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53. Descida ao inferno das minas do Cerro Rico

TextoFotosFilipe Morato Gomes18/07/2005
Viagens: Potosi, Bolívia - Volta ao Mundo

Bolívia. Depois das paisagens deslumbrantes do sudoeste boliviano, entro num universo de pó, temperaturas extremas e falta de segurança. Arrepio-me com as atrozes condições do trabalho. E emociono-me com a dignidade daqueles homens rudes e pobres. Sejam bem-vindos ao inferno das minas do Cerro Rico, em Potosí.

Para além de classificada pela UNESCO como património mundial, para além da curiosidade de ser a mais alta cidade do planeta, só há uma razão que leva os forasteiros a visitar Potosí: as minas do Cerro Rico. Estava ao corrente das condições desumanas do trabalho nessas minas de prata, que já foram as mais importantes da América Latina. Da esperança de vida ridiculamente baixa de quem passa os dias respirando o ar irrespirável das galerias. Do insignificante lucro que a maioria dos mineiros retira desse árduo e musculado ofício, diariamente, na esperança de que um dia a sorte os bafeje e encontrem um grande filão. Apesar disso, estava longe de estar preparado para o que iria encontrar debaixo de terra. Uma brutal e chocante experiência.

Pintura na parede de uma casa em Potosí

Mas poder popular - pintura na parede de uma casa em Potosí

Acompanhado de uma vintena de turistas e conduzido por Efrain, antigo mineiro que desde há quatro anos trabalhava como guia turístico, dirigi-me para Cerro Rico. Desde a chegada dos espanhóis até aos dias de hoje, uma impressionante cifra de oito milhões de pessoas terá perdido a vida naquelas minas. Em Cerro Rico, quem trabalha no subsolo sabe que, muito provavelmente, morrerá nas minas ou por causa delas.

Entrámos. Uma sinistra quantidade de pó circulava no interior das galerias, tornando o ar praticamente irrespirável. Estava quente, muito quente. “As temperaturas podem atingir os quarenta graus centígrados”, informou o guia. Um corrupio de homens rastejava, corria, empurrava, içava, martelava. Uns empurravam vagões contendo duas toneladas de pedras e minério - prata, zinco e estanho -, através de carris, num esforço notoriamente diabólico. Outros içavam, das profundezas das galerias até à superfície, cestos contendo duzentos quilos de pedregulhos. Outros ainda passavam o dia de pá na mão atestando os ditos cestos, ininterruptamente. Outros puxavam grossos troncos de pinho para servirem de sustentáculos das galerias, rastejando com os cepos pelas estreitas passagens dos túneis. E havia aqueles que, de martelo e cinzel na mão, faziam buracos de trinta centímetros na rocha para lá colocarem paus de dinamite - a forma das galerias irem avançando monte dentro. “Quanto tempo demorarás a terminar o buraco?”, perguntou Efrain a um deles. “Apenas quatro horas, porque a rocha aqui não é muito dura”, respondeu o homem, satisfeito. “Às vezes, demoro um dia inteiro”, concluiu.

Uma comerciante vende folhas de coca no Mercado dos Mineiros, Potosí

Uma comerciante vende folhas de coca no Mercado dos Mineiros, Potosí

Apesar das tarefas distintas, o trabalho de todos tinha algo em comum. Era exclusivamente braçal, esgotante, quase desumano. Não havia qualquer tipo de maquinaria. Não havia qualquer tipo de segurança, para além de capacetes. Não havia qualquer tipo de oxigénio artificial, máscaras de protecção, nada que facilitasse a respiração. Estávamos a milhares de metros de altitude e o simples acto de caminhar era penoso. O ar era rarefeito, a respiração era naturalmente difícil, e ali estavam aqueles homens a exercer tarefas fisicamente demolidoras. Aos olhos ocidentais, as condições laborais eram demasiado duras, atrozes, inaceitáveis. Mas tinham um ar nobre, aqueles homens. Não inspiravam pena, mas respeito. Os olhos começavam a turvar-se.

