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Viagens: templos de Bagan, Myanmar
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VOLTA AO MUNDO » 31. BAGAN, MYANMAR

Pôr-do-sol nos templos de Bagan, Myanmar

Chego a Bagan, em Myanmar (Birmânia), pouco mais que moribundo, depois da pior viagem de autocarro de que tenho memória. Bagan é famosa pelos seus templos, que visito demoradamente, deleitando-me com um belo pôr-do-sol num minúsculo templo livre de turistas.

Por Filipe Morato Gomes

Qual o itinerário da volta ao mundo?



Um homem contempla alguns templos em Bagan, espalhados por uma vasta área de terreno, Myanmar
Um homem contempla alguns templos em Bagan, espalhados por uma vasta área de terreno, Myanmar

Foi a pior jornada de autocarro desta viagem até à data. Era um pequeno autocarro de uma linha regular entre Mandalay e Bagan, extremamente desconfortável, exíguo em espaço e sobrelotado. Percorreu estradas de terra batida pejadas de buracos, aos solavancos, e o pó, omnipresente, tornava a respiração uma proeza. Uma dúzia de pessoas efectuou a viagem de pé, outros tantos no tejadilho por entre maletas e sacos de arroz. E, sempre que uma mulher pretendia entrar no autocarro, era necessário algum passageiro do sexo masculino se voluntariar para viajar na capota e ceder o seu espaço à recém-chegada. Não por cavalheirismo, mas porque, de outra forma, seria desrespeitoso para todos os homens presentes ter uma mulher por cima das suas cabeças, num nível superior. À chegada a Bagan, sentia-me pouco mais que moribundo.

Bagan é a mais visitada região de Myanmar. E a única razão para tal facto deve-se aos mais de dois mil templos que se espraiam por uma área de quarenta quilómetros quadrados, nas proximidades do rio Ayeyarwady. A par dos de Angkor, no Camboja, e dos de Borobudur, na ilha indonésia de Java, os templos de Bagan são frequentemente considerados os mais impressionantes legados do passado no sudeste asiático.

Havia demasiados turistas nos mais imponentes dos templos, como em Shwezigon ou Ananda, este último um dos mais elegantes, bem preservados e sagrados de entre todos os templos de Bagan. À medida que a tarde ia caindo, os grupos organizados rumavam para o ponto mais alto de um mesmo templo, aguardando o pôr-do-sol. De todas as direcções ouviam-se cliques furiosos de dezenas de máquinas fotográficas em aceso despique. E gente, muita gente acotovelando-se num pequeno terraço. Saturado, pedalei sem rumo definido pelos caminhos de terra solta até que um homem me convidou a ver as pinturas de sua autoria efectuadas sobre areia.

Templos de Bagan, Myanmar
Templos de Bagan

Estava sentado à porta do minúsculo templo de Tayok Pye, raramente visitado por forasteiros. “Em média, cinco pessoas por dia vêm até Tayok Pye”, dizia o artista vendedor. “Não é bom para o negócio, mas a licença para vender junto aos templos maiores é demasiado cara“, continuou, resignado. O edifício parecia como que um paralelepípedo sem graça quando o homem apontou para uma estreita e escura escadaria. “O sol põe-se em vinte minutos, podes subir”, sugeriu. A escadaria levava até ao topo do pequeno templo. Subi e lá fiquei, apenas na companhia do homem que entretanto subiu também, apreciando a imensidão de templos que pintalgavam a paisagem e aguardando o mágico instante em que o sol se esconde por debaixo da linha do horizonte. Um momento de paz.

Bagan é um daqueles lugares que possuem um certo fascínio mas, ao fim de alguns dias, visitar templos tornou-se monótono e cansativo. E estava curioso em conhecer o mais afamado destino de veraneio de Myanmar, Ngapali, antes que o visto de permanência no país expirasse. Ainda dorido da jornada de autocarro e sabendo que levaria pelo menos vinte horas e três autocarros para lá chegar, decidi embarcar num voo doméstico em direcção a Ngapali.

