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Viagens Erg-Chebbi, Marrocos
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VIAGENS ÁFRICA » MARROCOS » ERG-CHEBBI

Erg-Chebbi, Marrocos

Próximas da fronteira com a Argélia, no interior Sul de Marrocos, as dunas de Erg-Chebbi, junto à peculiar aldeia de Merzouga, são um óptimo prenúncio do grande deserto do Sara. Relato de uma viagem independente à região do Erg-Chebbi.

Por Humberto Lopes

Onde fica Erg-Chebbi [Google Earth]?



VIAGEM A ERG-CHEBBI - TAMBORES NO DESERTO

Um dado essencial, quando se trata para obviar equívocos: o turismo é a mais importante indústria de serviços de Marrocos. Nela trabalha mais de 40% da população activa e a tendência, para já, parece ser de crescimento. Os mais de dois milhões de visitantes que chegam ao país anualmente deixam receitas equivalentes ao montante total de divisas enviadas pela comunidade emigrante nos países da União Europeia. A esmagadora maioria destes visitantes dirige-se para as praias do sul, para Agadir, ou para as cidades históricas de Fez e Marraquexe, e apenas uma pequena parte se interessa pelo interior - onde se encontra, justamente, o que mais individualiza o país - e, muito especialmente, pelos caminhos que conduzem ao primeiro prenúncio do Sara, as dunas localizadas junto à aldeia de Merzouga, próximo da fronteira com a Argélia.

Portas da cidade de Rissani, Marrocos
Portas da cidade de Rissani, Marrocos

Assim dito, a solidão destas paragens - e mesmo a das dunas do Erg-Chebbi - é uma solidão relativa. O cenário não é, em todo o caso, o de um turismo de massas, nem tem qualquer parentesco com o das vagas de turistas que saem de Agadir e são depositados nas aldeias do flanco sul do Alto Atlas em sucessivos autocarros. Mas não pode o viajante armar-se de estranheza se num oásis do sudeste, entre Erfoud e Rissani, der de caras com um compatriota que, bem conversadas as contas, até tem amigos comuns. Mais do que um fenómeno do foro das coincidências, trata-se de um sintoma da crescente popularidade do sul de Marrocos entre os viajantes que buscam experiências distantes de um turismo organizado e previsível - possíveis aqui, afinal, se a viagem se realizar de forma autónoma e disponível para um bom número de imprevistos. E a jornada será tanto mais compensadora quanto melhor souber o viajante em causa desembaraçar-se da bagagem etnoêntrica que se pode intrometer entre si e a realidade como um vidro fosco ou sujo.



NAS GARGANTAS DO ZIZ

Er-Rachidia é uma cidade moderna, a capital administrativa da região construída pelos franceses, actualmente sede do principal aquartelamento militar no sudeste de Marrocos. As avenidas são amplas e à excepção das portas de entrada, com os tradicionais desenhos geométricos, quase nada a distingue de um aglomerado urbano sem pátria. Pode constituir, todavia, uma etapa intermédia para o viajante que se dirige para o sul, tanto mais que nas imediações da cidade - que deve o nome ao líder alauíta Moulay er-Rachid - há razoáveis motivos de interesse para organizar alguns itinerários.

Passeio de camelo nas dunas do Erg-Chebbi, Sul de Marrocos
Passeio de camelo nas dunas do Erg-Chebbi, Marrocos

O percurso mais interessante leva-nos para norte ao longo do vale do Oued Ziz até à aldeia de Rich. O trajecto merece bem a pequena viagem - pouco mais de trinta quilómetros -, com a estrada a serpentear pelo vale, atravessando um túnel e entranhando-se depois nas belíssimas gargantas do Ziz, para confluir depois numa ampla planície que oferece uma das mais eloquentes paisagens desta zona de transição. A aldeia surge acantonada à beira do rio e ao fundo recortam-se os contrafortes do Atlas, trecho por onde se insinua a estrada que vai até Midelt e daí até Azrou e Meknès.

