|
|
|
|||||||
![]() |
VIAGENS AMÉRICA DO SUL » BRASIL » ALAGOASAlagoas
ALAGOAS, “BONITO DEMAIS”
Os folhetos turísticos oficiais dizem que o Estado de Alagoas “é bonito demais”, e não poderiam estar mais perto da verdade. É bonito mesmo. E não tem como questionar esse facto. Tem uma capital simpática e bem arranjada, eventos culturais de qualidade, belas praias desertas e um punhado de areais bem frequentados para quem gosta de ver e ser visto, piscinas naturais e muitas lagoas, um mar cristalino de cores impossíveis, noites animadas e restaurantes de qualidade internacional, pousadas de charme e hotéis modernos, cidades históricas a fazer lembrar a mineira Ouro Preto, canyons para os mais aventureiros, artesanato tradicional feito com o mesmo carinho de há centenas de anos e, claro, um povo bonito e hospitaleiro que não regateia um sorriso ao viajante. Alagoas tem tudo isso e muito mais. Venha daí nesta viagem aos 230 quilómetros do litoral de Alagoas. Rota Ecológica de Alagoas, charme no Litoral NorteHá uns oito anos atrás, o publicitário e jornalista brasileiro Ricardo Freire chamou pela primeira vez a atenção para uma região a norte de Maceió que definiu como “Rota Ecológica” e que abrange todo o litoral alagoano que vai desde a foz do Rio Camaragibe até à povoação piscatória de Japaratinga. “Paraíso descoberto!”, proclamou na época. Desde então, inúmeras pequenas pousadas que povoavam o litoral foram-se transformando em pousadas de charme, outras implantaram-se desde logo com preocupações ecológicas e de integração harmoniosa com o meio ambiente, conferindo uma atmosfera de requinte e acrescentando bom gosto às belezas naturais ímpares de uma região abençoada pela Mãe Natureza. Ricardo estava certo.
A melhor forma de conhecer todo o litoral da “Rota Ecológica” - que faz parte da chamada Costa dos Corais, definição oficial da região que engloba ainda Maragogi - é pela praia, de moto, aproveitando com sabedoria os baixios deixados no areal pela maré baixa. Parte-se à descoberta e é-se surpreendido a cada curva do areal, a cada nova praia, a cada pedaço de mangue, a cada pessoa que se cruza no caminho, a cada sorriso. Em Japaratinga, encontrei o senhor David, velho de pele enrugada por uma vida de trabalho no mar, limpando a sua rede de pesca pendurada numa árvore, sem pressas, como se o relógio fosse coisa inexistente e o dia de amanhã tão bom para limpar a rede como o de hoje. Assim que o cumprimentei, a conversa fluiu fácil e natural, como se, aos 72 anos de idade, o seu maior prazer fosse apenas este: partilhar experiências com quem quer que se dê ao “trabalho” de parar para conversar, sem o tiquetaque da vida urbana, enquanto um cigarro se queima lentamente no canto da sua boca. Eu, que sempre disse que o melhor das viagens são as pessoas que se conhecem na estrada, deixei-me ficar na companhia daquele homem simples, honesto e com a sabedoria que só a experiência de uma vida longa proporciona. Só depois comecei verdadeiramente a pensar em descobrir as muitas belezas naturais do litoral Norte de Alagoas. Como a própria Japaratinga, por exemplo. Ofuscada - felizmente, apetece dizer! - pela popularidade da sua vizinha Maragogi, Japaratinga mantém o charme rústico de uma aldeia de pescadores, oferecendo uma praia bonita e com pouca gente e umas quantas pousadas e hotéis de veraneio, incluindo a extraordinária Pousada do Alto localizada no topo de um morro a partir do qual se tem uma vista deslumbrante sobre Japaratinga, especialmente durante a maré baixa. A vida corre devagar em Japaratinga. É como que um lugar que tem pouco mas tem tudo o que é preciso para se ser feliz - e talvez não haja melhor definição do que esta aparente contradição para ilustrar a magia do povoado.
