VOLTA AO MUNDO » 27. BAN NAI SOI, TAILÂNDIA
Zoológico humano ou uma forma de sobrevivência?
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Visito Ban Nai Soi, uma aldeia no norte da Tailândia habitada pela minoria étnica Karen de “pescoço comprido” com sentimentos ambivalentes. Estaria prestes a entrar num deplorável zoológico humano ou, simplesmente, a ver a forma de sobrevivência encontrada pela tribo? Um assunto complexo para o qual, tal como noutros lugares do planeta, é difícil encontrar resposta. Nem tudo é branco ou preto. E a dúvida subsiste... |
Por Filipe Morato Gomes |
Qual o itinerário da volta ao mundo? |
Estávamos a uma semana do violento tsunami assolar a costa de vários países e comover o planeta. Nessa altura, estando no norte da Tailândia, tinha uma enorme curiosidade em conhecer algo tão especial quanto controverso. Sentimentos ambivalentes assaltavam-me na hora de decidir visitar uma aldeia habitada pelas Karen de pescoço comprido. Não conseguia antecipar o que iria sentir quando estivesse frente a frente com uma dessas mulheres. Zoológico humano ou, simplesmente, uma forma de sobrevivência?
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| Tecendo uma manta na aldeia de Ban Nai Soi |
As Karen de pescoço comprido - nome que advém da espiral de cobre que as mulheres usam em volta do pescoço e que o faz parecer incrivelmente longo - são uma minoria étnica proveniente da vizinha Myanmar. Fugiram da sua terra natal na tentativa de escapar à brutalidade de um regime militar odioso. E a Tailândia, consciente das potencialidades turísticas da excentricidade desta tribo que fascina fotógrafos e turistas em geral, acolheu-as de braços abertos. Acontece que a decisão não tem como base nenhuma premissa filantrópica. Muito pelo contrário. E é aqui que as dúvidas atormentam qualquer viajante consciente.
O governo da Tailândia não atribui aos Karen a cidadania tailandesa. As famílias não são donas do solo que pisam, não têm direitos rigorosamente nenhuns. Vivem como refugiados e não têm, inclusive, liberdade para sair da sua aldeia. São prisioneiros ao ar livre. Mas dizem-se felizes e agradecidos. Tentando não fazer julgamentos precipitados, aluguei uma moto e segui para a pequena aldeia de Ban Nai Soi, província de Mae Hong Son, para formar uma opinião.
No caminho, barreiras militares controlavam quem passava e anotavam as matrículas dos veículos. A entrada na povoação era paga - 250 Baht, o equivalente a cinco euros - e, explicavam num folheto, o dinheiro é usado “para a sobrevivência da população, para apoiar a sua cultura”. Desconfiado, percorri a passo lento os quelhos de terra batida de Ban Nai Soi. Ali viviam 38 famílias, num total de 350 pessoas, o que constitui o maior agrupamento da etnia em solo tailandês. O ambiente era o de uma feira em dia de pouco movimento. Dezenas de rudimentares barracas de venda de artesanato - mantas, lenços ou as próprias expirais de cobre - e muitas outras bugigangas estavam montadas na rua principal da aldeia. Mulheres Karen, impecavelmente vestidas com trajes tradicionais, abordavam os poucos turistas num inglês ou espanhol imaculados, na tentativa de os atrair para a sua banca de venda.
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| A simpatia contagiante de Major (Maria José), 19 anos, etnia Karen |
Encontrei a jovem Major - ou Maria José, como depois se apresentou - numa dessas barracas. Cativado pela sua capacidade de comunicação e pelo seu discurso invulgarmente bem articulado, fui ficando na sua companhia. E foi então que a conversa rolou livremente. “A minha mãe pôs-me o colar aos cinco anos de idade, mas agora uso-o por opção”, respondeu quando inquirida sobre o assunto. “Pesa cinco quilos, mas já não o vou aumentar mais”, continuou. Contou que fala fluentemente inglês, francês, espanhol, basco e catalão, tudo aprendido “com os turistas”. E, sabendo-me português, ensaiou umas frases em galego, do qual afirmava falar apenas “um pouquinho”. Não havia então qualquer desconforto entre ambos, sentia que podia inquirir Maria José sobre temas mais delicados.