Um pouco mais perto de Er-Rachidia, a cerca de vinte e três quilómetros, está a fonte azul de Meski, uma grande piscina natural que é uma benção para o calor que caracteriza a região, mesmo na Primavera. Há que evitar, contudo, os fins-de-semana, período em que o local se enche de demasiada gente. Se a excursão tiver como consequência abrir o apetite ao viajante, o regresso à cidade deixará à mão de semear um pequeno leque de opções para a degustação da gastronomia marroquina, mas o Restaurante Oásis, na Rua Sidi Bou Abdallah, não deixa ficar mal o nome, tanto mais que é um dos pouco na região em que estão autorizadas as bebidas alcoólicas.



UM CORDÃO DE SETECENTAS MIL PALMEIRAS

A luz da tarde começa a desfalecer quando abandono Er-Rachidia, rumo ao sul. Ainda devem restar umas duas horas de sol, o suficiente para chegar a Erfoud e, eventualmente, Rissani, dependendo do capricho das paragens. A estrada segue sensivelmente o curso do Oued Ziz, cruzando pequenos povoados berberes como Oulad Aissa e Aoufouss. Diante do casario aglomerado, sempre à beira de um oásis, vou avistando os terraços onde as tâmaras são colocadas ao sol depois da colheita.

Viagem a Merzouga, Erg-Chebbi
O deserto negro, perto de Merzouga

É com a esplêndida luminosidade do crepúsculo que se estampa ao fundo do vale o extenso palmeiral do Tafilalet, o maior de Marrocos. São ao todo cerca de setecentas mil palmeiras que se estendem pelo vale do Ziz, ao longo de mais de cinquenta quilómetros, até para lá de Rissani. A economia da grande maioria das famílias berberes que habitam os oásis, tanto nesta região como no Vale do Draa, depende deste tipo de palmeira, que produz diferentes variedades de tâmaras, entre elas a muito apreciada Bed el jaj, considerada a de melhor qualidade. Dizem que do Tafilalet saem, aliás, as melhores tâmaras do reino. Calcula-se que o número total de palmeiras existentes em território marroquino chegue aos cinco milhões e que a produção média anual por hectare se aproxime das quinze toneladas. A sua sombra, nos oásis, é indispensável para o cultivo das pequenas hortas que abastecem de legumes os povoados berberes.

Em Rissani, após uma visita às dunas de Merzouga, pode ser uma boa ideia uma imersão na sombra do palmeiral, uma oportunidade, também, para observar a rede de canais de rega e o labirinto contínuo de hortas. Uma nota, mais: o Outono é uma época privilegiada para viajar pela região, e não apenas por causa das condições climáticas, já que os dias são menos quentes. É uma temporada de festas, das maiores da região, e a da celebração da colheita das tâmaras.



OS PIRILAMPOS DAS PISTAS DE RISSANI

À saída de Maadid, um dos mais antigos e povoados ksour da região, um homem de turbante branco e camisa vermelha faz um sinal apontando na direcção sul. Chama-se Rachid, é um dos muitos guias que se oferecem para acompanhar os viajantes pelos caminhos mais inóspitos e difíceis da região. Rachid havia deixado nessa amanhã um grupo de três pessoas em Er-Rachidia e seguia para Erfoud, onde tencionava pernoitar. Mas estes novos nómadas vivem com pragmatismo o dia a dia e respondeu prontamente de modo afirmativo à proposta de continuarmos a viagem para Rissani e depois daí até Merzouga. A minha ideia era chegar às portas do deserto ainda nessa noite, propósito irrealizável sem o auxílio de um guia, uma vez que mesmo com luz, os quarenta quilómetros de pistas até às dunas são praticamente indecifráveis.

