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VOLTA AO MUNDO » 26. KHAO LAK, TAILÂNDIA

Reflexões sobre uma profissão: jornalista

Uma crónica diferente do habitual, escrita no rescaldo da minha experiência trabalhando como jornalista / repórter fotográfico em cenários de grande pressão emocional. Uma reflexão sobre uma profissão que muito admiro: a de jornalista.

Por Filipe Morato Gomes

Qual o itinerário da volta ao mundo?



Sempre me interroguei como conseguiriam os jornalistas trabalhar em cenários de guerra ou de catástrofes naturais. Como conseguiria um jornalista fazer qualquer pergunta a uma mãe que acabou de perder um filho, sem parecer um abutre sobrevoando uma carcaça? Como conseguiria um fotógrafo apontar a sua objectiva a um corpo deformado, fotografar um indivíduo ferido em vez de ajudá-lo, estar a um palmo de uma criança esfomeada e fotografá-la? O que sentem esses profissionais da comunicação quando, perante situações de grande pressão emocional, têm que fazer o seu trabalho independentemente do que se lhes for na alma, do sofrimento que se lhes for contagiado e, tão objectivamente quanto possível?

Um resort em Khao Lak, a norte de Phuket, Tailândia, depois do maremoto
Um resort em Khao Lak, a norte de Phuket, Tailândia, depois do maremoto

Já aqui escrevi que não sou jornalista nem fotógrafo profissional. Adoro ambas as actividades mas não ganho, até ver, a vida com elas. Acontece que, por via das circunstâncias, acabei por vestir a pele de um repórter fotográfico na ilha de Phuket e em Khao Lak, na Tailândia e, posteriormente, em Galle, no Sri Lanka, por altura do tsunami que devastou essas e muitas outras regiões do planeta. E é sobre essa experiência que agora discorro algumas palavras.


O poder de uma lente

Não é fácil trabalhar em circunstâncias daquelas. É um dado tão óbvio como verdadeiro. Mas, por incrível que possa parecer, a máquina fotográfica aparenta ter um poder fortíssimo sobre o profissional que a carrega. Olha-se pela objectiva e não se sente o sofrimento de quem perdeu tudo na vida, tenta-se captá-lo. Aponta-se a lente a um cadáver putrefacto e não se sente o seu cheiro, vê-se as suas cores. Olha-se através da máquina e não se vê uma criança esfomeada, antes procura-se o melhor ângulo, a melhor composição, o enquadramento perfeito. Baixa-se a lente e começa o sofrimento.

Lembro-me de descobrir um cadáver de aspecto totalmente abominável por entre os destroços de um resort na praia de Khao Lak. Olhei para a companheira de trabalho e ela acenou com a cabeça como que dizendo “fotografa, é importante”. O cheiro era nauseabundo, a visão do corpo aterradora. Dei meia volta, olhei para o outro lado sem valentia para o encarar. Respirei fundo, ganhei coragem. E foi então que tirei uma sequência de fotos, imperturbável, de vários ângulos, diferentes perspectivas, procurando o enquadramento perfeito para algo que poderia, de uma forma brutalmente cruel, mostrar o que aconteceu em Khao Lak. Sempre imperturbável, protegido pela lente da máquina fotográfica. Terminei a sequência e afastei-me do local até um ponto onde pudesse retirar a máscara da face e respirar um pouco de ar isento daquele cheiro medonho. Parei junto a dois homens que, próximos do mar, descansavam do trabalho de busca e resgate de vítimas. Assim que levantei a cabeça, desatei a chorar compulsivamente. O que tinha acabado de presenciar tinha-se finalmente transformado em emoções. Como se a lente tivesse o poder de, até então, as bloquear. Acendi um cigarro, acalmei durante o tempo que o mesmo foi sendo queimado, e prossegui o meu trabalho em idênticas circunstâncias.

