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VIAGENS AMÉRICA DO SUL » BRASIL » PANTANALPantanal, Brasil
PANTANAL, ÁGUA E CÉUPerto de Corumbá, a poucos quilómetros da fronteira com a Bolívia, o rio Paraguai é um imenso manto de água onde se espelha, em pleno Agosto, o céu azul da estação seca. No momento do crepúsculo, o horizonte parece cobrir-se de pinceladas de fogo e uma intensa cor vermelha derrama-se pelas águas do grande rio, o maior e mais largo de toda a região.
Alimentado pela corrente de uma infinidade de cursos de água como os rios Miranda e Abobral, que a ele se juntam nas imediações de Corumbá, o rio Paraguai atravessa uma grande parte do Pantanal. A região tem características geográficas muito especiais, com pouco declive e ciclos climáticos de fortes chuvas, que caem com mais intensidade entre Dezembro e Março. A imensa área alagada chega a atingir os 230 mil quilómetros quadrados e os seus milhares de braços de água ajudam também a engrossar o caudal do Paraguai. As primeiras chuvas chegam com os meses de Outubro e Novembro. O calor e a humidade são outros ingredientes da estação, incómodos quanto baste, mas são sobretudo os mosquitos a causa fundamental de pulverização da paciência do viajante. Em pleno mês de Julho, adiantada já a estação seca, o pequeno bimotor que traz desde Campo Grande, a capital do Estado do Mato Grosso do Sul, desce sobre a pista molhada de Corumbá. A manhã está fria e cinzenta, tolhida por uma persistente chuva miudinha que faz lembrar o Inverno europeu. Serão, todavia, águas de pouca dura. Nos dias seguintes o sol há-de irradiar uma luz tropical sobre toda a região. CORUMBÁ, VIZINHA DO PANTANALCorumbá é uma das principais entradas do Pantanal, nomeadamente da parte sul, a mais acessível. É nesta região que se localizam muitas das fazendas que acolhem os viajantes interessados no ecoturismo. Há uma variedade razoável de oferta de alojamento, assim como diferentes modalidades de visita às áreas protegidas. As fazendas disponibilizam passeios a cavalo e os guias conduzem os forasteiros por trilhos que permitem a observação da vida selvagem.
Uma terceira opção é percorrer de barco os rios e conciliar a pesca com os inevitáveis safaris fotográficos. Não é difícil avistar nas margens uma grande variedade de aves, de pequeno e grande porte, como o gavião-pato, o gavião-de-penacho, o chororó-do-pantanal, a garça e o elegante e fleumático tuiuiú, o símbolo do Pantanal. A arara azul é mais esquiva, tal como a onça-pintada. Mas, em contrapartida, os pequenos mamíferos, como as capivaras, os macacos-prego, os saguis ou os cervos-do-pantanal, são frequentes em muitos recantos. Corumbá tem 80.000 habitantes e é uma localidade tranquila como muitas das suas congéneres do interior brasileiro. As ruas do centro, em esquadria, conservam muitas casas com traços arquitectónicos do período colonial. Um bom exemplo é o casario da frente portuária, junto ao rio Paraguai, classificada pelo Instituto do Património Histórico e Artístico Nacional. É nesse trecho da povoação que claramente confirmamos a importância que o turismo ecológico tem para a economia local, tal a quantidade de embarcações destinadas a cruzeiros de pesca, para o que se encontram equipadas com o essencial, desde camarotes com água quente a cozinhas e arcas frigoríficas. Uma pequena tripulação assegura a viagem que dura habitualmente cerca de cinco ou seis dias. Junto ao cais, tal como noutras pequenas localidades do Pantanal, não faltam também lojas de venda e aluguer de apetrechos para a pesca. SUBINDO O RIO PARAGUAISe o Pantanal é uma das reservas piscícolas mais ricas de todo o mundo, a quantidade é devidamente complementada pela qualidade da invenção gastronómica. Além do caldo de piranha, que é incensado localmente pelas suas alegadas propriedades afrodisíacas, cabe anotar a excelência de algumas espécies como o pintado ou o pacu, presenças constantes nos pratos dos corumbenses. No terraço do hospitaleiro Hotel Angola, propriedade de um português de Trás-os-Montes há muito emigrado em terra brasileira, saboreio o “pintado à urucum”, acompanhado por um aromático vinho branco do Rio Grande do Sul. O peixe é cozinhado com creme de leite e leite de coco gratinado com mozzarela.