Aldeia de Madhid, na estrada para o Erg-Chebbi, em Marrocos
Aldeia de Madhid, na estrada para o Erg-Chebbi

O asfalto acaba em Erfoud e a partir daí continuamos por uma estrada de terra que vai piorando pouco a pouco. É quase noite quando atravessamos Rissani, mas ainda com luminosidade bastante para nos apercebermos de uma grande grupo de camelos que caminha tangente à estrada. A noite caiu há muito quando penetramos nas pistas. Mal se decifram os melhores caminhos, o que obriga a imprevisíveis piruetas e reviravoltas, entre um labirinto de marcas de rodados, areia, pedras e um ou outro tufo de vegetação raquítica. Ao longe, no negrume da noite, consigo entrever os minúsculos faróis dos jipes em constante ziguezague, como se fossem pirilampos perdidos ou a meio de uma improvável dança nupcial.

Rachid toma o volante durante a quase hora e meia que dura a viagem até às dunas e vai contando que a região do Tafilalet foi a última em todo o país a cair nas mãos dos franceses, resistindo até 1932. Erfoud foi fundada exactamente com a função de dar apoio a uma divisão da Legião Estrangeira destinada a controlar as insubmissas tribos locais. Rissani, que visitaremos dois dias depois, foi o local de origem da dinastia alauíta, a que pertence Mohammed VI, o actual rei. O palácio da família constitui uma das visitas possíveis em Rissani. Já templo - o marabout - onde está sepultado Moulay Ali ash-Sharif, fundador da dinastia, é interdito aos não muçulmanos. Resta a notável Porta de Oulad Abdelhalim e, sobretudo, as ruínas da cidade lendária de Sijilmassa, para ocupar o tempo de uma jornada em Rissani. A cidade foi capital de um principado islâmico chiita (os muçulmanos de Marrocos são na sua esmagadora maioria sunitas) que resistiu ferozmente à conquista do Magreb pelos Árabes. Uma outra visita, apresentada por Rachid como imprescindível, levar-nos-ia a um “kasbah tuaregue”. À cerimónia do chá - o mais saboroso e aromático de quantos provei em Marrocos - seguiu-se uma demorada exibição dos belíssimos tapetes tuaregues, com explicações detalhadas sobre a complexa simbologia dos desenhos.



AMANHECER NAS DUNAS DE MERZOUGA

Vous êtes bienvenues”. Lakhlafa Ettaiek recebe-nos com um sorriso rasgado à entrada do Auberge Kasbah Tombouctou, em Merzouga, situado a escassas duas centenas de metros das dunas. Cá fora há mais três ou quatro viaturas cobertas de poeira e dentro da casa - em terra e reproduzindo a arquitectura tradicional dos kasbahs - uma meia dúzia de viajantes descansa sobre as almofadas coloridas da sala. Chegamos ainda a tempo da refeição da noite, um generoso couscous de carneiro com muitos legumes, complementada por uma improvisada sessão de tambores. Durante mais de uma hora, a pele dos bendir, a que os berberes chamam tagnza ou allun, vibram às mãos dos irmãos Ettaiek, de Rachid e dos outros guias berberes.

Viagens Erg-Chebbi, Marrocos
O Erg-Chebbi, primeiro sinal do grande deserto do Sara, Marrocos

O Auberge Kasbah Tombouctou dispõe de três ou quarto quartos, mas uma boa parte dos aventureiros que aqui chegam preferem dormir no terraço, ao relento, enrolados em sacos-cama. A terceira alternativa pareceu-me a mais interessante: dormir numa “tenda tuaregue”. A estrutura tem características compósitas, já não é a tenda que se desmonta para voltar a armar mais adiante, depois de uma dura jornada de vários dias. Os velhos panos grosseiros estão enlaçados em estacas e ladeados por alguns blocos de cimento para maior resistência ao vento, que durante toda a noite não deixou, de resto, de se passear por dentro da tenda como se estivesse em sua casa. E antes do amanhecer, ainda noite escura, o resfolegar dos camelos lá fora, mesclado com um impreciso murmúrio de vozes, despertou-me para a iminência do nascer do sol.

