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VIAGENS EUROPA » FRANÇA » MONT SAINT-MICHELMont Saint-Michel, Normandia, França
O MONTE DAS MARÉSA melhor aproximação que se pode fazer a esta relíquia medieval é caminhando pelos polders junto ao dique, onde pastam habitualmente exemplares de uma espécie muito particular de carneiros. Visto à distância e envolto na bruma que, manhã cedo, paira sobre toda a baía, o Mont Saint-Michel ainda consegue desenterrar toda a aura mística que consagrou séculos e séculos de fervorosas peregrinações.
À medida que nos acercamos, ganha inevitavelmente relevo a sua dimensão física. Ao passarmos a Porta do Rei, a ideia de uma rigorosa hierarquização entre o religioso e o profano ainda sobrevive, mas o tumulto babélico, o bulício de feira que se derrama sobre a Grande Rue (assim chamada por oposição, seguramente, à profusão de escadas e escadinhas...) acaba por nos despertar da pretensão de qualquer enlevo. A turba exulta, irrequieta sob o apelo da imensa panóplia de inutilidades, bugigangas atípicas, souvenirs, enfim, oferecidos por “les hommes et les femmes qui maintiennet la tradition des boutiquiers du Moyen-Age”... A encenação, algo “holywoodiana” se pensarmos nos espectáculos multimédia sobre a história e construção da abadia, atinge o paroxismo quando se chega às portas da Merveille: um mar de gente (despejado pelas dezenas de autocarros que lá em baixo, no amplo parking, esperam ao sol) aguarda vez para a visita ao convento. A algazarra mistura-se com os cânticos da “Missa Brevis”, de Palestrina, expelidos por altifalantes muito pouco discretos. Será mais sensato, pois, voltar em hora de maior recolhimento para a peregrinação pelo fantástico labirinto interior da abadia, uma maravilha do gótico do século XII que reecebeu um dia de Victor Hugo extraordinário elogio. MONT SAINT-MICHEL, HISTÓRIA E MITOFace a tão prosaica realidade, acudam-nos a lenda e os meandros do imaginário, com umas pitadas de vago fundamento histórico pelo meio, quiçá a única via para o viajante recuperar, ainda que por breves instantes, a magia e o encantamento do lugar. Conta a tradição, cujas fontes mergulham na Alta Idade Média, que a consagração do famoso cerro como oratório cristão terá ocorrido por volta do oitavo século d.C. Santo Alberto, então bispo de Avranches, uma localidade situada nos arredores do Mont Saint-Michel, na Normandia, inspirado por uma aparição do arcanjo São Miguel, ordenou a construção de uma pequena igreja em sua homenagem. A forma escolhida, um simulacro de caverna, assim como outros pormenores narrados pela lenda, indiciam a reedição de uma história semelhante que teve como palco a região dos Abruzzos, no Sul de Itália, onde no monte Gargan se honrava também a memória do santo.
A possibilidade do culto do arcanjo ter sido introduzido por monges irlandeses, sugerida por outras vozes e tradições, parece ter menos credibilidade; a mais antiga construção do monte, a igreja de Notre-Dame-sur-Terre, conserva uma parede herdada precisamente do que pode ter sido o rústico templo erguido pelo bispo de Avranches no ano de 708. Seja como for, a escolha do lugar para a edificação do mosteiro corresponde, antes de tudo, à perfeita materialização de um modelo cultural consagrado ao longo de séculos no Ocidente medieval. O eremitismo ocidental, na sua procura de solidão, veio substituir o deserto bíblico pelas ilhas, como assinalou Jacques le Goff em “O Maravilhoso e o Quotidiano no Ocidente Medieval”. O ARCANJO GUARDADOR DE RAIOSAté se alcançar a entrada da abadia do Mont Saint-Michel, há que subir a Grande Rue e galgar depois uma íngreme e sinuosa escadaria - judiciosamente apelidada le gouffre, certamente para pôr acento na vertigem que transmite aos peregrinos mais sensíveis à altitude. A partir da Sala da Guarda, um amplo espaço assente sobre três níveis de um enorme rochedo, começa a grande e larga escadaria interior que conduzia outrora os visitantes mais ilustres às portas da catedral, uma majestosa nave normanda de alto e luminoso janelame, cingida na extremidade por um imponente coro gótico.
Aí, um terraço aberto sobre o lado norte embriaga o exausto peregrino com a claríssima luz reflectida pelo areal imenso que a maré vazante desnuda. Ao longe, a alguns quilómetros de distância, estende-se uma estreita e quieta faixa azul - o mar. Após a subida pela escadaria interior, que corre entre altas e austeras paredes com o céu a espreitar por cima dos arcos dos contrafortes, a visão da singular baía seduz o olhar a uma demora contemplativa. Bem-aventurados os monges que com tal cenário eram dia após dia abençoados. Ao lado, junto à muralha, uma família menos interessada em enleios paisagísticos vai-se revezando na função de registar para a posteridade doméstica a memória da sua passagem por ali em retratos e mais retratos. De um rosto ocultado por uns óculos de sol, com sotaque inconfundível, um voz decide-se: “Mamãe, enquanto vocês vão visitar essa igreja aí, eu fico aqui tomando sol, viu?”. O regresso à terra é abrupto. O Mont Saint-Michel é assim, feito destas irremediáveis dualidades. E nem o Arcanjo São Miguel, que vela lá do alto, em pose dourada sobre a flecha da catedral, escapa às artimanhas do destino: ele mesmo, sem outra ameaça no horizonte, está cometido das prosaicas funções de pára-raios. BRETANHA OU NORMANDIA?Encontrar um habitante desta microcidade medieval é quase tão difícil como procurar agulha em palheiro. Os eleitores inscritos na comuna não chegam sequer a uma centena, a esmagadora maioria dos quais a residir fora das muralhas, no continente, consagrada que está a maior parte dos edifícios a funções hoteleiras, de alojamento ou restauração.
