Os espíritos andam à solta nas ruas de Ubud
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Entro num mundo de tradições, misticismo, crenças fortes e muita espiritualidade. E, vestido a rigor, participo numa cerimónia religiosa que acontece a cada duzentos e dez dias. Em Ubud, expoente máximo de uma outra Bali. |
Por Filipe Morato Gomes |
Qual o itinerário da volta ao mundo? |
Quão redutor pode ser o retrato pintado nas agências de viagem, de uma ilha tropical com palmeiras, sol, praias com boas ondas e corpos bronzeados. E quão injusto pode ser para um povo, aperceber-se que quem os visita sai sem nada levar da cultura que os acolhe. Em Bali, parece ser isso que acontece. Muitos turistas não se aventuram para lá da azáfama de Kuta, a mais turística e comercial de todas as povoações da ilha. Mas a essência de Bali, o que a torna um destino tão atractivo e fascinante, reside na vibrante cultura e nas tradições do povo que a habita. Sair de Kuta é entrar num mundo aparte e Ubud, a poucos quilómetros de distância, é um dos expoentes máximos desse outro universo.
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| Mulheres carregam oferendas que serão purificadas numa cerimónia a ter lugar num templo de Ubud, Bali |
Vindo de Kuta, a chegada a Ubud foi uma lufada de ar fresco. Dava para perceber que a cidade possuía algo de místico e cativante. Um passeio pelas ruas da povoação revelou instantaneamente um mundo de tradições, crenças fortes, espiritualidade e uma forma de vida onde a união da família é um valor essencial. A arquitectura local era rica, bonita, diferente de tudo o que havia já visto noutros lugares.
As famílias viviam em complexos habitacionais de traços excepcionalmente belos. Vários edifícios coexistiam, com funções distintas, em redor de um pátio ou bem arranjado jardim central. Uma pequena casa possuía quartos para as gerações intermédias e respectivos descendentes. Uma outra, uns centímetros elevados do solo - num nível acima de todas as outras casas -, era ponto de abrigo para os mais velhos da família. O respeito devido aos mais idosos, sábios e experientes é algo fundamental numa sociedade onde aqueles nunca são abandonados ou colocados em centros de terceira idade. E, numa localização precisa, do lado das montanhas, um templo.
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| Templo de Danau Bratan, norte de Bali |
Todos os dias, as mulheres preparavam oferendas contendo flores, incensos e arroz cozinhado no início da manhã, tudo colocado sobre pedaços quadrangulares de folha de bananeira. “A comida é para alimentar os diabos maus; as flores para os espíritos bondosos”, afiançava um habitante local. Espalhavam as oferendas por todo o complexo e salpicavam água, supostamente abençoada, pelo chão. Um ritual repetido todos os dias, sem excepção, pelas casas e ruas de Ubud.
E Ubud estava repleta de todo o tipo de rituais e cerimónias. Havia espectáculos de danças tradicionais todas as noites e muitos cerimoniais de carácter religioso. Certa noite, quase toda a população começava a dirigir-se para um templo na zona oeste da cidade. Uma cerimónia que acontecia a cada duzentos e dez dias estava prestes a ter início. “Quando começa?”, indaguei. “Agora mesmo”, respondeu-me um transeunte. “Mas só pode entrar no templo de tiver um sarong”, avisou. Segui para o templo, expectante.
À porta, antes de entrar, foram-me colocados um sarong verde-escuro, em volta da cintura, e uma espécie de lenço branco, na cabeça. E entrei.
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| Todas as manhãs, as balinesas espalham pequenas oferendas pelos complexos habitacionais de Ubud, ilha de Bali, Indonésia |
O que me foi dado a presenciar era um espectáculo intenso e fascinante. Mulheres carregavam à cabeça tabuleiros circulares com oferendas enormes para os espíritos. Consistiam em vários níveis com frutas, doces de várias qualidades e outros alimentos que não consegui descortinar. Tudo muito colorido e bem decorado, formando belos e harmoniosos tabuleiros. As mulheres introduziam as oferendas no interior do templo e efectuavam, em simultâneo com os elementos masculinos, as suas orações. Depois, recebiam água sagrada com a qual lavavam simbolicamente as mãos, o cabelo e a cara, antes de colocarem grãos de arroz na testa. “Símbolo de prosperidade”, explicou um participante na cerimónia. As oferendas eram igualmente “purificadas” com “água sagrada” e, uma vez terminada o ritual, eram levadas para fora do templo. As mulheres levavam de novo os tabuleiros à cabeça com destino a casa onde, na companhia da família, haveriam de deleitar-se com os sabores dos alimentos “purificados”.
