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Viagens: Pingyao, China
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VOLTA AO MUNDO » 11. PINGYAO, CHINA

O doce aroma do passado, em Pingyao

Deixo Pequim e viajo de comboio até Pingyao, uma pequena cidade amuralhada a caminho de Xi'an, classificada Património Mundial pela UNESCO. Percorro as ruelas de Pingyao com a sensação de ter recuado no tempo, e descubro o significado de Portugal na língua chinesa. Uma surpresa francamente adequada a esta época de vindimas.

Por Filipe Morato Gomes

Qual o itinerário da volta ao mundo?



Recua-se no tempo ao chegar à pequena povoação de Pingyao. Tal como ao percorrer o Douro neste tempo de vindimas, onde ainda se espezinham as uvas com os próprios pés para criar o afamado néctar da região. Grupos cantarolando, abraçados, melodias cuja origem se perdeu na memória dos tempos.

Rua de Pingyao, China
Rua de Pingyao, China

Lembro o Sr. Queiroz de Mesão Frio. Entrar nestas muralhas de Pingyao é como abrir um dos seus garrafões de Porto, vinho caseiro aprimorado durante décadas com a sabedoria de uma vida dedicada às vinhas. Conheço bem o seu perfume. É algo único. E Pingyao, tal como esse vinho, ainda retém o doce aroma do passado. Intacto. Como nenhuma outra cidade em toda a China, consta.

Tenho a sorte de conhecer duas amigas alemãs, Mirea e Alena, e volto a não estar sozinho nesta jornada. É uma enorme vantagem pois Mirea fala fluentemente chinês. Vive na China desde há dez anos, metade da sua vida. Percorremos juntos, num táxi a pedais, toda a extensão das muralhas de Pingyao. Nas sábias palavras da UNESCO, Pingyao é um “exemplo excepcionalmente bem preservado de uma cidade Han tradicional, fundada no século XIV”. Seja. Para mim, vindo de Pequim, cidade colossal, moderna e cosmopolita, Pingyao é algo bastante mais simples. É uma enorme mudança de paisagem. De ambiente. E de proporções.

Cozinhando deliciosos moon cakes nas ruas de Pingyao
Cozinhando deliciosos moon cakes nas ruas de Pingyao

Do alto das muralhas, noto que a cidade é pouco mais do que um reduzido quadrado envolvido por esta vistosa barreira de pedra. Apenas cinco pequenas entradas permitem o acesso à cidade velha. Mas é no interior dessa figura geométrica que estão guardadas as principais relíquias do passado. Nada de prédios ou outros edifícios de mediana envergadura. Apenas casas térreas de um estilo bem definido, notoriamente de outra época. Algumas já restauradas, outras em via disso, bastantes ainda demasiado degradadas. E um ar de vida de bairro, com gente cozinhando apetitosa doçaria em plena rua. Comerciantes de pequenas lojas tentando atrair clientes. Barbeiros em intensa actividade. Dentes de ouro, luzindo aqui e ali. Velhos jogando cartas e jogos chineses em redor de mesas colocadas nas ruelas. E cheiros, muitos cheiros como em qualquer aldeia portuguesa. Um ocasional hello vindo de bocas juvenis, brincando. Ou gente sentada nos passeios saboreando um cigarro ocasional à porta de casa. E que casas, por vezes!

Muitas possuem pátios interiores belíssimos, uma espécie de jardim localizado no centro nevrálgico dos lares de outrora. Felizmente, algumas das mais representativas foram transformadas em museus, permitindo aos visitantes conhecer com maior detalhe essa faceta da cultura local. Num desses museus, conheço um amável velhote que dedica a última parte da sua vida a manuscrever caracteres chineses em faixas que vende aos visitantes. Mostra-nos umas quantas, tentando explicar o sentido do que lá está escrito. Mas mesmo sem os conseguir interpretar, os caracteres chineses pintados a negro, em grandes dimensões, são quase sempre bonitos. Aponto para uma faixa ao acaso. Pergunto o significado. "Mesmo que te tornes rico e poderoso, não esqueças os teus amigos" - explica-me o velho. Mirea confirma. É um chavão, mas não resisto a comprar. Os caracteres são esteticamente graciosos.

Velhote vendendo faixas com caracteres chineses manuscritos, num museu de Pingyao
Velhote vendendo faixas com caracteres chineses manuscritos, num museu de Pingyao

Saímos do museu e paramos numa espécie de tasca para almoçar. Com a ajuda de Mirea, aprendo a dizer “Portugal” na língua chinesa. Aprecio os caracteres com que se escreve a palavra e descubro, fascinado, que os mesmos significam “dentes de uva”. Tem graça. Lembro a cor que pinta as bocas lusas depois de uma malga de um bom vinho carrascão. Apetece-me brindar. Aos dentes de uva. Às vindimas. Com os votos de que das uvas deste ano resultem boas pomadas.


{ 10.Out.2004 - 13:32. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }

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Qual a vossa opinião?
• Lugares classificados Património Mundial pela UNESCO que valha a pena conhecer?

Finalmente mais uma crónica e mais fotos, já não controlava mais a minha ansiedade, dava por mim várias vezes ao dia a vir ao cantinho do viajante para ver as novidades...

Sei que é feio de se dizer, mas sinto uma enorme inveja cada vez que leio um crónica, como também uma enorme satisfação, pois era uma aventura que adorava fazer. Aproveita, não cada dia, mas sim digere com calma cada segundo, cada pequeno momento, cada troca de palavras, cada pôr-do-sol... estou certo que o fazes.

