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Ouro Preto, a grande capital setecentista

Ouro Preto

Graças à decadência que se seguiu à transferência da capital do Estado de Minas Gerais para Belo Horizonte, no final do século XVIII, Ouro Preto conservou um núcleo histórico inestimável, classificado pela UNESCO como Património Mundial. Nas suas ruas e calçadas sobrevive uma memória dos tempos em que foi uma das prósperas cidades da América do Sul.

Ouro Preto, ambiências coloniais

Depois de Diamantina, a relíquia setecentista que hospedou a negra Xica da Silva, bem lá no coração de Minas Gerais, talvez Ouro Preto comece por decepcionar o viajante que se deixa facilmente deslumbrar por cenários retocados. Não que o caso seja o de Diamantina se confundir com pechisbeque ou o de o seu património edificado reproduzir um pastiche com vocação de cenário de novela histórica - lá se rodou em tempos, aliás, a novela que narra a vida da velha escrava que ascendeu a senhora burguesa, perdendo no passe a cabeça e as raízes.

Praça central de Ouro Preto, uma das cidades históricas do Estado de Minas Gerais

Praça central de Ouro Preto, uma das cidades históricas do Estado de Minas Gerais

A cidade onde nasceu Kubitschek, a antiga capital dos diamantes, é uma das mais belas urbes brasileiras (palavras bem medidas), mas Ouro Preto é, arrisco o palpite, uma síntese ainda mais sedutora da matriz arquitectónica e urbana lusitana com as ambiências coloniais de feição local; não tão mestiça ou crioula como a cidade dos diamantes, mas sob certo ponto de vista, mais carismática e “autêntica” no seu traçado irregular de ruelas e calçadas íngremes “à portuguesa”, que evocam, para uns, núcleos urbanos do Portugal setentrional, e para outros aquelas ladeiras que se ramificam a partir da Praça Velha, em Angra do Heroísmo.

A unidade, o equilíbrio do conjunto, apesar da condição de síntese, tocou o verbo do poeta Manuel Bandeira, que com um grupo de intelectuais modernistas consumou no início do século XX, durante a presidência de Getúlio Vargas, um trabalho de identificação dos valores culturais (património edificado, tradições, etc.) que pudessem sustentar a construção da identidade brasileira.

No seu Guia de Ouro Preto, o escritor assinalava que na cidade, marcada pela decadência que se seguiu à mudança da capital para Belo Horizonte, “...os prédios novos são excepção... [Ouro Preto] conservou, mercê da sua pobreza, uma admirável unidade. De todas as nossas velhas cidades é ela talvez a única destinada a ficar como relíquia inapreciável do passado”.

O reconhecimento da importância histórica e patrimonial de Ouro Preto viria a traduzir-se na declaração da cidade como Monumento Nacional pelo IPHAN - Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional, em 1933. Aquele que é o maior conjunto preservado com tipologia urbana e arquitectónica setecentista em território brasileiro acabaria, finalmente, por integrar a lista de Património Mundial da UNESCO no ano de 1980.

A providencial decadência de Ouro Preto

Os primeiros bandeirantes fizeram a sua rota pela zona onde nasceria, no início do século XVIII, a cidade de Vila Rica de Albuquerque. Foi já no final da última década do século XVI - ao que parece, na noite de São João do ano de 1698 - que António Dias de Oliveira localizou com exactidão o local onde se havia descoberto, anos antes, umas promissoras pepitas de ouro.

Igreja de São Francisco em Ouro Preto

Igreja de São Francisco em Ouro Preto

Na verdade, os veios auríferos revelar-se-iam os mais importantes do hemisfério ocidental - a sua produção chegou a representar metade do ouro explorado em todo o mundo nessa época. Com alguma razão, afinal, havia o expedicionário garimpeiro concluído que o que tinha debaixo dos pés era o mítico Eldorado.

Não só a fé move montanhas: assim, também, a cupidez ou ânsia de riqueza movimentam massas humanas. Seguiu-se uma dessas febris corridas ao precioso metal e em 1711 nasceria Ouro Preto (o nome deriva do ouro escuro coberto por uma camada de óxido de ferro), ainda sob a designação de Vila Rica, cidade que viria a conhecer durante esse século um esplendor de fazer inveja a europeias capitais.

A cidade contava então uns cem mil habitantes, contra apenas vinte mil no Rio de Janeiro e cinquenta mil em Nova Iorque.

Em 1721 receberia o pomposo título de Cidade Imperial de Ouro Preto, longo rótulo para a curta glória de um século. Em 1798, a capital do Estado de Minas Gerais seria fixada em Belo Horizonte e Ouro Preto abandonar-se-ia a uma providencial decadência, obreira, na verdade, da conservação das suas características setecentistas. Quase século e meio depois, Manuel Bandeira sentencia: “Ouro Preto é a cidade que não mudou, e nisso reside seu incomparável encanto”.

Tal como aconteceu com as explorações mineiras hispânicas na América do Sul, as riquezas extraídas de Ouro Preto seguiram a toque de caixa para alimentar o fausto das cortes ibéricas. A glória durou menos de uma centúria, mas foi durante esse tempo que a cidade, que se podia dar ao luxo de importar mestres e artistas da Europa, viu erguerem-se nas suas ruas algumas das mais belas igrejas edificadas no território brasileiro.

