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VOLTA AO MUNDO » 50. SANTIAGO E VALE DO ELQUI, CHILENa rota dos Nobel chilenos da literatura
Oficialmente, tinham-se passado apenas três horas desde que embarquei num avião rumo ao Chile. Um dado que não batia certo com o cansaço que o corpo apresentava ao aterrar. Atravessei a linha universal do tempo, recuei doze horas numa cápsula voadora, vivi por duas vezes essa metade de um dia. Primeiro sem emoção a bordo da aeronave, depois numa cidade que haveria de se revelar uma excelente surpresa: Santiago.
Era Dia Nacional do Património. Os museus abriam as suas portas aos habitantes da cidade, livre de encargos. Muitos edifícios públicos, normalmente encerrados à curiosidade dos visitantes, permitiam que o povo, por um dia, admirasse os seus interiores. E então era ver milhares de chilenos, novos e velhos, várias gerações de uma mesma família juntas pelo prazer da cultura, em intermináveis filas indianas que desembocavam na porta de um desses edifícios. O Palacio de la Moneda, palácio presidencial onde Salvador Allende capitulou, era o mais concorrido. Demasiado concorrido para um viajante em trânsito permanente. Optei por seguir para o majestoso Museu das Belas Artes, onde se exibia uma retrospectiva do escultor francês Auguste Rodin. As esculturas estavam ali, a um palmo de distância. Apenas um “por favor, não tocar” separava os visitantes do amor de “O beijo”, da inquietude de “O pensador”, de muitas outras obras extraordinárias do artista. No Chile, fala-se de arte e um nome vem imediatamente à baila: Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, aliás, Pablo Neruda. Mas, tal como em Portugal, alguns dos mais reputados criadores além-fronteiras são mal-amados pelos seus conterrâneos. Lembrei-me de Oliveira, lembrei-me de Saramago, quando Henrika, simpatiquíssima anfitriã chilena, disparou numa conversa de café: Não gosto de Neruda. Era arrogante, excêntrico, um homem de ideais comunistas que vivia faustosamente em La Chascona”. Segui para lá. La Chascona foi a casa tipo barco onde Neruda viveu durante dezoito anos com o grande amor da sua vida, Matilde. Hoje está transformada em casa museu e os visitantes podem comprovar a extensão da obsessão do poeta por tudo o que tivesse a ver com o mar. Tudo em La Chascona fazia lembrar os oceanos. Numa sala, o chão de madeira tinha sido construído de forma a ranger como o convés de um navio. As janelas de algumas divisões eram redondas. Havia escadas em caracol, compradas num leilão de artigos retirados de embarcações obsoletas. E muitos outros detalhes, como aquele astrolábio ao qual Neruda retirou o globo terrestre e o substituiu por um peixe. Satisfeito por conhecer um pouco mais sobre aquele prémio Nobel - outorgado em 1971 -, era então tempo de seguir ao encontro da vida e obra de um outro marco da literatura chilena, Lucília Goday Alcayaga, aliás, Gabriela Mistral.
Mistral nasceu próximo de Vicuña, em Monte Grande, um povoado situado no coração do Vale do Elqui, região também famosa por razões mais prosaicas: o Pisco. Ao percorrer todo o lindíssimo Vale do Elqui apetecia fazer como Neruda e pedir silêncio. O olhar alcançava os grandes cumes cobertos de neve, as encostas áridas salpicadas de cactos erectos e pouco mais e, lá ao fundo, em depressões muito cavadas, os vinhedos. Trabalhadores temporários dedicavam-se a “enrolar os pampos” - para utilizar uma expressão de um velho meu conhecido, viticultor duriense. É lá, nas profundezas do Vale do Elqui, que se cultivam as chamadas vinhas pisqueiras, de uva tipo moscatel, que dão origem ao vinho licoroso Pisco. A história do Pisco é muito curiosa e está recheada de particularidades. Séculos atrás, ao ser enviado para o Peru através do clima extremo do deserto de Atacama, o vinho adulterava-se. Um monge peruano decidiu então fazer experiências com o pouco apetecível líquido, destilando-o. Morava numa terra chamada Pisco, apreciou o resultado das experiências, e assim nasceu o dito vinho licoroso. O Pisco foi criado no Peru - não no Chile -, mas foram os chilenos, astutos, que registaram a denominação. E, para que não restassem dúvidas, mudaram o nome do pequeno povoado de La Unión para Pisco Elqui. Fica paredes-meias com a terra onde Gabriela Mistral viveu, deu aulas e está hoje sepultada. De volta à literatura, detive-me em Monte Grande por uns instantes. Encontrei a minúscula escola onde foi aluna e posteriormente leccionou transformada em museu, com as carteiras de madeira antiquíssimas, as paredes decoradas com fotografias de Mistral, o quarto da professora, manuscritos da autora e um punhado de outras peças a homenagear a cidadã de que mais se orgulham os de Monte Grande. Não é para menos. Mistral foi também laureada com o Nobel da Literatura, corria o ano de 1945. A sala de aula inspirava carinho, pedia respeito. Silêncio!
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