BloguesVolta ao MundoSingapura

36. Uma Singapura sem arranha-céus

TextoFotosFilipe Morato Gomes17/03/2005
Viagens: Singapura - Volta ao Mundo

Chego àquela que provavelmente é a mais organizada, eficiente e limpa grande cidade de todo o planeta. Encontro uma Singapura longe da imagem preconcebida de meca consumista e centro de negócios, com ruas de casas térreas e fachadas profusamente trabalhadas. E saio de lá com a certeza de que, em Singapura, nada acontece ao acaso.



Pormenor de uma janela na rua Joo Chiat, Singapura

Pormenor de uma janela na rua Joo Chiat

Arranha-céus espelhados, tecnologia de ponta, gigantescos paraísos comerciais para os consumidores compulsivos e um mundo de oportunidades financeiras, tudo faz parte da imagem que Singapura emana. Imagina-se uma cidade extraordinariamente eficiente, moderna, limpa e organizada. E tudo corresponde, de facto, à verdade. Mas não a toda a verdade. Singapura possui recantos de arquitectura praticamente inalterada desde há décadas. Zonas onde o comércio se faz longe das regras de uma cidade afamada por ser implacável na aplicação das leis. Lugares onde o sms não substituiu ainda a tradicional conversa de rua. Quarteirões onde não existem prédios. E foi nessa Singapura que me deixei envolver.

E tudo começou porque a singapurense Florence aguardava a minha chegada à cidade. Um telefonema depois, Florence aparecia na estação onde os autocarros vindos de Malaca terminam a sua jornada. Estava com pressa e tinha de se deslocar a uma pousada na zona leste da cidade, para efectuar uma tatuagem de hena a um cliente. E foi assim, por puro acaso, que tive a oportunidade de conhecer a magnífica rua Joo Chiat. Enquanto Florence fazia o seu trabalho, percorri aleatoriamente a zona, deslumbrado por observar uma Singapura muito diferente daquilo que tinha em mente.

As fachadas das casas eram de pedra, profusamente trabalhadas, belas e coloridas. Portadas de madeira cobriam as janelas e ocasionais varandas davam uma graciosidade adicional às habitações. Em zonas com casas recuadas, portões de ferro com a idade a fazer-se notar protegiam as casas dos intrusos. Aqui e ali, filas de azulejos envolviam as janelas e embelezavam as paredes. Deleitado, ao fim de um par de horas a percorrer a rua Joo Chiat, a perpendicular Katong e outras artérias da área, era altura de beneficiar do ultra eficiente sistema de transportes públicos locais e seguir ao encontro da magia oriental da Little India e do caos controlado de Chinatown.

Um homem toma o seu chá da tarde num pequeno estabelecimento de Little India, Singapura

Um homem toma o seu chá da tarde num pequeno estabelecimento de Little India, Singapura

Ao pisar solo de influência indiana, acabara de entrar numa parte totalmente distinta da cidade. Para além de pormenores arquitectónicos das fachadas extremamente coloridas das lojas e cafés, eram as pessoas que faziam a maior diferença. Uma forte comunidade indiana estava implantada na cidade. E, tal como na própria Índia, era possível encontrar algumas personagens enigmáticas. Um indiano totalmente vestido de branco, com um turbante branco e barba igualmente esbranquiçada, cumprimentou-me no meio de uma pequena rua. Após perguntar de onde era e de dizer meia dúzia de vezes ”oh, vida longa, viagens felizes, boa sorte”, pediu-me para escrever o meu nome num pedaço de papel. Em seguida, rabiscou algo noutra folha de papel, amarrotou-o e entregou-mo. “É para dar sorte”, disse. Solicitou então que escolhesse um número até cinco e uma flor de que gostasse. Respondi. Pediu para abrir o papel previamente escrito e lá constavam, sem margem para dúvidas, o número e a flor que eu havia escolhido. Estranho momento.

De volta à racionalidade, constava nos guias de viagem que havia coisas imperdíveis em Singapura. Saborear o famoso cocktail Singapore Sling e tomar um chá da tarde no imponente Raffles Hotel. Visitar o jardim zoológico ou fazer um safari nocturno nas proximidades. Ou rumar à artificial ilha Sentosa, principal refúgio de fim-de-semana dos habitantes locais e atracção para os turistas. Mas, aparte uma visão exterior do histórico Raffles, nada daquilo me atraiu. Ao invés, depois de Joo Chiat, Little India e Chinatown e, curioso em saber como se gere o planeamento urbano de um pequeno país, era tempo de visitar uma exposição e comprovar que nada em Singapura acontece ao acaso.

