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Saint-Malo, França

A serenidade cosmopolita que se respira nas ruelas de traçado medieval de Saint-Malo mal deixa adivinhar a agitada história que fez do burgo um grande porto de abrigo de corsários. Ainda hoje, a vocação marítima de Saint-Malo, no litoral da Bretanha, marca a identidade da cidadela, um dos grandes centros de vela da Europa.

Por Humberto Lopes | 15.Mai.2009



SAINT-MALO, O ABRIGO DE CORSÁRIOS

Ni français, ni breton”: a divisa espelha uma das facetas mais emblemáticas da identidade de Saint-Malo, cujos habitantes sempre cultivaram a rebeldia face ao poder político de Paris e dos Duques da Bretanha, sediados em Nantes. Como em muito poucas cidades de vocação marítima, a liberdade foi entrevista como muito mais do que uma metáfora e consumada na inigualável aventura da viagem.

Viagens Saint-Malo, França
Saint-Malo, França

Abertas de par em par as portas dos oceanos, corsários, comerciantes ou simples marinheiros, os aventureiros de Saint-Malo empurraram quase até ao infinito o horizonte da cidade e escreveram uma história de relacionamento com os mais variados povos e regiões. À Terra Nova corriam a pescar o bacalhau que depois vinham trocar a Portugal pelo vital sal de Setúbal. O azeite, os vinhos e outros produtos meridionais justificavam uma intensa actividade comercial com um grande número de portos em variadas latitudes: Amesterdão, Cádis, Marselha, Génova. Também a América do Sul e Central se cruzaram nas rotas destes incansáveis navegantes e construtores de barcos. A história marítima de Saint-Malo regista, aliás, nomes distintos, mais ou menos conhecidos: Jacques Cartier, que sonhava com a Ásia e deu com o Canadá; Chateaubriand, hábil na pena e irrequieto viajante; Mahé de la Bourdonnais, governador das longínquas ilhas da Reunião e Maurícias; e, também, o multidisciplinar Maupertuis, matemático, geógrafo, filósofo e, ele também, filho de corsário e viajante.



SAINT-MALO, A FÉNIX DA BRETANHA

Literatura, não mais do que literatura, dir-se-á eventualmente ao som de tais loas. Mas este espírito de teimosa fidelidade, de âncora firme, altivo como um farol voltado à investida das vagas, foi posto à prova vezes bastantes para que um enunciado das singularidades históricas de Saint-Malo possa ser lido como simples acordes de retórica.

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Um acontecimento, em particular, dá conta de uma tenacidade que é, afinal, partilhada com outras comunidades da Bretanha. Em Agosto de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, a aviação aliada bombardeou intensamente a cidade, que se julgava acolher então importantes comandos alemães. Saint-Malo acabou mergulhada no fogo cruzado da artilharia de ambos os exércitos e o resultado acabou por ser a destruição de quase toda a área intramuros. A dimensão do desastre pode ser avaliada nos documentos da época expostos no Museu da Cidade de Saint-Malo, que mostra também o processo de restauro. As fotografias mostram um cenário impressionante: o burgo pouco mais era do que um mar de cinza e ruína, com escassos edifícios sobreviventes. Está lá escrito, em legenda: os quinhentos mil metros cúbicos de escombros retirados após a tragédia corresponderiam a mais de seiscentos edifícios. Mas a resistência e coragem dos habitantes tornou possível o que em circunstâncias semelhantes poderia assemelhar-se praticamente a uma tarefa de Sísifo. Mobilizada toda a população para a causa do renascimento, as pedras foram numeradas uma a uma, o terreno limpo e os edifícios reconstruídos escrupulosamente de acordo com a traça original. Fotografias, gravuras, registos diversos revelaram-se recursos decisivos para o empreendimento.