Patrimónios da UNESCO: boa dica para ir investigar mais sobre esse assunto.

Continuação de uma fantástica viagem.

Comentário à viagem enviado por Pedro Lérias em 11.OUT.2004 - 11:50

Como foi possível me esquecer de um dos mais belos patrimónios Portugueses, a magnifica ilha do Pico, Açores.

Comentário à viagem enviado por Pedro Lérias em 12.OUT.2004 - 16:03

Apesar de ficar fora dos planos da rota de viagem do Filipe, é-me inesquecivel a cidade de Saná, capital do Yemen, país do sul da Península Arábica, situado entre o Médio Oriente, África e o Índico, país isolado e fechado, país de montanhas, desertos e vales férteis, com uma cultura milenar e tradições fortíssimas. Saná é uma enorme cidade com mais de 2000 anos, de casas que mais parecem torres, construídas de pedra, tijolo ou adobe. As fachadas têm um estilo único e são profusamente decoradas com uma grande variedade de motivos florais e geométicos, caiados de branco, especialmente as janelas, muitas delas com vitrais, coloridos, de vidro ou plástico. O centro histórico e os bairros à sua volta estão bem preservados (têm vindo a ser restaurados, com dinheiro da Unesco, claro) e há poucas construções modernas a estragar o conjunto, que é de grande beleza e harmonia. É uma verdadeira cidade das Mil e uma Noites!

Comentário à viagem enviado por Paulo Gonçalves em 12.OUT.2004 - 17:58

Hi there!

I just remembered to check out your website one month after we met you on the train to Pingyao to look for familiar photos - and sure enough, I found the picture of the lady who sold us the delicious moon cakes (though unfortunately I can't understand what you wrote in Portuguese...).

Mirea and I did finally get back to Beijing after we left you, even got hard sleeper tickets, though the guide from the Youth Hostel showed up fifteen minutes late and had us waiting with bated breath.

I hope you are enjoying your travels, wherever they take you. Meanwhile I am back in the library most days and China seems (and is) a world away. Drop me a line when you have time, perhaps with a photo or two of Pingyao?

Take care, Alena

Comentário à viagem enviado por Alena Hermans em 15.OUT.2004 - 22:00

Lugares a não perder:
- Ilha de Moçambique - Moçambique;
- Macau (candidatura a Património Mundial em fase de apreciação, pela mistura única entre traços portugueses e Orientais).

Vivo actualmente em Macau, depois de 2 anos a residir em Maputo. Não sendo cliché, África tem a essência da vida ancestral, a simplicidade da vida, as pessoas, os momentos. O Oriente, exotismo, diferença. Destaco Angkor Wat, Camboja.

Quem vive deste lado do globo, vai-se habituando a outra escala, a outras dimensões. Mesmo assim, Pequim foi uma surpresa - 17 milhões de habitantes, avenida com 44 Km, 5 mil Km de Muralha - monumentos grandiosamente únicos, o cimento em detrimento do verde, graves problemas de poluição. Compram-se livros únicos a baixo preço. A maior percentagem de carros da marca Audi, pretos, vistos numa única avenida.

Hanói, não pela visita, porque ainda não tive esse prazer, Margarette Yourcenar, descreve muito bem a arquitectura e a beleza da mistura das culturas francesa e Indochinesa.

Não sendo Património Mundial, Hong Kong, ex-colónia Britânica, pela elegância e opulência merece uma visita. Bangkok, pela extravagância.

Um bem haja pela partilha das suas viagens. Obrigado.

Marisa Marinho

Comentário à viagem enviado por Marisa em 17.OUT.2004 - 16:37

Normalmente, os sítios classificados pela Unesco valem a pena. Basta ver o Porto, Guimarães, Santiago de Compostela, o Douro. Ou, um bocadinho mais longe, Salvador e Olinda.
Viajar pelo mundo, como tu, deve ser muito bom, mas, para quem não pode tanto, também não faz mal nenhum ir para fora cá dentro.
Vai-nos contando as novidades! Por aqui, parafraseando a canção do Chico, vamos discutindo futebol, para não pensar no resto. Resumindo: a coisa aqui está preta.

Comentário à viagem enviado por Jorge Marmelo em 18.OUT.2004 - 16:58

Olá, eu estive 12 dias na China em Dezembro de 2003. Estive em Pequim, em Xi'an, em Zhengzhou, em Shaolin, em Cantão (Guangzhou) e em Hong Kong. Adorei tudo o que vi e principalmente as pessoas...
Acho que devias visitar Xi'an, não só pelos guerreiros de terracota, mas por ter sido a 1ª capital da China, sente-se que é uma cidade com História e muita alma... é indescritível!
E em Shaolin ver aquelas legiões de miudos e monges a treinar Kong Fu é também algo único...
Pessoalmente acho que qualquer viagem é boa se tivermos o espírito aberto, aceitarmos a cultura dos outros e principalmente aproveitar cada momento como sendo único...
Aproveita ao máximo, porque este tipo de experiências não se repete!
Bjs.

Comentário à viagem enviado por Ana Cristina Pereira em 18.JAN.2005 - 11:57

Saudades, muitas saudades. Também lá estive, é sem dúvida uma viagem no tempo. Andei por cada uma daquelas ruelas, fiz toda a muralha a pé contemplando cada vista que me era oferecida... muito, muito positivo.

Comentário à viagem enviado por Carla em 23.ABR.2006 - 22:06


Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.

Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.


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