Centro histórico de Ouro Preto

Centro histórico de Ouro Preto

O périplo patrimonial de Ouro Preto privilegia, justamente, templos como a Igreja de São Francisco, obra-prima barroca de António Maria Lisboa, o Aleijadinho, artista local que assinou igualmente outras realizações escultóricas e arquitectónicas memoráveis, como a Basílica do Bom Jesus, em Congonhas, classificada também pela UNESCO como Património Mundial.

Outros templos de visita obrigatória são a Igreja de Santa Efigénia dos Pretos, construída entre 1742 e 1749 pelos escravos das minas, gente que chegou a constituir a maioria da população da cidade, e a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pilar. A imagem exterior de Nossa Senhora do Rosário é outra obra atribuída também ao Aleijadinho.

A Capela do Padre Faria, o templo mais antigo de Ouro Preto, merece a atenção devida a uma pérola singular, rara, refractária às luzes da ribalta: contém um precioso trabalho em talha dourada, de autoria infeliz e injustamente não documentada.

Solares e calçadas de Ouro Preto

A transferência da capital do Estado de Minas Gerais para Belo Horizonte foi um dos principais factores da decadência de Ouro Preto, a par do emagrecimento dos filões.

A decadência subsequente levou ao abandono de uma parte da população e à anemia quase fatal da actividade económica. Este facto teve, como se viu, uma consequência positiva, a preservação do centro histórico, com o seu amplo e notável conjunto de edificações coloniais.

A benefício de inventário, conta-se em mais de um milhar os edifícios com interesse patrimonial existentes no centro histórico. Mercê de um trabalho sistemático, levado a cabo pelos técnicos do IPHAN, muitos edifícios foram objecto de reabilitação, achando-se alguns deles afectados actualmente a funções museológicas.

Uma das muitas ladeiras de Ouro Preto, Minas Gerais

Uma das muitas ladeiras de Ouro Preto, Minas Gerais

Um bom exemplo é o Museu da Inconfidência Mineira, instalado na antiga Casa de Câmara e Cadeia, na central Praça Tiradentes. Outro edifício emblemático, a merecer a admiração dos visitantes, é a Casa dos Contos, um magnífico solar oitocentista de claro perfil português.

A Casa da Baronesa, na Praça Tiradentes, que acolhe actualmente os serviços locais do IPHAN, deve também ser incluída no roteiro, assim como o Teatro Municipal ou a casa de Tomás António Gonzaga (rebelde do movimento independentista da Inconfidência Mineira, exilado depois em Moçambique), onde funciona a Secretaria do Turismo.

Aliás, uma das imagens mais fortes de Ouro Preto é a que evidencia a presença fértil de bons exemplares arquitectónicos e de ruelas que evocam as atmosferas urbanas de algumas povoações do Norte de Portugal.

Caminhe-se, por exemplo, a passo brando pela Rua Direita ou pela Rua da Bobadela, onde nasceu Marília de Dirceu, a musa inspiradora do Tomás António Gonzaga: é uma das muitas artérias onde nos podemos deixar submergir na harmoniosa, cadenciada convivência de sobrados rejuvenescidos e velhas calçadas de pedra.

TURISMO EM OURO PRETO

Este é um guia prático para viagens de turismo a Ouro Preto, com informações sobre a melhor época para visitar, como chegar, pontos turísticos, os melhores hotéis e sugestões de atividades nas cidades históricas de Minas Gerais.

Como chegar

COMO CHEGAR A OURO PRETO

Voar para o Rio de Janeiro ou Belo Horizonte, esta última capital do Estado de Minas Gerais e com fácil acesso a Ouro Preto. Do Rio de Janeiro partem autocarros diários para Ouro Preto; a viagem dura cerca de 5 horas. A alternativa de alugar um automóvel concede, obviamente, maior liberdade de movimentos, mas só se aconselha a quem se sentir à vontade nos meandros do trânsito de saída da cidade carioca.

Onde ficar

ONDE DORMIR

Não faltam opções de hotéis e pousadas em edifícios coloniais de Ouro Preto: Listam-se, apenas, três desses exemplos: Hotel Pousada Solar da Ópera, na Rua Conde de Bobadela 79; Hotel Colonial, Travessa Padre Camilo Veloso 26; Pousada Minas Gerais, Rua Xavier da Veiga 303.

Hotéis em Ouro Preto

Gastronomia

RESTAURANTES

O restaurante Casa do Ouvidor, na Rua Conde de Bobadela, é um dos mais prestigiados de Ouro Preto; aí, na acolhedora sala do primeiro andar de um velho sobrado, podem ser degustadas algumas das especialidades gastronómicas mineiras, como o frango com quiabos e a saborosa couve mineira, assim como as boas cachaças produzidas na região.

informações úteis

INFORMAÇÕES ÚTEIS

Há disponível no Brasil uma reedição do Guia de Ouro Preto, escrito pelo poeta Manuel Bandeira (que foi técnico do IPHAN). É uma publicação preciosa, que contém abundante informação sobre o património arquitectónico, religioso e artístico da cidade.

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