Praticamente incólumes ficaram apenas as muralhas - projectadas por Vauban -, cuja extensão é imperioso calcorrear para se ter uma ideia do admirável trabalho de reconstrução da cidade. Há alguns pontos que oferecem notáveis perspectivas do burgo, como o Bastião da Holanda, vizinho de uma estátua de Jacques Cartier. Para norte, o horizonte alarga-se mar dentro, com o recorte da ilhota de Petit-Bé, onde Vauban construiu um fortim com um ângulo de tiro de 360 graus. Do Bastião de S. Filipe, à beira da foz do Rance, avista-se a estância balnear de Dinard, destino amado pela aristocracia inglesa no final do século XIX e cenário de um dos últimos filmes de Eric Rohmer. Para sul, a muralha acompanha o Cais de Dinan e a Rue de Orléans, no interior da cidadela. Este trecho é especialmente interessante pela possibilidade de observação mais próxima das austeras fachadas dos palácios dos armadores que fizeram a história e a fortuna de Saint-Malo. A partir do Bastião S. Luís, a paisagem ao largo é um mar de mastros e velas oscilando no Cais de São Vicente.



SOB O SIGNO DE CHATEAUBRIAND

Além de toda área medieval intramuros, vale a pena visitar as ilhas Petit-Bé (e a fortaleza de Vauban) e Grand-Bé (onde se encontra o túmulo de Chateaubriand) e caminhar pelas praias. Este percurso permite descobrir imprevistos ângulos que oferecem outras perspectivas do sistema de muralhas. Haverá que ter atenção, todavia, à subida (muito) rápida das marés. Não é nada do outro mundo achar-se o visitante isolado nas ilhas num espaço de tempo de dez minutos: não obstante os avisos constantes das autoridades municipais, há frequentemente casos de incautos surpreendidos pelo fenómeno.

Saint-Malo, França
Saint-Malo, França

No capítulo das instituições museológicas, a identidade e os pergaminhos da cidade estão bem documentados no Museu de Cap-Hornier, na zona nova. Aí podemos descobrir um notável acervo de cartas marinhas e instrumentos relacionados com as aventuras marítimas dos viajantes de Saint-Malo. Há ainda, na Rue de Toulouse, existe também um pequeno, mas cativante, museu de brinquedos e bonecas.

Caminhamos depois até à Grande Porte, esplêndido miradouro sobre uma das praças mais movimentadas da cidade, a Place du Poids du Roi. Continuando sempre ao longo da muralha, chegamos à Place Chateaubriand. Ali perto, numa casa do séc. XVII, no número 3 da Rue Chateaubriand, nasceu o célebre escritor e viajante, que foi sepultado na ilha de Grande-Bé e que é uma figura incontornável e simbólica do espírito da cidade. A praça é um dos locais de preferência dos músicos de rua e enche-se noite e dia de farta animação. O bar do Hotel de l'Univers, decorado com peças oriundas do espólio dos antigos corsários está a dois passos e constitui um apeadeiro indispensável durante as voltas por Saint-Malo. Outra é, obviamente, a que um ror de gente faz ao castelo construído pelos Duques da Bretanha nos séculos XV e XVI, e que acolhe actualmente o Museu de História. Do alto de uma das torres alcança-se a que é, porventura, a melhor vista de conjunto da cidadela, incluindo um magnífico pano arama sobre a orla marítima e a ilha de Grand-Bé.

É também a partir da “estratégica” Place Chateaubriand que se pode iniciar um passeio por algumas das ruas mais curiosas da cidadela e observar uma série de antigas mansões dos séc. XVII e XVII restauradas. A Rue du Pélicot (números 3, 5, 11 e 23) reúne impressivos exemplos da arquitectura local; na Rue Vincent-de-Gournay erguem-se nas suas duas margens um bom punhado de palacetes setecentistas. Este pode bem ser um percurso de descoberta alinhavado ao acaso, mas para quem disponha de menos tempo ou tenha obsessão por passeios organizados, o posto de turismo disponibiliza contactos para agendar visitas guiadas. E sobra, ainda, uma opção intermédia, mantendo autonomia de movimentos e de gestão do tempo, que é a de recorrer a uma prática e elucidativa brochura editada pelo turismo local. É guia precioso para nos conduzir por esse extraordinário labirinto urbano recuperado das cinzas da Segunda Guerra Mundial.


