VOLTA AO MUNDO » 37. SEPILOK, BORNÉU, MALÁSIA
Orangotangos, os homens da selva do Bornéu
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Com voos a preços incrivelmente baixos, mudo de rota e sigo em direcção ao Bornéu, região onde ainda existe uma abundante vida selvagem. Avisto os engraçados macacos proboscis e delicio-me com a inteligência dos mais famosos habitantes da ilha: orangotangos, os homens da selva do Bornéu. |
Por Filipe Morato Gomes |
Qual o itinerário da volta ao mundo? |
Visitar o Bornéu não fazia parte dos planos desta viagem. Mas, o apelo da abundante vida selvagem muitos metros acima do solo e outros tantos abaixo da linha de água, fizeram com que embarcasse a bordo de um avião da Air Asia em direcção à capital da região administrativa de Sabah. Um desvio de rota que se revelou fascinante.
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| Macacos proboscis na região de Beaufort, Bornéu, Malásia |
À chegada a Kota Kinabalu, situada no noroeste da ilha do Bornéu, a partilha de um táxi desde o aeroporto permitiu conhecer Iestyn, amistoso inglês de férias pela Ásia. Juntos, percorremos as ruas da cidade o tempo suficiente para organizar a estadia na província, visitando um par de agências de viagem e centros de mergulho. Com ofertas de alojamento tão reduzidas nalguns dos principais pontos de interesse de Sabah, planear com alguma antecedência revelou-se uma actividade incontornável. Uma mudança de hábitos para qualquer viajante acostumado a guiar-se por decisões impulsivas. Subir ao monte Kinabalu, encontrar os ameaçados homens da selva e submergir nas águas envolventes à mundialmente famosa ilha de Sipadan eram os primordiais objectivos delineados para o Bornéu.
Ascender ao topo de Kinabalu é a principal atracção turística de Sabah e consta ser uma experiência exigente mas memorável. Mas, com o alojamento na montanha totalmente reservado durante semanas, ver o raiar do dia no cume do monte Kinabalu estava fora de questão. Não sendo possível, seguimos para o sul da província na expectativa de vislumbrar os engraçados macacos proboscis em habitat selvagem.
Magotes de turistas, principalmente japoneses, seguiam em pequenos barcos pelos canais de um rio barrento, de pescoço curvado e máquinas fotográficas a postos. De tempos a tempos, grupos de macacos eram avistados no topo das árvores. Um macho possante e dominador estava quase sempre acompanhado por várias pequenas e mais graciosas fêmeas. De árvore em árvore, alimentando-se ou catando parasitas entre si, os macacos de nariz comprido e arredondado presenteavam os turistas com cenas do seu próprio quotidiano em ambiente selvagem. Ou, quando incomodados com a presença humana - ainda que distante -, refugiavam-se no solo longe dos olhares dos intrusos. Não fora o facto de haver mais turistas que proboscis e teria sido uma experiência marcante. Mas foi como que um suave aperitivo para o ansiado encontro com os inteligentes homens da selva, os mais famosos residentes do Bornéu. Possuindo 96.4% da composição genética do ser humano, não admira que assim sejam denominados os orangotangos que ainda povoam as selvas do Bornéu.
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| Orangotango órfão no Centro de Reabilitação de Sepilok, no Bornéu |
E foi no Centro de Reabilitação de Orangotangos de Sepilok que pude observar as espertas criaturas. Calcula-se que existam apenas quinze mil orangotangos em todo o mundo, e o risco de extinção a curto prazo é real. O trabalho desenvolvido em locais como Sepilok - existem apenas quatro centros do género no planeta - adquire assim importância redobrada. A captura ilegal de orangotangos, muitos dos quais acabando como animais de estimação em casas de habitantes desinformados, deixa muitos jovens orangotangos órfãos de mãe. E, em ambiente selvagem e na ausência da progenitora - com quem um jovem pode chegar a partilhar os primeiros nove anos de vida -, aprender tarefas básicas como subir às árvores ou procurar alimentos é empreitada praticamente impossível. Sobreviver sozinho é muito difícil para um jovem órfão. Em Sepilok, esses jovens orangotangos são capturados e trazidos até ao centro. Passam depois por um programa de reabilitação que dura vários anos de aprendizagem, num processo lento e progressivo. Recebem os ensinamentos básicos de que necessitam e suporte emocional e, gradualmente, vão-se tornando mais independentes e confiantes. São encorajados a explorar áreas da selva cada vez mais distantes das instalações do Centro. Até um dia a partir do qual, idealmente, nunca mais terão contacto com um ser humano.
