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Salar de Uyuni, a planície de sal boliviana

TextoFotosHumberto Lopes26/07/2007

O sul da Bolívia é um santuário de belíssimas paisagens, desenhadas com o traço de desérticos planaltos, lagoas de cores inesperadas e picos de vulcões cobertos de neve.

A gema desta região boliviana, que se estende ao longo da fronteira com o Chile, é o Salar de Uyuni, o maior lago salgado do mundo.

De Uyuni ao Atacama

Princípio da noite em La Paz. O velho autocarro da Flota Paceña começa a encher-se de gente com destino a Uyuni, cerca de oitocentos quilómetros a sul. Enovelados em grossos cobertores de lã de alpaca, os passageiros vão-se aconchegando nos assentos meio puídos, preparando-se para uma viagem de mais de dez horas. Os altifalantes da estação central anunciam outras partidas nocturnas de longo curso: Santiago do Chile, Assunción, Lima.

A expedição de Uyuni percorre a fronteira entre a Bolívia e o Chile

A expedição de Uyuni percorre a fronteira entre a Bolívia e o Chile

A capital boliviana está situada a mais de três mil metros de altitude e faz frio. Mas o pior está ainda por vir, numa viagem bem paradigmática do que o viajante pode experimentar naquele que é um dos países mais belos da América do Sul.

Durante quase doze horas rolaremos pelo Altiplano, seguindo a principal estrada asfaltada da Bolívia, apenas com breves paragens. O autocarro não tem aquecimento e o ar gélido dos Andes infiltra-se por mil e uma fendas. Agasalhos bons para outras latitudes não são mais do que panos de seda no planalto andino.

À medida que avançamos para sul, com a altitude a estabilizar nos 4.000 metros, o frio torna-se mais intenso e a vegetação rareia - apenas arbustos dispersos, uma vez que a região é completamente desprovida de árvores. À aproximação de Uyuni irrompe a primeira claridade do amanhecer.

Quando saímos da estação à procura de um mate quente de coca, já o sol semeia sobre o Altiplano uma luz cálida que atenua um pouco o efeito cortante do surazo, o vento gélido que sopra do sul.

Uma ilha em forma de peixe no Salar de Uyuni

O ponto de partida da expedição é uma cidade de dez mil habitantes, sem atractivos que justifiquem mais do que uma manhã, o suficiente para procurar uma agência na Avenida Ferroviaria e contratar um todo-o-terreno com condutor, cozinheira e mantimento necessário para refeições básicas. A expedição dura normalmente quatro dias, embora possa ser ajustada uma extensão em função dos interesses dos viajantes.

O Salar de Uyuni é o maior lago salgado do mundo

O Salar de Uyuni é o maior lago salgado do mundo

Ao fim da manhã partimos de Uyuni, com Don Pedro, um antigo mineiro, ao volante, mais aficionado de mudanças constantes de pneus - em todas as paragens descobria um a precisar de ser substituído -, do que amante de palavras.

Pelo contrário, Juana, a cozinheira, é uma mulher extraordinariamente comunicativa, assaz maternal, morta de saudades da terra natal, Tarija, cidadezinha de clima temperado e de bonita arquitectura colonial situada lá para as bandas da fronteira com a Argentina.

A primeira paragem é a aldeia de Colchani, na orla do lago, onde está implantada uma exploração de sal. A visita às instalações é concisa e seguimos rumo a um sui generishotel de sal”, a cerca de dez quilómetros de distância.

Estamos a três mil e setecentos metros de altitude e em redor uma planura branca estende-se até ao infinito. A luz solar, reflectida pelo manto de sal, é fortíssima, e na linha do horizonte é possível perceber nitidamente a curvatura terrestre. O tempo seco fez estalar o sal e o solo é como uma tapeçaria branca decorada com desenhos geométricos.

A não muita distância voltamos a parar e apeamo-nos junto a um ponto onde a espessura do sal cede à humidade. São os “ojos del salar”, alvéolos rosados que permitem perceber depósitos ou correntes de água debaixo do pavimento de sal. No verão austral, o calor derrete a neve dos picos vulcânicos e com o aumento da quantidade de água, o salar torna-se intransitável.

A Montanha das Sete Cores, no Parque Eduardo Abaroa, Bolívia

A Montanha das Sete Cores, no Parque Eduardo Abaroa, Bolívia

Ainda estamos longe do meio da jornada quando o sol atinge o zénite e começa a tomar forma no horizonte o relevo pardo da Isla Pescado, uma mancha de terra e cactos gigantes (com a forma de um peixe) que parece flutuar sobre o leito de sal.