Saint-Malo, França
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DA ESCRAVATURA AO TURISMO

Com um decreto regulamentando a actividade dos corsário, assinado por Colbert, ficou aberto caminho para Saint-Malo entrar na história como o mais exemplar caso de sucesso de pirataria politicamente legitimada - os assaltos apenas podiam visar navios de nações inimigas, e o produto tinha de ser rigorosamente dividido entre a tripulação e o reino. Por aqui passa uma das causas do fortalecimento da burguesia local, a quem o rei de França se terá referido numa expressão que traduzia um reconhecimento do poder de uma classe ascendente na Europa de então e que ficou célebre: “... ces messieurs de Saint-Malo!”.

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A autoridade régia gaulesa tinha bem consciência dos interesses comerciais dos corsários. Por volta de 1700, um comissário do rei podia afirmar claramente que “Il n'y a que l'espoir du gain qui engage les armateurs de Saint-Malo à armer en guerre contre les ennemis de l'État”. Robert Surcouf foi uma das figuras mais emblemáticas da actividade, para o bem e para o mal. Corsário aos vinte e dois anos e armador aos vinte e seis, serviu França e o seu rei contra os ingleses, mas sem nunca descurar os seus interesses pessoais. Penhor disso é a face obscura da sua carreira, quando após a derrota de Napoleão em Waterloo foi aprovada legislação tendente a abolir o tráfico de escravos. Surcouf fez ouvidos de mercador aos novos ventos e decidiu enviar, ainda assim, navios negreiros a Angola. Supõe-se, aliás, que o famoso corsário tenha armado, pelo menos, três expedições destinadas ao tráfico clandestino. Uma delas, em 1816, reuniu trinta e seis navios que assolaram o litoral africano, desde Cabo Verde até Angola, e chegaram mesmo a levar a sua sombria predação até Zanzibar e Madagáscar.

A aura marítima de Saint-Malo passa, efectivamente, por esta memória, mas as expedições actuais têm outro timbre, como, por exemplo, as da Association du Cotre Corsaire, que organiza viagens de veleiro pela costa e ilhas da Bretanha e Inglaterra, pelas turísticas ínsulas de Jersey e Guernesey e, até, para latitudes mais distantes. Não faltam, portanto, marítimas inquietações e andanças sobre as vastas águas do planeta. Nenhuma outra narrativa seria, afinal, mais justa com uma cidade que mereceu de Flaubert esta expressão: “Couronne de pierre posée sur les flots!”.



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COMO CHEGAR A SAINT-MALO

Pesquisa e reserva de voos na eDreams

A opção mais cómoda é voar para Paris e daí tomar um voo interno para Rennes. Há ainda a possibilidade de viajar de comboio a partir de Paris. O TGV Atlantique demora cerca de duas horas da capital francesa até Rennes. Saint-Malo fica a 70 quilómetros de Rennes.

Uma viagem por terra significa cerca de 1.800 quilómetros a partir de Portugal, sendo necessário pelo menos dois dias em cada sentido. Entrando em França por Irún e tomando a A 63 até Bordéus, deve seguir-se a A 10 até Niort, e daí continuar para Noroeste, em direcção a Nantes e depois a Rennes.

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HOTÉIS EM SAINT-MALO

Hotéis

Aqui ficam algumas sugestões de hotéis em Saint-Malo onde se hospedar com confiança: Hotel de la Cité (Place Vauban), Hotel France et Chateaubriand e Hotel de l'Univers (ambos na Place Chateaubriand).

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Reserva de hotéis na Hotelopia

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RESTAURANTES EM SAINT-MALO

Não faltam crêperies onde provar os deliciosos crepes da Bretanha. Dois bons endereços são os da Crêperie la Brigantine, na Rue de Dinan, 13, e da Crêperie du Corps de Garde, nas muralhas, junto à Porte-des-Bés. Para degustar a gastronomia de Saint-Malo, a escolha é também enorme: entre os mais reputados restaurantes da cidade convém anotar o Le Chasse-Marée (Rue du Grout Saint-Georges, 4), no capítulo dos mariscos, e o Le Chalut (Rue de la Corne du Cerf, 8), um cinco estrelas que alia a tradição à criatividade. Para terminar, mais duas referências absolutas da cozinha tradicional de Saint-Malo: Le Borgnefesse (Rue Puits-aux-Braies, 10) e Restaurant de la Porte de Saint-Pierre (Place du Guet, 2).


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