Prosseguimos. Efrain, o antigo mineiro, falava de proveitos. “Não há salários fixos em Cerro Rico; o rendimento depende apenas da quantidade e qualidade da produção diária”. E consta que apenas uma minoria de felizardos enriqueceu nas últimas décadas. “Descobre-se um bom filão de prata cada dez, quinze anos”, concluiu. O sucesso, em Cerro Rico, é uma lotaria. Literalmente. Com tantas adversidades, só poderia haver uma razão para aqueles homens se sujeitarem à vida nas minas. Segundo uma estatística patente num pequeno museu no interior da mina, 89% dos mineiros admitiam que só o eram porque “não há alternativas” em Potosí. Esclarecedor.

Estávamos numa estreita galeria quando a actividade dos mineiros cessou repentinamente. Era intervalo para almoço. Durante uma jornada de trabalho - que pode ser de apenas seis horas, mas também de dez ou doze -, não se ingerem alimentos. Mascam-se apenas folhas de coca. “Almoçar” significava, pois, mudar a coca que traziam na boca por novas folhas. E descansar meia hora. Nada mais.

Cerro Rico, arredores de Potosí, Bolívia

Cerro Rico, arredores de Potosí, Bolívia

A visita estava a chegar ao fim. Rastejámos. Percorremos inúmeros túneis em quatro diferentes níveis da mina. Subimos por escadas em buracos com mais de cinquenta metros, sem resguardos nem qualquer tipo de segurança. Estava completamente esgotado quando voltei a ver a luz do dia.

Uma vez cá fora, quedei-me mudo, como que anestesiado, com lagoas de água a turvarem-me o olhar. Não pelo cansaço físico - que era imenso. Não pelo pó que me secava o nariz e a boca. Não por qualquer efeito das folhas de coca que também masquei no interior. Mas estava mudo, como que anestesiado. De raiva. Porque tudo, em Cerro Rico, era demasiado violento. E porque aqueles homens másculos, rudes e pobres, possuíam a dignidade dos grandes homens. Mereciam melhor sorte. Enquanto isso, os restantes turistas divertiam-se a fazer explodir um pau de dinamite.



Comentários sobre “Descida ao inferno das minas do Cerro Rico”

Numa grande maioria de casos e por muito que custe, a vida ainda depende substancialmente do local e do berço onde se nasce. Infelizmente, a realidade é cruel mas é esta. Estes relatos devem vir a público para, quem sabe, agitarem consciências. É bom verificar que continuas com os teus sentidos crítico, de justiça e de dignidade bem apurados. Nem outra coisa seria de esperar!

Comentário enviado por Morato em 18.JUL.2005 - 21:53

Por vezes dou por mim a pensar que tenho muita sorte... Mesmo não tendo nascido em berço de ouro, mesmo sendo a nossa natureza nunca estar satisfeito e como dizia o mestre Variações, “só estamos bem aonde não estamos”...

E sinto pena por milhões de pessoas que nunca conheceram outra realidade que não a dureza que descreves, a fome, que nunca puderam usufruir de prazeres e regalias que para nós não passam de meras rotinas...

Um abraço.

Comentário enviado por Daniel (Cristo) em 18.JUL.2005 - 23:41

Filipe, estás quase a comemorar um ano fora, meu! Dá aqui um saltinho a Timor-Leste para bebermos umas bejecas!! Um abraço!

Comentário enviado por Sérgio Tavares em 19.JUL.2005 - 11:50

Trezentos e sessenta e cinco dias...
Parabéns pelo “primeiro aniversário”. Hoje brindarei muito em tua honra e dos teus sonhos realizados.
Um grande abraço.

Comentário enviado por Telmo em 20.JUL.2005 - 10:36

Um ano de ausência presente.Um ano em que os teus olhos viram a beleza e o trágico de vários quotidianos de um mundo cada vez mais diverso em todos os aspectos. Um ano de vida na realização do teu sonho. Parabéns!!! Brindo contigo à continuação da realização do teu sonho! Força e continuação de muita alegria para os meses que faltam.

Comentário enviado por Morato em 20.JUL.2005 - 15:02

Fil, seja bem vindo ao Brasil! Que suas descobertas aqui sejam tão maravilhosas e grandiosas quanto foram até agora por todos os lugares onde tenha passado, que pessoas belas de alma e coração te receba, que momentos de paz, alegrias, luz, energia, cumplicidades, encontros e felicidade esteja com você por todo o Brasil; que a fé, o carinho, a simplicidade, o sorriso, a humildade do meu povo possa contribuir para sua busca; desejo de todo o meu coração: BEM VINDO, que tenha aqui seus melhores dias dessa fantástica e única viagem dos nossos sonhos! Depois de UM ANO - 365 dias - até que enfim você está aqui tão perto, no Brasil. Um beijo enorme no seu coração, em nome de todos os brasileiros que viajaram por este ano através dos seus olhos!

