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Viagens: Lago Baikal, Sibéria, Rússia
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VOLTA AO MUNDO » 04. ILHA DE OLKHON, LAGO BAIKAL, SIBÉRIA, RÚSSIA

Lago Baikal, tesouro siberiano

Encontro em Olkhon, pequena ilha do Lago Baikal, na Rússia, a primeira grande paixão desta viagem à volta do mundo. Uma daquelas histórias de amor à primeira vista, em território siberiano.

Por Filipe Morato Gomes

Qual o itinerário da volta ao mundo?



A luz que me alumia brota de uma pequena vela pousada neste tampo de madeira velho e tosco, a água com que me lavo encontra-se armazenada em barris lembrando os de petróleo, a casa de banho que utilizo é o eufemismo de um buraco rectangular num chão de alinhadas tábuas de um pestilento cubículo da mesma madeira, não há supérfluas comodidades nem pequenos luxos como um chuveiro, uma ventoinha ou iluminação nas ruas e, no entanto, posso sem hesitações afirmar que este lugar é a primeira grande paixão desta viagem.

Vista da pequena baía próxima de Khuzhir, Ilha de Olkhon, Lago Baikal, Rússia
Vista da pequena baía próxima de Khuzhir, principal povoação da Ilha de Olkhon, Lago Baikal

Sinto-me bem, muito bem aqui. Encontro-me pois em Khuzhir, povoação principal da ilha de Olkhon, este pedaço de terra banhado pelas águas do lago classificado Património Mundial pela UNESCO de seu nome Baikal.

Vou observando embevecido o lago que nos rodeia, as planícies, as pequenas florestas, a paisagem em mutação, vou reparando nos pequenos parques de campismo selvagem onde os russos saboreiam as férias de Verão, tomo primeiro contacto com o xamanismo - essa vivência religiosa baseada na crença dos espíritos, no culto da natureza e que utiliza práticas como o transe ou o êxtase - ao me deparar pelo caminho com lugares de alguma forma sagrados, pedalo e pedalo como já não me recordava até as forças suplicarem por um polegar pedindo - com sucesso - boleia de volta a Khuzhir onde um tardio pôr-do-sol por detrás das escarpas montanhosas haveria de confirmar quão bem se está nesta terra simples que mais não tem para oferecer do que essa natural simplicidade. Ilha de Olkhon, um lugar definitivamente para reter na memória.

De permeio, passei ainda por Listvyanka, povoação localizada na parte mais a sul do lago, muito próxima de Irkutsk e, por isso mesmo, muito concorrida durante o dia. Fenómeno curioso acontece pelo fim da tarde quando se evaporam os turistas e a povoação retoma a pacatez do Inverno e, aí sim, numa acolhedora casa familiar, é possível retemperar energias deleitando-se sem pressas com uma banya - nome dado à sauna russa -, naquilo que se revelaria uma magnífica experiência de integração no meio e também uma muito útil actividade num lugar onde, tal como em Olkhon, os banhos de água quente e corrente são uma miragem.

Davis, companheiro de pedaladas na Ilha de Olkhon
Davis, companheiro de pedaladas na Ilha de Olkhon

Parto desta região profundamente deliciado embora com uma sensação de alguma insatisfação. Porque adorei, porque me identifiquei com estes espaços naturais, porque me senti incrivelmente bem, apetece ficar aqui prolongadamente, circunscrever o lago na sua totalidade e conhecê-lo de lés-a-lés, sem pressas.

Mas acabo por decidir prosseguir para sul, dias depois, sem tomar contacto com partes importantes do enorme lago, ponto cardeal onde seguramente outras e diferentes paisagens e experiências me seduzirão com pelo menos igual intensidade.


{ 29.Ago.2004 - 04:24. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }

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Qual a vossa opinião?
• Paixão instantânea por um lugar. Já vos aconteceu?

Paixão instantânea por um lugar... poderia falar de alguns... o mais recente foi achar (um achado) a Estação ferroviária de Serpa-Brinches no fundo de um ligeiro declive plantado com imensos girassóis. Tudo regado com a luz quentíssima de um final de dia alentejano...

À volta, nada mais... só uma escolinha primária. Quem por lá passou??

Comentário à viagem enviado por Dario Silva em 01.SET.2004 - 01:42

O Vale das Viúvas no Gerês....
Um imenso vale sem se ver nada nem ninguém, visto de Carris, onde fica o Altar de Cabrões - o ponto mais alto da Serra...

Faz-nos sentir a grandeza e a beleza da natureza e, ao mesmo tempo, o nada que nós somos!

Comentário à viagem enviado por Daniel (Cristo) em 13.SET.2004 - 02:31

Hmmm, o rio Sil, entre Lugo e Ourense, na Galiza, Espanha!

Sentado numa pedra, a observar os muitos metros de altura a que estou, e o rio, la no fundo, pequeninho. À direita, uma barragem que parece não ter muita utilizaçao, imponente. Na outra margem, as videiras pela encosta abaixo, do tão apreciado Ribeiro. O vento, e mais nenhum ruído...

Boa viagem Gralha

Comentário à viagem enviado por Kosta em 16.SET.2004 - 12:11

Nunca visitei este lago mítico, mas tenho uma imagem mental dele construída a partir dos livros. Queria dar-te uma prenda, mas como estás muito longe, vou fazê-lo através de palavras.

“A 10 de Outubro de 1864, Hervé Joncour partiu para a sua quarta viagem ao Japão. Passou a fronteira francesa perto de Metz, atravessou o Wurttemberg e a Baviera, entrou na Áustria, chegou de comboio a Viena e a Budapeste para depois seguir até Kiev. Percorreu a cavalo dois mil quilómetros de estepe russa, transpôs os Urais, entrou na Sibéria, viajou durante quarenta dias até chegar ao lago Baical, que os nativos chamavam: o santo. Desceu o curso do rio Amur, costeando a fronteira chinesa até ao oceano e, uma vez chegado ao oceano, parou no porto de Sabirk durante oito dias, até que um navio de contrabandistas holandeses o levou para o cabo de Teraya, na costa oeste do Japão. A cavalo, percorrendo estradas secundárias, atravessou as provínciais de Ishikawa, Toyama, Niigata e entrou na província de Fukushima. Ao chegar a Shirakawa, encontrou a cidade meio destruída e uma guarnição de tropas governativas acampada entre os escombros. Contornou a cidade pelo lado leste e esperou em vão durante cinco dias pelo emissário de Hara Kei. Na madrugada do sexto dia partiu para as colinas, em direcção a norte. Tinha poucos mapas, aproximativos, e o que lhe restava das suas recordações. Vagueou dias a fio, até reconhecer primeiro um rio, depois um bosque, depois uma estrada. No fim da estrada encontrou a aldeia de Hara Kei: completamente queimada: casas, árvores, tudo.

Não restava nada.
Não restava vivalma.

Hervé Joncour ficou imóvel, a olha para aquele enorme braseiro apagado. Tinha atrás de si uma estrada de oito mil quilómetros. E à sua frente o nada. De repente viu o que julgava invisível.

O fim do mundo.”

Alessandro Baricco, “Seda”(Difel, 1999)

Comentário à viagem enviado por Andréia Azevedo Soares em 21.SET.2004 - 16:08

Olá. Adoramos conhecer este site, por intermédio dele pudemos realizar um óptimo trabalho para a faculdade de turismo. Gostariamos de dizer: MUITO obrigado, de coração. Esta crónica é ótima também.

Comentário à viagem enviado por Elson, Edson e Odamir em 26.ABR.2005 - 21:17


Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.

Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.


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