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VOLTA AO MUNDO » 25. GALLE, SRI LANKA

A agonizante luta pela sobrevivência, no Sri Lanka

Depois da destruição de Phuket e dos corpos sem vida que vi em Khao Lak, Tailândia, sigo para Galle, no sul do Sri Lanka, onde testemunho o sofrimento daqueles que tentam desesperadamente sobreviver. Uma experiência brutal. A agonia da fome não é fácil de encarar.

Por Filipe Morato Gomes

Qual o itinerário da volta ao mundo?



Deixei a ilha de Phuket, na Tailândia, para rumar tão rápido quanto possível para a devastada costa do Sri Lanka. A passagem de ano aconteceu sem badaladas nem champanhe, sem sorrisos nem abraços, a bordo de um avião da Thai Airways. Não havia nada para celebrar. Cabisbaixo, sabia que ia ao encontro de cenários de colossal destruição. Mas não imaginava ainda a dimensão humana da tragédia e as agonizantes lutas pela sobrevivência que haveria de testemunhar.

Cenário na estrada Colombo - Galle: gente implorando comida e água aos carros que passavam
Cenário na estrada Colombo - Galle: gente implorando comida e água aos carros que passavam

A presença, em invulgar número, de jornalistas e equipas de ajuda humanitária na lista de passageiros denunciava, desde logo, a gravidade da situação no terreno. À chegada à capital Colombo, grupos de funcionários do aeroporto encaminhavam ambos para uma zona diferente do comum dos passageiros. Uma tentativa de agilizar o processo alfandegário de descarga do equipamento dos jornalistas e das grandes quantidades de material de apoio médico que os grupos humanitários transportavam.

Sabia que uma das zonas mais afectadas pela fúria das águas se localizava no sul do país. Aluguei um carro e percorri toda a extensão transitável da estrada marginal que liga Colombo à cidade de Galle, localizada no extremo sudoeste do Sri Lanka. E, assim que Galle foi ficando mais próxima, verifiquei que as bermas da estrada se encontravam anormalmente pejadas de pessoas - novos, velhos e muitas crianças de colo - que esperavam ajuda. Como pano de fundo, só se viam casas completamente destruídas, inabitáveis. As pessoas dormiam ao relento e, de dia, aguardavam que algo de bom lhes acontecesse.

O mais básico combate de qualquer espécie - a luta pela sobrevivência - era travado, diante dos meus olhos, por milhares de indivíduos dispersos por quilómetros e quilómetros de estrada. A cada carro que passava, os desalojados faziam sinais na tentativa de o fazer parar. Pediam água, comida, um simples coco, qualquer coisa que os ajudasse a manter vivos. Vi gente brigar por meia dúzia de bolachas e até por um cigarro oferecido. As mãos estendidas e os olhares de desespero que me foram dirigidos não serão fáceis de apagar da memória nos tempos mais próximos. A agonia da fome não é fácil de encarar.

Uma foto de esperança: um miúdo recolhe tijolos de entre os destroços da sua casa, em Galle, Sri Lanka, para a reconstruírem logo que possível
Uma foto de esperança: um miúdo recolhe tijolos de entre os destroços da sua casa, em Galle, Sri Lanka, para a reconstruírem logo que possível

Felizmente, a solidariedade para com o povo do Sri Lanka parecia não ter limites. Carrinhas de organizações humanitárias locais e algumas estrangeiras e, principalmente, de muitos particulares anónimos, transportavam pequenos mantimentos, muita água, algumas roupas, um ou outro cobertor e paravam para os distribuir nas bermas da estrada. E então era o caos, com gente desesperada a correr furiosamente em direcção ao veículo estacionado, numa corrida literalmente pela vida. Os sorrisos de quem conseguia algo eram terrivelmente genuínos. A lembrar que a diferença entre morrer e continuar vivo pode estar num gole de água ou numas migalhas de bolacha.

Ver cenários apocalípticos com corpos espalhados por todo lado é algo extremamente brutal. Foi o que vi em Phuket e em Khao Lak, na Tailândia. Mas, presenciar a dor daqueles que tentam desesperadamente sobreviver consegue ser muito mais chocante e difícil de enfrentar. Do ponto de vista emocional, não creio alguma vez ter passado por tamanha provação. Esgotado, abandonei o Sri Lanka em busca de alguma paz.


{ 15.Jan.2005 - 12:08. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }

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Apelo
• Ajudem esta gente humilde da Tailândia, da Indonésia e do Sri Lanka, que viu tudo o que a vida lhes deu ser arrastado pela força bruta das águas. Muitos ficaram apenas com a própria vida. E é desses, dos vivos, que é preciso agora cuidar.

Foram, de facto, imagens terríveis. Impossíveis de suportar. Mas espero que agora tenhas conseguido encontrar a paz que procuravas quando saiste do Sri Lanka.
Tu fizeste o teu papel com coragem e abnegação - eu testemunhei. Agora é o resto do mundo que tem de cumprir o seu. Pode ter sido a presença de turistas ocidentais que nos despertou a todos. E agora tudo o mundo viu o resto, no Sri lanka, na Indonésia, na Índia. Estamos todos envolvidos.
Boa viagem!

Comentário à viagem enviado por LP em 16.JAN.2005 - 15:21

Quão diferente a minha visão da tragédia, confortavelmente sentada no sofá em frente ao écran da televisão. Parece fácil entender, tão dificil aceitar e impossível mesmo sentir, imaginar o sofrimento daquele povo. Podemos todos ser espectadores atentos, mais ou menos próximos de um povo que sofre e que luta pela vida, mas nunca poderemos ter a sua grandeza. O viajante, mesmo sendo jornalista vê, ouve e sente... Obrigado pelas crónicas, fotos e por me permitir viajar e sonhar com destinos tão longínquos. Boa Viagem!

Comentário à viagem enviado por Ivone Teixeira em 18.JAN.2005 - 23:13

Depois de ver as imagens e de ler a tua cronica, fiquei mais comovido com esse povo. Continua a enviar fotografias, pois com elas o mundo entra dentro desta grande tragédia e assim poderemos acordar para que a vida tem muito mais valor do que imaginamos. Um abraço e boa viagem.

Comentário à viagem enviado por Jaime Magalhães em 19.JAN.2005 - 08:23


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Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.


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