A ilha fica a mais de uma centena de quilómetros de Uyuni e é habitual ponto de paragem das expedições.

Enquanto Juana monta o fogão e prepara a segunda refeição do dia, arriscamos uma subida ao topo da colina mais próxima, por veredas que contornam uma floresta de cactos. Lá em baixo, à volta da ilha junta-se uma meia dúzia de jipes e outros tantos fogões em actividade.

O nosso Don Pedro muda o primeiro pneu.

Fauna em Uyuni: flamingos indiferentes e pumas invisíveis

Boa parte da tarde consome-se numa vertigem de quatro rodas deslizando sobre o imenso tapete de sal. Um par de horas depois abandonamos o salar e percorremos uma picada poeirenta. Depois, a picada desaparece, dilui-se numa planície árida e ocre. Ao longe, uma nuvem de poeira move-se em doida correria. Don Pedro explica. Há quem não tenha reserva de alojamento no abrigo da aldeia de S. Juan, para onde nos dirigimos. É isso que justifica a pressa.

No dia seguinte desfilam lagoas de variadas tonalidades, ditadas pelas algas inquilinas: a Laguna Hedionda, de um verde pálido e mal afamada pelos seus odores sulfurosos, a Laguna Canapa e a Laguna Honda, mais escura, todas poiso de flamingos. Cruzamos a planura árida do Deserto do Siloli e contornamos bizarras figuras moldadas pela erosão eólica, como a famosa e muito retratada “Árbol de Piedra”.

Flamingos na Laguna Hedionda

Flamingos na Laguna Hedionda

À distância, acompanham-nos alguns vulcões andinos: o Ollague, com os seus 5.870 metros, o Uturuncu, o mais alto, com pouco mais de 6.000 metros. Muitas vezes, estes relevos são “faróis” que ajudam a encontrar a direcção certa quando não há estradas (como no salar), ou quando as pistas se apagam com a chuva.

A Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa estende-se para sul, ocupando uma área de 700 mil hectares. Das oitenta espécies de aves existente no parque (que alguns comparam com o Parque Nacional Yellowstone, por causa da actividade vulcânica), os flamingos são as que se avistam com mais frequência. Há grandes colónias junto às lagoas, mesmo durante o Inverno, quando uma boa parte das aves emigra.

Muito mais difícil é avistar um puma, um condor ou uma raposa andina. Mas há uma ou outra passagem onde as vizcachas (uma espécie de coelho andino) quase vêm comer às mãos dos viajantes. Quanto à flora, apesar das condições climáticas e da salinidade, há quase duzentas espécies de plantas que sobrevivem na região.

A Lagoa cor de sangue

A segunda noite é passada no refúgio da Laguna Colorada, uma das maiores da região. O fim de tarde, lento, ainda consente a Don Pedro mais uma mudança de pneu, enquanto metemos os pés ao caminho pela margem da lagoa. Avançamos passo a passo, lutando contra um vento desabrido e glacial que teima em querer atirar-nos ao chão.

A Laguna Colorada parece ao lusco-fusco um imenso charco de sangue, um paul vermelho escuro, por causa dos microrganismos que habitam as suas águas, mas é a meio do dia, com uma luz mais propícia, que esses efeitos se tornam mais impressionantes.

A Árvore de Pedra, um dos pontos de passagem das expedições na região de Uyuni, Bolívia

A Árvore de Pedra, um dos pontos de passagem das expedições na região de Uyuni, Bolívia

Nas margens espalham-se manchas de boro, e logo a seguir, em terreno seco, crescem bizarros tufos circulares de uma erva dourada pela última iluminação do dia. Estamos a quase 43.00 metros de altitude e esta noite a temperatura desce até dez graus negativos. Ainda há poucos anos foi registado um recorde no local: - 30°.

A ausência de um duche quente no abrigo fica compensada na manhã seguinte por uma imersão nas piscinas de água quente do Sol de Mañana, um campo de géisers e lamas ferventes. É sumária a paragem, e logo zarpamos em direcção à Pampa de Chalviri, a 4.800 metros, onde tocaremos o ponto mais alto do percurso, uma passagem de 5.000 metros.

E um momento vem, sob um sol escaldante, desses de fabricar miragens, em que é como entrarmos num quadro de Dali, ao atravessarmos uma planície despida, salpicada de colossais penedos de volúvel morfologia. E voltam os tons ocres, agora a emoldurar o cenário onírico da Montanha das Sete Cores, com uma lua em quarto crescente a coroá-la. Seguimos viagem sem parar, a linha do horizonte sempre a afastar-se, e acima nós sempre um límpido céu austral, céu apenas.