Uma criança ajuda o seu pai a recolher tijolos intactos por entre os escombros da sua casa, Galle, Sri Lanka
Uma criança ajuda o seu pai a recolher tijolos intactos por entre os escombros da sua casa, Galle, Sri Lanka

Noutra ocasião, no Sri Lanka, uma família tentava recolher os tijolos aproveitáveis no meio dos escombros daquilo que outrora fora a sua casa. Alguns membros da família tinham sido mortos, outros continuavam dados como desaparecidos. Pediram-nos água, apenas água. E diziam-se sem roupas e esfomeados, mas água era o que precisavam. Apesar de tudo, trabalhavam afincadamente para reconstruir, tão cedo quanto possível, um tecto para dormir. Fascinado pela imagem de uma criança de tenra idade ajudando o seu pai naquela tarefa, fotografei sem parar. Imagens de força de vontade, imagens de alguma esperança no meio de tanto horror e destruição. Uma vez mais, fi-lo de forma imperturbável. Andei até ao carro e peguei na única garrafa de água que nos restava. Voltei para junto da família e ofereci-lhes a água. Nessa altura, já não consegui fotografar. Regressei ao carro e emudeci. E, novamente, desabei em prantos. O desespero alheio não é fácil de ignorar, assim que o homem toma o lugar do profissional.

Demorará algum tempo até que estas e muitas outras imagens se desvaneçam na minha memória. Vi e fotografei coisas demasiado perturbantes. Muito admiro todos aqueles profissionais que enfrentam estas realidades e nos fazem chegar relatos do que observam. De máquina fotográfica ou de caneta em punho. Escrever não é mais fácil do que fotografar. Jamais esquecerei, por exemplo, as perturbadoras crónicas que todos os dias chegavam de Timor-leste pela pena do jornalista Luciano Alvarez, naqueles dias de terror ocorridos há alguns anos atrás. Imagino o que terá sofrido para as escrever. Ao passar uma ideia para papel, tudo vem imediatamente à tona. Como no momento em que escrevo esta crónica. E, sendo assim, não há como não ter os olhos turvados pela comoção.


{ 18.Jan.2005 - 06:09. Texto inédito }

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Qual a vossa opinião?
• Não consigo decidir se publico ou não fotografias do que vi nestes cenários. Preciso da vossa ajuda, aqueles com quem tenho partilhado esta viagem, para tomar uma decisão.

Na minha sincera opinião, acredito que tenhas fotografias admiráveis, dignas de fotógrafo profisional (eu proprio sinto que as gostava de ver), mas não faltando ao respeito a todas as vítimas, a todos os que sofreram e ainda sofrem, julgo que já todos assistimos a demasiadas imagens impresionantes e ainda estamos todos tocados com o que se passou.
Não esquecendo o que se passou, dá uma loufada de ar fresco, ao blog mesmo, sendo dificil, a essência deste travelogue é dar a conhecer este infinito mundo, recanto a recanto, com fotografias maravilhosas como as que tens mostrado.
Penso que na altura exacta, a qualquer momento, numa outra situação, há de aparecer a oportunidade que expor a público esses teus trabalhos mais sensíveis.
É apenas uma opnião!

Comentário à viagem enviado por Pedro Lérias em 18.JAN.2005 - 10:28

Irmão,
Em tempo de tragédia, não ha nada melhor do que falar sobre o que aconteceu e sobre o que estamos a sentir. A partilha de emoções e acontecimentos ajuda, por vezes, a ultrapassar as dificuldades. Assim aconteceu connosco durante o sismo de 1998 ou a queda do avião da SATA em 1999. O mesmo é aconselhado por especialistas que estão a trabalhar com crianças, em terrenos que pisaste, tentando que elas partilhem o que viveram para ajudar a ultrapassar as depressões.

Quero dizer com isto que a decisao é tua, e que se decidires partilhar o que bem entenderes connosco, nós estamos preparados. Neste momento, penso que o essencial é ultrapassares as perturbações que vives, e se nós podermos ajudar tanto melhor. Honestamente, não tenho particular interesse em ver as fotografias da tragédia. Mas tenho... isso sim... interesse em, mesmo ao longe, ajudar da forma que puder... seja ela qual for!

Abraços muito fortes,
Telmo

Comentário à viagem enviado por Telmo em 18.JAN.2005 - 11:20

Muito sinceramente, acho que só deves publicar essas fotos se elas contarem histórias e não sejam apenas imagens de horror.
Por exemplo, as fotos da criança que ajuda o pai depois da tragédia ou alguém que encontra um seu familiar, ou até mesmo histórias tristes... mas sinto alguma relutância a ver cadáveres que nos mostram apenas a violência da tragédia e nada mais.
De qualquer forma, essas são também realidades que tu viste e não quero de maneira nenhuma censurar o teu site. A decisão final será sempre tua.

