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VOLTA AO MUNDO » 54. LAGO TITICACA, BOLÍVIA E PERUCenas da vida do Lago Titicaca
Os Incas acreditavam que o nascimento do Pai Sol tivera lugar numa ilha a que chamaram, sem surpresa, ilha do Sol. Fica situada na parte boliviana do Lago Titicaca, ao largo da pequena povoação de Copacabana. Foi para lá que me dirigi, directamente de Potosí, antes que o anunciado regresso dos bloqueios voltasse a prejudicar a mobilidade nas estradas da Bolívia.
Encontrei uma Copacabana simples mas agradável. Tranquila. A Catedral Nossa Senhora da Candelária, hoje padroeira da Bolívia, captava as atenções enquanto repousava na praça central. Nos arrabaldes, impondo-se sobre toda a paisagem, avistava-se o Cerro Calvário. Era um monte situado a norte do centro urbano e que se elevava até uns veneráveis 4000 metros de altitude. Um local de peregrinação para os bolivianos. Curioso, decidi indagar sobre os motivos - para além dos relacionados com a fé - que levam tanta gente a sujeitar-se ao sofrimento daquela subida. E que sofrimento! A cada meia dúzia de passos, uma pausa para descansar. A cada inalação de ar parco em oxigénio, menos vontade de continuar. Mas, uma vez lá no alto, o lugar ao reconhecimento de que o esforço valeu a pena. Passado o último dos degraus, chegava-se a uma espécie de miradouro sobre a povoação, com vistas deslumbrantes sobre o lago e a baía em que Copacabana se encontra instalada. Sentados numa grande pedra no limiar do precipício, com Copacabana e o lago fazendo as vezes de velas e música, um par de amantes namorava. Um belo momento de ternura após a árdua subida. No dia seguinte, decidi ir ao encontro da ilha do Sol. Uma curta viagem de barco foi o suficiente para pisar terra firme e iniciar uma caminhada por toda a extensão da ilha, a maior do Titicaca. Foram quatro penosas horas subindo e descendo, calcorreando cenários agrestes mas belos, numa paz absoluta, com vistas de cortar a respiração. Prossegui para Taquille, já em território peruano, onde cheguei numa segunda-feira. Não podia ter sido mais afortunado. Era o dia em que toda a comunidade se reunia para discutir problemas e tomar decisões. Por esse motivo, os habitantes trajavam a preceito. Todos envergavam roupas tradicionais, bonitas. Os homens, de branco e preto. As mulheres, mais coloridas. Ambos teciam gorros e outras peças de lã, incessantemente. Enquanto conversavam, descansavam ou caminhavam pelas ruas do povoado. Consta que são uns mestres da tecelagem, os de Taquille. E possuem também outras particularidades interessantes. Como o facto do estado civil de cada um poder ser identificado por pormenores da sua indumentária. Ou a obrigatoriedade de, antes do casamento, duas pessoas viverem juntas por um período de dois anos para avaliação mútua, embora com a proibição de terem filhos. Sábia precaução. É que, em Taquille, a partir do momento que um casal efective o casamento, o mesmo torna-se irreversível. O divórcio é um conceito que não existe na comunidade.
Seguiu-se a ilha de Amantaní. Fui recebido pela Glória, filha do senhor Lúcio, em cuja casa fiquei hospedado. Era uma casa simples e simpática, à semelhança de toda a família. Habitavam em Occosuyo, uma comunidade de Amantaní que recentemente descobriu que o turismo pode ser muito proveitoso para todos. Organizaram-se para que o benefício se distribua de forma equitativa. Assim, revezam-se para receber os turistas que lá desembarcam diariamente. “Chegam todos os dias lanchas com turistas”, explicava o senhor Lúcio, para depois concluir com uma sinceridade desarmante, “mas eu nem sempre os posso receber em minha casa, porque os outros [habitantes] também querem”. Para terminar o périplo pelo Titicaca, visitei ainda as excêntricas ilhas flutuantes da minoria Uros, onde não me delonguei mais do que um par de horas. Reza a história que os Uros construíram aquelas ilhas para escapar aos primórdios da civilização Inca. São ilhas erigidas a partir de juncos amarrados e sobrepostos em camadas que podem totalizar três metros de espessura. Dizem-me que uma ilha, mesmo com “boa manutenção”, não durará mais do que “oito anos”. Findo esse prazo, é abandonada e uma outra é construída em seu lugar. Para além da pesca e da caça de aves, era notório que o rendimento dos Uros provinha fundamentalmente do turismo. Das entradas que cobravam aos turistas e do artesanato que depois lhes vendiam. Estava quase a abandonar uma das ilhas flutuantes quando, vasculhando com o olhar o artesanato, os artigos de lã e as bugigangas, me deparei com a suprema das ironias. Havia umas peças decorativas, de madeira esculpida, que não eram, de todo, desagradáveis. Mas algo não batia certo naqueles artefactos. Eram calendários da civilização Inca.
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