Com a primeira claridade da aurora a despontar no céu, caminhei duna atrás de duna até à mais alta que achei, para ver o dia romper com uma neblina que fazia turvo o disco solar. Dissipada a névoa, as areias cobriram-se de um tom dourado, de um dourado mais diáfano, e menos frívolo, do que aquele que o sol derrama ao entardecer. Uma passagem dos escritos de Isabelle Eberhardt, relativa a uma sua viagem pelo Magreb, veio assomar-se na memória incerta, as palavras bastantes para poder ser reconstituída mais tarde: “Ao longo dos anos vagabundos, o olhar céptico habitua-se às cores mais brilhantes e aos cenários mais estranhos. Acaba por descobrir a decepcionante monotonia da terra e a semelhança de todos os seres - e trata-se de um dos mais profundos desencantos da vida. No entanto, há recantos de certas regiões que se mantêm intactos: só eles podem devolver às almas exaustas o frémito de que se julgavam desapossadas para sempre”...



OS RIOS MORREM NO DESERTO

Estamos a cerca de trinta quilómetros da Argélia, e as dunas que se elevam mais adiante - algumas com cento e cinquenta metros de altura, são o primeiro sinal do grande deserto do Sara. Há outros albergues semelhantes, distantes dois ou três quilómetros uns dos outros, dispostos ao longo da orla das dunas. A separar-nos das pistas que acabamos de percorrer e que veremos no dia seguinte, a planície escura e pedregosa negra da hamada, o deserto negro.

Rachid, guia dos caminhos de Erfoud a Merzouga, Marrocos
Rachid, guia dos caminhos de Erfoud a Merzouga

Mas antes de chegar o sono, como resistir a uma caminhada até ao mar de areia mergulhado adiante em quase completa escuridão? Não há luar, mas as estrelas que brilham lá em cima iluminam o caminho. A temperatura desce rapidamente, a cada minuto que passa o ar torna-se mais frio. Os tambores ouvem-se cada vez mais longe, até o silêncio atravessar todo o espaço e penetrar cada um dos infinitos grãos de areia. Tudo parece distante, estranho e irrisório - como aquela história de atribuir aos portugueses - gente antiga que andou por Marrocos há séculos atrás a construir fortalezas - a autoria de uma certas gravuras pré-históricas encontradas numa gruta da região.

O vento álgido parece trazer humidade. Por um momento lembro-me das cascatas, da torrente do Dadés enjaulada entre os penhascos, dos cumes nevados do Atlas. Marrocos é o país do Magreb com melhores recursos hídricos, em virtude da elevada pluviosidade que se verifica nas montanhas. Tal como o Ziz, outros rios correm para o sul, alimentando oásis atrás de oásis, ajudando a transformar a seiva das palmeiras em escuras tâmaras. Tento adivinhar do outro lado da barreira das trevas a forma das dunas. Antes delas, as águas apressadas que se precipitam das montanhas vêm encontrar o silêncio e a quietude eterna. Os rios morrem no deserto, tal como a jornada do viajante.



GUIA DE VIAGENS


VIAGENS PARA MARROCOS

Marrocos é, obviamente, o país do Magreb mais acessível a quem viaja a partir da Península Ibérica. É possível organizar uma viagem em viatura própria, não necessariamente um todo-o-terreno, embora o acesso a certas regiões exiga ou aconselhe um veículo desse tipo. É o caso das pistas entre Rissani e Merzouga, apesar de esse percurso poder ser feito com um automóvel ligeiro, de preferência na companhia de um guia experimentado que conheça bem o terreno.


QUANDO VIAJAR PARA A REGIÃO DE MERZOUGA

As melhores épocas para visitar Marrocos são o Outono e a Primavera. Durante o Verão, sobretudo Julho e Agosto, as temperaturas são mais elevadas, sobretudo no sudeste. À excepção do Inverno, qualquer época é boa para os trekkings no Atlas.


INFORMAÇÕES ÚTEIS

Para os cidadãos da União Europeia não é necessário visto para Marrocos se a estadia for inferior a três meses.




LINKS ÚTEIS

» Turismo de Marrocos


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