Um abraço.

Comentário à viagem enviado por Zé Carlos em 18.JAN.2005 - 12:27

Amigo Filipe,

O meu sincero e sentido abraço solidário!

Admiro a tua enorme coragem em fotografar tais cenários de tragédia, destruição e horror, pois, ao contrário de alguns fotógrafos profissionais, não foste previamente preparado para tal situação! (Se é que essa preparação é possível....)

Quanto à publicação das fotos no site, se isso te ajudar de alguma forma a mostrar ao mundo que quem conseguiu sobreviver precisa de ajuda e também ajudar-te a ultrapassar toda esta situação, emocionalmente difícil, força! Na parte que me toca, seja qual for a decisão que tomes, terás o meu incondicional apoio!

Grande abraço

Comentário à viagem enviado por Nelo Teixeira em 18.JAN.2005 - 13:43

Caro Filipe,

Imagino que, se estive no teu lugar e onde tu estás, a minha maior vontade seria partilhar com o mundo o que aconteceu, para que o mundo pudesse ver o que os teus olhos vêem e acredite.

Acho que a maior força da imagem é que não há como duvidar do seu conteúdo... As tuas palavras trouxeram-me imagens mentais, não tão concretas como as que viste, mas imagens indefinidas do horror e do aperto de assistir ao vivo a tal espéctáculo.

Sendo tu capaz de transmitir isto através de um texto, acho que as imagens “apenas” terão o efeito de também nos fazer explodir e chorar.

Independentemente da tua opção, transmitires as tuas ideias na net faz de nós mais humanos.

Comentário à viagem enviado por Patrícia Ferreira em 18.JAN.2005 - 14:03

A decisão é difícil, não tenho a menor dúvida. Se o sofrimento ou a morte visíveis numa foto tivesse o condão de fazer com que o homem pensasse mais no seu semelhante e chegasse à conclusão de que quase tudo, incluindo a fome, tem uma solução simples, dir-te-ia sem hesitar,... publica.
Se a força interior que uma foto pode demonstrar perante tamanha adversidade quebrasse o gelo da indiferença de tantos e tantos poderosos, dir-te-ia igualmente, publica.
No entanto, e perante o pouco conhecimento que tenho da natureza humana, não sei que te diga. Por vezes chocar e abanar consciências é proveitoso para os que sofrem. Será o caso? Sinceramente não sei.

Comentário à viagem enviado por Morato em 18.JAN.2005 - 21:37

Viva caro Filipe,

Tenho acompanhado desde há algumas semanas o teu site, e agora, neste momento, após ter terminado de ler a tua crónica, sinto que necessito de te prestar algum companheirismo neste teu pedido de auxílio em relação à publicação ou não das fotos do Sri Lanka e da Tailândia. Fica então a minha opinião... partilho um pouco do sentimento que agora é tempo de esperança, de reconstrução, de auxílio a quem sobreviveu, e neste contexto importa agora visualizar, penso eu, fotos que transpareçam esses mesmos sentimentos, como por exemplo a do menino que ajuda o pai a recolher alguns tijolos. Penso que é por aí que poderias ir, no entanto, todas essas imagens de horror que registaste não poderão ser esquecidas e, fica uma sugestão, que claro não passa disso mesmo, uma sugestão, guarda-as para quando, um dia, fizeres a retrospectiva da tua viagem...

Um grande abraço de solidariedade, tenho gostado de te conhecer.
Boa sorte e boa continuação de viagem aí em Myanmar.

