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Viagens: Luang Prabang, Laos
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VOLTA AO MUNDO » 28. LUANG PRABANG, LAOS

Luang Prabang, a mais bem preservada cidade do sudeste asiático

Entro no Laos encantado com a possibilidade de conhecer Luang Prabang, cidade património mundial que a UNESCO considera “a mais bem preservada cidade do sudeste asiático”. E é no Laos, na povoação de Vang Vieng, que tomo o primeiro contacto com o drama humano do qual ninguém imaginava, ainda, as reais proporções.

Por Filipe Morato Gomes

Qual o itinerário da volta ao mundo?



Chiang Kong, no norte da Tailândia, foi o último pedaço de terra trilhado antes de partir à descoberta do Laos. Estava prestes a entrar no país mais bombardeado de toda a história da humanidade, em termos per capita, mas não eram os vestígios dos bombardeamentos americanos que, desta vez, procurava. Ansiava, isso sim, conhecer Luang Prabang, “a mais bem preservada cidade do sudeste asiático” - segundo a UNESCO - e o principal motivo desta incursão ao Laos.

Diariamente, cerca das 6 da manhã, centenas de monges percorrem as ruas de Luang Prabang para receberem dos habitantes a comida para o dia que se inicia
Diariamente, cerca das 6 da manhã, centenas de monges percorrem as ruas de Luang Prabang para receberem dos habitantes a comida para o dia que se inicia

Atravessar a fronteira foi simples e rápido. Uma vez no Laos, cansado de carrinhas, autocarros e tuk-tuks e fascinado por viagens de barco, em breve descia o rio Mekong em direcção a Luang Prabang. Uma jornada de dois dias a bordo de uma embarcação extremamente desconfortável, e que se haveria de revelar um tanto monótona mas inteiramente justificada pela magnificência do destino.

Durante a viagem, os momentos de emoção aconteciam nas paragens em pequenas aldeias das margens do rio, quando o barco era abruptamente invadido por vendedoras de géneros alimentícios para aconchego do estômago dos passageiros. Vendiam coisas muito estranhas e diferentes, das quais nunca descortinei o nome. Vários animais eram adquiridos pelos passageiros locais, uns já cozinhados e prontos a degustar, outros ainda por pelar. Intrigado, olhei para um vizinho de assento que trincava uma espetada de carne de um animal deveras esquisito. Impelido pela minha curiosidade, ofereceu-me um pedaço do que parecia ser uma asa desse animal. Extremamente saborosa, por sinal. Acabara de provar carne de morcego!

Luang Prabang era uma cidade em final de tarde quando o barco atracou no cais. Tempo apenas para encontrar alojamento e preparar-me para um grande acontecimento que desejava presenciar na madrugada do dia seguinte. Diariamente, por volta das seis da manhã, muitas centenas de monges percorrem as ruas de Luang Prabang para receber dos habitantes diversas oferendas e a comida que irão ingerir no dia que então se inicia. Na primeira madrugada na cidade, ainda sonolento, dirigi-me para o cenário onde o acontecimento tinha lugar.

De todos os templos de Luang Prabang - e são imensos - filas de monges de todas as idades saíam para as ruas, onde mulheres sentadas ou ajoelhadas e homens de pé lhes entregavam uma porção de algo. Muito arroz pegajoso, pequenas doses de comida embrulhadas em folhas de bananeira, uma peça de fruta, algum dinheiro e um ou outro doce faziam a maior parte das oferendas. Alguns turistas compravam víveres de vendedoras que oportunamente apareciam e juntavam-se aos habitantes locais em vários pontos dos arruamentos da cidade. Se templos como o de Xieng Thong são, por si só, de uma beleza avassaladora, esta visão matinal colorida pelo laranja e açafrão das roupas dos monges ultrapassou todas as expectativas.

Placas de papel saa secam ao sol na aldeia de Xang Kong, nos arrebaldes de Luang Prabang, Laos
Placas de papel saa secam ao sol na aldeia de Xang Kong, nos arrebaldes de Luang Prabang, Laos

Luang Prabang é uma localidade acolhedora mas de reduzida dimensão. Ao fim de um par de dias, não havia muito mais para desvendar. Mas sabia da existência de aldeias onde artesões produzem o papel “saa”, uma exclusividade do Laos fabricada a partir de uma árvore de fruto que abunda na região. Aluguei uma bicicleta e pedalei à descoberta dos arredores, seguindo para o vilarejo de Xang Kong, famoso por essa actividade. Homens e mulheres pilavam a pasta de papel ainda em bruto, recorrendo a troncos de madeira. Outros humedeciam a pasta já preparada e colocavam-lhe ornamentos naturais como folhas ou pétalas de flores. E era um cenário maravilhoso, ver uma imensidão de placas com o papel harmoniosamente decorado espalhadas por todo o lado, secando ao sol quente do meio da tarde.

Esgotadas as actividades em Luang Prabang, decidi seguir para Vang Vieng e explorar esse reduto mochileiro. Era lá que me encontrava por altura do tsunami. Um dia passado a descer um rio, tranquilamente sentado numa enorme câmara-de-ar de um pneu de camião, impediu-me de saber mais cedo do acontecimento. E não foi antes do fim da tarde, ao regressar à povoação e procurar um ponto de acesso à internet, que uma agitação anormal deu a entender que algo grave havia sucedido. Viajantes empoleiravam-se uns atrás dos outros, olhando para monitores onde se navegava pelos sites de jornais internacionais e cadeias de televisão. Não se falava de outra coisa. Uns mostravam-se incrédulos perante as notícias que iam chegando, outros interrogavam-se já sobre se aquele ou aqueloutro amigo não estaria nalguma das zonas afectadas. Era o início de um drama humano do qual ninguém imaginava, ainda, as reais proporções.


