VOLTA AO MUNDO » 03. DE MOSCOVO A IRKUTSK, RÚSSIA
Vida em movimento no transiberiano
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Três dias e meio a bordo de um comboio russo percorrendo a mítica linha transiberiana, numa experiência única mas por vezes difícil numa altura tão prematura desta viagem solitária. Viagem da capital Moscovo até Irkutsk, na Rússia. |
Por Filipe Morato Gomes |
Qual o itinerário da volta ao mundo? |
Já na posse do bilhete de comboio e beneficiando da experiência e amabilidade de Irina - amiga de origem siberiana a viver em Moscovo -, decidi abastecer-me de víveres num mercado de rua para uns pacientes três dias e meio a bordo de um comboio em marcha contínua em direcção a leste. Não é tarefa fácil comunicar sem qualquer palavra comum excepto as básicas apreendidas apressadamente, pese embora cada gesto, cada apontar de dedo, cada aceno de cabeça se revele por vezes suficiente para um feliz entendimento. Acompanhado, porém, tudo se afigura extremamente simples pelo que eis-me enfim preparado para a grande jornada transiberiana munido de fruta, água, leite, iogurtes, pão, bolachas, sopas e massas instantâneas e ainda talheres e toalhetes para higiene pessoal.
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| Paragem numa estação de caminho-de-ferro, algures entre Moscovo e Irkutsk |
Moscovo apresenta-se escura quando o comboio arranca, à hora exacta, sem aviso nem alarme. Por feliz ou infeliz casualidade, acabo por verificar que viajo num compartimento de apenas dois lugares e sem qualquer companheiro na cama superior o que, aumentando consideravelmente a privacidade, diminui quase proporcionalmente as oportunidades de construir amizades com outros viajantes durante o longo trajecto. Há, obviamente, os corredores, os locais de fumo nas extremidades das carruagens e o vagão-restaurante, efémeros pontos de encontro entre pessoas que se cruzam cumprimentando-se em línguas diferentes, pessoas que acabam por se habituar à presença alheia - como vizinhos que se toleram sem serem amigos - e pessoas que de facto têm vontade de interagir, de falar, de se conhecer.
Sobra, pois, tempo demais para outras meditações o que, no meu caso, em que me vou ainda habituando a esta nova situação de solitário nómada global, acaba por me fazer reflectir, olhando este espaço vazio que me envolve, que esta solidão temporária talvez não tenha sido o tónico desejável para um começo forte numa tão longa viagem como a que há pouco iniciei. Pensamentos de curta duração, evidentemente, pois não demorarei até; comprovar que a espontaneidade das decisões e felizes coincidências acabam invariavelmente por juntar viajantes solitários que comungam do desejo de descobrir e da vontade de partilhar essas descobertas.
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| Compartimento de um comboio no percurso transiberiano, classe kupé |
No comboio, de dia, aproveito para olhar através dos sujos vidros que não se abrem jamais verificando que lá fora a paisagem segue monótona e repetitiva embora, estando-se alerta por períodos longos de tempo, surja um ou outro retoque de considerável beleza nesta pintura desbotada pelas marcas inevitáveis da passagem do tempo na vida das janelas.
As maiores emoções concentram-se, pois, nos momentos de paragem nas estações, variáveis entre dois e vinte minutos, onde é possível adquirir comida caseira saborosa e barata - como uns pequenos pastéis de couve, de batata ou de arroz e ovo - ou ainda legumes frescos, bebidas ou iogurtes, tudo vendido quase invariavelmente por senhoras de respeitável idade mas grande vigor. Aqui sim, há vida, burburinho, azáfama, pessoas tentando fazer negócio com clientes de passagem, passageiros tentando abastecer-se de víveres de subsistência para mais umas horas a bordo, momentos de agitação.
Mas o curioso é que tempo acaba por passar surpreendentemente depressa pelo que a chegada a Irkutsk, embora bem-vinda, não constitui qualquer espécie de alívio. Estou bem. E o Lago Baikal aqui tão perto...
