As Minorias Étnicas de Sapa, Vietname
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Percorro o noroeste do Vietname ao encontro das minorias étnicas da região de Sapa. Dias de trekking rodeado por trajares tradicionais, costumes únicos, preparativos para um casamento e muito vinho de arroz. |
Por Filipe Morato Gomes |
Qual o itinerário da volta ao mundo? |
Ansiava desde há muito conhecer o noroeste do Vietname. É lá, na região de Sapa, próximo da fronteira com a China, que vivem muitas das minorias étnicas que ainda conservam trajares típicos, costumes e cultura únicas e dialectos próprios indecifráveis para o comum dos vietnamitas. Daí que decidi apanhar um comboio nocturno na estação principal da capital Hanoi em direcção a Lao Cai, de onde haveria de seguir montanhas acima rumo a Sapa, ponto nevrálgico para exploração da região.
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| Vista da região montanhosa nos arredores de Sapa, Vietname |
Mal chegado a Sapa, parecia que um burburinho anormal inundava a cidade. E um colorido especial. Dia de mercado, constatei logo a seguir. Centenas de pessoas trajando roupas estranhas percorriam as ruas da povoação. As comunidades das redondezas, de diferentes minorias étnicas, acorrem a Sapa para comprar víveres e vender os seus produtos todos os sábados. Cheguei no dia exacto. Curioso, num ápice encontrava-me imerso no mercado. Grande azáfama, pessoas por todo o lado, faces e roupas diferentes. Parei num ponto estratégico e deixei-me ficar, observando, encantado, de câmara fotográfica sempre a postos.
Predominavam os H'mong Pretos, com as suas roupas de um azul índigo inconfundível. Mulheres, principalmente, muito novas ou muito velhas. Usavam técnicas de venda incisivas e de extrema perseverança. E algum humor até, se o viajante for capaz de os encarar descontraidamente. Eu levo cerca de três meses na estrada. Os vendedores, condutores de motocicletas, empregados de lojas, restaurantes e similares, já não me conseguem incomodar com a sua persistência.
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| Fabrico artesanal de novos cachimbos de bambu, numa aldeia próxima de Sapa |
- “You buy from me?”, pergunta-me uma miúda H'mong aparentando nove ou dez anos de idade, num inglês rudimentar mas ainda assim admirável, ao mesmo tempo que me mostra uma espécie de berimbau manufacturado.
- “No, thank you”, respondo, sorrindo.
- “Why not?”, pergunta de imediato, como se fosse preciso uma razão para não querer comprar algo.
- “I don't need it, thanks”, defendo-me.
- “Why don't need?”, insiste, numa dicção quase cantada.
- “I already have one”, admito. Na verdade, tinha adquirido um berimbau, minutos atrás, a uma outra H'mong mais nova ainda. E é então que sou surpreendido com a seguinte afirmação, uma imaginativa justificação para a necessidade imperativa de comprar que era suposto eu sentir:
- “You need two. One for you, one for girlfriend.”
- “No, thank you”, rejeito a sugestão.
- “Why not?”, e tudo recomeça novamente. Sinais do contacto cada vez mais frequente com turistas comparativamente mais endinheirados, imagino.
Mas a minha atenção recaía principalmente nos elementos da tribo Dao, sempre sorridentes e amáveis, menos interesseiros do que os vizinhos H'mong e facilmente distinguíveis pelo ornamento que todas as mulheres usavam na cabeça. Uma espécie de chapéu de um vermelho extremamente vivo, muito bonito. Haveria de os encontrar mais tarde, nas montanhas circundantes, e comprovar que são genuinamente simpáticos e nada incomodativos, mesmo quando tentam vender o seu artesanato.
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| Família Thai, norte do Vietname |
Terminada a odisseia pelo mercado e após um pequeno-almoço tardio, juntei-me a um grupo de cinco outras pessoas e partimos por caminhos e veredas das montanhas da região. Devo admitir que, desta vez, o grupo não era particularmente interessante. Nem sempre se tem essa sorte.
No segundo dia de caminhada, ao chegar a uma aldeia da minoria Thai, exímios agricultores que vivem nas margens férteis dos cursos de água, uma enorme surpresa nos aguardava. Para daí a dois dias estava marcado o casamento de uma das filhas dos anfitriões e intensos preparativos tinham já lugar. Familiares das redondezas chegavam a conta gotas, proporcionando pares de braços adicionais para ajudar nos preparativos. A azáfama era intensa. Limpavam e preparavam a zona onde haveria de decorrer a festa do casamento. A espaços chegava um e outro porco de pernas atadas, estridente, preparado para a matança. Novos cachimbos de bambu eram feitos ali à minha frente e até novos pauzinhos de bambu pintados de cor-de-rosa tinham sido preparados para a refeição da boda e secavam ao sol já gasto daquele final de tarde.