A propósito, cabe lembrar que o turismo de massas é no Mont Saint-Michel, aliás, realidade herdada já do séc. XIX. Foi nessa época que Madame Poulard se lembrou de abrir o que se viria a tornar o mais famoso hotel do burgo, tão célebre quanto as suas omeletas, cuja execução na bela cozinha, logo à entrada da cidadela, os passantes podem observar do lado de fora. Quase três milhões de visitantes por ano é argumento de vulto para bretões e normandos disputarem o lugar, hiper-incensado em todos os guias e roteiros de ambas regiões e classificado pela Unesco, desde 1984, como Património Mundial. Nos panfletos turísticos, o Mont Saint-Michel pertence, afinal, a duas regiões francesas, a Bretanha e a Normandia, por mor de umas polémicas reestruturações administrativas. Hoje, entre a barafunda turística, será difícil descortinar sinceras motivações espirituais (os visitantes anuais da abadia não chegam nem a um terço dos que deambulam pelas profanas ruelas da povoação); mas os fundamentos do mito e o campo onde o imaginário medieval lavrou e semeou sua herança lá estão, entranhados nas subtis rugas da pedra, no silêncio e na quietude nocturna que pacifica as vielas desertas, num mistério a que só se pode aceder sem o lastro da pressa contemporânea.
ÁGUAS VELOZES NA BAÍA DO MONT SAINT-MICHEL.Não são os vendavais - por mais espectaculares que eles se revelem sobre este monte famoso - o fenómeno natural que mais personaliza a imensa baía que enquadra o Mont Saint-Michel. O prodígio - uma excepcional amplitude das marés - repete-se, aliás, por toda a vizinha Bretanha, mas é aqui que ele se revela com maior esplendor, só superado, em todo o planeta, por fenómeno similar na baía de Fundy, no Canadá. Com a maré alta, as águas podem subir até 15 metros, o que envolve necessariamente distâncias significativas: quando o mar recua, o areal descoberto espraia-se por mais de uma dezena de quilómetros. E não é apenas a linha da costa a ser afectada por estes caprichos; como toda a orla marítima em direcção a ocidente é muito recortada, com inúmeros e profundos estuários, as marés chegam a estender a sua influência até vinte quilómetros para o interior. Apesar de toda a original beleza da baía, a tentação de um passeio pelo areal até ao mar envolve riscos reais, de forma alguma negligenciáveis. Para além das areias movediças, as águas sobem a uma velocidade razoável (como se diz localmente, à velocidade de uma cavalo a trote), gerando correntes cruzadas que nem o mais afoito nadador consegue vencer. Para evitar situações complicadas, os visitantes são aconselhados a consultar os horários das marés e regressar uma hora e meia, pelo menos, antes da maré cheia. A melhor opção, todavia, é recorrer a um guia especializado. Há também passeios equestres pelo areal.
Junto à baía, na estrada para Cancale, existem belos solares dos séc. XVII e XVIII que recebem hóspedes, nomeadamente em Roz sur Couesnon (Val Saint-Revert, telef. 99 80 27 85; La Roseliere, telef. 99 80 22 05; La Bergerie, telef. 99 80 29 68 ) e em Saint-Marcan (Le Colombel, telef. 99 80 22 78). Dentro da cidadela, eis três sugestões: Mouton Blanc, telef. 33 60 05 62; Hotel de La Croix Blanche, telef. 33 60 14 04 e La Mére Poulard, telef. 33 60 14 01. Em Beauvoir e em Pontorsan há igualmente muita oferta de alojamento.
VISITAR A CIDADELAA cidadela é um exemplo quase único de uma comunidade urbana medieval assente na integração e equilíbrio das componentes religiosa e profana. Para além de uma deriva pelas muralhas e pelas estreitas escadas ladeadas, tal como a Grande Rue, por casas dos séc. XV e XVI, é obrigatória uma visita (livre ou guiada) à magnífica abadia que sintetiza tanto nas suas sólidas muralhas como no labirinto interior cinco séculos de intervenções arquitectónicas, do românico ao gótico flamejante. O claustro, magnífico, abre-se para o quase infinito das areias e do mar, ao longe. Para grupos escolares, o acesso é gratuito entre 16/9 e 15/5. A igreja oferece um serviço religioso diário às 12H15. O Museu Municipal guarda preciosa documentação sobre pergaminhos e livros medievais, escultura e ourivesaria, além de diaporamas sobre a povoação. O Archéoscope encena um espectáculo multimédia em torno das lendas e histórias maravilhosas do Mont Saint-Michel. Nas imediações, há outras localidades dignas de uma visita de demorada e atenta: Dinan (castelo com uma esplêndida vista sobre o burgo medieval), Dol-de-Bretagne (com a sua majestosa catedral), Saint-Malo, Fougéres e Vitré. CRUZEIROSDe Vivier-sur-Mer larga uma curiosa embarcação anfíbia - a Siréne de la Baie - para cruzeiros de duas horas e meia que percorrem as baías de Cancale - e a zona dos viveiros de ostras - e do Mont Saint-Michel (as partidas das 13H00 e das 19H30 incluem almoço e jantar a bordo).
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