{ 31.Jan.2005 - 08:32. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }

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Qual a vossa opinião?
• Igrejas, templos, pagodes, monges, cerimónias religiosa - a religião acaba quase invariavelmente por estar presente, de alguma forma, numa qualquer viagem. Comentários?

... A religião é o ópio do povo...
E viva a nova catedral de Fátima...

Comentário à viagem enviado por Dario Silva em 31.JAN.2005 - 13:03

Quem “faz” fica na história... e a religião “faz”!
Deste modo, é natural que a religião marque presença em todas as nossas viagens!

Comentário à viagem enviado por João Miguel em 31.JAN.2005 - 18:04

Olá Lipinho

Há já algum tempo que te ando para fazer uma pergunta, mas só agora ta vou colocar.

Como tens “suportado” a tendência natural e compulsiva que todos temos de comprar e trazer para casa, lembranças de todos os locais por onde passas?

Eu sei que deves encontrar coisas fantásticas, mas como não foste viajar de camião TIR, não as podes trazer... ou será que estás a enviar, sempre que podes, pequenas coisas pelo correio? Bem, se assim for quando chegares a casa podes bem fazer um museu... :)

Um grande abraço e continuação de boa viagem...

Marco

Comentário à viagem enviado por Marco Teixeira em 02.FEV.2005 - 09:41

Desde sempre que o homem procura, o sobrenatural, um ou uns seres superiores... e ao mesmo tempo a ética de “bons” valores e o equilíbrio do bem.... é uma busca natural em todos nós (ou, pelo menos, na maioria). Depois disso aparecem, naturalmente, as religiões às quais as pessoas recorrem.

Nas religiões, como em tudo o que é do Homem, há sempre aproveitamentos e grandes faustos, grandes construções, quando a maioria delas apregoa o contrário... Prova evidente do “olha para o que eu digo, não olhes para o que eu faço”.

Infelizmente as coisas e as pessoas são demasiado facilmente corrompiveis, quando olhamos a história da humanidade... à humanidade está sempre ligada a região (o sobrenatural).

Quanto a mim, só o conhecer, o viajar, o aprender e apreender as realidades dos outros e das outras culturas, dos outros povos, pode fazer de nós pessoas melhores e mais tolerantes (porque percebemos que não somos nada e nada valem as nossas mesquinhices...).
Obrigado por procurares isso... e por partilhares connosco!

Um abraço,

Comentário à viagem enviado por Daniel (Cristo) em 02.FEV.2005 - 13:44

Olá Filipe
Não é a procura de um significado que nos transcende e ao qual atribuímos erradamente comportamentos e emoções próporias do ser humano que me incomoda, mas sim, a reinvidicação da posse do único e genuíno caminho para essa transcendência, que diferentes religiões defendem. O mundo ainda está cheio de conflitos sob estas bandeiras.
Um viajante tem que saber respeitar as gentes, tradições e cultos mas, há ossos duros de roer, pelo menos na perspectiva de um ocidental laico. Por exemplo, toda a espiritualidade e relação com o transcendente que se respira na Índia é quase deitada por terra pela prática ancestral, apoiada em preceitos, a meu ver indignos, de diferenças sociais (castas) abruptas e de carácter irreversível. Assim Deus o quis...
O transcendente, pode e deve ser celebrado diariamente, como tu deves bem saber quando, por exemplo, te deixas maravilhar seja por uma paisagem, um sorriso, um poente ou o que for. Não é preciso estar num templo, mas compreender um tempo.

Shalom para ti viajante

Comentário à viagem enviado por Pedro em 03.FEV.2005 - 11:43

As culturas dos diferentes povos são diversas e, consequentemente, o será a forma de analisar e entender a razão da existência humana. Todos nós, penso, em momentos difíceis nos recordamos e pedimos auxílio, por vezes talvez inconscientemente, quer de familiares que já não são vivos, quer de algo que transcende a nossa própria vida quotidiana. Será uma prova de religiosidade? Sinceramente não sei. Quando o fazemos sentimo-nos melhores, mais confortados e mais fortes para encarar os desafios que nos foram colocados e com os quais não estavamos à espera. A suprema forma de encarar e viver o dia a dia será, penso, a de respeitar de uma forma sincera toda a forma de religiosidade dos diferentes povos. A vida, tantas vezes cruel e traiçoeira, só será enriquecida se, não a simples tolerância, tantas vezes falsa, mas a aceitação plena, comandarem toda a relação humana. Se pensarmos bem, em qualquer parte do mundo todo o ser humano só quer uma coisa: ser feliz! Contribuamos todos nós, todos os dias e a todas as horas, para que tal possa ser atingido. Na maioria dos casos, nem será assim tão difícil!

Comentário à viagem enviado por Morato em 05.FEV.2005 - 16:39

A certeza de que alguma coisa está lá para facilitar um bocadinho o nosso dia-a-dia torna tudo mais suportável. A ideia de que, se em algum momento, falhares, há alguém que te põe a mão por baixo ajuda, e vamos vivendo todos nessa esperança.

Boa viagem! :)

Comentário à viagem enviado por S.O. em 09.FEV.2005 - 12:31

Então, grande viajante?
Muitos parabens pelo magnífico trabalho de reportagem, fotográfico, emocional e profissional. Este teu amigo de infância orgulha-se de ti. Um grande abraço de Filipe Peixoto

Comentário à viagem enviado por Luis Filipe Peixoto em 06.MAR.2006 - 13:27

A religião está, sem dúvida nenhuma, em qualquer viagem que façamos... é praticamente inevitável!
Mas queria mesmo era dar os parabéns por este espectacular espaço que criaste!

Comentário à viagem enviado por João Ascensão em 29.MAR.2006 - 08:42


Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.

Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.


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