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Viagem a Inhaca, Moçambique
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VIAGENS ÁFRICA » MOÇAMBIQUE » INHACA

Inhaca

A dois passos da capital moçambicana, o património natural da ilha da Inhaca é uma preciosidade. Sem potencial para o turismo de massas, Inhaca é, para os amantes do turismo de natureza e das caminhadas, um verdadeiro tesouro à espera de ser descoberto. Relato de uma viagem rumo à ilha da Inhaca, em Moçambique.

Por Humberto Lopes | 23.Dez.2009



ILHA DA INHACA, DANÇAS COM GOLFINHOS

Não tem o património arquitectónico e a importância histórica da Ilha de Moçambique, nem a notoriedade turística do Arquipélago de Bazaruto, nem aura de paraíso mais ou menos remoto como o que se colou à pele das ilhas Quirimbas. Mas a ilha da Inhaca é, com os seus 40 quilómetros quadrados, riquíssima em património natural e deixa a léguas de distância algumas das suas congéneres moçambicanas no que concerne às dimensões cultural e social.

Vista do pequeno porto da Inhaca, Moçambique
Vista do pequeno porto da Inhaca

O território constitui um importante espaço natural e, facto não menos assinalável, as comunidades residentes conservam algumas velhas tradições e estruturas culturais e sociais.

Apesar da pouca de distância relativamente a Maputo - cerca de trinta quilómetros, o que significa um par de horas de barco ou um voo de quinze minutos -, a Inhaca, pela sua condição insular, manteve-se afastada até certo ponto do “progresso” - ou, pelo menos, de um certo progresso, aquele que configura processos de urbanização e descaracterização social e cultural da vida das populações. Ainda que muitas práticas culturais se tenham desvanecido e tenha diminuído a importância de velhos rituais, os ilhéus conservam e replicam todos os anos um certo número de importantes cerimónias colectivas, como a kupatkha, um ritual de invocação dos antepassados, ou as cerimónias de propiciação da chuva, que se realizam em Setembro.

No plano económico, os habitantes da ilha conservam modos de vida ligados a actividades como a pesca e a agricultura. A introdução do turismo, em pequena escala, pouco alterou o quotidiano das populações. A pesca artesanal continua a ser, na verdade, a principal actividade dos descendentes dos primeiros Tsongas. A emigração para a África do Sul, para o trabalho nas minas, foi décadas a fio o destino de muitos habitantes e, também, fonte de receitas para as populações residentes.

A dimensão de santuário natural é uma das mais importantes da identidade da ilha, a par dos aspectos que testemunham a persistência de comunidades eminentemente rurais e piscatórias. Duas secções da ilha (Inguane e Inhaquene) estão classificadas, aliás, e juntamente com a sua vizinha Ilha dos Portugueses, como reservas naturais. No litoral sul há duas importantes reservas marinhas, a Reserva Marinha da Barreira Vermelha e a Reserva Marinha da Ponta Torres. São áreas ocupadas por recifes de coral, presentes na ilha com assinalável variedade, que estão sob controlo da Estação de Biologia Marítima de Inhaca, um organismo dependente da Universidade Eduardo Mondlane. A Estação, que acolhe um interessante museu nas suas instalações, está localizada no litoral oeste, aberta a uma das mais belas praias da ilha. O património natural tem também no acervo faunístico uma notável expressão, e nesse ponto as aves estão muito bem representadas por várias espécies: corvo-indiano, coruja, pássaro-martelo, maçarico-galego, a que se juntam colónias de flamingos que povoam as enseadas.

Viagens Inhaca
No interior da Inhaca há trilhos em todas as direcções

O turismo balnear é o que mais atrai os visitantes, mas o eco-turismo tem vindo a conquistar um lugar cada vez mais importante. A distância mais longa - no sentido norte-sul - não ultrapassa os doze quilómetros, e a existência de inúmeros trilhos, utilizados pelos habitantes, constitui um atractivo para percorrer a pé grande parte da ilha. Há, também, alguma oferta de percursos em todo-o-terreno até zonas mais inacessíveis, e a actividade de mergulho nos recifes de coral - os mais austrais do mundo e de expressiva importância a nível planetário - está a tornar-se cada vez mais popular entre os visitantes.