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| Mulher Dao no mercado de Sapa, Vietname |
À noite, homens e mulheres tomavam as suas refeições separados. As mulheres falavam alegremente enquanto na esteira de bambu que servia de mesa ao grupo de homens, garrafas de vinho de arroz corriam livremente de mão em mão. Sou convidado a brindar com o anfitrião. De uma golada, como manda a tradição. Depois com o irmão. E o primo. E não sei com quem mais. Um copo, outro e mais outro, sem hipótese de recusar sem que isso fosse tomado como uma ofensa à hospitalidade Dao. Por sorte, o vinho de arroz não é demasiado forte. É como que um bagaço português mas com menor teor alcoólico. Já noite dentro, fui dormir, satisfeito. Com os mais sinceros votos de felicidade para toda a família. E que o vinho de arroz não se acabe durante a boda!
{ 17.Nov.2004 - 11:44. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }
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Qual a vossa opinião?
• Bagaço português, vodka russa, airag mongol, vinho de arroz vietnamita ou similares em qualquer canto do mundo, a verdade é que o álcool é parte integrante da cultura de um povo. Comentários ou... hic... experi... hic... ências?
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Namaste Filipe!
Bom, tirando o facto da esmagadora maioria de muçulmanos considerar o álcool tabu e impuro, quase todos os povos se deixam atordoar por esta ou aquela “surrapa” de maiores ou menores graus de esquecimento. A vida pode ser dura e dá jeito ter à mão uma “cure for pain”.
Foi numa estadia de 6 meses em Creta (nos meus 19/20 anos) que eu aprendi a dar valor ao vinho e à (nem sempre) sâ camaradagem que os seus vapores proporcionam. Grandes guitarradas, amizades, histórias ébrias cujos contornos se esvanecem em manhãs submerssas.
Recordo um “capitan Stavlos” que mostrava de tempos a tempos, envolvida em plásticos, uma “lugguer”(?) da 2ª guerra mundial, refundida entre a grande barriga e o pano largo que usava a prender as calças. Tinha uma pensão e a troco de estadia grátis, convenceu-nos (eu e creio que um italiano), depois de bem regados a ir com ele desviar colchões do exército para a sua pensão. É de loucos mas fizemo-lo; a coberto da noite, num pinhal onde havia uma série de tendas grandes com aquele tipo de material. Já nem me recordo da maior parte dos pormenores (foi em 1977) mas, consigo imaginar o que me aconteceria se nos têm apanhado. “Ao menino e ao borracho deus pôe a mâo por baixo”.
Será que esta expressão tem correspondente noutras línguas e culturas?
Um brinde a ti.
Até à próxima,
Pedro
Comentário à viagem enviado por Pedro Simões em 17.NOV.2004 - 16:05
Filipe: essa narrativa me pareceu rever a Índia, que é assim colorida, com garotas(os) pelas ruas, praticamente grudados nos turistas, e falando um inglês sem pontuação alguma, o que dificulta o seu entendimento. Não se bebe álcool na Índia. Ou não se bebia. Não sei como ela está agora. Mas me lembro com carinho da água que fervíamos para beber. Água fervida é uam coisa indescritível de ruim... :o( Adoro relembrar essas coisas. Super abraço!
Comentário à viagem enviado por Mécia em 19.NOV.2004 - 01:01
Hi Filipe,
It´s Miriam, from Spain, we did the trekking in Sapa together with 3 more people. It is amazing how real you explained those days, I can remember everything we saw, ate, talked, every people we met and the way you write is completely wonderful,I am very excited about reading your lines.
Conglatulations.Have a nice trip
Comentário à viagem enviado por Miriam em 28.DEZ.2004 - 12:08
Filipe,
Ainda agora regressei de uma viagem pelo Vietname e Tailândia, e expresso de certa forma uma saudade relativamente às pessoas e à cultura desses países; verdadeiramente fascinantes.
Em relação ao vinho de arroz, tem razão em dizer para que nunca acabe, simplesmente excelente.
Comentário à viagem enviado por Alex Ferreira em 12.AGO.2005 - 11:33
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Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.
Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.
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