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VOLTA AO MUNDO » 44. DARWIN, AUSTRÁLIAA difícil adaptação aborígene ao mundo dos brancos, em Darwin
Ao aterrar na Austrália, chegara ao primeiro país de cultura ocidentalizada desde o início desta volta ao mundo. As ruas limpas e arranjadas de Darwin, a organização da cidade e a visível qualidade de vida dos seus habitantes eram uma brutal alteração em relação à última paragem, Timor-Leste. Aterrara no chamado primeiro mundo mas, apesar da Austrália se posicionar na vanguarda do desenvolvimento mundial, coisas havia que, visivelmente, não batiam certo.
Darwin revelou-se uma cidade bonita e agradável. Sem prédios elevados nem tráfego congestionado. Stress era uma palavra ausente do dicionário local. As pessoas andavam despreocupadamente pelas ruas, como se o ritmo de vida fosse lento e prazenteiro. E utilizavam os parques da cidade, verdes e refrescantes, como pontos privilegiados para salutares actividades físicas. Partilhando o mesmo espaço, alheios a tudo, por entre o verde resplandecente da relva dos parques, seres de aspecto miserável e roupas gastas dormitavam, como que moribundos. A alegria de Darwin passava ao lado daqueles seres humanos. A tez escura, os lábios grandes e carnudos e as feições diferentes não deixavam margem para qualquer dúvida. Os primeiros homens a povoar o país não andavam felizes. Um conflito civilizacional, surdo e funesto, parecia ter lugar nos parques de Darwin. Como em todos os cantos da cidade. Os aborígenes estavam embriagados, andavam embriagados, viviam embriagados. Como seres expulsos da sua própria terra, sem lugar para onde ir nem lugar para onde voltar. Uma visão muito triste, aquela de um povo indígena com uma cultura milenar riquíssima e que, provavelmente sem alternativas, parecia ir lentamente definhando perante as leis do chamado progresso. Estima-se que um milhão de autóctones habitasse a Austrália quando os primeiros europeus ali desembarcaram. Ainda hoje, cerca de 30% dos duzentos mil habitantes do Northern Territory - do qual Darwin é a capital - é aborígene. Muitos vivem em zonas delimitadas pelo governo como território indígena, com pouco contacto com o homem dito branco. Outros vivem em parques nacionais explorados conjuntamente por ocidentais e aborígenes, em parcerias que têm funcionado como forma de integração destes no mundo moderno daqueles, preservando no entanto a sua cultura e costumes. E há ainda uns poucos que vivem perfeitamente integrados numa sociedade de consumo. Viria a conhecer uma dessas excepções na povoação de Katherine, dias depois de ter saído de Darwin.
A bordo de um miniautocarro da companhia wayward bus, segui para sul rumo ao coração desértico da Austrália. Uma paragem no Parque Nacional de Litchfield, a um par de horas de Darwin, foi um óptimo início para a longa viagem. Cascatas como a de Florence proporcionaram à dúzia de viajantes a oportunidade de nadar em águas cristalinas e refrescar o corpo. Montes gigantes construídos por laboriosas térmitas impressionavam pela magnitude e orientação quase milimétrica. É espantoso como criaturas tão pequenas constroem edificações tão colossais e engenhosas. Outra espécie de formigas foi alvo de toda a atenção por outras razões. Gastronómicas. Por sugestão do motorista, provei uma formiga verde. Viva. Dizia conter uma grande dose de vitamina C e ser usada pelos povos da região como fornecedor natural dessa substância. O sabor ácido lembrava o de uma lima. Aqui e ali, outros animais fizeram o miniautocarro parar. Uma cobra venenosa atravessando a estrada sem curvas. Dezenas de pequenos cangurus saltitando graciosamente. E emas. Uma oportunidade única de vislumbrar animais completamente selvagens no seu habitat natural. Mais para sul, em Mataranka, ao segundo dia de viagem, um banho nocturno nas homónimas águas termais retemperou energias e preparou os viajantes para o resto da jornada. Antes da chegada a Alice Springs, tempo ainda para uma paragem nas Devil Marbles, umas curiosas formações rochosas que pareciam brotar como cogumelos do solo plano e árido envolvente. E de permeio, uma paragem em Katherine, a povoação onde encontrei Glen, um aborígene que provou que nem todas as histórias de integração indígena na sociedade moderna têm um triste final. Entrei na sua loja, que era um misto de cibercafé e venda de artesanato aborígene. “Sou um dos poucos indígenas a ter um negócio próprio em todo o Northern Territory”, afirmou Glen. “E estou a pensar expandir o negócio e abrir mais um par de lojas”, afiançou. É certo que Glen é uma excepção. Mas, sendo difícil garantir a preservação de comunidades isentas de influências externas num mundo cada vez mais globalizado, é pelo menos um sinal de esperança. Vida longa para os aborígenes australianos!
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