Do Portinho da Inhaca, o ponto de chegada dos viajantes, o olhar alcança a Ilha dos Portugueses, uma reserva integral onde é permitido, com certos condicionamentos, o turismo balnear - não há, consequentemente, qualquer tipo de estruturas de apoio. Os veraneantes saem de barco do Portinho, onde reside alguma da escassa oferta de alojamento da ilha, e rumam até às areias da Ilha dos Portugueses onde permanecem um par de horas ou, até, uma boa parte do dia. A travessia leva pouco mais do que cinco minutos e vale a pena este ritual diário para quem decidir folgar alguns dias na Inhaca. O que espera ali os viajantes são extensos e dourados areais vazios de gente, mas não de gratos imprevistos. Com alguma sorte, os mergulhos nas águas cálidas do Índico podem ser acompanhados de saltos (a bem pouca distância, por vezes) de golfinhos. A zona é habitat, durante todo o ano, de várias espécies como o golfinho pintado (Stenella attenuata), o golfinho corcunda do Indo-Pacífico (Sousa chinensis), o golfinho-roaz (Tursiops truncatus), o golfinho girador (Stenella longirostri) e o golfinho comum (Delphinus delphis). E se essas coreografias e danças fazem parte do quotidiano da reserva, estando de feição a fortuna (entre os meses de Junho e Agosto) avistará o viajante, ao largo, as duas espécies de grandes cetáceos que cruzam a as águas da Inhaca todos os anos no seu caminho migratório para o litoral de Inhambane. É aí que novas gerações das baleias corcunda e anã vêem a luz do dia, para irem depois, à semelhança dos seus progenitores e demais antepassados, ilustrar horizontes marinhos da Inhaca.



UM ENTREPOSTO DE MARFIM

Quando os colonizadores portugueses lá aportaram, construíram, como, de resto, todos os seus contemporâneos europeus, a ideia de que o continente africano não tinha História até à sua chegada, e essa convicção, combinada com as pseudo-científicas teorias da raça de Gobineau, tornou-se um dos esteios ideológicos mais sólidos da dominação colonial em África.

Uma das mais belas praias de Moçambique, a da Estação de Biologia Marítima da Inhaca
Caminhando por uma das mais belas praias de Moçambique, a da Estação de Biologia Marítima da Inhaca

Mas à Inhaca, como a outros territórios do continente africano, sobra História, com a devida e moderna maiúscula, e entre factos fundamentados pelo trabalho de arqueólogos e historiadores, e lendas que sedimentam crenças e explicações de vocação cosmológica, os seus habitantes contam com um passado rico, afirmando-se a substância histórica predominantemente através do legado cultural. Foram os Tsongas, um povo Bantu que povoava o litoral da actual baía de Maputo, os primeiros habitantes da ilha. Terão, possivelmente, entrado através da península de Machangulo, a sul. A dinastia Nhaca, que forneceu longos anos os régulos do território, deu nome à ilha, que é, ainda hoje, povoada e governada (simbolicamente) pelos seus descendentes, após um interregno de algumas décadas, quando o poder tradicional foi posto em causa pelo regime marxista pós-colonial.

Ainda que não haja registos de desembarque de marinheiros portugueses na ilha até 1545, é bem possível que tal tenha acontecido: Vasco da Gama, por exemplo, passou pela Baía de Maputo em 1498, na sua rota para a Índia. Ao certo sabe-se que, no mesmo ano em que Lourenço Marques fez o reconhecimento oficial da baía que viria a ter o seu nome, com o objectivo de sondar as possibilidades de desenvolver actividade comercial na região, os recém-chegados estabeleceram um posto comercial na vizinha Ilha dos Portugueses, pequena ínsula que na maré-baixa quase se liga à Inhaca. Esta fixação resultou de um acordo com os poderes locais da Inhaca e o povo tsonga constituiu-se durante muito tempo intermediário do comércio de marfim entre os Portugueses e os Zulus. A Inhaca acolheu ainda um posto comercial inglês no século XIX, na Ponta Torres, que se tornou também uma peça da estratégia de luta pelo controlo da Baía de Lourenço Marques, a Delagoa Bay dos Ingleses.

A hospitalidade dos habitantes da Inhaca foi referenciada mais do que uma vez em documentos de viajantes portugueses - ali eram, frequentemente, acolhidos e “bem tratados” os sobreviventes de naufrágios ocorridos em águas próximas. Tal poderá não ter impedido, todavia, que também o comércio de escravos acabasse por chegar à ilha. Mas, em boa verdade, este tráfico não se encontra bem documentado e subsistem dúvidas sobre os seus contornos.



ESTRELAS-DO-MAR E FLORESTAS SAGRADAS DE INHACA

O património natural da Inhaca está protegido em virtude da classificação de substanciais partes da ilha como reserva integral. Quase todo o litoral e certas áreas do interior beneficiam dessa protecção, enquanto alguns dos ecossistemas marinhos, constituídos também em reservas naturais, se encontram sob monitorização da Estação de Biologia Marítima.

Os ecossistemas marinhos abrangem áreas de mar aberto - habitat de variadas espécies piscícolas e de golfinhos e baleias -, recifes de coral, baías e enseadas e, ainda, zonas de entre marés. A Baía de Maputo ocupa a maior área (960 quilómetros quadrados) e as enseadas do Norte e do Sul são as de maior importância ecológica, a par das zonas entre marés. A Enseada do Sul, conhecida como o “Saco da Inhaca”, abriga a mais extensa zona de mangal da ilha e é pródiga em biodiversidade. Camarões, caranguejos, uma variedade imensa de microorganismos, moluscos e crustáceos habitam os fundos lodosos e as águas mais superficiais, por onde se passeiam várias espécies de aves, entre as quais flamingos.