É nessa tarde que se nos revela a voz melodiosa de Juana, a acompanhar baixinho uma interpretação de Enriqueta Ulloa, tocada no rádio roufenho do jipe. A canção é de Matilde Casazola, compositora e poeta boliviana de primeira água: “Desde lejos como el viento / traigo nombres de otras pátrias / pero busco en tu infinito / las raíces de mi alma”. Nunca cheguei a encontrar aquela gravação, mas em La Paz, semanas depois, vem cair-me nas mãos uma versão de Emma Junaro, outra intérprete do precioso cancioneiro boliviano.

Um sorriso na memória

O ponto mais a sul, onde Daisy e Liz, duas companheiras de viagem, se passarão para o Chile, é a Laguna Verde, aos pés do vulcão Licáncabur. Do outro lado é já terra chilena, o deserto e o povoado de São Pedro de Atacama. É este o limite geográfico da expedição, 400 quilómetros a sul de Uyuni.

Aldeia de San Juan, no sul da Bolívia

Aldeia de San Juan, no sul da Bolívia

A Laguna Verde prende-nos um pouco mais de tempo, quase até ao fim da manhã, quando a direcção do vento se altera e podemos observar as águas mudarem de tonalidade, para um verde jade luminoso. A presença de magnésio, carbonato de cálcio e arsénico é a causa da singular coloração da lagoa, situada a 4.400 metros de altitude. O Licancábur, do alto dos seus 5.800 metros, mostra-se impassível. A maravilha é sua companheira de dias e de noites neste fim do mundo.

O trajecto de regresso a Uyuni não é menos variado, contra todos os vaticínios. Nem um segundo de monotonia antes do repouso no refúgio de Alota, posto militar no meio de nada: solavancos em estradas pedregosas, desfiladeiros, travessia de ribeiros impetuosos apesar da estação seca, lamas esquivos na passagem do outro lado da Laguna Colorada, o Valle de las Rocas, um cemitério de comboios e Don Pedro mudando outro pneu do velho Chevrolet. E a companhia de Guy, Phillipe e Matilde, companheiros que seriam ainda de outras andanças por Potosí e Sucre. E a de Julie, que me ajuda a descobrir o Cruzeiro do Sul numa noite de muitas estrelas, com a Via Láctea tão perto, ao alcance das mãos.

No regresso a Uyuni, é agora Don Pedro que assobia a canção de Casazola. O cansaço e a veloz sucessão dos dias e das imagens faz com que o que se desenreda na memória pareça ter sido sonhado. E fará assim tanta diferença, se aí, para seguir o velho Calderón, tudo se transforma em ilusão ou ficção, tudo adquire a mesma espessura do sonho? Se na memória tudo se insinua para ser esquecido ou reconstituído de acordo com insondáveis lógicas? Afinal, o registo mais fiel que sobrevive do sul boliviano não é o das imagens de vulcões altivos, de lagoas frívolas ou de um belo deserto de sal que se transmutou em bandeira turística.

A Bolívia mais real, a “minha” Bolívia, é a do imenso sorriso de Juana e do seu canto ciciado, nostálgico, decerto, da sua amada e distante Tarija: “Yo no logro explicar / con que cadenas me atas / con que hierba me cautivas / dulce tierra boliviana”.

Salar de Uyuni, o deserto branco

O Salar de Uyuni é um deserto de sal localizado no sudoeste da Bolívia, a cerca de 3.650 metros de altitude. Tem aproximadamente 12 mil quilómetros quadrados, o dobro do tamanho do seu congénere norte-americano, e é a maior planície salgada do planeta, com mais de 64 mil milhões de toneladas de sal. Supõe-se que na sua origem tenha estado um braço de mar do Pacífico, há 80 milhões de anos, que se terá depois transformado num enorme lago.

A Laguna Colorada, a quase cinco mil metros de altitude

A Laguna Colorada, a quase cinco mil metros de altitude

A camada de sal varia entre os 2 e os 20 metros e no subsolo existem enormes reservas de lítio, magnésio, potássio e boro. O interesse na exploração do lítio - mineral com um crescente potencial para a tecnologia de acumuladores - tem provocado alguma preocupação quanto ao futuro da singular paisagem do salar em caso de instalação de unidades de exploração mineira.

Ameaça mais real: nos últimos anos, as autoridades bolivianas têm procurado acelerar a exploração dos atractivos turísticos do salar. A oferta de alojamento em Uyuni cresceu com certa rapidez e o número de agências que organizam expedições ultrapassa hoje uma vintena. Depois das minas de prata e da importância como nó ferroviário, Uyuni conta cada vez mais com receitas do desenvolvimento do turismo.