O Hotel Angola fica a dois passos do porto. Wagner, um brasileiro sonhador do Rio de Janeiro envolvido num projecto de prospecção de diamantes do outro lado da fronteira, na região boliviana de San Jose de Chiquitos, ajuda-me a encontrar um barco para explorar um trecho do Paraguai. Numa ladeira próxima do cais encontramos António, um pescador que por cinquenta reais põe à nossa disposição o seu pequeno bote motorizado. Partiremos no dia seguinte, pouco depois do amanhecer. O primeiro lanço do rio leva-nos em direcção a leste, até perto da fronteira boliviana. A partir daí, o Paraguai segue para norte, mais ou menos paralelo à fronteira. Na verdade, navegamos contra a corrente, uma vez que o rio corre desde a Serra de Araporé, no Estado do Mato Grosso, para se converter, uns milhares de quilómetros mais a sul, na linha fronteiriça entre a Bolívia e o Paraguai. O caudal é forte, apesar da época, e ao longo do trajecto de mais de vinte quilómetros, cruzamo-nos com troncos flutuantes e grandes emaranhados de lianas e plantas aquáticas que se soltam das margens. A subir ou a descer o rio surgem também os barcos-hotéis. O cruzamento com uma grande jangada cheia de gado representou o momento mais problemático da viagem por causa das ondas com mais de um metro de altura. Perante a nossa apreensão, António sorriu discretamente e apontou a quilha do frágil bote perpendicularmente em direcção à ondulação. As primeiras horas da manhã - e o fim da tarde - são os melhores momentos para observar a passarada nas margens. Gaviões, garças e tuiuiús aproximam-se do rio para se dessedentarem. Existem no Pantanal mais de 650 espécies diferentes de aves. Imóveis e estendidos ao sol, avistam-se também jacarés que com a aproximação do bote se apressam a mergulhar nas águas turbulentas. Calcula-se que a população destes répteis chegue a 32 milhões em toda a área do Pantanal. PESCAR COM REGRAS NO PANTANALEstas jornadas fluviais podem ser realizadas também noutros rios da região como o Aquidauana e o Miranda, no sul, ou o Cuiabá, no norte. Na região central, correspondente ao Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense, as normas impõem contudo maiores condicionalismos aos visitantes, sendo interdita, por exemplo, a pesca.
No ecossistema do Pantanal estão registadas 262 espécies de peixes, predominando o pintado, o pacu, o cachara, o dourado, a piraputanga, a piranha e o curimbatá. De manhã cedo e ao fim da tarde, a pesca é mais produtiva mas, na verdade, não é necessário ser-se mestre na arte para se ter sucesso. Se um peixe de grande porte - o pintado pode atingir umas largas dezenas de quilos - pode exigir alguma destreza e sabedoria, para capturar meia dúzia de piranhas parecem ser suficientes linha, isco e um pouco de sorte. A pesca desportiva nos rios do Pantanal, que atrai cada vez mais gente de todo o Brasil, está rigorosamente regulamentada. A actividade é proibida entre Novembro e Janeiro e há tamanhos mínimos que devem ser respeitados. Além disso, cada pescador não pode exceder o limite de 25 kg de peixe. Os controlos policiais ao longo dos rios são, aliás, muito frequentes. Mas estas andanças são apenas uma parcela do que o viajante tem para usufruir nesta região única. A flora observável ao longo dos rios ou em caminhadas por trilhos é suficientemente diversa e rica para fazer esquecer essa característica de predador que sobrevive nos humanos. Afinal, entre as imagens mais impressivas do Pantanal estão as das copas frondosas dos ingás e dos ipês-amarelos que nas margens dos rios acolhem bandos de pássaros entretidos em exuberante chilrear, a música mais emblemática deste paraíso desenhado entre céu e água.
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