Comentário à viagem enviado por Carlos Palmeiro em 19.JAN.2005 - 09:03

Olá Filipe!
Como tantos outros, tenho acompanhado esta tua odisseia, mas tenho-me abstido de fazer comentários... Por vezes apeteceu-me, mas foi passando!
Quando li esta tua “reflexão”, achei que era a altura... Acho que o facto de nos mostrares as fotografias do horror que presenciaste não nos vai, a nós e aos outros, trazer grande novidade, nem tão pouco fazer reflectir ainda mais sobre a coisa... Fomos bombardeados com as imagens do terror, chamemos-lhe assim, que foi a chegada da onda gigante e a destruição por ela provocada... Mas há o outro lado, que acabou por ir desvanecendo... A esperança e a força de vontade das pessoas que ficaram sem nada! E este pós tragédia acho que nos passou um pouco ao lado... Quando vi a tua foto do menino que procurava tijolos fiquei deveras impressionada e emocionada... E acho que são essas imagens que nós precisamos... Que nos mostrem que há muito que podemos fazer para ajudar essas pessoas... Saber que vontade não lhes falta, apenas os meios! Acho que isso sim pode ser muito importante...
E assim me despeço!
Com um abraço e muita força...
Boa viagem!

Comentário à viagem enviado por Carla em 19.JAN.2005 - 11:16

Olá Grande Filipe!
Espero que o meu silêncio não te tenha levado a pensar que a tua distância me passa despercebida.
Sempre que falo com a Luísa, a minha primeira questão é sempre “como está o Filipe?”...
Quanto à questão que puseste, o que eu acho é que (apesar de saber que vou acabar por vê-las, nem que seja fora do site), não sei se deves contrastar as coisas magníficas que nos tens mostrado com outras tão horrendas...

Quero também dar-te os meus parabéns por todo o trabalho que tens feito e pelo reconhecimento que tens tido (já não ouvia a tua voz há uns meses! - obrigado TSF).

Um abraço, Rp

Comentário à viagem enviado por Rui Pinto em 19.JAN.2005 - 15:40

É pertinente a questão e parece que toda a gente se sente inclinada para a não publicação das imagens.
Naturalmente, essa é uma decisão tua, mas o que eu acho é que queremos todos ver imagens de reconstrução e esperança para acreditar que é o que está a acontecer.
É verdade que somos constantemente bombardeados com imagens, é verdade que temos obrigação de nos questionar onde é que termina a obrigação de publicar o acontecimento e começa o sensacionalismo, mas uma tragédia é uma tragédia e não há fotografias bonitas que alterem isso.

Comentário à viagem enviado por Calita em 19.JAN.2005 - 17:16

Viva Filipe!

Face à saturação e banalização das imagens da tragédia (a repetição da cobertura destes acontecimentos na televisão transforma-as em espectáculo) e até por uma questão de “pudor”, parece-me dispensável a publicação de fotos centradas na destruição humana provocada pela catástrofe, mas talvez fizesse sentido partilhar fotos do esforço de reconstrução, do regresso à vida, de histórias admiráveis de como as pessoas procuram renascer do nada, de como reagem à devastação total ...
Parece-me também que se deve ponderar se as fotos trazem ou não um acréscimo de informação ou significado: será que ficamos a saber algo que ainda não sabiamos da tragédia?

Um grande abraço e muito obrigado por tudo aquilo partilhado até agora.

Comentário à viagem enviado por Paulo Gonçalves em 19.JAN.2005 - 17:35

Olá a todos,

Há uma atitude que recordo a propósito de fotografias de eventos chocantes;Passo a contar.

Era o ano de 1999 ou 2000 e em Timor, terra de língua portuguesa, a situação era má;

Numa edição do jornal Público (cuja editoria fotográfica muito prezo e me foi dada a conhecer em 2001), surgiu na página de abertura uma fotografia muito elucidativa de um cadáver. De alguém que se assumia ser timorense. Uma vítima.

Notei que, dada a naureza dos eventos em Timor, era de interesse para a dignidade humana, publicar imagens de “choque porque, doutra forma, tudo permanece igual.

No entanto, essa fotografia utilizada na capa do jornal foi transformada numa imagem a preto e branco. Ou seja, a cor do sangue desapareceu.

Isto parece-me importante, parece-me fundamental e revela uma grande consciência do papel dos media e dos jornais em particular...

Concluindo, haja respeito e consciência das intenções por detrás da publicação das imagens.

Não caiámos no disparate que a famosa TVI agora segue: a propósito de uma crise numa fábrica têxtil em Guimarães, falava-se que as vidas das pessoas estavam a “ir por água abaixo”... alguém sabe como foram essas palavras ilustradas???