“Maria José, não pretendes voltar ao teu país?”, arrisquei. “Sim, no futuro gostava de voltar a Myanmar, mas não com este regime... só quando houver democracia”, respondeu muito segura de si. “Mas gostas de estar aqui?”, insisti, expectante. “Sabes, há coisas que gosto e outras que não. Gosto muito da Tailândia, aqui temos melhores condições de vida, vivemos do turismo. Mas não suporto a falta de liberdade de movimentos, não podemos sair da aldeia”, responde sem problemas. Referiu ainda que acalenta a esperança de um dia ter a nacionalidade tailandesa e assim ver aumentados os seus direitos. Um sonho tão simples quanto improvável de ser concretizado, pelo menos no curto prazo.
Deixei a aldeia com os mesmos sentimentos ambivalentes que me atormentavam à chegada. Por um lado, compreendo agora muito melhor todos aqueles que, em conversas informais, argumentaram que visitar uma aldeia Karen de pescoço comprido é uma forma de ajudar a tribo a subsistir. Embora isso possa revelar alguma conivência com os métodos e objectivos das autoridades tailandesas, não deixa de ser uma indesmentível verdade. Mas, por outro lado, não consigo ensurdecer o martelar das últimas palavras de Maria José nos meus ouvidos: “adoraria poder sair daqui; o mundo deve ser tão bonito!” A dúvida subsiste.
{ 23.Jan.2005 - 10:12. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }
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Nota: por uma questão de actualidade relacionada com o tsunami que entretanto assolou esta região do globo, a publicação desta e da seguinte crónica foi retardada. As crónicas relativas à catástrofe viram já a luz do dia mas recuo agora no tempo até antes desse momento. Depois disso, a publicação retomará a ordem cronológica habitual.
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Qual a vossa opinião?
• Outros dilemas deste género com que se tenham deparado no decorrer das vossas viagens?
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Querido Filipe: queria comentar o seu post anterior, cheguei atrasada e vai aqui mesmo: eu passei, com muito mais brandura, por uma situação parecida com a sua. Faz uns três meses, quando tive de decidir se publicaria as fotos de um asilo de velhos em Cuba. Além do óbvio choque, havia toda essa questão ética. Só que eram fotos publicadas pela primeira vez em um jornal sueco, uma coisa que todos desconheciam. Não fosse isso, eu não as teria publicado. Por isso apoio a sua decisão de não mostrá-las. Quanto a tribo Karen, diferente é na Índia a situação dos refugiados tibetanos. Eles estão por toda a parte e me lembro de ter visto muitos em Old Delhi, num lugar chamado Chandni Chowk, que quer dizer: Praça do Luar e ganhou o epíteto de “Praça da Prata” por causa dos artesãos tibetanos. São tão alegres e simpáticos como a foto que vejo da Major. Em um dia, pedi a um deles que me guardasse uma pulseira que eu compraria no dia seguinte. Quando voltei lá, ele havia vendido a outra ocidental, achando que era eu. E se justificou: “vocês têm todos a mesma cara”...?!?... um beijo.
Comentário à viagem enviado por Mécia em 24.JAN.2005 - 03:11
Caro Gralha,
Como habitualmente, li a tua última crónica com o entusiasmo de quem está aí, a viajar contigo... completamente imbuído na tua narrativa!!! imagino a dificuldade de comunicação que terás ao contactar com o mundo que neste momento te rodeia. Como consegues estabelecer diálogo com as minorias étnicas? A Major, por exemplo, falava inglês e espanhol fluentemente... É comum encontrares muita gente, nomeadamente nas minorias étnicas, que fale inglês??
Grande abraço...
Comentário à viagem enviado por Aníbal Figueira em 25.JAN.2005 - 14:13
Nunca viajei, por opção ponderada, até um local onde a subsistência da população estivesse exclusivamente dependente do turismo. Tão pouco gosto de ir a jardins zoológicos e ser espectadora de uma artificialidade forçada à conta da liberdade dos animais.
Uma opção paradoxal do nosso viajar é tentar passar o menos possível por turistas, camuflando-nos entre os nacionais recorrendo a vários truques. Mesmo assim, há que considerar que até num país ou região pouco turística nos deparamos sempre com parte das suas gentes que vive ou até sobrevive do turismo. Parece-me justo ajudar estas gentes que vendem os seus produtos na praia mais idílica, ou que oferecem serviços na mais alta das montanhas. No fundo sinto-o como uma troca comercial justa: a troca de um nascer ou pôr-do-sol na melhor das praias ao preço de um colar de pequeninos búzios; ou a troca da melhor subida à montanha por um refresco gasoso de bagas (talvez) da zona!