Caminhando em direcção a Maceió, passa-se depois por Bitingui e sua igreja colorida e por inúmeras praias de areia fina como a de Barreiras, até que o Rio Manguaba se encarrega de barrar a passagem e só de balsa ou canoa é possível prosseguir viagem. Do lado de lá, o farol de Porto de Pedras saúda o viajante no alto de um morro, imponente, enquanto lá em baixo um casario aprumado ladeia o empedrado da principal rua da aldeia. Segue-se Tatuamunha, Porto da Rua, a Praia do Lage com a sua magnifica Pousada Aldeia Beijupirá, e um percurso bonito até chegar a São Miguel dos Milagres, povoação cada vez mais famosa em virtude de ali estar instalada porventura a mais exclusiva unidade hoteleira de toda a Costa dos Corais: a Pousada do Toque. Fica num local irrepreensível, bem em cima de uma imensa praia de areia branca, e é frequentada quer por gente anónima quer por figuras públicas bem conhecidas e mediáticas do Brasil. Ao longo de todo o percurso, muitas das praias e pousadas estão pouco ou nada sinalizadas, indício de que a privacidade é apreciada e a publicidade nem sempre necessária ou desejável. É então com alguma pena que o viajante vê aproximar-se a Barra do Camarajibe, sinal de que a “Rota Ecológica” está prestes a chegar ao fim. Mas não desanime. Continuando para Sul, sempre em direcção a Maceió, passa ainda pelas falésias de areias coloridas da Praia Carro Quebrado, pela Barra de Santo António, por Paripueira, por pequenos outros lugares que tornarão o resto da viagem tão agradável com até então. Quase sem dar pelo tempo passar - o relógio há muito que saiu do pulso! -, começará a avistar as primeiras praias de Maceió, essa fascinante capital do Estado de Alagoas. Maceió, capital da tranquilidade
Maceió é uma capital tranquila e uma cidade que, para além de excelente base para se conhecerem as atracções de todo o litoral de Alagoas vale, por si só, como destino de viagem. Porque oferece um clima ímpar. Porque dispõe de belas praias integradas no tecido urbano. Porque tem uma marginal perfeita para caminhadas e corridas matinais ao longo das praias de Pajuçara, Ponta Verde e Jatiúca. Porque tem unidades hoteleiras de qualidade e para todos os gostos e bolsas. Porque alberga um dos maiores ícones da gastronomia contemporânea do nordeste brasileiro, o muito elogiado restaurante Wanchako. Porque está rodeada pela Lagoa Mundaú, num abraço comovente que confere um ambiente bucólico e arejado à cidade. Porque tem o Pontal da Barra onde é possível apreciar - e comprar - peças de filé, a mais típica das artes seculares do artesanato de Alagoas. Porque possui o magistral edifício da Associação Comercial, de uma beleza arquitectónica resplandecente. Porque tem um mar calmo, morno e cristalino, protegido por uma imensa barreira de corais ao largo da cidade. Porque é lá o Teatro Deodoro. E por mil e uma outras razões, de acordo com o gosto e interesse de cada viajante. Maceió é uma capital para todos. Com tantas atracções, o turismo massificado menos desenvolvido que noutros estados (excepção feita a Maragogi) e índices de criminalidade inferiores a muitas outras cidades de semelhante dimensão, não admira que Alagoas e a sua capital venham ganhando terreno entre os destinos turísticos mais elogiados do Brasil. Costa dos Coqueiros, beleza e diversidade no Litoral Sul de AlagoasPara Sul, tudo começa na Praia do Francês, a escassos quilómetros de Maceió e local de peregrinação de fim-de-semana dos habitantes da capital. A praia fica lotada de gente jovem, os corpos passeiam-se bronzeados, a música anda solta pelos bares de praia. Se gosta de estar rodeado de gente bonita e de um ambiente festivo, o Francês pode muito bem ser a sua praia predilecta, mas se está numa de lugares tranquilos e passeios a dois, o melhor é prosseguir viagem, porque o que não faltam são recantos belos e sossegados neste litoral encantador.