{ 27.Ago.2004 - 12:46. Texto inédito }
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Qual a vossa opinião?
• Que experiências marcantes guardam de longas jornadas a bordo de um comboio, autocarro ou qualquer outro meio de transporte?
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Viva. Dasdrovia. Perestroika.
Chegamos a fazer umas viagensitas compriditas, mas como o fazíamos juntos, era mais fácil de suportar. Estou-me a lembrar daquelas viagens à Irlanda... Vinte e não sei quantas horas de autocarro... Fuuu! Vá lá que depois embarcavamos no Ferry Boat no noroeste de França, que tinha uma apetecível cama à nossa espera.
Mas na altura eramos novos, aguentavamos tudo e mais alguma coisa, e ainda fazíamos uma grande festa no ferry.
Estou-me a lembrar de um ano que atravessamos a França de norte a sul quatro vezes... Éramos um pouco loucos, não éramos? Ah, tu ainda és... He! He! He!
Continuação de boa viagem.
Amigo, um grande abraço.
P.S. Espero que tenhas levado uma rolha que não seja absorvente para quando te aparecerem as diarreias... mas isso não vais contar aqui, pois não? :-)
Comentário à viagem enviado por Daniel Rebelo em 27.AGO.2004 - 15:49
Cinco pessoas num Fiat Punto, Porto-Marrocos-Porto. Seguramente, nada que possa comparar-se ao transiberiano.
Comentário à viagem enviado por Inês em 02.SET.2004 - 18:20
Dicas de Timor já, e cada vez mais, disponíveis.
Boas viagens
Comentário à viagem enviado por Nuno Vargas em 06.SET.2004 - 04:23
A digressão deste ano da Azeituna com a porta lateral da carrinha sempre fechada. Tudo a entrar e a saír sempre pela porta do condutor por: Luxemburgo, Nijmegen, Amesterdão, Colónia, Antuérpia, Brugges, Oostende, Calais, Paris, Biarritz, Bilbao, Santander, Coruña e uma Paella em Vigo...
Comentário à viagem enviado por Daniel (Cristo) em 13.SET.2004 - 02:51
Guardo muito boas experiências dos meus interrails realizados. Longas jornadas a ouvir o constante mas saudoso som do comboio a deslocar-se nas linhas.
Patras-Atenas, que loucura...
Aliás, para o ano provalvelmente há outro :)
Comentário à viagem enviado por Pedro Lérias em 08.OUT.2004 - 16:59
Viagens de comboio fiz muitas
- Paris/Marraquexe
- Berlim/Lisboa
Mais louca: Barreiro/faro,em 1972, num vagão de mercadorias aberto, clandestino
Outra do género, Madrid/Irum, sem bilhete.
Se tiveres pachorra um dia pergunta-me sobre relatos de viagem.
Boa sorte, e que o caminho se te releve.
Comentário à viagem enviado por Vanda em 04.NOV.2004 - 18:25
Viagens de comboio?! É o máximo!!! Grande viagem fizemos nós (Sérgio, Tiago, Varejão e Artur) quando estávamos em erasmus... Hungria, Croácia, Eslovénia, Áustria, Itália, Eslováquia, República Checa e, finally... Hungria...
Foi único, algo inesquecível!!!
Comentário à viagem enviado por Sérgio em 09.NOV.2004 - 21:16
Viagens loucas de comboio? ... tantas.
Então Porto-Lisboa, dava um livro. Sobretudo aquelas em comboios pejados de tropas, a cultura popular ao rubro, o melhor da língua portuguesa a vir ao de cima. Memorável!
Depois a Linha do Douro, desde miúdo.
A Linha do Minho e o meu Ramal de Braga, claro.
Comentário à viagem enviado por Dario Silva em 12.DEZ.2005 - 19:54
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Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.
Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.
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