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Viagens: partida para a volta ao mundo
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VOLTA AO MUNDO » 01. PORTO, PORTUGAL

O primeiro dia do resto de uma vida

O placard do aeroporto anuncia o voo inicial desta viagem de sentido único, tiro de partida efectivo para esta odisseia solitária em redor do globo terrestre. A volta ao mundo começou!

Por Filipe Morato Gomes

Qual o itinerário da volta ao mundo?



De olhar embaciado, fito compenetrado o placard que me anuncia um voo sem volta. Caracteres turvados pela emoção ganham dimensão desproporcionada sobre um corrupio de gente como eu que parte e volta, volta sempre para onde partiu uma, outra, e outra vez. Mas hoje, aos meus olhos, tudo é diferente. Por uma vez, o inexpressivo placard transporta naquela exacta linha onde o olhar se detém uma mensagem única e nova e tão longamente ansiada de liberdade por ser chegado o dia, o primeiro dia, o tal onde o resto da vida começa na letra de uma canção.

Após este voo para Moscovo, talvez viaje pela mítica linha transiberiana, talvez durma sob um céu estrelado nas tranquilas estepes mongóis, quem sabe serpenteie pela magnânime Muralha da China e desafie a alma na espiritualidade tibetana e o corpo na elevada altitude das montanhas nepalesas. E talvez me admire com a afabilidade do povo birmanês, talvez me deleite com a riquíssima culinária tailandesa, talvez aprecie o nascer do sol nos templos de Angkor, visite a pérola asiática de Luang Prabang, me impressione com o litoral vietnamita e me emocione ao pisar solo timorense. Talvez observe ainda o esplendor da Ópera de Sydney, nade por entre peixes e corais num qualquer paraíso polinésio, sinta nos poros a sensualidade do tango argentino, pise as salgadas paisagens bolivianas e regresse ao passado nas ruínas de Machu Picchu, antes de me embrenhar na magia de Cuba e pensar no futuro de regresso a casa. Talvez. A confirmação surgirá passo-a-passo, naturalmente, pois, para lá daquele placard, a liberdade de decidir a cada momento onde acordar no dia seguinte é um dos mais reconfortantes luxos que terei ao meu dispor nos tempos mais próximos.

Não é uma ideia original, esta de viajar à volta do mundo, nem tão-pouco escrever sobre isso o é. Mas por mais viajantes que percorram um dado caminho não haverá seguramente dois que vejam e sintam e vivam e transmitam exactamente a mesma coisa, a mesma visão, a mesma emoção. Cada viagem é uma experiência única e irrepetível e talvez por isso o FUGAS - arrisco a dizer - tenha desde o primeiro instante abraçado este projecto, decidido publicar a partir desta edição as crónicas de viagem enviadas semanalmente a partir de um qualquer cybercafe existente mundo afora.

Tenho por objectivo fazê-lo por um período aproximado de setenta semanas, abraçar o mundo calmamente e transmitir uma parte daquilo que sentir, que vir e ouvir, que apreender com as amizades efémeras que forem naturalmente acontecendo; tentar compreender e traduzir em palavras o espírito de um lugar e as singularidades do seu povo e da sua cultura, na estreita medida em que os dias de imersão nessas realidades me permitam sentir, ainda que fugazmente, o pulsar da vida dessas comunidades e eu seja capaz de o traduzir em simples palavras.

Não levo muitos haveres para vencer este desafio - que o peso é inimigo da mobilidade - mas transporto, ainda assim, para além do espírito aberto, dos sentidos despertos e de muito pouca roupa, uma considerável lista de equipamento electrónico - material fotográfico profissional e um ultracompacto computador portátil - responsável, em grande medida, pelos gramas em excesso que sinto nos ombros enquanto caminho em direcção ao check-in.

Inevitavelmente, dou agora comigo a pensar no período de intenso planeamento e preparação que agora finda. Recordo que investiguei as maravilhas da roupa dita técnica, consultei médicos e senti inúmeras agulhas que me fizeram adquirir imunidade a doenças que por cá são improváveis; li, pesquisei e descobri tantas coisas sobre tantos países e territórios quanto o tempo o permitiu, escolhi o mais adequado equipamento para a viagem, visitei amigos e familiares e, de despedida em despedida, aqui me encontro no autocarro de acesso ao avião do voo sem volta. Avisto ao longe os comissários de bordo que dão as boas-vindas, sorridentes, aos passageiros que se lhes dirigem. Retribuo, enquanto um passo, este que acabou de deixar para trás solo lusitano, me transporta definitivamente para o início desta aventura de sentido único. Até já, algures no imenso planeta.


{ 15.Ago.2004 - 08:37. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }

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Qual a vossa opinião?
• Alguma vez viajaram sem bilhete de regresso, sem marcações, ao sabor do vento?
• Que coisas consideram indispensáveis levar para uma viagem tão longa?

Olá Filipe!
Tenho comentado com vários amigos a tua viagem, ou melhor este teu sonho de percorrer mundo.
Acho que a maior parte das pessoas tem dificuldade em dizer o que quer que seja. A grande preocupação é como vais sobreviver, o que fazes na e da vida, etc... Mas no fim acabam sempre com o simples comentário: Espectáculo. Deve ser altamente. Quem me dera.
Enfim, quem nos dera a todos ter coragem para viver os sonhos, quase tal e qual como eles se apresentam.
Boa viagem. Beijinhos.
Estamos atentos (Túlia, Pedro e Pipas)

PS: Com a tua primeira crónica conseguiste despertar a atenção de muita gente. Principalmente dos que tem alma de viajante. Estou certa de que apesar de estares só aí, aqui há uma enorme onda de energia positiva que te fará companhia, num ou noutro momento mais necessitado.