Inhaca, Moçambique
A Ilha da Inhaca é uma reserva natural

Os recifes de coral, de importância mundial, designados pelo povo tsonga como tikontweni, representam quarenta e cinco géneros diferentes, e incluem corais negros, que são utilizados na medicina tradicional da ilha. Os dois principais recifes, classificados como reservas marinhas, são o Coral da Barreira Vermelha, o Coral da Ponta Torres. Há ainda um outro recife de igual importância, localizado ao largo, a cerca de cinco quilómetros do litoral este.

As zonas entre marés - que correspondem a áreas compreendidas entre o limite médio inferior e o limite médio superior das marés vivas - abrigam tapetes de ervas marinhas e algas que constituem alimento de vária bicharada, como tartarugas marinhas e dugongos, espécie que corre sério risco de extinção. É nessas áreas que encontramos também esplêndidas estrelas-do-mar, de vivas cores tropicais.

Com os pés em terra, podemos partir à descoberta de cinco habitats terrestres: florestas, vegetação de praia, mangais, pântanos e áreas de agricultura. A exploração destas áreas apresenta-se aos viajantes como uma excelente alternativa (ou um complemento) às estáticas actividades balneares.

Vale a pena, também, inventar passeios a pé pelo litoral (com a devida cautela por causa do regime de marés), repleto de extensas faixas de areia clara e de formações rochosas esculpidas pelo mar e pelo vento. Há que notar, uma vez mais, que neste capítulo a ilha tem áreas protegidas e de equilíbrio delicado, como a Reserva Terrestre de Inguane, onde as tartarugas marinhas fixam os seus ninhos e onde abundam florestas dunares.

Mangais e pântanos merecem também a atenção dos caminhantes. Os primeiros encontram-se um pouco por toda a ilha e acolhem razoável diversidade faunística e marinha, nomeadamente passarada quase sempre em animado bulício. Os segundos, que sofrem a competição da procura de terras para a agricultura, têm como vegetação maioritária o papiro e o caniço, este último utilizado como material de construção pelos habitantes. Nas áreas cultivadas, que reúnem uma imensa teia de machambas (hortas), vamos avistando plantações de mandioca, milho e mapira, rodeadas de paradigmáticas árvores de fruto como a mafurreira, a massaleira e canhoeiro, a que se juntam espécies oriundas do continente, como a mangueira, a papeira e o cajueiro.

As passeatas pelo interior têm, ainda, outros aliciantes, os das florestas. Convém, todavia, atender à condição de espaço sagrado de que se revestem algumas delas para os habitantes da ilha. Em muitas permanecem inumados os seus antepassados, continuando a ter lugar nelas importantes cerimónias, além de se encontrarem associadas a inúmeras lendas e superstições. As principais são as florestas Manganhela, Tholohotahomo, Kujama, Kumakotela e Kaxinavane, e o respeito que os forasteiros devem à cultura e identidade locais passa por um pedido de autorização formal para a travessia desses espaços sagrados do povo da Inhaca.


Viagens Inhaca
Mangais e extensões de areia fina caracterizam o litoral da Inhaca
Inhaca, Moçambique
Praia e dunas junto ao farol, a dois passos da Ponta Mazondue


GUIA DE VIAGENS


QUANDO VIAJAR PARA INHACA

Localizada numa zona de transição entre o clima tropical e o clima temperado quente, a Inhaca tem duas estações: a estação quente e húmida, que decorre entre Outubro e Abril, e a estação fria e seca, entre os meses de Maio e Setembro. A temperatura média anual ronda os 23 graus centígrados e o melhor período para viajar resulta de uma combinação das duas estações, entre os meses de Março/Abril e Julho.


COMO CHEGAR A INHACA

Pesquisa e reserva de voos na eDreams

A TAP tem voos regulares para Maputo com tarifas a partir de Lisboa que chegam facilmente aos 900 euros. A Ilha da Inhaca está situada a cerca de 30 quilómetros da capital moçambicana e é acessível por barco ou através de um breve voo em pequenas aeronaves (a tarifa de ida e volta ronda os 90 euros).

» Mais informações e reserva de voos



HOTÉIS EM INHACA

O Pestana Inhaca Lodge é uma das melhores opções hoteleiras em Inhaca, com as suas instalações (bungalows, piscina e restaurante) situadas junto ao Portinho da Inhaca. Os preços rondam os 250 euros por quarto duplo, com meia pensão incluída. Há outras ofertas de alojamento, dirigidas a backpackers e mais em conta, junto à praia do Portinho.


INFORMAÇÕES ÚTEIS

É indispensável visto de turismo para entrar em Moçambique, que pode ser obtido nos serviços da Embaixada de Moçambique em Lisboa ou no Consulado do Porto. Aconselha-se a profilaxia da malária, sobretudo na época das chuvas. Alguns operadores turísticos disponibilizam em Portugal programas para a Ilha da Inhaca e em Maputo há várias agências, como a SET (Av. 24 de Julho, 2096, 1º, Maputo) que disponibilizam serviços de reserva de alojamento e de transferes, e organizam programas especiais para Inhaca e para outros destinos moçambicanos.


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