Exacto, com imagens das cheias na América que estavam literalmente a levar as casas por água abaixo.... é um abuso. Um espectáculo do quão baixo o jornalismo pode descer.

Ds.

Comentário à viagem enviado por Dario Silva em 19.JAN.2005 - 19:51

Olá Filipe!

Consultamos diversas vezes o teu site mas nunca te escrevemos... Temos a plena consciência que viveste algo dramático que te marcará para sempre, pois as fotos e imagens com as quais somos confrontados todos os dias falam por si, por isso achamos que não as deves publicar. No entanto, independentemente da tua decisão, estamos contigo. Obrigado por nos levares nesta maravilhosa viagem, pois tens mostrado sítios magníficos e estamos a adorar.

Muita Força!!!
Beijinhos da Joana P. e Sandra P.

Comentário à viagem enviado por Joana e Sandra em 19.JAN.2005 - 23:37

Uma imagem vale mais que mil palavras... mas depois de ler a tua crónica, não são precisas imagens para mostrar o sofrimento desses povos, não são precisas imagens para nos comovermos, não são precisas imagens para ficarmos reduzidos à nossa insignificante condição humana... Certamente que as tuas fotos representam muito mais do que possamos imaginar... mas agora é hora de ajudar e de acreditar... por isso penso que não deves publicar as fotos desta tragédia (pelo menos para já), mas sim continuar a partilhar connosco as imagens de paz e esperança desse mundo que vais descobrindo e que nos parece tão distante... Contudo, como já referiu o Zé, a decisão final é tua.

Foi bom voltar a ver-te (já vi as fotos da Luísa) e ouvir-te. Um beijo, SB

Comentário à viagem enviado por Sofia Brandão em 19.JAN.2005 - 23:51

Caro Gralha...

Continuas a encantar cibernautas de todo o mundo... é incrível o estilo cativante da tua narrativa, a força das tuas imagens, a magnifica viagem que a todos estás a proporcionar...
Como diria Mahatma Gandhi: “Sempre que admiro a maravilha de um pôr-do-sol ou a beleza da lua, a minha alma dilata-se de veneração pelo Criador”. De facto, as imagens que publicas no site, retratam lugares maravilhosos, cheios de vida, de vitalidade, imensos paraísos... As tuas fotografias mostram-nos, de vários ângulos, a beleza imensa que o mundo tem para descobrir! De certa forma, a morte, a destruição e o sofrimento causado pelo tsunami, que a tua câmara captou, irá “chocar” com todo o padrão que nos tens mostrado até aqui.

Contudo, o objectivo deste travelogue é relatar e retratar o teu dia-a-dia, aquilo que a tua viagem te vai desvendando diariamente, todas as sensações e emoções que te percorrem. É o partilhar tudo isso, tudo o que te vai na alma, com os teus “fiéis seguidores”, com a tua família, com os teus amigos.

Penso que, ao publicares as fotos, estarás a partilhar com todos nós, aquilo que está a ser a tua viagem. Irá contrastar com tudo o que até aqui nos tens mostrado... mas é o que mais recentemente a tua viagem te ofereceu.

Acho que a ideia de publicar essas imagens não é a de mostrar o quão bom fotógrafo és... nem de publicitar o teu trabalho... é a de partilhar connosco os bons e maus momentos que a tua viagem proporciona. É o não nos mostrares aquilo que queremos ver, mas o que a tua viagem te mostra.

Este é o meu ponto de vista...

Todavia, a decisão de publicar as fotografias é única e exclusivamente tua... É uma tomada de posição difícil, e por vezes nem sempre o que parece ter mais lógica é o caminho certo a seguir... Mas é mesmo assim a vida... E tu irás certamente tomar a decisão correcta, pois só tu dispões de todos os argumentos para publicar ou não as fotos.

Um grande abraço, e continuação de boa viagem... Força!!!

Pessoal

Comentário à viagem enviado por Aníbal Figueira em 20.JAN.2005 - 14:58

Felipão,

Estou muito orgulhosa de você e da sua “fofolete”. Estas experiências são duras mas nos fazem crescer (a frase é batida, mas é isso mesmo que acontece).