No dia em que visitei Sepilok, apenas três orangotangos apareceram nas plataformas de alimentação em busca de leite e bananas, suplemento nutricional àquilo que encontram pelos seus próprios meios na selva. O desgosto dos turistas era proporcional ao contentamento dos profissionais de Sepilok.
{ 05.Abr.2005 - 04:24. Versão não editada do texto originalmente publicado no jornal Público }
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Qual a vossa opinião?
• Há demasiadas espécies ameaçadas de extinção por esse planeta fora. Não seremos todos responsáveis?
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Olá Filipe,
Já há dias te contactei e fiquei a saber que iríamos estar ambos em Bali com um mês de desfasamento. Estás agora em Kuta e eu apenas chego dia 2 de Maio... Que pena não poder beber qualquer líquido contigo para me contares na primeira pessoa a aventura que tens vivido...
Viajar é das coisas, senão a coisa, que mais gosto de fazer. é pena os afares profissionais tomarem conta do meu tempo, e o país onde vivo (Japão) e a empresa onde trabalho só me darem 16 dias úteis de férias por ano.
Mas dia 22 parto para a maior viagem da minha vida (15 dias.. enooorme) e vou visitar alguns dos sítios por onde tens passado, como Laos e Camboja. A ida a Bali é uma repetição do ano passado, mas vou explorar a parte da ilha que não tive tempo de explorar no ano passado.
Comentário à viagem enviado por Hugo Cruz em 05.ABR.2005 - 08:58
Olá Filipão.
Conseguiste mergulhar também aí?
Como é a fauna subaquática da região? Tens visto grandes pelágicos ou só sardinhas às cores?
Comentário à viagem enviado por Pedro Castro em 05.ABR.2005 - 17:22
Infelizmente todos somos mais ou menos responsáveis pela extinção de um número considerável de espécies em todo o mundo. Todavia, o que me mais me faz pensar e me revolta, é a quantidade de seres racionais, crianças ou não, que todas as horas, sem excepção, morrem nos mais diversos lugares deste mundo globalizado por falta das coisas mais básicas como seja, água, comida e cuidados básicos de saúde. O mundo, Europa incluída, se tivesse vontade política para tal, resolvia estes problemas. Todos temos que fazer mais, falar mais, agir mais. Por isso e por alguma apatia, por vezes, me revolto comigo próprio.
Comentário à viagem enviado por Morato em 05.ABR.2005 - 21:39
Olá Filipe Gralha,
Infelizmente, existem demasiadas espécies em vias de extinção, umas devido à força da Natureza e outras por culpa humana, como por exemplo os caçadores furtivos que abatem para posterior venda... a solução será cada um de nós prestarmos atenção especialmente às roupas que usam material de animais em vias de extinção, e não as comprar...
Aproveita essas gastronomias (atenção a q animais são utilizados na confecção ;)) orientais...
Um abraço amigalhaço,
José Nunes
Comentário à viagem enviado por Zé do Boné em 08.ABR.2005 - 16:13
Para quem quiser aprofundar este tema, sugiro uma rápida leitura do Livro Vermelho do IUCN que pode ser descarregado gratuitamente em www.iucn.org/themes/ssc/red_list_2004/main_EN.htm
Alguns números soltos são:
- Cerca de 800 espécies foram extintas recentemente (últimos 500 anos). Este número deverá ser muito maior porque muitas espécies nunca chegaram a ser descritas;
- 41% das espécies que são avaliadas todos os anos estão ameacadas (15.589 espécies);
- Em Portugal são 29 espécies, sendo que 3 destas apenas ocorrem neste pais (endémicas);
- Das cerca de 1.9 milhões de espécies descritas, apenas 1 é responsavel pela degradação em massa dos habitates existentes.
Comentário à viagem enviado por Telmo em 08.ABR.2005 - 16:16
A tua coragem é admirável.
Tenho também essa alma enunciada, contudo assusta-me quando sou recebido nos cantos do globo, por um sorriso esticado com o comprimento de um dólar.
Não esperava essa descrição do Bornéu... uma espécie de National Geographic a pronto pagamento.
Penso que no final vais recordar os sorrisos que conquistaste num outro local qualquer.
Abraço, Avie.
Comentário à viagem enviado por Avie em 10.ABR.2005 - 03:29
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Nota: com a renovação do design de Alma de Viajante, em 2006, foi desactivada a introdução automática de comentários à volta ao mundo, para evitar a publicação de spam nas crónicas de viagem. As mensagens podem ser enviadas por e-mail e serão colocadas neste travelogue, manualmente.
Obrigado a todos os que, ao longo dos tempos, enriqueceram esta volta ao mundo com as suas palavras.
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