Comentário à viagem enviado por Túlia em 15.AGO.2004 - 20:45

A fotografia que inaugura a tua primeira crónica fala por si. O texto, está muitíssimo bem escrito e permite, realmente, a quem está deste lado, acompanhar-te em pequenos passos. Espero que te esteja a correr bem e aguardo a próxima crónica! Continuação de óptimas viagens!

Comentário à viagem enviado por Gabriela em 16.AGO.2004 - 11:18

A cada dia novo que nasce, vais concretizando a cada passo, a cada olhar, a cada tacto, as tuas aspirações.
E entretanto, partilhando esses sonhos com os outros, tornas-te uma luz guia e inspiração, para aqueles que também procuram os seus.

Comentário à viagem enviado por Andréa em 17.AGO.2004 - 10:22

No sábado passado li a tua crónica no Fugas e agora quero mais!!!

Comentário à viagem enviado por Andréia Azevedo Soares em 17.AGO.2004 - 14:22

Olá!
O último fim-de-semana foi por cá mais propício à conversa pois houve o acrescido tema da publicação pública da tua crónica. Como sempre, o texto muito bem escrito dá prazer em ler. Pois é..., eu, o tal homónimo familiar, lá começo a ficar para trás pois não consigo escrever assim. Mas ainda bem, já que há quem o faça de forma cativante como tu. Continua a percorrer com entusiasmo o que a vista te deixa contemplar, que a nós resta-nos torcer por ti e imaginar!... Como diz a canção “por cá tudo bem” e um grande abração do Filipe e da Camy

Comentário à viagem enviado por Filipe e Camy em 17.AGO.2004 - 16:47

Pois é, os Sábados serão bem diferentes a partir de agora. Os dias que por aí passas, maravilhosamente diferentes - muitas vezes solitários (imagino eu), outros tão cheios de tudo - chegam até aqui uma vez por semana. Ao sábado, o meu dia preferido.
Boa viagem e parabéns pelo texto.
Força.

Comentário à viagem enviado por Calita em 17.AGO.2004 - 20:00

Olá Lipinho

Pois é, agora fico sempre á espera do sábado para saber boas novas tuas, e de alguma forma, através dos teus relatos é como que se acompanhasse nessa tua odisseia... Mesmo que não fisicamente, sei que o que estás a levar a cabo é um sonho para a maioria dos mortais, e como não posso estar ai acompanho-te através das tuas crónicas... Tem cuidado e goza muito...
Carpe Diem

Comentário à viagem enviado por Marco em 18.AGO.2004 - 13:41

Já andas longe, viajante. Cheguei agora de férias, mas já li a tua crónica. A partir de agora, serei leitor fiel e atento. Viajo contigo, aqui paradinho e com muita inveja - a qual pode ser um pecado bem benévolo, acredita. Manda notícias de Ulan Bator.
Grande abraço!

Comentário à viagem enviado por Marmelo em 18.AGO.2004 - 15:03

A avaliar pelas palavras que sinceramente já esperava com alguma ansiedade, fico expectante para poder ver o mundo através da tua lente e deliciar-me com o teu ponto de vista.
Bem hajas por teres a humanidade de nos levar a todos contigo...
Lembra-te que quem aqui está arranja sempre um tempinho diário para te dedicar.
Um Abraço! Muita Força!

Comentário à viagem enviado por Carlos Silva em 19.AGO.2004 - 22:40

Já andei, confesso, a vasculhar a net à procura de informações sobre o transiberiano. A seguir, está-se mesmo a ver, vou querer conhecer a Mongólia. Estou ansiosa por saber como estão a ser os dias seguintes do resto da tua vida. Como já andas pelo mundo há um mês, acho que posso dizer isto: parabéns!

Comentário à viagem enviado por Inês em 20.AGO.2004 - 16:15

Confesso. Como trabalho no Público recebo as tuas crónicas antes de serem publicadas. Não consegui esperar pelo Sábado. Tenho que dizer isto: Fiquei sem ar ao ler o último texto. Que vontade de estar aí. Mas que vontade mesmo!!!
Nunca é demais dizê-lo: PARABÉNS.

Comentário à viagem enviado por Calita em 20.AGO.2004 - 18:17

Boas Filipe.
Agora sim “alea jacta est”, eis-te nas estepes de Gengis Khan e do bife tártaro. Li uma vez sobre a origem pragmática desse mito gastronómico: a carne “cozia” entre a cela e o cavalo durante as constantes deslocações desses povos andarilhos. Podes tirar isso a limpo?
Dá para ver pelo teu texto e imagem que habilmente nos darás a cor e a temperatura dos lugares e povos com que te cruzarás.
Até à próxima paragem!
Grande abraço.

Comentário à viagem enviado por Pedro Simões em 21.AGO.2004 - 13:22

Oi Filipe, que poesia tua crônica... fiz anos no dia 15 e sái viajando nas tuas palavras...
Boa sorte e felizes aventuras.
Um grande abraço, Carmen L

Comentário à viagem enviado por Carmen Laura em 25.AGO.2004 - 05:22

Querido amigo Felipe,
Que bom saber que voce está bem...
Estou torcendo por aqui por esse grande projeto...
Beijo, boa sorte

Comentário à viagem enviado por Cristina Teixeira de Belém em 27.AGO.2004 - 18:56


Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.

Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.


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