Um beijo enorme.

Comentário à viagem enviado por Deda em 20.JAN.2005 - 17:26

Nenhum de nós pode, acredito, sequer imaginar o que viste e registaste. Por cá, temos recebido imagens que contrastam entre o horrível e o belo. A última que vi foi muito feliz (a da criança indonésia que foi encontrada ao fim de muitos dias e que vestia o equipamento da selecção nacional, a nossa). Nunca esse equipamento teve, algum dia, tanto significado e tanta dignidade em quem o usou. Vi essas imagens de olhos turvos, assim como te escrevo esta mensagem da mesma maneira, pela intensidade do que descreves. A morte, ao contrário do que dizem, tem rosto. Tu viste-os e fotografaste-os. Deves ou não publicar? Pergunta-te duas coisas primeiro: será que essas imagens nos vão dar algo que já não saibamos? Será que, mesmo nestas alturas, não devemos guardar cuidadosamente a imagem de quem já a guardou? Depois, então, decide. Tu, melhor que ninguém o saberás fazer. Deste lado, todos estamos contigo, mas com a certeza de que o que viste andará sempre contigo para onde fores. Força!

Comentário à viagem enviado por Gabriela em 20.JAN.2005 - 17:43

Olá Filipe!
Apesar de acompanhar regularmente a tua viagem, é a primeira vez que deixo um comentário. Queria dizer-te, antes de mais, que acho de uma enorme humanidade e maturidade o facto de te interrogares sobre esta questão e assumires as tuas dúvidas e inquietações. E a verdade é que, embora, como dizes, não sejas um repórter fotográfico, acabaste por te ver com essa missão, num dos piores cenários possíveis, e tiveste de te confrontar com as angústias, os medos e as hesitações que são vividas pelos “verdadeiros jornalistas... É, de facto, um tratamento de choque... E, tal como tu, tenho um enorme respeito pelo trabalho dos jornalistas.

Mas em relação à questão que colocas, penso que não pode haver uma receita para todas as situações. Eu, particularmente, tenho uma opinião um pouco “polémica” sobre as “fotos de sangue”. Em cenário de guerra, defendo que se mostre aquilo que de facto acontece, sob pena de criarmos gerações que acham que uma guerra é como um joguinho no computador... Neste caso, de facto, o confronto do público com as cenas de horror que presenciaste pode levar a um inquietar das consciências e a uma maior ajuda humanitária, mas penso que é preciso haver limites.

O que acho neste caso concreto é que o teu bom senso há-de ajudar-te a escolher as fotos que poderão ser publicadas sem invadir a privacidade de quem foi fotografado (mesmo que esteja morto), respeitando a dor das famílias. Umas, irás publicá-las, aqui ou noutro local, e as outras hás-de guardá-las para ti e para quem te seja mais íntimo. A verdade é que, caso a tragédia tivesse sido em Portugal, eu não gostaria de, um dia, inadvertidamente, aceder a um site e ver uma foto onde consigo identificar a minha irmã morta... Mas tenho a certeza de que vais saber escolher.

E é bom que continues a viajar por horizontes mais luminosos, por entre gentes felizes e vidas singulares. Este foi um momento que te vai mudar enquanto pessoa, mas tem de ser um entre muitos outros, igualmente construtivos, mas muito mais coloridos. A dor, a perda o sofrimento fazem parte da vida, mas adquirem sentido positivo quando nos tornam pessoas melhores e mais atentas às dores e necessidades dos outros. Mas felizes e optimistas! Com um optimismo consciente.
Um abraço! Sandra Marinho

Comentário à viagem enviado por Sandra Marinho em 21.JAN.2005 - 15:11

Caros companheiros de viagem,

Depois de ler as vossas opiniões e de ter reflectido um pouco mais sobre o assunto, tomei a decisão de não publicar neste espaço as fotografias tiradas em Phuket, Khao Lak e no Sri Lanka. De facto, tal como alguns escreveram, não iriam trazer nada de novo ao que todos já viram por outros meios. Chega de tragédia e desgraça, que o tempo agora é de esperança. Grande abraço.

Comentário à viagem enviado por Filipe Morato Gomes em 23.JAN.2005 - 10:56


Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.

Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.


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