Estava escuro, e a chuva que caía dava um toque extra de misticismo às filas de mulheres carregando as oferendas pelas ruas da cidade. Nessa noite, os espíritos andavam à solta nas ruas de Ubud.
{ 24.Abr.2005 - 04:46. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }
Uau... pensei que lugares como esse já não existiam...
Estou ansioso por ver mais fotos!
Abraço e... boa viagem!
Comentário à viagem enviado por Zé Carlos em 24.ABR.2005 - 15:58
São locais realmente fantásticos e mágicos. Cá continuamos à espera de mais relatos e fotos dessas aventuras. Um abraço e continuação de boa viagem!!!
Comentário à viagem enviado por Liana Vidal em 24.ABR.2005 - 20:48
Há, por vezes, momentos mesmo incríveis. Acho que a natureza dos espaços contribui muito para isso... e a cultura oriental explora o espaço construído de forma muito sábia. Se há algo mais, que transcende a nossa percepção primária... quem sabe? Os complexos habitacionais que referes são construções já muito antigas, ou não o são tanto mas mantendo uma determinada tradição? Boa viagem!
Comentário à viagem enviado por A. P. Ribeiro (Tyson) em 25.ABR.2005 - 16:05
Filipe, acho que ainda bem que as agências de viagem não publicitam estes lugares mágicos. Acho que é a unica maneira de continuarem mágicos, e para serem somente descobertos por alguns! Abração.
Comentário à viagem enviado por Rui Lucas em 27.ABR.2005 - 13:55
Olá,
Tenho de confessar que, no meu plano inicial de viagem à Indonésia, tinha excluído Bali, precisamente porque não consegui ultrapassar a imagem redutora que nos é passada pelas agências de viagens.
Sempre fugi dos sítios muito visitados (com excepção do Rajastão e Camboja) sem pensar na injustiça que cometia para com esses povos.
Ao ler a sua crónica, senti-me envergonhada porque sei que o preconceito nos torna (no mínimo) míopes!
Obrigada por me fazer ver mais longe.
Teresa
Comentário à viagem enviado por Teresa Carvalho em 28.ABR.2005 - 16:28
Bali não é só Kuta Beach e arredores que aparecem nos folhetos das agências de viagem... Há que ir off the beaten track. Viajar pela ilha é o melhor que se faz. Estive lá uma semana no ano passado e só fui à praia duas vezes para fazer surf. O resto foi a conhecer estas e outras coisas que o Filipe fala...
Comentário à viagem enviado por Hugo Cruz em 29.ABR.2005 - 13:18
Sigo com entusiasmo as suas crónicas, especialmente sobre a Indonésia, já que sou um estudante indonésio em Lisboa, sempre há algo a apreciar. Graças a Deus, existe tanta diversidade neste mundo. Cada lugar tem o seu ponto mágico. É a riqueza a cultivar, pelo menos com a consiência de que muitas gerações ainda estão a caminho para este mundo. Um abraço para si e boa viagem (selamat melancong).
Comentário à viagem enviado por Felicianus Sila em 30.ABR.2005 - 21:22
Olá, confesso que é a primeira vez que vejo alguém com tanta coragem para percorrer sítios com uns olhares tão profundos mas que tem algo de místico e espiritual. Sem dúvida que Ubud é, de facto, fabuloso, e tenho imensa pena de não ter ficado por lá mais tempo; regresei no final do mês Abril de Bali, e agora não penso em outra coisa, se não em agarrar na mochila e ir no final deste ano, se o Deuses estiverem do meu lado! Até lá, desejo-te uma continuação de uma boa viagem! E, já agora, onde te encontras tu?
Comentário à viagem enviado por Maria Paiva em 28.MAI.2005 - 19:50
Mais uma vez achei fantástico aquilo que escreveste, e escrevo para corrigir o meu email!!
Será que estará em Bali em Dezembro de 2005?
Comentário à viagem enviado por Maria Paiva em 28.MAI.2005 - 20:19
Estarei em Ubud em Agosto de 2005, infelizmente só lá vou estar por duas noites, o resto dos meus 15 dias na ilha reparto-os por Kuta e em 5 noites em Nusa Dua para descansar (a namorada insistiu!), mas há coisas tão lindas no Bali... Lovina tem um pôr-do-sol de morrer e a antiga capital ali tão perto... Já para não falar de Amed, que é de não querer voltar!
Comentário à viagem enviado por Godinho em 04.JUL.2005 - 14:02
Gente, eu fiquei bobo. Cada figura de arrepiar. Quando eu for dormir, eu irei pedir protecao
Comentário à viagem enviado por Vinicius Barreto de Oliveira em 07.JUN.2006 - 21:25
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Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.
Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.
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