Rua de Singapura

Rua de Singapura

No edifício da Urban Redevelopment Authority, uma exibição permanente mostrava aos visitantes a evolução da cidade desde há décadas e, mais ainda, o que irá acontecer nos próximos trinta anos em termos de desenvolvimento. Um homem de negócios sentou-se ao meu lado enquanto visionava um filme sobre uma nova zona de Singapura. “Está tudo planeado, vai demorar vinte anos a construir” - dizia. Tudo estava delineado, desde novas áreas verdes até mega edifícios residenciais e de negócios. E sem necessidade de destruir algumas pérolas do passado que funcionam como íman turístico para quem lá se desloca. Muito bem impressionado, deixei Singapura com a sensação de abandonar uma cidade nação que é um modelo de desenvolvimento equilibrado. Asseada como nenhuma outra metrópole de idêntica dimensão, segura como poucas e possuidora de um sistema de transportes públicos de fazer inveja a qualquer capital europeia, Singapura é um verdadeiro case study para autarcas e decisores.



Comentários sobre “Uma Singapura sem arranha-céus”

Qual a vossa opinião?
• Momentos esotéricos, misteriosos, de difícil compreensão...

250 dias...
Não resisto em assinalar mais um número redondo. Tremendamente redondo e que indica que, agora sim, está a meio caminho desta magnífica aventura. Apetece armar-me em adivinha-indiana-moradora-em-singapura só para te poder desejar, com a mesma fé e devoção, “oh, vida longa, viagens felizes, boa sorte”... Mas, não sendo eu a adivinha-indiana-moradora-em-singapura, mesmo assim, quase me atrevo a adivinhar o nome da flor que escreveste no papel... será presunção?
Um beijo imenso, e um mar de saudades...

Comentário enviado por LP em 27.MAR.2005 - 23:38

Antes de mais, quero mandar-te um grande abraço! E, por falar em momentos exotéricos, boa sorte e continuação de muito sucesso para a tua viagem....

Como é costume dizer-se, “eu não acredito em bruxas..., mas que as há... há” e o que é facto é que a sorte, as superstições.... mas essencialmente o poder da mente, são domínios dos quais sabemos muito pouco... E quando as pessoas acreditam numa coisa ela acaba por ter muito mais “probabilidade de acontecer...!?!?

Lembro-me de em Salvador da Bahia as pessoas serem muito supersticiosas e de falarem sobre espíritos em casas e outras coisas que tais, com um surpreendente à-vontade...

Uma coisa é certa, há coisas que estão bem para lá da nossa compreensão, desde fenómenos que não podemos explicar ao tamanho e origem do Universo... Olhamos para essas coisas como os animais irracionais olham para o mundo humano, o mundo tecnológico, um mundo que para eles não faz sentido (Uma analogia muito maluca!...)

Alguma coisa há-de haver e imagino ser fascinante os teus contactos com as diferentes maneiras que tens encontrado de religiões, modos de vida, superstições, valores e ainda por cima pensar “no que faço eu aqui, quem sou e para onde vou...”

“Eu não acredito em bruxas..., mas que as há... há.”

Um abraço, amigo, e vê lá se não deixas de cantar e tocar viola (“quem canta seus males espanta”), porque estamos mortinhos que chegues para tocarmos umas musiquinhas.

Comentário enviado por Daniel (Cristo) em 29.MAR.2005 - 01:58

O que uns olhos são capazes de ler quando outros fitam, será sempre, penso eu, um mistério. Ver para além deles, conseguir percorrer o feixe condutor que os une à mente e perceber o que eles nos querem dizer é algo que raras vezes acontece numa vida. Quando, num qualquer dia e num qualquer lugar, dois olhos se cruzam numa verdadeira sinfonia de verdade, a vida acontece e o quotidiano ganha outro significado e outra razão de ser.Os olhos que observam e que sabem ver ainda são, penso, fonte de saber e de verdade. Continua a encher os teus olhos de raros e belos momentos de vida.

Comentário enviado por Morato em 29.MAR.2005 - 21:54

Entre Julho de 2004 e Setembro de 2005, Filipe Morato Gomes levou a cabo a sua primeira volta ao mundo. Foram 14 meses de viagem com passagem pela Ásia, Oceania e América do Sul, ao longo dos quais foi publicando crónicas na revista Fugas do jornal Público. No regresso, editou o livro «Alma de Viajante», precisamente sobre esta volta ao mundo.