarçado e imagino que terá saudades. Olho para o seu olho brilhante e imagino que aqueles terão sido alguns dos melhores anos da sua vida. Talvez por isso, como uma ave que regressa ano após ano ao mesmo ninho, “Papá” regressa à sua república. Foi lá que o fui encontrar.
Estava num autocarro que fazia a ligação entre Belo Horizonte e Ouro Preto quando, ao meu lado, se sentou um rapaz novo e simpático. Feitas as apresentações, perguntou-me em que pousada iria ficar hospedado. “Não sei, nunca faço reservas. Quando chegar lá, procuro” - respondi. “Eu moro numa república, às vezes recebemos turistas” - prosseguiu, para mais tarde sugerir: “é tudo muito básico, mas se quiseres ficar lá...” Entre um quarto de pousada bem decorado e arrumado mas solitário, e uma cama num quartinho de uma casa repleta de estudantes, com muita alegria e festas quanto baste, a escolha pareceu-me óbvia. “Adoraria ficar convosco” - disse, sorrindo, com a certeza de que por mais simples que fosse a república, ir-me-ia sentir bem. Muitas repúblicas de estudantes em Ouro Preto estão acostumadas a receber viajantes independentes. Cobram, para isso, preços módicos para quem anda na estrada com orçamento reduzido. E usam o dinheiro para melhorar a própria república. “Já comprámos uma geladeira e um novo fogão com o dinheiro dos turistas que ficaram aqui nos últimos tempos” - dir-me-ia, dias mais tarde, “Bolão”, apelido do líder na hierarquia da república. “Trouxe um portuga para ficar connosco” - disse “Tô Fora”, quando cruzámos a porta de entrada da Sinagoga. Uma instantânea sensação de regresso aos tempos académicos invadiu a minha alma. Era um casarão antigo, de chão de madeira, com vários quartos, uma cozinha desarrumada como em qualquer casa de estudantes, uma ampla sala comum com colchões pelo chão e algumas outras particularidades interessantes. Como o grelhador montado num grande pátio propício a festas ao ar livre. E a maior surpresa de todas, anunciada com um “portuga, anda ver a nossa boîte”. Era uma sala escura mas aconchegante, com espaço para dançar e recantos para sentar, decorada com sinais de trânsito, instrumentos musicais velhos e pinturas na parede, e onde não faltavam um engenhoso sistema de luz - incluindo uma bola giratória espelhada e um semáforo gigante - e um potente sistema de som. “Tens que ver isto cheio de morenas” - gracejaram, com ar malandro.
Não tive a sorte de ver as “morenas” dançar mas, mesmo assim, apaixonei-me. Pelas ladeiras empedradas de Ouro Preto. Pela arquitectura sóbria do centro histórico da cidade, que a UNESCO entendeu classificar como Património Mundial. Pelos telhados. Pelas cores pastéis das fachadas dos casarios. Pelos sons de batuques e berimbaus que comandavam rodas de capoeira em plena praça central. E pela inacreditável obra do Aleijadinho, escultor ali nascido e que deixou um legado de arte espalhado por várias cidades de Minas Gerais, incluindo Ouro Preto. A maioria das suas obras foi esculpida com o martelo e o cinzel sustentados pelos tocos dos seus membros superiores, após, com apenas trinta anos de idade, ter perdido ambas as mãos e pés. Impressionante. Enquanto me deliciava com passeatas por Ouro Preto, quase todos os moradores da república estavam em época de exames finais. Mas qualquer pretexto era bom para adiar o inevitável estudo. “Amanhã vêm aí alguns antigos moradores da Sinagoga para confraternizar e matar saudades” - informaram-me. É curioso como, muito após a formatura, os antigos alunos continuam a regressar a Ouro Preto. Não pela universidade, mas pelas marcas gravadas na memória pela república onde cada um morou. Um banho de alegres saudades, como naquele momento em que “Papá” contemplava os retratos de todos os antigos moradores da Sinagoga, pendurados nas paredes da casa.
Certa manhã, saí de Ouro Preto para visitar a vizinha Mariana, uma das várias cidades históricas de Minas Gerais. Como Tiradentes, Diamantina, São João del Rei e Ouro Preto. Ruelas empedradas com casarios coloniais bem preservados davam um toque de charme à povoação. E havia algo inusitado em Mariana. Caminhava-se até à Praça Minas Gerais e o olhar deparava-se com duas igrejas imponentes, de fachadas brancas e limpas, compartilhando o pequeno espaço da praceta. Uma visão rara e muito atractiva. Era então tempo de mudar de poiso e rumar ao Espírito Santo. “Até mais, Pereira” - assim se despediram os moradores na Sinagoga. “Pereira”, aliás, “Manuel Joaquim Pereira Ora Pois”, foi a alcunha que ganhei desde o primeiro instante na república. Como se todos os portugueses fossem manueis ou joaquims e o “ora pois” fosse a expressão nacional por excelência. “Pereira, hás-de voltar” - sentenciaram. Talvez. Fui morador da Sinagoga durante apenas uma semana mas, à saída, levava comigo uma pequena amostra do espírito da vida solidária de uma república. Sendo assim, tal como “Papá” que regressa ano após ano à Sinagoga, pode ser que o “Pereira” volte um destes dias.
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