A Praia do Gunga, por exemplo, ainda que a sua fama corra já um pouco por todo o Brasil e mesmo além-fronteiras, é tão grande que permite longas caminhadas ou passeios de buggy através de um areal imaculado, delimitado por fileiras de coqueiros aprumados que a tornam tão bela que parece irreal. São esses mesmos coqueiros que, muito justamente, dão o nome turístico a este pedaço de litoral (Costa do Coqueiros), até porque, um pouco antes do Gunga, situa-se uma das maiores preciosidades da região, um local que os alagoanos bem conhecem e admiram: a Barra de São Miguel. Protegida por uma longa barreira de material orgânico sedimentado, as águas das praias da Barra de São Miguel são tão calmas que se tornam ideais para toda a família, crianças e mais velhos incluídos. Visto de cima, como do topo do Hotel Village Barra, o cenário é idílico. O mar parece dividido em dois, ficando a parte raivosa bem longe do areal, que acolhe apenas a faceta calma do oceano. Da Barra de São Miguel diz-se ser um dos únicos lugares no mundo onde três águas distintas - de uma lagoa, de um rio e do mar - se encontram num mesmo ponto. Particularidades à parte, apetece citar de novo o slogan promocional do turismo de Alagoas a propósito da Barra de São Miguel: “é bonito demais!”. Mais para Sul, existem ainda dezenas de quilómetros de praias por descobrir, locais de rara beleza como o Pontal do Cururipe e, claro está, a foz do Rio São Francisco que separa Alagoas do Estado de Sergipe, onde é possível desfrutar de passeios de barco navegando ao longo do mítico “Velho Chico” - como é carinhosamente chamado o Rio São Francisco. Tudo lugares a explorar sem pressas. Maragogi, pérola a precisar de cuidadosPor enquanto, ainda é considerado uma espécie de paraíso do nordeste brasileiro mas, a nada ser feito, tornar-se-á num desastre ecológico provocado pelo turismo massificado. Demasiada gente apinhada em catamarãs ruma, diariamente, aproveitando a maré baixa, às afamadas galés de Maragogi, zona de uma beleza natural fora de série localizada a seis quilómetros da costa. Uma vez chegados às piscinas naturais e assim que as âncoras se enterram nas areias do fundo do mar, os turistas são confinados a um pequeno círculo de mar delimitado por bóias amarelas. Há guias turísticos a gritar e a apitar sonoramente, uma multidão de gente que se acotovela na água, o tempo contado ao minuto, o marketing associado ao passeio alugando e vendendo de tudo um pouco (espetinhos de carne e queijo assados, bebidas e cocktails, fotografia subaquática, aluguer de máscaras e snorkels). O que se vê do convés do barco, olhando para todas as cabeças que quase cobrem as águas de preto, castanho e loiro, não é bonito de se ver.
Não há como negar que tanta gente inflige danos irreparáveis aos recifes de coral. Um toque involuntário parte facilmente um coral com milhões de anos. Quanto aos peixes, cuja observação é um dos principais motivos da visita, naturalmente se afastam da área delimitada pelas bóias. A única forma de os observar em quantidade e diversidade é lançando comida à água (!) ou pagando um mergulho de garrafa a cinco metros de profundidade, cujo trajecto se afasta da zona demarcada pelas bóias. Quem mergulha vem naturalmente fascinado com as galés de Maragogi. É verdade que a Capitania dos Portos de Alagoas faz um esforço por estipular um número máximo aceitável de turistas por dia, mas essa imposição não parece ser acatada pelos operadores. No dia em que visitei as galés de Maragogi estavam cerca de mil pessoas em simultâneo na água. E consta que na alta temporada esse número ultrapassa muitas vezes as 2.500 pessoas. Demasiada gente para as galés de Maragogi. Durante uma hora e meia, tempo de permanência dos turistas nas galés, os recifes de coral de Maragogi clamam por paz. Dito isto, há que ser justo e afirmar que Maragogi é um local de uma beleza natural encantadora, que merece a atenção de todos os que visitam o surpreendente Estado de Alagoas. Apenas precisa de alguns cuidados, urgentes, para não correr o risco de se tornar num case-study de como o turismo massificado pode ser danoso e autodestrutivo. Mas que é um local maravilhoso, disso ninguém duvide. Outras rotas alagoanas: Cidades históricas de Penedo e Marechal DeodoroÉ certo que o litoral de Alagoas é um encanto, mas há muito mais para conhecer neste pedaço do nordeste brasileiro do que praias de areia branca com recifes de coral mergulhados em águas quentes e transparentes. As cidades históricas de Penedo e Marechal Deodoro são disso exemplo, não só pela importância histórica, mas pela beleza arquitectónica que remete para o Brasil colonial, pelas fachadas coloridas dos casarios em ruas empedradas, pelas igrejas barrocas, pelo ambiente recatado.
Marechal Deodoro, por exemplo, foi a primeira capital de Alagoas e berço do Proclamador da República e primeiro Presidente do Brasil. Está localizada nas margens da Lagoa Manguaba e possui um riquíssimo acervo arquitectónico, com múltiplas igrejas e conventos seculares. Bem próximo, fica a afamada Praia do Francês. Quanto a Penedo, cidade histórica localizada nas margens do Velho Chico, dela se diz ser uma espécie de Ouro Preto do Nordeste, epíteto apenas disputado pela belíssima cidade de Olinda, em Pernambuco. Vale principalmente pela arquitectura colonial, pelas igrejas como a de Nossa Senhora das Correntes e seus maravilhosos azulejos portugueses, e por histórias de outros tempos contadas desde a época em que a família Lemos lutou pela abolição da escravatura na região. E é isso que lhe propomos: que aproveite a viagem a Alagoas e conheça as suas riquezas histórico-culturais, nem que seja no intervalo entre duas idas à praia. Vai ver que não se arrepende!
| |||||||||||||||||||||||||||
|
|
© 2010 Alma de Viajante - jornalismo de viagens. Todos os direitos reservados.