E tal como acontece com a Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa, também o salar se vem ressentindo do aumento de frequência turística. Muitos dos guias que conduzem os veículos todo-o-terreno não possuem nem formação nem sensibilidade para as questões ambientais.

E o aumento de detritos prova que uma boa parte dos visitantes primeiro-mundistas padece de mal semelhante. Um programa lançado recentemente, o «Parques em Perigo», tem vindo a intervir no sentido de disciplinar e regular as actividades turísticas nesta região que se estende até ao Atacama e que exibe algumas das mais impressivas paisagens da América do Sul.

Guia de viagens ao Salar de Uyuni

Este é um guia prático para viagens ao salar de Uyuni, com informações sobre a melhor época para visitar, como chegar, pontos turísticos, os melhores hotéis e sugestões sobre o que fazer na região.

Salar de Uyuni Quando ir

Quando ir

A época ideal para fazer a expedição ao sul da Bolívia decorre de Junho a Novembro. Apesar do frio, a pluviosidade é quase nula neste período e o céu mantém-se quase sempre azul. Note que a região sul da Bolívia é conhecida por grandes amplitudes térmicas. Há registo, por exemplo, de 30° ao meio-dia e 25° negativos na madrugada seguinte, precisamente no Salar de Uyuni.

Como chegar

Como chegar ao salar de Uyuni

A Iberia tem voos para La Paz com escala em Madrid, e a LAN Chile voa para Santiago e daí têm ligações diárias para a capital boliviana - cidade a partir de onde há transportes terrestres rumo a Uyuni. Se viaja desde San Pedro de Atacama, há tours organizados que passam pelo salar a camibnho de Uyuni.

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Onde ficar

Hotéis em Uyuni

Reservas para o Salt Palace Hotel podem ser feitas através das agências mencionadas mais adiante. Em Uyuni, a oferta tem vindo a crescer, com o aumento do fluxo de turismo na região. A melhor opção será porventura o Hotel Magia de Uyuni, na Av. Colón.

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Dinheiro

Dinheiro

O Peso Boliviano vale aproximadamente 0,15€. Nas principais cidades da Bolívia existem ATMs que permitem fazer levantamentos com os habituais cartões de débito ou de crédito. Os principais hotéis aceitam cartão de crédito. Convém ter dólares norte-americanos de reserva, uma vez que são normalmente aceites para pagamento.

Mal da Montanha

Mal da montanha

O mal-estar provocado pela altitude deve ser uma das principais preocupações do viajante, mesmo que não tenha registado até ao momento qualquer problema desse tipo. O Altiplano está situado a uma altitude média superior a quatro mil metros acima do nível do mar e a rarefacção do oxigénio exige a redução de esforços físicos ao mínimo, sobretudo nos primeiros dias. Se não houver possibilidade de ir subindo por etapas, e se o desembarque for em La Paz, é absolutamente indispensável que as primeiras horas depois da chegada sejam passadas em repouso total. O risco de edemas é elevado. É altamente aconselhável, também, ingerir mate de coca, bebida local que ajuda a combater o mal-estar provocado pela altitude. [ver O abominável “mal das montanhas”]

Informações úteis

Informações úteis

Os cidadãos da União Europeia não necessitam de visto para a Bolívia, bastando o passaporte com validade superior a 6 meses. A autorização de permanência é de 90 dias, prolongável em qualquer delegação dos Serviços de Imigração.

Nos postos de turismo de La Paz (Plaza del Etudiante e Avenida 16 de Julho) pode ser obtida informação detalhada sobre o país e a região a visitar. A Secretaria Nacional de Turismo (SENATUR) está situada no Edifício Ballivián, 18º piso, na Calle Mercado.

Informação detalhada sobre fauna e um guia da Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Avaroa pode ser obtida nos escritórios do parque, na Av. Potosí, em Uyuni.

Há mais de uma vintena de agências que realizam expedições no sul da Bolívia. Dois contactos a considerar: Colque Tours, na avenida Montes, La Paz, e Av. Potosí, em Uyuni, e Toñito Tours, na Av. Ferroviária, La Paz, que organizou a expedição descrita na reportagem.

É indispensável um bom protector solar (de factor elevado), já que a altitude varia nessa região entre os 4.000 e os 5.000 metros e mesmo no Inverno a radiação é intensa. Bons óculos de sol e roupa quente devem fazer parte, também, da bagagem.

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