Não me parece possível comparar directamente estas situações pontuais com uma experiência na aldeia de Ban Nai Soi, mas a justiça da troca parece-me equiparável. Parece-me bem mais aceitável a atitude do turista - que viaja e contribui numa troca directa - do que a do governo Tailandês, que por certo ganhará a sua parte neste negócio.
Por outro lado, há uma outra experiência relacionada com o viajar e que me parece bem mais duvidosa no que diz respeito à liberdade das gentes locais e à nossa postura como turistas. Falo dos grandes resorts paradisíacos vedados e estanques por fina rede de uma realidade que lhe é oposta. Do lado de fora a liberdade não existe, não por ser proibida mas antes por ser impossível.
Boa aventura!
Comentário à viagem enviado por Joana C. em 25.JAN.2005 - 16:31
Não sei que te diga do teu dilema... acho que não tem uma resposta, como tu concluis.
Ao ver as fotos fiquei curioso:
- Qual a razão para colocarem as espirais?
- Pelo que vi também usam espirais no joelho. Em mais algum local do corpo?
Abração!
Comentário à viagem enviado por Ricardo Ferreira (Bidros) em 25.JAN.2005 - 17:26
Oi Filipe
Andei afastado destas “bandas” por algum tempo (soube porém que tudo estava bem contigo logo nos dias seguintes porque estive com a tua família na Guarda...). Não queria deixar de te mandar um grande abraço e muita força.
Quanto à tua pergunta, conto-te uma estória que me parece semelhante. Estava na Nova Zelândia com o teu irmão, e meti na cabeça que tinha que “encontrar” a cultura Maori. No meio dessa “demanda” fomos a Roturua onde se situava a escola de “woodcraft” Maori. Desloquei-me entuasiasmado à escola na esperança de me embrenhar por entre pessoas e madeira e deparei com um balcão onde se podiam ver, num piso inferior, alguns Maoris a esculpir (lembras-te de ir ver os crocodilos, ou os ursos, ou os leões no jardim zoológico?) . De repente entrou um grupo de 30 japoneses de máquinas em punho. Fiquei mal disposto, devo confessar-te. Não me lembrei de uma única coisa boa que pudesse brotar dali (embora concorde que ela possa existir). Abraço forte.
Comentário à viagem enviado por Pietz em 27.JAN.2005 - 12:08
Olá Lipinho
Apesar de já não te escrever há bastante tempo, quero que saibas que te acompanho todas as semanas. Foi com bastante alegria que te ouvi um dia destes na rádio. Estava a conduzir e de repente ouvi uma voz familiar de um amigo que está distante mas que nos está a proporcionar relatos e imagens de um mundo que de tão longe que está, às vezes nos parece irreal.
Apreciei deveras a tua decisão de não publicares as fotos dos horrores provocados pelo tsunami, já chegam as imagens horriveis que nos entram todos os dias em casa pela televisão, e que são transmitidas, se calhar, sem o cuidado e o zelo com que tu o fizeste. Mais uma vez demonstraste a grande pessoa que és, e não entraste em “sensacionalismos baratos” que muitas vezes se vêm. Parabéns.
Quando chegares, de certeza que as vais mostrar a quem quiseres, e a quem as quiser ver.
Continua com a tua viagem que nós acompanhamos-te de longe “roidinhos” de inveja.
Um grande abraço, deste teu amigo Marquito
Comentário à viagem enviado por Marco Teixeira em 27.JAN.2005 - 15:22
A capacidade de comunicação numa língua estrangeira das minorias étnicas é proporcional à intensidade do contacto que mantêm com turistas. Até à data, encontrei algumas minorias que não falavam sequer a língua do próprio país, mas sim um dialecto próprio da tribo. Outras percebiam um inglês muito básico. As Karen de “pescoço comprido” são um gritante desvio ao padrão de comportamento, dado o contacto diário com grupos de turistas vindos de todo o mundo.
Grande abraço.
Comentário à viagem enviado por Filipe Morato Gomes em 20.FEV.2005 - 12:57
Pois... destes zoológicos existem muitos na China, onde colocam pessoas a viver em parques para fazerem vida típica das suas aldeias...é deprimente... Também existem na Europa, vi um parque idêntico na Roménia, com as casitas típicas e as pessoas a viverem lá... isto só existe em países pobres onde as pessoas por necessidade se sujeitam a estas experiências...
Comentário à viagem enviado por Tuga em 22.ABR.2005 - 08:44
Oi, só tenho uma dúvida: o que cresce é o pescoço ou é o tronco que diminui? Estranho né, mas valeu. Abraços
Comentário à viagem enviado por Márcio em 21.FEV.2006 - 21:15
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Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.
Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.
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