Comentário enviado por Luana em 20.JUL.2005 - 16:48

Um grande abraço de parabéns pelo aniversário desta extraordinária viagem e aventura! Fantástico. Há que brindar por tudo aquilo que tem vivido e pelo modo como o tem partilhado connosco!

Comentário enviado por Paulo Gonçalves em 20.JUL.2005 - 17:30

Parabéns pelos 365 dias de viagem!
1 ano! 12 meses! É obra!
Continuação de boas aventuras!

Comentário enviado por Paulo César Santos em 20.JUL.2005 - 18:43

Um anito... pois é... muita coisa muda em 365 dias... e não estou a falar em nada físico, tipo... queda de cabelo a atirar para o look franciscano... nada disso!! ;)
Porta-te bem (mal). Aquele abraço.
Pedro, Xana e João Pedro

Comentário enviado por Pedro Santos em 20.JUL.2005 - 21:53

Viva Filipe,
Um grande abraço e parabéns pelos 12 meses desta magnífica viagem!
Até mais,
Guilherme

Comentário enviado por Guilherme Alheira em 24.JUL.2005 - 19:19

Há já algum tempo que religiosamente sigo as tuas aventuras e desventuras.
É o sonho de toda uma vida...

Boa continuação e que a intensidade e a boa sorte estejam contigo. Força!

Abraço by António Rebordão

Comentário enviado por António Rebordão em 24.JUL.2005 - 22:55

É certo que a vida é uma caixinha de surpresas que diariamente vai desvendando os seus segredos e enriquecendo as nossas almas. Os dias daqueles que com alguma regularidade vão, cúmplices, pisando os trilhos que traças, decerto que são bem mais interessantes.

Dou-te os parabéns pela coragem e determinação. É que, nestas coisas, não basta o querer mas é necessário muito espírito de sacrifício para tanto galgar.

Abraço e força!

Comentário enviado por Miguel Oliveira em 31.JUL.2005 - 02:27

Fantástica viagem. Sonho de uma vida inteira. Com os meus 60 anos desejo-te as maiores sortes do mundo. Viajo há 40 anos e sei muito bem o que isso significa. Supera todos os sacrifícios e valores materiais que perdeste. Ganhaste uma experiência que nunca mais vais esquecer. Quando quiseres vir a Portugal - Porto - cá te espero na minha casa à beira-mar. Esta cidade é património da humanidade. Até sempre.

Comentário enviado por José Cunha em 09.AGO.2005 - 17:03

Olá Felipe,
E então amigo? Onde estás agora? Terei mesmo o prazer de revê-lo?
Chegou a ir para Morro de São Paulo?
Felicidades.

Comentário enviado por Mine em 09.AGO.2005 - 18:37

Parabéns Felipe!
Fico muito feliz em poder está compartilhando das suas viagens. Eu e minha esposa também viajamos - 360 graus pela América do Sul. Saímos de Bombinhas (SC) até Oiapoque (Br), entramos na Guiana Francesa, Suriname, Guyana, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai, entrando no Brasil por Chuí (RS). Ao todo foram 11 meses, 44.500 km, 6023 litros de diesel. Está tudo no site: www.expedicaotoriba.com.br
Grande abraço e muitas viagens.
Raul/Valk

Comentário enviado por Raul Seára Neto em 17.NOV.2005 - 18:21

Adorei o teu relato e achei fantástico a forma como relatas. Não se pode ser indeferente a tanta injustiça. Só há uma coisa: esses homens não comem, só mastigam as folhas... como é possivel? Onde páram os direitos humanos!

Boa sorte para ti e obrigada porque existes!

Comentário enviado por Adélia Franco em 21.NOV.2005 - 12:19

Entre Julho de 2004 e Setembro de 2005, Filipe Morato Gomes levou a cabo a sua primeira volta ao mundo. Foram 14 meses de viagem com passagem pela Ásia, Oceania e América do Sul, ao longo dos quais foi publicando crónicas na revista Fugas do jornal Público. No regresso, editou o livro «Alma de Viajante», precisamente sobre esta volta ao mundo.