Lá chegado, encontrei uma praia imaculada, três quilómetros de palmeiras alinhadas por detrás de uma linha de areia fina, com os resorts e bungalows sem vestígios de terem sido afectados por qualquer vaga destruidora no passado mês de Dezembro. Ngapali é um lugar belo e tranquilo, mas não é um destino frequentado por viajantes independentes. Talvez por ser um local incompreensivelmente caro, talvez por ser demasiado sossegado.

Praia de Ngapali, Myanmar
Praia de Ngapali, Myanmar

Era então altura de abandonar Myanmar e regressar a Banguecoque, com o intuito de aprender a mergulhar nas ilhas do golfo da Tailândia, antes de descer a península malaia em direcção a Singapura. Mas, estando num país onde todas as liberdades são controladas, o simples facto de poder sair ganha outro sentido. Muitos birmaneses almejam por uma oportunidade para trabalhar fora de portas e não têm permissão para sair do país. Soube de um padre católico que esteve três anos à espera de autorização da junta militar para visitar Itália durante uma semana. Enquanto o avião se elevava no céu e Myanmar ia ficando mais distante, só me ocorria um pensamento: “há povos que mereciam melhor sorte”.


{ 20.Fev.2005 - 12:36. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }

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Boas, viajante Filipe
De facto, “há povos que mereciam melhor sorte” - o português por exemplo. É claro que no caso birmanês, ajudaria se tivesse uma boa reserva de petróleo, que faria com que o grande amigo dos povos e das liberdades - Bush Jr. - iniciasse uma cruzada de indignação culminando numa invasão.
Por outro lado, o que pensar de um povo com códigos e preceitos morais (impostos pela religião ancestral ?), que ache desrespeitoso uma mulher estar a um nível superior (fisicamente) ao dos homens. Nem devem pôr a hipótese de qualquer superioridade ou igualdade em termos de consciência ou saberes.
Eu sei que é um ocidental a falar, a milhares de quilómetros de distância mas, enquanto velhos mitos não forem derrubados, os povos estarão subjugados e divididos, sendo este um terreno fértil para qualquer ditadura.

Nós por cá, terminámos com um ciclo de viragem à direita, numa expressiva derrota dessa mesma direita. Melhores tempos virão? É o que desejo para nós e para o povo birmanês, porque “merecemos melhor sorte”.

Para ti Filipe, um obrigado por nos dares as tuas pinceladas de um mundo rico em calor e valor humano nas suas variantes étnicas.
Até breve,
Pedro

Comentário à viagem enviado por Pedro em 21.FEV.2005 - 12:21

Olé viajante,
Como é que andas Gralhita?
Uma pergunta estúpida agora... quantos quilos é que já perdeste na tua viagem? Ou os escorpiões têm muitas calorias?
É que se dá para perder peso, se calhar também vou dar uma volta por aí :)
Um abraço e continuação de uma GRANDE viagem

Seabra

Comentário à viagem enviado por Seabra em 24.FEV.2005 - 02:58

Não podia deixar de ser... Muitos parabéns!!! Abraços muito fortes.

Comentário à viagem enviado por Telmo em 25.FEV.2005 - 08:44

Olá Filipe!

Hoje, mais do que em todos os outros dias, mereces um grande grande abraço!

Os meus parabéns...
Rp

Comentário à viagem enviado por Rui Pinto em 25.FEV.2005 - 14:08

Grande Gralha!
Muitos parabéns do camarada Bidros! Que este seja mais um ano de concretização dos teus sonhos!
Grande abraço!

Comentário à viagem enviado por Ricardo Ferreira (Bidros) em 25.FEV.2005 - 15:54

Caros,

Obrigado pelas mensagens de parabéns que me enviaram. Na noite de comemoração do meu aniversário, tive a sorte de encontrar dois portugueses que se revelaram excelentes companhias para uma noite de copos e dois dedos de conversa. Rita e Bruno, obrigado por me proporcionarem a possibilidade de ouvir os parabéns a você em português.

Seabra: sim, já perdi uns quilitos, podes vir.

Grande abraço e continuação de boas viagens.

Comentário à viagem enviado por Filipe Morato Gomes em 27.FEV.2005 - 11:46


Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.

Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.


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